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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/09/2020

21 de Setembro de 2020

Um santo monge entra no céu: Dom Agostinho Zacchetti

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21 de Setembro de 2020

Um santo monge entra no céu: Dom Agostinho Zacchetti

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21/01/2020 14:21
Por: Cardeal Orani Jõao Tempesta

Um santo monge entra no céu: Dom Agostinho Zacchetti 0

Deus chamou para si, na manhã deste dia 21 de janeiro, memória de Santa Inês, aos 82 anos, o meu caríssimo confrade, o Pe. Agostinho Zacchetti, O. Cist., na cidade de São José do Rio Pardo, SP.

Dom Agostinho Zacchetti nasceu a 20 de março de 1937, em Milão, cidade mais rica e industrial da Itália. Recebeu o nome de Romano no seu Batismo. Como monge cisterciense, seu padroeiro onomástico foi o Santo Agostinho, celebrado a 28 de agosto de cada ano.

Filho de Luigi Zacchetti e Giuseppina Morandi Zacchetti, casados a 15.05.1933, em Milão, já falecidos, e que residiam na Via Bergamo, 16, em Milão. Pe. Agostinho era o 3º de 5 irmãos: Ambroggio, Piero, Giancarlo, Santino (consagrado Focolarino, que por muito tempo fazia promovia o grupo Genrosso, de espiritualidade do Movimento dos Focolares, de Chiara Lubich) e Giuseppe.

Seu batismo foi em março de 1937, na Maternidade Maria Bambina, mas a certidão foi destruída na II Guerra Mundial.

Fez a sua Primeira Comunhão a 22.04.1945 com D. Ludovico d´Odda, e teve a honra de ser Crismado a 10.05.1945 pelo monge beneditino Cardeal de Milão, agora Beato Ildefonso Schuster OSB, na Paroquia S. Maria e S. Pietro.

Seu itinerário vocacional começou com sua entrada na famosa Abbazzia di Chiaravalle, na sua cidade natal, entre 1952/1953, recebido por Dom Giovanni Rosavini que há pouco tinha iniciado a retomada da vida monástica neste mosteiro fundado por São Bernardo de Claraval, em 1135. Seu pai Luigi (Gino) Zacchetti, (falecido a 05.11.1995) era organista nesta famosa Abadia de Milão.

Sua vestição, como primeiro noviço do recomeço do mosteiro milanês, foi no dia dos Santos e Santas que militaram sob a Regra de São Bento, a 13.11.54. Sua profissão Simples foi a 16.11.1955, também em Chiaravalle Milanese. Como ele foi para Roma fazer seus estudos de Filosofia (Pontifício Ateneu Santo Anselmo 1955-1957) e de Teologia (Pontificio Ateneu Angelicum e Universidade Lateranense 1957-1961). Fez um 5º ano como Teologia Pastoral no Latrão, ele fez a Profissão Solene em 1959, na Basílica de S. Croce in Gerusalemme, na Capela das Relíquias. Recebeu o Diaconato em 1960, na Basílica São João do Latrão e, terminando seus estudos filosófico-teológicos em 1961. Recebeu a Ordenação Presbiteral a 16.07.1961 na Basílica dos Santos Doze Apóstolos, Roma.

Exerceu seu ministério em Roma, na Basílica de S, Croce, que remonta ao século IV, e como mestre dos estudantes, nas férias iam a Poblet e Milão.
Como missionário que era foi para a missão e veio para o Brasil de navio em 3 de março de 1967.

Ajudou por um tempo em São Paulo, na Paróquia Nossa Senhora das Graças, na Vila Nova Cachoeirinha, que desde 1955 tinha sido entregue pelo Cardeal Motta aos monges cistercienses.

