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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/04/2020

06 de Abril de 2020

A única riqueza do monsenhor Vital

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A única riqueza do monsenhor Vital

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15/02/2020 00:00
Por: Carlos Moioli

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A única riqueza do monsenhor Vital

Decano do presbitério da Arquidiocese do Rio, monsenhor Vital Francisco Brandão Cavalcanti fez sua páscoa definitiva em 7 de fevereiro, no início da noite da primeira sexta-feira do mês, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, aos 95 anos de idade e 72 anos de sacerdócio. 

Nos últimos dois anos, esteve internado numa clínica, na Barra da Tijuca, por problemas de saúde, devido à idade avançada, e à dificuldade de caminhar. No período de imolação, recebeu cuidados de pessoas dedicadas e foi acompanhado pelo clero, com visitas e orações.

“Agradecemos a Deus pela vida, vocação e sacerdócio de monsenhor Vital. Após o seu calvário, ele voltou para os braços do Pai, na certeza que a vida continua após a morte. Com os olhos abertos para a eternidade, contempla, agora, a visão beatífica daqu’Ele que em vida ele amou, serviu e anunciou”, disse o arcebispo do Rio, Cardeal Orani João Tempesta, durante a missa de exéquias, realizada na tarde do dia 8 de fevereiro, na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Glória, onde monsenhor Vital foi pároco por 23 anos.

Na celebração que contou com a presença de diversos sacerdotes, amigos e ex-paroquianos, Dom Orani recordou a história que Deus fez com a pessoa de monsenhor Vital, e que a sua vida está entrelaçada com a caminhada da Arquidiocese do Rio.

“Monsenhor Vital faz parte da história da nossa arquidiocese. Ele entrou no seminário menor aos 10 anos, sob os cuidados de monsenhor Virgílio Lapenda. Após a ordenação, procurou servir ao Senhor nas diversas necessidades da arquidiocese, passando pelo governo de cinco cardeais arcebispos. Na simplicidade e entrega de cada dia, a serviço da Igreja e do povo de Deus, exerceu seu ministério no âmbito vocacional, pastoral, jurídico, burocrático e de comunicação, sempre com humildade, conforme sua possibilidade e capacidade. Nos últimos tempos, quando não pôde mais, serviu na cruz, no silêncio orante, na entrega e oferecimento da própria vida pelo bem da Igreja”, disse o arcebispo.

Dom Orani destacou que monsenhor Vital procurou seguir Jesus Cristo no dia a dia de sua vida, e permaneceu firme diante de situações de crises na arquidiocese, na Igreja e no mundo.

“Ele é um exemplo para todos nós de quem procura servir o povo de Deus, a Igreja, com a preocupação de que Cristo seja anunciado cada vez mais. Peçamos que no céu ele nos ajude a sermos também perseverantes na fé e na missão até o fim”, disse.
Intercessor no céu

A homilia de Dom Orani foi dividida com o padre Nixon Bezerra de Brito, atual pároco da Paróquia Senhor Bom Jesus do Monte, em Paquetá, que trabalhou com monsenhor Vital desde os tempos de seminarista, e por muitos anos, na condução do programa “Expresso da saudade”, na Rádio Catedral.

“Em 1992, ainda como seminarista, comecei a fazer estágio na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Glória. Foi quando conheci monsenhor Vital, o ‘pernamburoca’, mais carioca que pernambucano, embora conservasse e valorizasse suas origens nordestinas, pelo jeito simples e tão único de ser. Mais que um padre, foi um pai e diretor espiritual, que ensinava sem falar muito. Só pelo olhar, quem o conhecia sabia se ele estava feliz ou triste”, contou.

Padre Nixon disse que monsenhor Vital tinha uma característica marcante que encantava e que nunca perdeu: era o seu sorriso de criança. “A explicação para esse sorriso, talvez, está relacionada a sua mãe que partiu muito cedo para a eternidade, e a Igreja foi, ao mesmo tempo, sua mãe e seu pai. Muito cedo entrou no seminário menor, aos 10 anos, e por toda a sua vida nunca ouviu uma palavra de arrependimento ou de reclamação”, salientou.

“Monsenhor Vital foi tudo nesta arquidiocese”, destacou padre Nixon, lembrando que ele chegou até a administrá-la quando chanceler, numa ocasião em que Dom Jaime de Barros Câmara e seus bispos auxiliares foram para o Vaticano em visita Ad limina.

