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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/04/2020

05 de Abril de 2020

Conservar minha vida ou ajudar os outros? O que fazer em tempos de coronavírus?

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05 de Abril de 2020

Conservar minha vida ou ajudar os outros? O que fazer em tempos de coronavírus?

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16/03/2020 12:04 - Atualizado em 16/03/2020 18:35
Por: Pe. Igor Colgaro

Conservar minha vida ou ajudar os outros? O que fazer em tempos de coronavírus? 0

Conservar minha vida ou ajudar os outros? O que fazer em tempos de coronavírus?

Padre Igor Calgaro

No atual momento a humanidade tem se enfrentado a um de seus maiores desafios. A saúde pública tem sido afetada pela rápida propagação desta nova espécie de vírus que apresenta sintomas muito parecidos os de uma gripe comum, com alto índice de contaminação e já com um número considerável de óbitos. A economia mundial tem sido comprometida ao longo das últimas semanas, os indicadores do mercado tem mostrado um péssimo cenário que só dará margem à recuperação em aproximadamente um ano; pela quarta vez essa semana assistimos ao “circuit break” nas bolsas de valores. Em meio a este cenário catastrófico o governo brasileiro tem tentado tomar todas as medidas possíveis para conter a economia, antecipando 13º salário do INSS, reduzindo o teto de juros do crédito consignado e ampliando a margem consignável em favor dos beneficiários, além da liberação de R$ 75 bilhões de bancos públicos para aplicação no crédito agrícola, capital de giro e crédito consignado. Todo este cenário global nos leva a refletir o quanto a vida do homem é passageira, um sopro sobre a Terra (cfr. Sl 144,4), e esta oportunidade de dar-nos conta disso parece vir num tempo propício, favorável à conversão como o da Quaresma. Tudo isso nos obriga a fazer experiência de uma de nossas tendências mais naturais e primitivas: a da conservação da própria vida, tal como Cristo em sua plena Humanidade sentiu-se impelido a fazer (cfr. Lc 22,42). Mas, em que medida seguir esta inclinação natural constitui de fato uma opção moralmente válida, uma vez que so mos chamados à caridade, que é paciente, benigna, que não tem inveja, não é orgulhosa nem arrogante… (cfr. 1Cor 13,4-8). Em tempos onde álcool em gel, máscaras, água e papel higiênico parecem ter se tornado nossas maiores prioridades, aproveitemos os 15 dias iniciais de “recesso” para pensar algumas coisas importantes!

Uma análise antropológica, a partir da perspectiva filosófica realista e personalista, é capaz de mostrar que a pessoa humana experimenta de modo natural que tende a inclinar-se à busca de determinados bens que considera convenientes para a sua perfeição: a verdade, a vida em sociedade, a união sexual, a educação dos filhos, a conservação e o desenvolvimento da própria vida. Tais inclinações ou tendências naturais da pessoa a seus bens próprios manifestam-se em forma de desejos sensíveis e aspirações da vontade. Todos os seres naturais estão inclinados ao que lhes convêm, pois há neles um certo princípio de inclinação que faz com que isso lhes seja natural. Todas essas inclinações à autorrealização são chamadas também de tendências, podendo ser sensíveis ou intelectuais, segundo o seu modo próprio de realização, a saber: o conhecimento sensível, e, a razão e a vontade, respectivamente. Tais desejos sensíveis e aspirações da vontade, que nos animais não existem, têm um papel fundamental na análise da moralidade dos atos humanos. A fim de se aperfeiçoar com estes bens/aspirações a pessoa humana precisará buscá-los não de qualquer modo, mas racionalmente (virtuosamente). Em outras palavras, é preciso que a razão e a vontade intervenham no agir humano para assumir os movimentos das tendências integrando-os no bem da pessoa. Esta integração se dá pela inteligência, uma vez que é ela quem determina o modo razoável (justo) de buscar e de realizar os bens das inclinações (tendências) naturais visando o bem da pessoa. Assim, a grosso modo, podemos dizer que o critério que deve orientar a busca e a realização dos fins das inclinações naturais para que realmente contribuam ao bem da pessoa, são os fins virtuosos (a justiça, a fortaleza e a temperança). Estes fins são conhecidos pelo homem de modo natural através da sindérese, hábito inato, que sinaliza, ordena e regula as inclinações naturais a fim de que estas busquem seus fins de modo justo, corajoso e moderado.

