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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/06/2020

06 de Junho de 2020

O ‘um’ Papa

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17/01/2020 12:54
Por: Redação

O ‘um’ Papa 0

Em face das controvérsias surgidas após o lançamento do filme “Os dois Papas”, do canal via streaming Netflix, resolvi traduzir o texto de Dom Barron, bispo auxiliar da Arquidiocese de Los Angeles, EUA. Dom Barron desenvolve um ministério voltado para o diálogo entre a milenar cultura cristã e a cultura pop contemporânea.

O extremamente divulgado novo filme da Netflix, “Os dois Papas”, para fazer jus ao conteúdo, deveria se chamar “O um Papa”, uma vez que apresenta a tessitura delicada, matizada e simpática do retrato de Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco) ao lado de uma caricatura de Joseph Ratizinger (Papa Bento XVI). Este desequilíbrio fatalmente enfraquece o filme, cuja proposta, ao que parece, é mostrar que um mal-humorado e legalista Bento encontra seu norte espiritual em poder dar orientações a um amigável e ávido Francisco. Porém, tal trajetória temática, por certo, violenta ambas as figuras, e isto torna o que poderia ser um estudo suprainteressante em uma apologia tediosa e previsível da versão preferida de catolicismo por parte do roteirista.

Torna-se claro que estamos lidando com uma caricatura de Ratzinger, quando logo ao início do filme, a cardeal bávaro é apresentado de forma ambígua, tramando para assegurar sua eleição ao pontificado, em 2005. Em ao menos três ocasiões, o verdadeiro Cardeal Ratzinger pediu a João Paulo II que permitisse seu afastamento (aposentadoria) do cargo de presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, de modo que pudesse se dedicar a uma vida de estudos e oração. Permaneceu ali, somente, por ter João Paulo II recusado de forma veemente seus pedidos. Ainda em 2005, ano da morte de João Paulo, mesmo os ideologicamente oponentes a Ratzinger, admitiram que o então cardeal de 88 anos nada mais quereria a não ser voltar para a Baviera e escrever sua obra sobre cristologia. De fato, o enredo ambíguo se adequa à caricatura de um clérigo “conservador”, mas não tem absolutamente nada a ver com o Joseph Ratzinger de carne e osso. Além disso, na cena que mostra um encontro imaginário, nos jardins de Castel Gandolfo, entre o Papa Bento e o Cardeal Bergoglio, o idoso Papa, com a testa franzida em sinal de reprovação, “ataca” seu colega argentino, criticando acidamente a teologia do cardeal latino. Contudo, mesmo os não simpatizantes de Joseph Ratzinger admitem que o “Rottweiler de Deus” é, de fato e invariavelmente, uma pessoa afável, de fala suave e gentil no trato com as outras pessoas. Novamente, essa conversa agressiva apresenta uma caricatura conveniente, porém nada próxima do verdadeiro Ratzinger.

A descaracterização mais grave, porém, ocorre ao fim do filme, quando um Bento desanimado, tendo decidido renunciar ao papado, admite que já não conseguia ouvir a voz de Deus, e que somente retornou a ouvi-la por meio de sua recente amizade com o Cardeal Bergoglio! Ao dizer que o segue, não tenho a mínima intenção de desrespeito ao verdadeiro Papa Francisco, contudo, alguém pode imaginar que um dos católicos mais espiritualmente atentos dos últimos cem anos precisaria da intervenção do Cardeal Bergoglio para ouvir a Deus? Parece-me um absurdo. Do início ao fim de sua carreira, Ratzinger/Bento produziu algumas das mais espiritualmente esclarecedoras obras de teologia da grande tradição cristã. É certo que em 2012, cansado e fisicamente doente, ele se sente incapacitado para governar todo o grande aparato da Igreja Católica. Mas afirmar que ele estava espiritualmente perdido, de forma alguma. Novamente, deve ser aquela fantasia de alguns da esquerda ao proporem que os “conservadores” escondem seu colapso espiritual por trás de uma fachada de regras e autoritarismo. Alguém que aplicasse tal interpretação dos fatos a Joseph Ratzinger, o faria de forma forçada.

Os flashbacks dos momentos mais anteriores na vida de Jorge Bergoglio constituem as melhores partes do filme. Esses momentos projetam uma luz considerável sobre o desenvolvimento psicológico e espiritual do futuro Papa. A cena que mostra seu impactante encontro com um padre confessor que está morrendo de câncer é particularmente emocionante, bem como sua forma convicta de lidar com dois sacerdotes jesuítas sob sua autoridade durante a “Guerra Suja” naquele período na Argentina, o que explicita seu compromisso com os pobres e com um modo de vida humilde. Em minha humilde avaliação, algo que poderia ter intensamente aprimorado o filme, deveria ser o aplicar a Ratzinger tratamento similar. Se ao menos tivéssemos um flashback da vida de um rapazinho de 16 anos proveniente de uma família corajosamente antinazista, obrigado a alistar-se no período final do Terceiro Reich, conseguiríamos compreender de forma mais rigorosa a profunda desconfiança que Ratzinger sempre teve a respeito das utopias secularistas e totalitárias, além dos cultos a personalidades. Se ao menos tivéssemos um flashback daquele jovem sacerdote, designado perito pelo Cardeal Frings, uma liderança da ala liberal, isto é, renovadora, e ansioso por mudanças no conservadorismo pré-conciliar –, entenderíamos que ele não era simplesmente um guardião simplório do status quo. Se ao menos tivéssemos um flashback daquele professor em Tubingen, escandalizado pelos extremismos do pós-concílio que pretendia jogar fora o essencial e ater-se ao acidental, compreenderíamos sua salvaguarda em relação aos projetos que advogavam mudanças em função de mudanças. Se ao menos tivéssemos um flashback daquele ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé redigindo um documento moderado, cuidadosamente refletido e profundamente reconhecedor do que havia de valor na Teologia da Libertação, teríamos percebido que o Papa Bento não era, de forma alguma, indiferente à aflição dos pobres.

Percebo agora que tal enfoque tornaria o filme bem mais longo. Contudo, quem se importaria com isso? Bem que eu preferiria ficar sentado por três horas e meia vendo-o a ter que assistir ao tedioso “O Irlandês”. Ficaria feliz ao assistir por quatro horas um filme que fosse honesto e esclarecedor sobre a figura de Joseph Ratzinger, assim como sobre Mario Bergoglio. Seria a oportunidade não somente de um estudo psicológico fascinante, mas também de um olhar iluminador sobre duas perspectivas eclesiásticas diferentes, contudo profundamente complementares. No lugar disso, temos mais um desenho animado.

* Nota do tradutor: entenda-se ‘liberal’, neste contexto, como oposição à ala mais conservadora de teólogos que se opunham as mudanças propostas pelo Concílio Vaticano II, e não no sentido de um liberalismo não ortodoxo quanto ao depósito da fé.

Tradução do original “The One Pope”, de Dom Barron, publicado no site Word on Fire, em 2/1/2020.

Fonte: https://www.wordonfire.org/resources/article/the-one-pope/26140/

Tradutor: padre Valdir Lima, sacerdote da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Além de tradutor, é especialista em análise do discurso.


 
 
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