Padre Agostinho foi o primeiro pároco da Paróquia São Roque, a segunda da cidade de São José do Rio Pardo, instalada no dia 25.01.1968, ministério que exerceu até 28.10.1984. Escolheu como lema da paróquia o trecho joanino: “Pai, que todos sejam um.” Trouxe para a recém-criada paróquia os cursos de preparação para os sacramentos de iniciação cristã e o matrimônio. Também os Cursos de Boa Nova, Encontro de Casais, CEC e Cursilho. Implantou o Caminho Neocatecumenal (recebeu os catequistas no mosteiro em 1975) e o Movimento dos Focolares, (dinamizado pela Serva de Deus Lourdinha Fontão) bem como a grande assistência às muitas fazendas na Paróquia, (especialmente nas Fazendas Fortaleza, Guaxupé, e Graminha) com cursos de canto e liturgia. No seu paroquiado teve grande interesse na formação dos jovens, com a JAP, depois com a TUCAF, agora chamada Shalon. O primeiro grupo de oração da RCC na cidade, foi iniciado com sua permissão na capela de Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Bonsucesso. Junto com o então vigário paroquial Orani João Tempesta, dividiu o território da Paróquia em 18 CEB´s urbanas, com missas nas casas, Tinha programa semanal na Rádio Difusora, “Sinal Verde para você”, onde explicava a liturgia do domingo e dava os avisos paroquiais. Padre Agostinho implantou o dízimo na paróquia, e, educando os paroquianos para a escuta da Palavra, desde sua época não usamos os folhetos nas missas, nem estipulamos valor para a espórtulas das missas. Logo que iniciou de sua missão como pároco, preparou todos para a bênção e dedicação do altar versus populo, a 19.03.1969, por Dom Tomás Vaquero, de quem era fiel colaborador. Já em 28.08.1983 o mesmo bispo consagrou toda a igreja, ungindo as 12 cruzes, e aspergindo o tempo paroquial por dentro e por fora.

Na Diocese foi por muitos anos o coordenador diocesano de pastoral, e junto com Cônego Máximo Vaquero e Pe. Luís Girotti percorrendo as cidades para explicar as mudanças com o Concílio Vaticano II. Padre Agostinho trabalhava na gráfica do mosteiro, especialmente nas impressões em off-set. Gostava de fotografar, e tinha ouvido absoluto, com voz afinadíssima. Durante seu paroquiano em São Roque foram construídas as Igrejas de Santa Luzia, Nossa Senhora de Loreto e dos Reis Magos. Os primeiros livros de Tombo da Paróquia contam, em detalhes, desde 1968, as atividades dele e demais monges do mosteiro. Ele próprio fê-lo por um ano, confiando esta tarefa à agora nossa Serva de Deus, Lourdinha Fontão, que tinha se aposentado como professora na Usina Itaiquara. Quando eu fui ordenado em 07.12.1974, foi seu vigário paroquial e sucessor como pároco em 1984. O atual Bispo de Guarulhos, Dom Edmilson Amador Caetano O.Cist., também entrou no mosteiro no tempo em que Padre Agostinho era o pároco. Como presbítero, Padre Agostinho foi catequista itinerante do Caminho Neocatecumenal, entre 1979 a 1984, deu catequeses em Manaus, Belém do Pará, Porto Velho, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos, entre outros lugares. Sempre contava que experiencia de ficar em missão, anunciando, dois a dois, sem nada, na região de Niterói e outras cidades fluminenses.

Em São José do Rio Pardo-SP recebeu o Diploma com Medalha do I Centenário do Rotary em 19.03.1970. Tinha certificado como membro do Lions Clube em 01.10.1969. Em 1974 participou em Belo Horizonte de cursos sobre a Bíblia, com diploma assinado por Dom João Resende Costa a 29.09.1974. Em sua pasta pessoal, temos grande número de correspondência com embaixadas pedindo filmes e documentários para formar as pessoas na catequese e um lazer sadio. Temos suas correspondências com as Embaixadas da Dinamarca, Portugal, Áustria, México, entre outros países, sem esquecer de sua bela terra natal, a Itália.

Com a eleição de Dom Guido Pierino Salvatori como Abade Presidente da Congregação Cisterciense de São Bernardo, tendo que morar em Roma, em setembro de 1984, nosso Padre Agostinho foi escolhido como pároco na Paróquia Nossa Senhora das Graças, na Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo, lá ficando de 28.10.1984 ao final de 2016.