Como orientações ao bem, as tendências dão origem às paixões (sentimentos), que são os movimentos do apetite sensível em direção a um bem conhecido e apreciado pelos sentidos como conveniente, gerando atração, ou inconveniente, gerando repulsa. Em outras palavras, as paixões são impulsos da sensibilidade que inclinam o homem a agir corretamente ou não em razão do que é sentido ou imaginado por ele como bom ou mal. Exs.: o amor, o ódio, o prazer, a tristeza, a dor, a fuga, a aversão, a esperança, o desespero, o medo e a raiva, são exemplos de paixões humanas. Ao contrário do que parece, as inclinações naturais (tendências, paixões) ao invés de serem obstáculos à liberdade humana, são a sua condição. Entendendo a liberdade de modo mais amplo, como o poder de agir bem quando se quer, vemos que não existe de fato oposição alguma entre a nossa liberdade e a nossa natureza, uma vez que a própria natureza humana está ordenada à liberdade. Deste modo, as inclinações naturais aos bens da pessoa significam que a liberdade se sente impulsionada pelo amor a esses bens e não limitada nem determinada pelas inclinações.

Por sua própria natureza a pessoa é um ser social e está constitutivamente aberta aos outros, não podendo encontrar sua realização só em si mesma; necessita ser “com” e “para” os demais. Isso significa que a sua perfeição não está na busca egoísta do próprio proveito e bem estar, de modo que o seu bem está intimamente ligado ao esforço pelo alcance do bem do semelhante, consequência necessária de integrar a família humana. Nela o destino de todos e o de cada um, segundo o desígnio do Criador, está vinculado. O Criador ao revelar-se em Seu Filho Jesus Cristo nos mostrou ainda que Seu plano de amor consiste em que as obras realizadas por cada pessoa humana contribua, através da realidade da comunhão dos santos, à salvação de todos. Nesta comunhão entre todos os que se fizeram filhos de Deus pelo batismo, nenhum de nós vive para si mesmo nem morre para si mesmo (cfr. Rm 14,7), de modo que se um membro sofre todos os demais sofrem (cfr. 1Cor 12,26s). Assim, o menor dos atos feito com caridade repercute em benefício para todos, nesta dinâmica histórica e sobrenatural de solidariedade entre vivos e mortos (visão filosófica completada pelo teológica).

A pessoa humana está chamada a viver a responsabilidade pelo bem dos demais de formas muito variadas e a primeira delas é a que deriva da dimensão social do seu agir, uma vez que qualquer atividade realizada pelo homem o transcende fazendo bem ou mal não só a si próprio, mas também aos outros e ao mundo criado. Assim, o homem contribui de maneira positiva ou negativa à realização da sociedade, na qual entram em íntima relação o bem da pessoa (particular) e o bem comum (social); tais bens reclamam-se mutuamente. O bem comum é definitivamente o resultado da plenitude humana de todos e de cada um dos membros da sociedade. Este só é um bem se serve, na medida do que realiza, ao atingimento dos fins últimos da pessoa, e, por esta razão, não cabe pleiteá-lo como um bem acima do bem pessoal, a menos que se considerem as inúmeras dimensões nas quais se está considerando um e outro bem (princípio da supremacia do interesse público sobre o privado). De modo objetivo a prioridade de um sobre o outro não é possível, pois se a lei da natureza é uma para todos, sendo ela mesma quem impede a confrontação entre estes bens, devemos entender que um só é o bem de todos e, portanto, estamos todos obrigados pela lei natural a olhar as necessidades dos demais, uma vez que a observância do bem comum (da ordem social justa) é um caminho para conseguir o bem particular de cada sujeito. Outra coisa é a limitação, em determinadas circunstâncias, dos direitos particulares dos indivíduos frente às exigências do bem comum. Exs.: não poder comprar mais que x volumes de álcool em gel ou garrafas de água, não poder circular livremente nas ruas a não ser por razões de estrita necessidade como para fins de mantenimento; ser obrigado a observar o regime de quarentena e etc. Estas e outras medidas que estão sendo tomadas mundo afora e já em nosso país, por aqueles que foram legitimamente constituídos em autoridade e, portanto, têm o dever de promover o bem comum, servem como medidas profiláticas no intuito de conter uma epidemia que já atingiu proporções jamais vistas. Por isso, colabore! As instruções que se elencam abaixo, feitas por Ruth Manus colunista do Estadão, são no fundo um apelo ao bom senso e ao sentido comunitário de nossa vida, tão ressaltado no Evangelho. Assim:

