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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

Seguir a maioria ou confiar nos dissonantes: a quem obedecer em tempos de crise?

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31 de Outubro de 2020

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01/04/2020 00:00 - Atualizado em 07/04/2020 18:51
Por: Padre Igor Antônio Calgaro

Seguir a maioria ou confiar nos dissonantes: a quem obedecer em tempos de crise? 0

Neste período de pandemia, em que muitos países tomam medidas drásticas para conter o avanço galopante da Covid-19, algumas vozes têm se levantado para questionar a validade das teorias científicas que afirmam a gravidade do vírus, bem como a eficácia das medidas de contenção adotadas por muitas autoridades mundo afora. Considerando toda a problemática da instrumentalização da pesquisa científica para fins ideológicos e políticos, a projeção midiática seletiva reservada a apenas alguns especialistas, além do inegável drama econômico e social gerado por esta pandemia, à medida que as semanas avançam e já nos queixamos de ficar em casa, perguntamo-nos: em quem devemos pôr nossa confiança neste período de tantas incertezas?

Diante de um fenômeno sem precedentes como o que estamos vivendo, a própria comunidade científica se divide. De um lado temos centros de pesquisa e revistas renomadas, como Johns Hopkins, Cambridge, Bocconi, "Nature", "The Lancet", "Jama Network", USP, Fiocruz entre muitos outros, que afirmam que a quarentena e o isolamento social mais radical são as medidas mais adequadas para impedir a rápida proliferação do vírus e, assim, preservar o maior número de vidas. De outro, "Science" e Universidade de Oxford, principalmente, mantêm-se céticas quanto à eficácia dos métodos impostos mundialmente, reconhecendo apenas parcialmente a sua relevância. Junto a estes temos o caso da Suécia que não adotou medidas sanitárias rígidas e apresentou resultados muito similares aos obtidos pela Dinamarca, que desde cedo optou pelas indicações preventivas mais duras. No Brasil, o Ministério da Saúde tem seguido as orientações da OMS, que se baseia nos centros de pesquisa citados acima, e já podemos dizer que, embora estatisticamente tenhamos um baixo índice de letalidade, o quadro geral da pandemia tem nos deixado bastante apreensivos, sobretudo com os impactos gerados em nossa economia. De fato, não é tarefa simples encontrar uma solução que, comprometida em preservar a saúde pública, reduza ao máximo os prejuízos econômicos gerados em cadeia pelas medidas de contenção adotadas. Conciliar saúde pública e economia nunca foi tão árduo e urgente, e, por isso, nossas autoridades necessitarão de muito bom senso e prudência para determinar o momento exato da retomada de nossas atividades com o mínimo de segurança, a fim de que a vida de todos, que para os cristãos é dom e compromisso, seja adequadamente tutelada.

O cristão vive pela fé e sabe o quanto este dom precioso deve ser harmonizado com a razão. Por isso, o momento atual exige de nós prudência na conduta pessoal e na gestão da sociedade, além de obediência às autoridades legitimamente constituídas, sobretudo, as sanitárias, de modo que esta racionalidade comprometida com a verdade e iluminada pela fé seja o nosso principal critério norteador para superar este tempo de crise, que é sempre oportunidade. Embora cada ser humano deva sempre obedecer ao juízo de sua consciência (Cat. 1790), sob pena de condenar-se a si mesmo, deve-se sempre ter em mente que a nossa consciência não nos garante isenção total de erro. Assim, embora o dever de seguir a própria consciência seja o critério primeiro e imediato que a pessoa deva observar no agir moral, é necessário que o juízo de consciência seja concorde à verdade, ou seja, que esteja objetivamente conforme ao que exige a realidade, uma vez que a autoridade da consciência é relativa e não exclusiva.