Neste tempo acompanhou o ministério de vários cardeais, como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Cláudio Hummes e Dom Odilo Pedro Scherer. Foi coordenador do Setor de 1984-1988; da Comissão Arquidiocesana de Pastoral em 1988; membro do Conselho de Presbíteros da Região Episcopal Santana e do Conselho Administrativo da Cúria Regional Santana, desde 1988. Exerceu o ministério de Vigário Episcopal da Região Santana, dando posse em párocos e administrando a crisma na ausência ou vacância dos bispos da Região Episcopal Santana. Na Cúria da Região Santana, trabalhou muitos anos no arquivo, indo todas as tardes. No Regional Sul I da CNBB foi sub-secretário (desde 1991) e participava das Assembléias das Igrejas, em Itaici, desde 1991. Membro do Secretariado Arquidiocesano de Pastoral desde 1992, bem como Vigário Episcopal da Região Santana, pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes, de 23.05.1999 até 2017. Praticamente ele já exercia esta função antes, quando da doença de Dom Joel Ivo Catapan, falecido a 01.05.1999)

Nesta Paróquia Nossa Senhora das Graças, desmanchou a antiga Residência dos Estudantes Cistercienses, construindo um prédio com 2 andares, com amplas salas e subsolo. Vale lembrar que nesta residência estudaram muitos monges de nosso mosteiro e de outros mosteiros cistercienses. Eu mesmo estudei nesta casa, bem como Dom Edmilson, Dom Abade Celso, etc. Em 1994 preparou e dinamizou a Comunidade para a Dedicação do altar-mor da Paróquia, colocando as relíquias de Santa Teresita de los Andes. Este solene rito foi na véspera da Oblação Secular Cisterciense de um grande número de paroquianos. Também construiu uma nova Igreja Matriz de Nossa Senhora das Graças, ampla e arejada, com salas, sacristia e mesanino. Logo na chegada à paróquia em São Paulo, tirou as cadeiras da matriz e pôs bancos novos, doando os antigos para a nossa Paróquia Santuário São Roque, onde tinha sido pároco antes.

No seu paroquiado, começou em 1990 o Grupo dos Oblatos Seculares Cistercienses, que tanto ajudaram o mosteiro e casa paroquial de São Paulo. Dinamizou a Pastoral Familiar formando várias comunidades litúrgico-celebrativas. Também acompanhou o trabalho dos Vicentinos, e demais movimentos e pastorais.

Quando comemorou os 25 anos de Pároco em São Paulo, os paroquianos lembraram que desde 1955 os Monges Cistercienses estiveram à frente da Paróquia, de modo que Pe. Agostinho é o que ficou mais tempo nessa missão.

Retornou ao mosteiro em 04.12.2017, depois de um tratamento em clínicas na capital (Casa São Paulo) e interior (São João de Deus e Bairral).
Desde seu retorno ao mosteiro, esteve dócil ao ritmo da vida comunitária, participando da missa conventual, reunião do capítulo e das refeições, diariamente.

No seu jubileu de ouro de profissão monástica (16.11.2005) cantou o canto do Suscipe, e recebeu, em solene celebração, o báculo senectude, como sinal de sua maturidade cristã e monástica. Um fato notável é contar que quando um monge jubilar falece, ele é enterrado com este báculo. Quando da saída do Pe. Agostinho da Residência Cisterciense na Cachoeirinha para o mosteiro, não se soube o paradeiro de seu báculo. Desejo que fosse colocado o meu próprio báculo na sua urna funerária. É o meu reconhecimento de filho ao estimado pároco, do qual foi vigário paroquial de 1975 a 1984.

No seu jubileu de ouro de ordenação, em 2011, o Cardeal Dom Odilo Scherer presidiu solene celebração, elogiando-o, e agradecendo, pois foi o Pe. Agostinho quem o buscou no aeroporto, quando foi nomeado como arcebispo de São Paulo – Região Santana. Vale recordar que Padre Agostinho durante vários anos usou esse mesmo veículo, um Fusca, de modo muito cuidadoso, sinal de seu despojamento e humildade monástica.

Já de volta ao mosteiro, participou da missa dos 50 anos da criação da Paróquia Santuário São Roque, presidida por mim, seu vigário paroquial de 1974 a 1984, também Dom Edmilson Amador Caetano, bispo de Guarulhos. Quando nasceu, a casa paterna de Dom Edmilson pertencia ao território da paróquia Nossa Senhora das Graças, em São Paulo.