• Aceite que vai ser uma fase difícil. Ninguém gosta de mudar os planos, de ficar fechado em casa, de cancelar viagens, de perder dias de sol na praia. Tem que ser uma fase de sacrifícios de todos em nome do bem coletivo. Nem sempre a vida é como a gente queria que fosse;
• Entenda que suas atitudes refletem na vida dos outros. No Direito, há um princípio chamado “supremacia do interesse público sobre o privado”. Nesse momento, o coletivo importa mais do que o individual. Suas vontades têm que estar em segundo plano. Se você ficar doente, você representará um custo ao Estado, você ocupará um leito de hospital, você poderá contaminar outras pessoas. Não se trata de “ah, se eu pegar a doença tudo bem, sou saudável, não devo morrer”. A coisa vai muito além de você;

• Não seja egoísta. Não esvazie prateleiras de supermercado. Não ache que a sua família importa mais do que as outras. Pense que há mais crianças, mais idosos, mais pessoas doentes. Pare de olhar apenas para o seu próprio umbigo. Todos temos bom senso, mas nem todos fazem uso dele;

• Não seja um fanfarrão. Se suas aulas ou trabalho foram suspensos, não encare isso como férias. Não lote praias, transportes, shopping centers, igrejas, festas. Entenda que quando você se coloca em risco, você coloca todo mundo em risco;

• Pense nos médicos, nos enfermeiros, nos profissionais da área da saúde. Você não acha que eles preferiam estar em casa, em vez de se sujeitarem aos riscos de contaminação? Antes de decidir ir ao estádio, às discotecas, às igrejas ou a qualquer local de risco desnecessário, lembre-se deles. Pense que há pessoas colocando a vida em risco em nome do nosso bem-estar. E se você não for capaz de relativizar suas vontades mesmo assim, saiba que você é um raio de um egoísta;

• Dê suporte aos outros. Ligue aos seus amigos. Pergunte se sua vizinha idosa precisa de algo. Sugira alterações nas rotinas dos seus pais e avós. Obedeça às diretrizes. Lave as mãos direito e com frequência. Cubra a boca para tossir. Evite aglomerações. Faça alguns sacrifícios. Demonstre seu afeto com a sua generosidade e não com seus beijos e abraços. Respeite o outro;