“Apesar de seus cargos, sempre conduzidos com sabedoria, nunca perdeu a simplicidade. Foi pastor caridoso, acessível e disponível a todos, nunca deixando de atender aos paroquianos. Tudo o que tinha era dos outros, por isso, era rico da graça de Deus”, recordou padre Nixon.

Nos últimos tempos, quando ia visitá-lo, padre Nixon contou que monsenhor Vital pedia para que lesse o breviário a fim de que pudesse acompanhar.
“Ele tinha uma espiritualidade muito profunda e colocava-se diante de Deus e de todos com um coração de criança. Viveu bem, fazendo o bem. Nunca vamos esquecer esse bem, porque ele é o maior tesouro. Agradeço a Deus pela sua vida, por ser um homem de fé e pelo testemunho de como exerceu o sacerdócio para o bem de todos. Fica a saudade de sua presença, mas a certeza de um intercessor no céu”, ressaltou padre Nixon.

Vida que continua
Após a celebração de exéquias, o corpo de monsenhor Vital foi conduzido até o Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Antes do sepultamento, Dom Orani fez as últimas orações de encomendação do corpo na capela da quadra dos padres da Irmandade de São Pedro, e recordou que na Casa do Pai há muitas moradas, que Cristo é o caminho, a verdade e a vida, e que o justo está nas mãos de Deus.

“Estamos sepultando o corpo de monsenhor Vital, agora sem as dores e os sofrimentos dos últimos tempos. Enquanto Igreja que somos, o acompanhamos com nossas orações, na certeza que o Senhor o acolhe na eternidade como servo bom e fiel. Cremos numa morada definitiva junto de Deus, e que no último dia, seu corpo ressuscitará para a glória. Enquanto estamos aqui, caminhamos na fé, na esperança de um dia chegar à eternidade, na qual teremos a visão beatífica. É o mistério da vida que continua”, disse o arcebispo.

Na conclusão, Dom Orani lembrou que, “constantemente, vemos notícias contra a Igreja e os sacerdotes, mas quem critica não percebe aqueles que fazem o bem. Monsenhor Vital e todos os padres aqui sepultados nunca foram notícia de primeira página, por tudo o que fizeram em benefício do povo de Deus. Monsenhor Vital viveu totalmente na pobreza, somente com o necessário. A única riqueza que deixou como herança foi a de viver na graça de Deus”, afirmou o arcebispo.

Homem de seu tempo
Monsenhor Vital desempenhou uma multiplicidade de ofícios na Arquidiocese do Rio, e foi o principal confessor do Cardeal Eugenio de Araujo Sales. Após tornar-se emérito, continuou a celebrar na capela da Mitra, a sede da arquidiocese, mesmo quando precisou vir de cadeira de rodas.
“Conheci monsenhor Vital em 1956, quando ele era professor do seminário, cuja convivência era feliz com os padres formadores e com os seminaristas. Ele também trabalhava na Cúria Metropolitana, que na época, funcionava na Antiga Sé, no Centro. Humilde e preparado, viveu seu sacerdócio com muita alegria. Por onde passou fazia amizades, porque sempre tinha um sorriso e uma palavra que encantava quem dele se aproximava. Ele deixou marcas que devem ser seguidas e exemplos que devem ser imitados. Perdemos com a sua partida, mas o céu ganhou, e o céu merece coisas boas”, disse o bispo auxiliar emérito Dom Assis Lopes.

Segundo monsenhor Sérgio Costa Couto, o contato maior com monsenhor Vital teve início com sua nomeação em 1º de fevereiro de 1995, quando assumiu a capelania da Irmandade e da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, na Glória. Embora seja uma igreja histórica, ela fica no território da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, onde na época, monsenhor Vital era o pároco.

“Apesar da diferença de idade e de sacerdócio entre nós, sempre nos damos bem. Era edificante confessar-se e conversar com ele, além de ouvir suas histórias sobre a arquidiocese. Quando fui visitá-lo no hospital, ele me disse: ‘Necessito do perdão de Deus’. Ele tinha muita preocupação com a vida espiritual, e fazia questão de receber o Sacramento da Penitência. O mesmo fazia para quem o procurava, até bispos e padres, e não se importava de atender confissões antes e depois da missa, pois sempre esteve disponível para todos”, contou.

