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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

As luzes da Igreja na escuridão do mundo e no caos

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31 de Outubro de 2020

As luzes da Igreja na escuridão do mundo e no caos

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27/03/2020 17:25
Por: Padre Augusto Bezerra

As luzes da Igreja na escuridão do mundo e no caos 0

Estamos vivendo um momento único da história da Humanidade. E para essa circunstância precisamos de soluções novas. É verdade que teremos que improvisar às vezes, mas devemos nos dedicar ao máximo para ter a acertada previdência a fim de evitar maiores danos humanos e materiais.

Não é um tempo para o medo e o pânico, mas de a Humanidade se redescobrir em suas potências, e fazer coisas que nem toda nossa técnica e recursos materiais, gerados pelo progresso, nos podem oferecer: a exemplo, a solidariedade, a esperança, a caridade, a inteligência, o senso de coletividade e a força para construir comunidade. Só o ser humano é capaz de se reinventar pela sua inteligência e pelos dons do seu espírito postos nele pelo próprio Criador.

Vivemos uma chamada do Criador nesse momento: "Sejam humanos, sejam minha imagem e semelhança" (Gn 1,27). Ora, Deus fez do nada, do caos, toda a ordem criada, como nos atesta a própria Escritura no livro de Gênesis. Portanto, como seres dotados dessa inteligência e liberdade, Deus preparou a nossa natureza para vencer e dominar o caos como princípio criador. E não por menos, colocou o homem como “administrador da sua criação” (Gn 2,19-20), embora nosso pecado a tenha afetado e impedido a nosso progresso à plenitude dos desígnios de Deus, contudo, agora possível em Cristo.

Por isso, penso que seja este um tempo de redescobrir os fundamentos da nossa Humanidade, e que não é o progresso vazio sem Deus, o dinheiro, os bens materiais, a tecnologia e toda estrutura social, cada vez mais cibernética, ainda que tudo isso nos seja muito útil como meios. A resposta está em Deus e no próprio homem, e essa crise pode revelar o pior ou o melhor dele.

Nessa circunstância atribulada, o homem se redescobre como criatura, conhece seus limites, toca o mais profundo de sua fraqueza e se vê na condição de confessar: ‘eu sou pó e ao pó voltarei’ (Gn 3,19). De outro lado, descobre a sua força: “quando eu sou fraco é que eu sou forte” (II Cor 12,10). Pois a sua fraqueza e limites o unem mais intimamente ao Deus Onipotente, o seu único abrigo e refúgio.

A missão da Igreja nestes tempos é de consolar, confortar na oração, na comunhão dos santos e nos sacramentos tanto quanto possível, e fazer os homens vislumbrarem as promessas de Deus. De outro lado, ela é chamada em meio à sociedade dos homens a ser cooperadora do bem comum como uma partícipe na administração do progresso humano, uma vez que produzi-lo, motivá-lo e conscientizar acerca dele também são desígnios divinos em sua missão.

Mediante a essa cooperação junto ao poder do Estado, muitos podem confundi-la com submissão às autoridades civis. E não é isso.
Ora, até para evitar conflitos entre poderes é muito importante a cooperação mútua e o diálogo. Deste modo se impede também o desencadeamento de consequências ainda piores mais tarde, prejudicando assim, seja o progresso humano movido pelas instituições humanas em uníssono, seja o bem das almas através da paz e liberdade da Igreja em pregar o Evangelho.

