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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/09/2020

23 de Setembro de 2020

Gestos e palavras na bênção Urbi et Orbi

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23 de Setembro de 2020

Gestos e palavras na bênção Urbi et Orbi

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17/04/2020 20:14
Por: Redação

Gestos e palavras na bênção Urbi et Orbi 0

Todos nós que assistimos na sexta-feira, 27 de março, à bênção Urbi et Orb ido Papa Francisco tivemos a sensação de experimentar interiormente dois sentimentos: desolação e consolação. O primeiro foi percebido por meio da contemplação dos cenários físicos, contrastando muitas vezes no modo de ser do Pontífice, mas perfeitamente compreensível pela força das atuais circunstâncias.

As cenas filmadas da Praça de São Pedro vazia não condizem com aquilo que ela sempre foi, ou seja, um espaço geográfico de encontro da diversidade de pessoas, línguas e crenças que fazem a experiência da unidade na pluralidade da Igreja. As colunatas de Bernini, que representam o desejo da Igreja de abraçar a todos, se sentem impedidas de realizar este gesto pela ausência das pessoas. A Basílica de São Pedro, que reúne diariamente centenas e milhares de pessoas sedentas de fé, arte e cultura, encontrava-se vazia e silenciosa, algo contrário ao desejo do Papa Francisco de vê-la aberta e cheia, para depois fazer o movimento de saída em direção às periferias do mundo e das pessoas.

Um crucifixo histórico e simbólico, colocado no lado de fora, parecia chorar de sofrimento nas gotas de chuva que naquele momento caíam em Roma, embora solidário com as dores e perdas de centenas e milhares de pessoas vítimas de uma guerra virológica. A imagem de um Pontífice triste, sofrido, abatido e solitário, parecia encarnar a passagem do Salmo 50, que implora um coração contrito e humilhado. A nuvem branca da fumaça do incenso, que pairava no altar e na porta da Basílica, clamava aos céus a purificação dos pecados e o desejo de viver o bom odor de Cristo. Um ostensório com o Santíssimo irradiava raios de luzes na esperança do desejo de uma nova Páscoa na Ressurreição de Cristo, após uma semana santa sofrida, vivida no recolhimento de nossos lares e no compartilhamento do mistério da cruz na vida das famílias e das vítimas da Covid -19.

Quanto ao sentimento de consolação, vamos encontrar nas palavras do Papa Francisco, inspiradas no trecho do Evangelho narrado por Marcos (Mc.4-35-41), no qual o Pontífice faz uma analogia com a realidade que estamos vivendo hoje em escala mundial. Algumas frases merecem ser lembradas tanto para o nosso crescimento interior como para questionar posturas e repensar valores.

Como os discípulos na barca agitada pela tempestade, a barca de nossas vidas foi também surpreendida por uma tempestade inesperada e avassaladora de uma guerra biológica. Tomamos consciência que estamos no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários. Alarmados e desesperados, esquecemos que na nossa barca existencial está Jesus Cristo que dorme confiado ao Pai que, ao ser acordado pelos nossos gritos de socorro dos discípulos, nos revela a nossa falta de fé. A experiência da tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças que construímos com nossos projetos, hábitos e prioridades.

Deixamos de absorver coisas fundamentais e não nos detivemos ao apelo de Deus, não despertamos face às guerras, às injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta enfermo. Pensávamos que continuaríamos vivendo saudáveis em nossa barca, num mundo doente, mas a agitação e o medo nos fazem, como os apóstolos, a chamar pelo Senhor para que nos ajude, aumente a nossa fé e nos faça mais solidários com os outros que estão na mesma barca.

Nestes tempos agitados, é preciso valorizar mais a oração e o serviço silencioso, pois estas são as nossas armas vencedoras. Não somos autossuficientes, e sozinhos afundamos. Precisamos ter a certeza da presença de Cristo na barca de nossas vidas, pois com Ele a bordo não há naufrágio. O Senhor nos interpela e, no meio da nossa tempestade, nos convida a despertar e ativar a solidariedade e a esperança. Jesus acorda para reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora, pois na sua cruz fomos salvos. Temos um leme, pois na sua cruz fomos resgatados. Temos uma esperança, pois na sua cruz fomos curados e abraçados. Neste isolamento em que vivemos, longe dos afetos das pessoas, temos que abraçar a cruz, pois nela brota a esperança da ressurreição e de dias melhores.

Na conclusão, o Papa termina pedindo a intercessão de Nossa Senhora pela saúde do seu povo, Ela que é a estrela do mar em tempestade. Pediu também que o Senhor abençoe o mundo, dando saúde aos corpos, confortando os corações, pedindo para não ter medo e que Ele não nos deixe à mercê da tempestade. É preciso recordar, nestes momentos, duas passagens bíblicas: a primeira, citada pelo Papa, tirada da primeira carta do apóstolo Pedro: “Confiamos a ti, Senhor, todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós” (1Pd.5,7). A segunda, nas palavras de Josué ao seu povo: “Não temais, nem acovardeis. Coragem, sedes valentes! Pois o Senhor tratará todos os seus inimigos (coronavírus) com os quais ireis lutar” (Js.10,25).

Que tenhamos todos uma Quaresma cheia de conversão, pois, assim, após a tempestade que estamos vivendo, possamos vislumbrar um tempo pascal mais cheio de esperança e fé.

Padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J.
Reitor da Pontifícia Universidade católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)


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