Como para o homem a vida social é indispensável à realização de sua vocação humana, esse precisa respeitar a justa hierarquia de valores, subordinando os materiais e instintivos aos espirituais e interiores, de modo que a convivência social, a intercomunicação de conhecimentos à luz da verdade, o exercício de direitos e o cumprimento de deveres, por exemplo, devem prevalecer animando e orientando toda a vida social. Conforme a natureza humana e, em última instância, proveniente do próprio Deus, a autoridade é indispensável na vida social, de modo que essa não estaria bem constituída nem seria fecunda com a ausência daquela, pois a autoridade é quem salvaguarda as instituições sociais, dedicando o necessário trabalho e esforço ao bem comum. Assim, todo e qualquer tipo de rebelião/revolta infundada e mal-intencionada contra as legítimas autoridades significa oposição à ordem social justa querida pelo próprio Deus. Por esta razão, o dever da obediência impõe a cada cidadão - sobretudo cristão - a obrigação de seguir as normas estabelecidas de acordo com o mérito específico de cada tipo de autoridade, sempre e quando suas determinações legais estejam de acordo com a reta razão e os meios empregados sejam moralmente lícitos. Se por um lado o exercício da autoridade deve manifestar a justa hierarquia de valores e facilitar o exercício da liberdade e da responsabilidade de cada cidadão, exercendo a justiça e considerando as necessidades e contribuições de cada um em vistas à concórdia e a paz, por outro, nós cidadãos para servirmos ao bem comum cumprindo o nosso papel na vida social devemos colaborar com os poderes civis em espírito de verdade, justiça, liberdade e solidariedade. Deste modo, a promoção e a tutela do bem comum dependem de um trabalho conjunto que considere primeiramente o respeito pela pessoa humana e a garantia de seus direitos fundamentais e inalienáveis - a vida é o primeiro deles. A partir da promoção e da tutela da vida, a preocupação será o trabalho em prol do bem-estar social e do progresso. Na atualidade, a principal colaboração à promoção do bem comum que nos é pedida é que fiquemos em casa para retardar ao máximo a proliferação inevitável de um vírus que tem dizimado tantas vidas, embora em comparação com outras epidemias sua taxa de letalidade seja, sim, muito baixa.

Assim, com muito bom senso e a devida isenção de paixões e partidarismos, devemos considerar os dados científicos que, embora não unânimes nem irrefutáveis, apontem na direção de medidas razoáveis e possíveis para a tutela do bem comum em questão – a saúde pública. Longe de considerar a opinião da maioria como critério para a definição da verdade, o que do ponto de vista moral seria inaceitável já que a verdade é anterior a qualquer deliberação humana, devemos considerar com atenção os dados fornecidos e as experiências vitais compartilhadas, à medida que pareçam ser razoavelmente adequados ao que se pode conhecer honestamente no presente momento. A partir daí, analisar acuradamente os fatos constatados, as inconsistências observadas e a experiência profissional relatada, com muita prudência e humildade, a fim de que se possa chegar a um núcleo comum de ideias e práticas que nos orientem na melhor direção possível, tendo-se sempre em conta todas as variáveis do problema e o respeito à experiência daqueles que nos determinam normas. Dada a complexidade da situação, a urgência do momento e a dimensão dos impactos é perfeitamente aceitável que uma ou mais teses/medidas consideradas até então como mais prováveis/adequadas passem a não vigorar a médio e longo prazos, dada a insuficiência de suas premissas/indicações e mesmo a inserção de outras variáveis à equação. No entanto, à luz do que se pode saber com o mínimo de certeza moral no presente momento, deve-se seguir o que a reta razão orienta, e coincide com o que as autoridades de saúde têm dito, tendo-se sempre em conta o bem comum e a ordem social justa que se tem o dever moral de ajudar a promover e manter.

Para os que veem a vida sob o olhar sobrenatural da fé permanece vigente, no entanto, a máxima bíblica que diz: “Eu confio na misericórdia do Senhor, agora e para sempre”. (cfr. Sl52(51),8).

Padre Igor Antônio Calgaro
Vigário paroquial da Paróquia Santa Teresinha, em Botafogo
'Pensando direito'
 

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