A Lei Natural e as Virtudes
Como já mencionamos aqui em artigos anteriores, a lei natural é o modo como Deus dispôs todas as coisas para que o homem, participando da sua bondade e sabedoria, tenha o domínio de seus atos e a capacidade de governar-se em vistas à verdade e ao bem. Esta corresponde de tal maneira à estrutura da liberdade humana que, sem obrigar o homem a agir conduz-lhe a dar-se conta de que segui-la é uma necessidade da sua natureza, do seu ser de pessoa. Participando da sabedoria e da bondade divinas graças à sua inteligência, o homem sabe qual é o bem moral que deve perseguir como fim de sua vida, fazendo experiência do "que", e, de "como" deve fazê-lo. Além disso, pode conhecer também quais são os meios justos que deve utilizar para alcançar o fim que se propôs, e, graças à sua vontade, atraída pelo bem e auxiliada pela afetividade, quer este fim, seus meios e, de fato, o realiza. Deste modo, pode conhecer e realizar por si mesmo o bem que lhe é próprio, o que lhe aperfeiçoa como pessoa e, em última análise, dirigir-se à glória de Deus (fim sobrenatural de todo ser humano, plenitude da felicidade buscada). Os preceitos da lei natural, universais e imutáveis, podem ser resumidos em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo à medida que isso exprima o amor que se deve a Deus (como a si mesmo). Dentre esses, os mais evidentes são aos deveres de busca da verdade e de realização do bem conhecido, pois a razão percebe de maneira espontânea determinadas verdades morais e assim o homem as deseja com a sua vontade. A razão conhece a verdade e o bem, graças aos dois hábitos intelectuais humanos mais elementais e inatos: o entendimento (intelecto/razão teórica) e a sindérese (razão prática). Por meio do entendimento a razão em sua função especulativa (teórica) conhece as verdades teóricas mais básicas; já por meio da sindérese conhece os princípios morais mais evidentes, primeiras verdades sobre o bem, uma vez que ela é o início e a guia natural de toda a vida moral da pessoa. Ex.: busque o bem e evite o mal! A partir destes princípios morais mais elementais temos todos os demais enumerados no Decálogo bíblico (10 mandamentos - cfr. Ex 20; Lv 19,18): não usar o nome divino em vão, guardar os dias festivos de preceito, honrar pai e mãe, não matar, não cometer adultério, não furtar, não levantar falso testemunho, não desejar a mulher/homem do próximo(a), não cobiçar as coisas alheias, além, de todos os que daqui se derivam.

Por ser histórica a pessoa é uma realidade inacabada. Do exercício de sua liberdade depende que chegue à plenitude à que está chamada por vocação. Como a liberdade implica a possibilidade de escolha entre o bem e o mal, pelo menos até encontrar-se definitivamente com seu bem último que é Deus, esta precisa ser educada para ser exercida adequadamente, ou seja, para que a pessoa tenha a capacidade de dispor de si mesma orientando-se de modo natural ao bem, a fim de crescer em perfeição e em santidade. A liberdade é o sinal eminente da imagem divina na pessoa humana, que é livre graças à sua espiritualidade (é pessoa porque é um ser corpóreo e espiritual, capaz de conhecer a Deus e amá-Lo).

A primeira ameaça à liberdade humana é a autossuficiência, o amor desordenado de si mesmo. Ainda que a pessoa esteja constitutivamente orientada ao bem, o pecado das origens introduziu uma desordem no interior do coração humano que torna mais difícil a vivência desta orientação. Desprezada a orientação à comunhão com Deus e com o semelhante inscrita na natureza humana, o amor a si mesmo não é vivido na verdade convertendo-se em egoísmo e solidão. E quando a pessoa se faz escrava de suas paixões, não goza já da liberdade necessária para responder com seus atos ao bem e à verdade, não dispondo assim de si mesma. Por esta razão é necessário ordenar os diferentes dinamismos do agir humano e recompor o interior da pessoa, a fim de que possa dirigir-se por si mesma ao bem que deve realizar, tarefa que não se dará sem muito esforço e disciplina na reeducação de sua liberdade ao longo de toda a vida. Para agir corretamente é necessário formar a própria consciência conhecendo a fundo os princípios morais, não apenas o sentido moral derivado da razão natural (sindérese), e, em seguida dispor a vontade de modo habitual ao bem (virtudes), tarefas estas que não se conseguem de uma vez por todas, mas de modo crescente ao longo do caminho. Neste cenário, além dos condicionamentos internos (ignorância, inadvertência, afetos desordenados e outros fatores psíquicos) existem as ameaças externas cuja superação depende sempre do auxílio da graça divina, dando-se somente mediante muito empenho pessoal para que se possa resistir às pressões de ordem econômica, social, política e cultural. Assim, o autodomínio se consegue na luta por adquirir as virtudes, disposições habituais e firmes que levam a pessoa a fazer o bem que deve querendo fazê-lo, através do ordenamento de suas paixões e da guia da conduta segundo a razão e a fé. Sendo as virtudes adquiridas a partir da eleição e realização livres e constantes das boas ações, é fundamental que o contexto da vida da pessoa seja adequado e educativo, devendo prevalecer nele o entendimento de que a vida moral é um progresso, um caminho em direção à meta da excelência humana (eudaimonia = felicidade; entelecheia = perfeição).