Monsenhor Costa e Couto destacou ainda que monsenhor Vital, “enquanto pôde, nunca faltou nas reuniões e nos retiros do clero, e gostava de rezar diariamente o breviário e o Terço de Nossa Senhora. Depois de emérito, ele fazia questão de celebrar durante a semana para os funcionários da Mitra, e quando não podia pela força da idade, rezava em casa”.

Desde sua tenra idade, monsenhor Vital soube conduzir sua vida com maestria e lucidez, por ter a oportunidade de beber da perene sabedoria e espiritualidade da Igreja de Cristo.

Gostava de futebol, e no dizer de seus amigos, era “fanático” pelo Fluminense. Um dia após seu sepultamento, 9 de fevereiro, foi homenageado pelo clube, durante um jogo, com um minuto de silêncio.

Poeta, deixou três publicações: “Poemas em torno do Lago e de Jerusalém”, “Sinfonia de quatro continentes” e “Ad astra per aspera”.
“Nos seus livros publicados encontramos a grandeza de alma e a simplicidade de um homem, sacerdote de Cristo, que soube ser múltiplo em habilidades, carreiras e destinos; soube sempre se renovar e transbordou em poesia”, disse padre Nixon.

Outro dom que monsenhor Vital desempenhou com habilidade foi como apresentador do programa “Expresso da saudade”, transmitido uma vez por semana, desde a fundação da Rádio Catedral, até junho de 2018. Seus companheiros no programa foram padre Nixon e o padre Jackson Tavares de Figueiredo, quando era seminarista.

“Conheci monsenhor Vital antes de entrar no seminário. Foi um amigo importante na minha caminhada de fé, sempre tinha bons conselhos. Guardo com carinho uma Bíblia de Jerusalém, com sua assinatura, que ele me deu ainda nos tempos de seminário. Sempre foi um modelo para mim e para todos que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Tinha um coração virtuoso e de paz, sempre sereno quando queria falar alguma coisa. Estive com ele várias vezes no “Expresso da saudade”, e admirava seu jeito espontâneo de apresentar o programa, e de ler suas poesias”, disse padre Jackson.

Perfil
O menino Vital, filho do engenheiro mecânico Francisco Cezar Brandão Cavalcanti e de Maria Tereza Brandão Cavalcanti, nasceu em Recife (PE) no dia 2 de setembro de 1924. Com menos de dois anos veio com a família para o Rio de Janeiro, onde residiu primeiramente no bairro da Glória, junto com seus avós paternos.

Fez o ensino fundamental no Externato Coração Eucarístico, no Flamengo. Entre 1935 e 1940 estudou no Seminário São José, no Rio Comprido, concluindo o ensino médio. Como era costume na época, fez os cursos de filosofia e teologia, de 1941 a 1947, no Seminário Central da Imaculada Conceição, no bairro Ipiranga, na cidade de São Paulo.

No dia 7 de dezembro de 1947, aos 23 anos, foi ordenado sacerdote por Dom Jaime, na Paróquia Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro, onde foi pároco na década de 1970.

Durante seu ministério sacerdotal, monsenhor Vital, que recebeu o título do Papa João XXIII e confirmado pelo Papa Paulo VI, exerceu várias atividades no âmbito diocesano.

A primeira função, por 14 anos, foi a de professor do Seminário São José. Também foi notário e chanceler da Cúria, e vigário geral durante o Concílio Vaticano II, respondendo pela arquidiocese na ausência do arcebispo.

Foi ainda vigário episcopal, membro da comissão de Liturgia, do Conselho Presbiteral, defensor de vínculo no Tribunal Interdiocesano, penitenciário do Cabido da Catedral, coordenador da Escola Luz e Vida e redator do folheto da missa.

Atuou também como capelão de diversas instituições de cunho social e educacional, e assistente espiritual de diversas associações e movimentos, como as Equipes de Nossa Senhora, Serra Clube e Pia União das Filhas de Maria.

De 1964 a 1976, monsenhor Vital esteve à frente da Paróquia São Francisco Xavier, na Tijuca, onde construiu uma capela no Morro da Chacrinha. Por dez anos, também respondeu pela comunidade do Esqueleto, no Maracanã.

Em 1977, assumiu a Paróquia Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro, depois de estudar por um ano em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, como presente pelos seus 30 anos de ordenação.

Na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Glória, foi pároco por 22 anos, a partir de 1982. Preocupado com a evangelização de seus paroquianos, construiu também uma capela dedicada a Nossa Senhora da Paz, no Morro Santo Amaro.

Carlos Moioli


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