Estimado por todos, costumava concelebrar no mosteiro em todos os dias feriais, e aos domingos, na missa das 07h00 na Capela de Santa Luzia.
No final da manhã do dia 08.07.2019, no final de seu costumeiro banho de sol no claustro do mosteiro, caiu e, prontamente socorrido, foi conduzido ao hospital, onde se constatou a fratura do fêmur, e um ferimento na cabeça, como consequência da queda. O quadro evoluiu para uma pneumonia. Padre Agostinho há pouco tempo tinha deixado de fumar. Passou uns 20 dias hospitalizado. Os padres e irmãos do mosteiro se revezaram 24h/dia. Neste período passou por uma cirurgia no fêmur e precisou de oxigênio. Recebeu o sacramento da unção dos enfermos e a sagrada comunhão todos os dias. Manteve-se sereno o tempo todo. Centenas de pessoas, entre paroquianos e amigos mandaram mensagens pelas visitas ou redes sociais. Seus familiares na Itália acompanharam o andamento do seu estado de saúde por telefonemas e mensagens.

Na noite do dia 30 de outubro, pelo agravamento de sua saúde, recebeu o Sacramento da Unção dos Enfermos, e, na manhã seguinte, do dia 31, por volta das 08h00, teve uma parada cárdio-respiratória, socorrido prontamente pelo enfermeiro e pela equipe do SAMU. Levado rapidamente ao hospital, foi levado à UTI, em situação grave. Mais uma vez centenas de pessoas, entre eclesiásticos e leigos, se uniram em oração pela sua saúde.

Seus irmãos Santino e Giuseppe Zacchetti vieram da Itália e aqui ficaram de 19 a 24 de novembro, manifestando o carinho de todos os familiares, que pelas redes sociais estiveram muito próximos do parente, que desde 1967 escolheu o Brasil como amada terra.

Para definir em poucas palavras o último italiano de nosso mosteiro, podemos dizer que foi um apaixonado pela evangelização, pela Igreja, anunciando querigmaticamente a Jesus Cristo, com zelo na liturgia, simplicidade exemplar, homilias com conteúdo exegético-catequético-litúrgico-pastoral. Fez a experiência do despojamento dos bens, era discreto e autêntico, com amizades abertas em Cristo. Nada podemos desaboná-lo na vida moral e administrativa, pois, desapegando-se de si mesmo, era feliz com o que encontrava. Serviu como monge sacerdote à Ordem Cisterciense e à Igreja.

A espiritualidade cisterciense é célebre pelo seu lema: Ora et labora. Na vida contemplativa, Deus anuncia muitas vezes a sua presença de maneira inesperada. Mediante a meditação da Palavra de Deus, na lectio divina, somos chamados a permanecer em religiosa escuta da sua voz, para viver em obediência constante e jubilosa. A oração gera nos nossos corações, dispostos a receber as dádivas surpreendentes que Deus está sempre pronto a conceder-nos, um espírito de fervor renovado que nos leva, através da nossa labuta quotidiana, a procurar a partilha dos dons da sabedoria de Deus com os outros: com a comunidade, com aqueles que vêm ao mosteiro para a própria busca de Deus (“quaerere Deum”), e com quantos estudam nas vossas escolas, colégios e universidades. É assim que se gera uma vida espiritual sempre renovada e revigorada.

Se São Bento foi uma estrela luminosa — como lhe chama São Gregório Magno — no seu tempo, marcado por uma profunda crise dos valores e das instituições, isto aconteceu porque ele soube discernir entre o essencial e o secundário na vida espiritual, colocando firmemente no centro o Senhor. Para a nossa Abadia, Dom Agostinho praticou o discernimento para reconhecer aquilo que vem do Espírito Santo e o que deriva do espírito do mundo, ou do espírito do diabo. O discernimento que «não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, [mas] é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos ao Espírito Santo... Sem a sabedoria do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em fantoches, à mercê das tendências do momento» (cf. Exort. Apost. Gaudete et exsultate, 166-167).

Na sua bondade e humildade o Padre Agostinho foi “uma escola do serviço ao Senhor”, instrumento da divina sabedoria que levou, mosteiro e seus paroquianos, a procurar continuamente Deus na própria vida; aquela mesma sabedoria que os há de levar a praticar a compreensão recíproca, porque todos nós somos filhos de Deus, irmãos e irmãs, neste mundo que tem tanta sede de paz e de unidade. Tal vida, tal morte! Tal santidade de Padre Agostinho, tal legado de santidade!

Descanse em paz!

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


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