A relação da justiça e do amor
Segundo García de Haro, a justiça quando sustentada pela humildade e pelo amor de amizade a Deus e ao próximo inclina o homem a dar a cada um o que é seu. Partindo daqui podemos ver que a justiça supõe o amor de amizade (philia) e, portanto, não é propriamente justiça aquela virtude que não leva em conta o amor, ou que, por outro lado, considera amor como virtude provinda de fora para aperfeiçoar a justiça. Se olharmos a virtude da justiça a partir de sua matéria ou ação exterior veremos que o seu objeto é "o que é justo", "a coisa justa em si mesma" (direito), independentemente da atitude subjetiva daquele que dá. No entanto, como a virtude não se define apenas pelo seu ato externo, mas também a partir de seu aspecto interno, vemos que não se consegue viver a justiça se a pessoa não possui dentro de si uma ordem interior que a direcione ao seu semelhante (o amor), de modo que a única atitude justa com relação à pessoa do outro é amá-la de tal maneira que se queira para ela o bem. Este é o amor de amizade, amor que entranha benevolência e afeto.

O primeiro objetivo da justiça é ordenar o homem no que se refere ao que é do outro, portanto, a justiça ordena as ações humanas exteriores e também aquele que as realiza, tendo como primeiro efeito a ordenação da vontade humana pela reta razão – dimensão imanente da justiça. Onde quer que se realize a justiça em seu pleno sentido, a ação externa será expressão de uma afirmação interna pela qual o outro é reconhecido e confirmado naquilo que se lhe deve, ou seja, como pessoa. E a pessoa só é reconhecida e confirmada como pessoa quando é amada. Muito próprio da Idade Moderna é o reducionismo aplicado à justiça que pretende vê-la como mero cumprimento externo do que é devido ao outro, independentemente da intenção com a qual se realiza o ato, ou seja, sem importar se a ação justa é movida pelo amor ao bem do outro ou por interesses egoístas – legalismo ético, moral de obrigações e utilitarismo. A partir da ética das virtudes veremos a justiça como intrinsecamente unida ao amor que se deve ao próximo, baseando-se portanto no amor natural de amizade que conduz os homens a ajudarem-se e a assistirem-se mutuamente. Sustentado neste amor o homem justo dá aos demais o que lhes corresponde segundo a ordem estabelecida por Deus e, assim, não se cria distância entre o amor ao próximo e a vontade de justiça, que quando são artificialmente contrapostos se desnaturalizam. Quando o homem é justo se alegra em dar ao outro o bem que lhe é devido como se fosse um bem próprio, resultando-lhe atrativa a busca do bem alheio. Portanto, pode-se dizer que em sentido mais profundo a justiça é a virtude que faz com que se ame ao próximo querendo para ele o bem devido – primeiro nível de realização do amor de amizade.

