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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 04/07/2020

04 de Julho de 2020

As mulheres e o Ressuscitado

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As mulheres e o Ressuscitado

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17/04/2020 19:47
Por: Redação

As mulheres e o Ressuscitado 0

Uma das grandes questões que se colocam em nosso tempo é o lugar ou espaço da mulher na sociedade contemporânea. Parece-nos que os evangelhos são precursores neste tema, se considerarmos o espaço central ocupado exatamente por uma mulher, que a despeito de ser coadjuvante nas narrações e figurar como discípula e subordinada, sua importância é fundamental para a realização do mistério da salvação humana. Estamos a falar da Santíssima Mãe de Deus, a Virgem Maria. Contudo, outras tantas mulheres, inclusive pecadoras públicas, aparecem nos evangelhos com especial relevância, e mais ainda no contexto da ressurreição.

É bem verdade que “a Santíssima Virgem Maria está intimamente relacionada com a Igreja, em virtude da graça da divina maternidade e da missão pela qual está unida a seu Filho redentor. E ainda em virtude de suas singulares graças e prerrogativas. A Mãe de Deus é figura da Igreja, como já ensinava Santo Ambrósio, quer dizer, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo” ("Lumen Gentium", 63). Daí então a centralidade por ela ocupada não somente nos evangelhos, mas também na Tradição da Igreja. Entretanto, não apenas por estes motivos. Desde muito cedo a Santíssima Virgem Maria ocupou na Tradição um lugar eminente e singular como modelo de virgem e mãe. A sua fé e obediência fizeram dela mãe do próprio Filho de Deus Pai, sem conhecer homem, mas unicamente pelo poder do Espírito Santo, e mãe de todo o gênero humano na ordem da graça. Assim, como Eva, que não acreditou na Palavra de Deus, mas na palavra da serpente, é considerada nas Sagradas Escrituras a mãe de todos os viventes, Maria, com muito mais razão, por ter acolhido em seu próprio seio a Palavra eterna de Deus, tão cedo foi considerada pelos cristãos como mãe de todos os que renascem para a vida no seu Filho. Mas, além deste grandessíssimo mistério que se insere na ordem da graça, há que se considerar ainda a ordem da caridade, pois Maria também se mostra Mãe pelo zelo, cuidado e amor que tem para com todos os discípulos de seu amado Filho Jesus. O seu “sim” é fundamental e expressa tremenda caridade por Deus e pela Humanidade, que d'Ele dependia para que se realizasse o mistério da salvação em favor de todo o mundo.

Neste sentido, está evidente que não foi sem motivos que desde os primórdios do cristianismo surgiu a narrativa segundo a qual Maria teria sido a primeiríssima testemunha da Ressurreição de Jesus. Apesar dos evangelhos não nos falarem de uma aparição do Ressuscitado a Maria, esta mesma narrativa afirma que ela – em tudo privilegiada, inclusive na sua concepção sem a mancha do pecado original – que esteve de modo tão especial junto da cruz do Filho, também deve ter tido uma experiência privilegiada da Ressurreição, de modo que Jesus Ressuscitado teria aparecido primeiro e a sós à sua Mãe Santíssima. Primeiro a ela porque sempre esteve unida de modo especial a Jesus na sua vida terrena, por isso não seria diferente na vida gloriosa. E a sós porque esta aparição possui um sentido muito diferente daquelas feitas às mulheres e aos discípulos. A estes Jesus quis confortar e despertar a fé. Já Maria, a despeito do gládio de dor que transpassara seu coração no Gólgota, ela nunca hesitou em acreditar no seu Filho, que anunciara a ressurreição a seus discípulos antes mesmo de chegar a Jerusalém. Ela fora a única que manteve a fé e a esperança diante do escândalo da cruz. Ninguém sabe com precisão de detalhes como se deu este encontro do Ressuscitado com sua Mãe Santíssima. Mas, se Maria Madalena não foi capaz de reconhecer Jesus num primeiro momento, assim como ocorreu com os discípulos de Emaús, com Maria isto não deve ter ocorrido, pois a sua fé, mesmo em meio às dores do evento da cruz, deve ter-lhe nutrido tamanha expectativa de vê-lo glorioso, em plena vida e, por isso mesmo, já não mais na dimensão desta vida ainda permeada de maldades.

Após Maria, Mãe de Jesus, vêm as outras mulheres que viram e acreditaram, mas só acreditaram porque viram. É extremamente subversivo o fato dos evangelistas narrarem que Jesus Ressuscitado apareceu por primeiro a uma mulher, visto que o testemunho de uma mulher não tinha valor jurídico algum no judaísmo. Ora, a ressurreição é o núcleo e base de sustentação da nossa fé cristã. É o fundamento central de toda a pregação da Igreja. É a chave de leitura de todo o mistério da vida. Por que quis Jesus aparecer primeiro a uma mulher e não aos apóstolos, que serão depois chamados de testemunhas da ressurreição? Neste caso em específico, o testemunho de Maria de Magdála e da outra Maria (cfMt 28,1) tem maior valor, pois atesta a veracidade dos fatos. Se fosse a ressurreição uma fábula ou uma grande farsa, os evangelistas seriam mais “espertos” em colocar como primeiras testemunhas homens justos e reconhecidos por sua piedade e honestidade. Mas se eles relatam serem elas as primeiras testemunhas – Mateus fala em “Maria Madalena e a outra Maria” (MT 28,1), e João e Marcos apenas em Madalena (Jo 20,1; Mc 16,9) –, é porque o seu relato é de fato verídico e foi aceito pelas primeiras comunidades, o que denota uma mudança muito grande na consideração do valor e da importância da mulher a partir do cristianismo. De periféricas que eram, agora são colocadas pelas comunidades na centralidade dos fatos e da vida da Igreja. O primeiro testemunho da ressurreição nos veio por uma mulher, Maria Madalena. Foram Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé quem tiveram a iniciativa piedosa e corajosa de, ao cair da tarde de sábado, comprarem perfumes para embalsamar o corpo morto de Jesus. Apesar de não constar nos Atos dos Apóstolos expressamente a presença de mulheres na manhã de Pentecostes, a tradição iconográfica sempre colocou Maria na centralidade da cena como símbolo da Igreja. A Igreja de Cristo é figurada por uma mulher, ora pela mulher do Apocalipse de São João (Ap 12, 1), ora pela própria Virgem Santíssima. Os evangelistas nos narram que também mulheres piedosas discípulas do Senhor socorriam Ele e seus discípulos com os bens que possuíam (Lc 8,3). Sem dúvida alguma este socorro à Igreja permaneceu após a ressurreição e se estende até os nossos dias. Isto apenas para ressaltar alguns aspectos que estão no contexto da ressurreição. Pois não podemos nos esquecer da importância das mulheres ao longo dos quatro evangelhos: as mulheres acompanham Jesus ao longo de seu ministério público, estão na via crucis, aos pés da cruz, o diálogo mais longo do Senhor que o Novo Testamento nos traz é aquele com uma mulher samaritana; Jesus acolhe as mulheres pecadoras, elas são agraciadas por seus milagres e estão presentes em suas parábolas. Ao longo da história eclesiástica, elas foram reconhecidas como santas, doutoras da Igreja, mestras em espiritualidade, constituídas abadessas, reformadoras, fundadoras e líderes de comunidades. Enfim, é incalculável a importância do universo feminino para a Igreja no passado e na atualidade. E da mesma forma que o Senhor enviou Maria Madalena a anunciar e testemunhar aos outros discípulos a Sua ressurreição, Ele o faz novamente com todas aquelas que também o encontraram redivivo.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


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