Ao falar de cooperação certamente não se diz de submissão, mas daquilo que inclusive o decreto Christus Dominus do Concílio Vaticano II fala no número 19 sobre tal cooperação dos bispos com os poderes civis, que nega qualquer submissão e convida à solidariedade entre os poderes:
"No exercício de seu ministério apostólico voltado para a saúde das almas, os bispos em si desfrutam de plena e perfeita liberdade, e independência de qualquer autoridade civil. Portanto, não é lícito impedir diretamente ou indiretamente o exercício de seu ministério eclesiástico, nem impedi-los de se comunicar livremente com a Santa Sé, com as outras autoridades eclesiásticas e com seus súditos. Os pastores sagrados, enquanto aguardam o bem espiritual de seu rebanho, indubitavelmente também favorecem seu progresso social e civil, e a prosperidade, harmonizando-se para esse fim - por meio de seu ofício e como convém aos bispos - sua atividade ao das autoridades públicas, inculcando fiel obediência às leis justas e respeito às autoridades legitimamente constituídas".

Para tanto, convém que os líderes religiosos se reúnam e participem da gestão da crise humanitária pelo próprio preceito eclesiástico e como requer o múnus de governo episcopal. Um exemplo claro disso é a nossa arquidiocese, que participa dos gabinetes de crise diretamente ou indiretamente e mantém um vivo diálogo amigo com os demais poderes.

Muitos se questionaram porque nesse trâmite de medidas a Igreja precisa interromper a afluência pública de fiéis e, de outro lado, as pessoas ainda podem sair para comprar alimentos e nutrir necessidades básicas. Ora, é simples, as necessidades fisiológicas, como a saúde, a fome e a sede, não se equiparam diretamente às necessidades espirituais. Até porque aquelas dizem respeito imediatamente à dignidade humana de todo e qualquer indivíduo, crente ou não crente. Ademais, a conservação do que é espiritual, apesar da mediação necessária da Igreja pelos sacramentos, pode ser compensada pela fé e pela "comunhão dos santos" (mediante o impedimento), como bem sabemos (até os que estão no purgatório gozam da eficácia e efeitos da mediação da Igreja, mas certamente não frequentam nossas missas fantasmagoricamente, graças a Deus). E, ainda, vide o Evangelho da Samaritana que nos reforça a nossa fé na "comunhão dos santos": "Acaso, onde se deve adorar a Deus?", pergunta ela a Jesus, que responde: "Chegará o tempo que nem aqui nem em Jerusalém adorareis o Pai, porque adorareis em Espírito e verdade" (cf. Jo 4,5-42).

E, ainda, sobre as necessidades básicas humanas, Cristo nos atesta a superioridade das obras de misericórdia em relação às espirituais ou ações religiosas preceituais: "Estive com fome e me destes de comer, estive com sede e me destes de beber, estive nu e me vestistes, estive enfermo e prisioneiro e me visitastes" (Mt 25, 35-26).

No processo de cooperação, muitos podem querer se justificar no fato de muitos não seguirem as ordens civis de recolhimento e quarentena por motivos que são injustificáveis. Porém, o fato de pessoas descumprirem e não cooperarem com as autoridades civis pelo bem comum não nos autoriza danar a saúde pública com ações imprudentes e, portanto, devemos resguardar não só os fiéis, mas o "progresso social e civil e a prosperidade", como atesta o documento supracitado, também sabendo que tais ações restritivas são temporâneas.

Tais ações restritivas não significam uma perseguição à Igreja de modo nenhum, pois a liberdade religiosa e o direito de culto da Igreja não foram proibidos. As missas não foram proibidas, e sim, a afluência pública de fiéis por razões óbvias e que não precisamos elencar. Para enfatizar, propriamente dito, as missas não foram canceladas. Os padres podem continuar celebrando, bem como viver todas as realidades sacramentais, pela santificação do Povo de Deus.

É bem verdade que se não soubermos gerir a situação, poderemos dar motivos para uma perseguição para quem já espera a oportunidade de fazê-lo.
Se compreende o tempo difícil que todos passam. Mas se não fizermos nossa parte, nos ressentiremos mais tarde, e talvez tarde demais para voltar atrás.

Unidos no nome do Senhor venceremos. Mantenhamos vivas nossa fé e esperança.

Padre Augusto Bezerra
Mestrando em comunicação pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma


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