Como cada pessoa tem direitos exatamente porque recebeu do próprio Criador como dom, por Amor, tudo o que é necessário para chegar à sua perfeição enquanto pessoa, a justiça entre os homens só pode ter como fundamento último o amor de Deus e, por isso, todo ato de justiça entre os homens deve estar fundado no amor ao próximo. Assim, este amor ao próximo, amor de amizade, é o fundamento, a origem e a finalidade da justiça, sendo ele quem faz da justiça uma virtude. Por outro lado, o amor também necessita da justiça para poder atuar de modo justo e eficaz, uma vez que necessita ser dirigido pela razão que lhe mostra a verdade sobre o bem. Deste modo, o amor não é o único critério para saber se uma ação é boa, mas é preciso que esta corresponda à verdade do bem da pessoa, de tal modo que a pessoa só é verdadeiramente amada quando se buscam para ela os bens convenientes ao seu aperfeiçoamento humano.

O agir da graça sobrenatural no cristão
O cristão elevado à ordem sobrenatural da graça é transformado a partir de dentro até ao ponto de que sendo ele mesmo passa a ser uma nova criatura. Em consequência disso, a luz da razão iluminada pela fé e movida pela caridade é capaz de discernir as exigências que comporta viver a plenitude do bem moral, próprio da dignidade humana e do que corresponde a sua nova condição de filho de Deus. Assim, a graça que converte o homem em filho de Deus faz com que suas faculdades (inteligência e vontade), sem deixar de ser humanas, sejam capazes de realizar ações sobrenaturais, tais como a de conhecer a verdade e amar o bem mediante uma participação no conhecimento e no amor divinos. Assim, o homem é capaz de conhecer a Deus e amá-Lo. Deste modo, se atuar como filho de Deus comporta participar do conhecimento e do amor divinos é evidente a importância da caridade na consciência humana, que leva cada homem a amar o bem como Deus o ama. Na pessoa cristã, animada pela caridade, a inclinação da vontade ao bem é transformada de maneira sobrenatural por uma certa conformação com o próprio Deus, e, assim, o homem se move com força renovada ao amor do bem moral. A caridade, em síntese, deve ser entendida como: Deus nos ama e nos dá o amor com que podemos livremente amá-Lo sobre todas as coisas, por Ele mesmo, e, ao nosso próximo como a nós mesmos por amor Dele.

Em resumo, caro leitor deve-se dizer que a busca pela conservação da própria vida em situações extremas como as que vivemos, será válida sempre e quando tiver como fim a justiça plena que está imbuída da caridade. Assim, mesmo em tempos difíceis como os que estamos passando não devemos nos encerrar em nós mesmos, ignorando e negligenciando o cuidado devido para com aqueles que estão ao nosso alcance (cfr. Lc 10). Deste modo estaremos cumprindo de modo mais perfeito a justiça divina, que não se baseia apenas na entrega do estritamente devido a quem lhe pertence, mas acima de tudo no dom de nós mesmos por amor. Isto posto, termino citando as orientações de nossa Conferência Episcopal brasileira que, solícita a este nosso momento particular, escreve a todos os cristãos exortando-os à obediência às autoridades civis e à esperança que nos dá a fé.

• Recomendamos atenção e consideração irrestrita dos especialistas de saúde e autoridades competentes. Os cuidados com higienização pessoal e do ambiente, bem como o evitar aglomerações são regras que precisam ser seguidas por todos, com irrestrita atenção e cuidados, a partir da própria consciência, regida pelo bom senso e pela fraternidade;

• Não temamos manifestar a solidariedade e a esperança. Superemos a indiferença. Façamos isso, porém, de modo prudente e em consonância com as orientações sanitárias. São muitos os recursos tecnológicos ao nosso dispor atualmente. Eles podem ajudar a suprir a distância física nesse período de cautela;

• Por fim, fazendo cada um a sua parte nessa grande empreitada, que é de todos, não deixemos de rezar pelo mundo inteiro, em especial pelas vítimas e pelos profissionais que incansavelmente trabalham por uma solução. Sejamos disciplinados, obedeçamos às orientações e decisões para nosso bem, e não nos falte o discernimento sábio para cancelamentos e orientações que preservem a vida como compromisso com nosso dom mais precioso;

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