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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 12/12/2019

12 de Dezembro de 2019

‘Devemos ser fiéis à missão que Cristo nos deu de levar a vida plena para todos’

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12 de Dezembro de 2019

‘Devemos ser fiéis à missão que Cristo nos deu de levar a vida plena para todos’

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22/11/2019 13:40
Por: João Guilherme Viana

‘Devemos ser fiéis à missão que Cristo nos deu de levar a vida plena para todos’ 0

Foi realizada no Vaticano, entre os dias 6 e 27 de outubro, a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-amazônica, para discutir respostas para os desafios ecológicos e pastorais da região.

Dom Flávio Giovenale, bispo da Diocese de Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre, que participou do Sínodo, juntamente com todos os bispos da região pan-amazônica, em entrevista aos meios de comunicação da Arquidiocese do Rio, falou de sua experiência no encontro.
Testemunho de Fé (TF) - Qual é a função dos sínodos para a Igreja?

Dom Flávio Giovenale - Em âmbito mundial, temos os sínodos ordinários, que se reúnem periodicamente para discutir um tema proposto pelo Papa - os dois últimos foram sobre a juventude e a família. Os sínodos são reuniões de debates para auxiliar o Papa no governo pastoral da Igreja.

Temos também sínodos especiais, convocados pelo Papa para uma determinada região. O Papa Francisco convocou o sínodo especial para a região amazônica. É um sínodo mundial, por ser convocado pelo Papa, mas é referente a uma região específica.

TF - O Sínodo para a Amazônia é um legado da Carta Encíclica Laudato si’?
Dom Flávio - Antes da Laudato si’, nós tivemos dois pontos importantes de preocupação ecológica com a criação. Nos últimos dez anos se desenvolveu até a teologia da criação. Depois, em 2007, quando Bento XVI veio inaugurar a Assembleia de Aparecida, falando aos jovens no Pacaembu, o Papa disse, inspirado na letra do Hino Nacional, para que se cuidasse dos bosques, da natureza e, principalmente, da Amazônia.

É uma preocupação, porque a Amazônia tem uma importância mundial para o clima, para a regulagem da umidade do mundo e para o equilíbrio mundial.
Em 2013, aqui no Rio, quando o Papa Francisco veio para a Jornada Mundial da Juventude, ele se reuniu com os bispos do Brasil e, no quarto ponto do seu discurso, falou sobre a importância da Amazônia do ponto de vista pastoral e ecológico.

Em 2015, temos a publicação da Laudato si’, que recolheu e sistematizou toda a reflexão feita nos últimos dez anos pela Doutrina Social da Igreja sobre a ecologia. Não foi uma invenção do Papa Francisco, mas fruto de uma caminhada que ele continuou.
Concretamente, o Sínodo segue o caminho da Laudato si’, mas é fruto de uma preocupação que, mais de 12 anos atrás, o Papa Bento XVI manifestou aos jovens no Pacaembu.

TF - Por que o Sínodo propôs o olhar sobre novos caminhos para a Amazônia?
Dom Flávio - O Sínodo foi convocado com dois eixos principais: novos caminhos para a Igreja e novos caminhos para a ecologia integral. Esses dois eixos se desdobram nos outros aspectos.

Por que novos caminhos? Porque temos a preocupação de não conseguir chegar às pessoas e o mundo mudou, as pessoas não se deslocam por longas distâncias, procuram os serviços próximos, inclusive os religiosos. Se houver outra igreja mais perto daquela pessoa será mais cômodo para ela.

O desafio que temos na Amazônia é o das grandes distâncias. A Diocese de Cruzeiro do Sul, onde estou atuando agora, tem 127 mil quilômetros quadrados, que é três vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro, e temos 26 padres. Isso quer dizer que eu tenho uma média de um padre a cada cinco mil quilômetros quadrados.

Como chegar a estas pessoas? As estruturas antigas funcionam para algumas coisas, para outras não. Então o Papa diz: devemos ser fiéis não às estruturas antigas, mas à missão que Cristo nos deu de levar a vida plena para todos. Se as estruturas antigas não funcionam para alguns dos novos desafios, nós devemos procurar novos caminhos para a Igreja.

O mesmo vale para a ecologia. O Papa Francisco fala na Laudato si’ sobre a ecologia integral, porque, quando se fala em ecologia, se pensa em bicho e planta, muitas vezes esquecendo que na floresta tem gente. A educação, a segurança, a saúde e o transporte também fazem parte da ecologia integral, que tem como centro o ser humano.

Dominar a natureza não significa destruir a criação de Deus, mas cuidar dela. O desenvolvimento da Amazônia deve ser pensado a partir da população da região, não com os grandes projetos que geram lucro para muito poucos à custa dos povos locais.

TF - Como o Sínodo abordou a carência de padres na região amazônica?
Dom Flávio - A falta de ministros ordenados na região é um problema. Com isso, como a Igreja pode responder a missão que Jesus nos deixou?
Jesus não deixou a missão de proteger as estruturas, Ele nos disse: “Vão e anunciem a todos o Evangelho”. Ter missa e visita do padre uma vez por ano em cada povoado não atende a esse pedido. Se houver um pastor naquele povoado, que more lá e pregue semanalmente, no próximo ano não adianta o padre ir lá. As pessoas seguirão o pastor, não por mágoa com o catolicismo, mas por se sentirem abandonados pela Igreja.

Desta dificuldade de chegar às comunidades que surgiram as sugestões dos ministérios instituídos, para homens e mulheres. Atualmente, os ministérios instituídos são apenas para homens, o leitorado e o acolitado, pois visam à ordenação presbiteral. O que é proposto é que isso seja revisto para incluir também as mulheres, porque a maior parte das nossas lideranças de catequistas e ministras da palavra são mulheres. Ter não apenas uma bênção, mas uma instituição de um ministério da coordenação da comunidade.

Temos já diáconos permanentes fazendo um bom trabalho nessas comunidades, por que não ordenar alguns deles? O Papa Bento XVI deu licença para os anglicanos que passaram para o mundo católico. Quem era pastor ou sacerdote se tornou padre, mesmo sendo casado.

TF - Como foi discutida a questão das ordenações, especialmente a ordenação de mulheres no Sínodo?

Dom Flávio - O Sínodo são sugestões que se dão ao Papa, não é deliberativo, não se trata de quem vence ou perde. A partir da realidade e da missão que Jesus nos dá, nós trabalhamos algumas propostas. Uma delas é o ministério instituído, não ordenado.

Instituído de coordenadores de comunidades, que podem ser homens ou mulheres. Seriam eles: ministros da palavra, ministro extraordinário da comunhão eucarística e poderíamos ter um ministério do aconselhamento, mas é um ministério leigo, porém, instituído, tendo uma celebração litúrgica e reconhecimento oficial, mas é um ministério temporário.

Outra questão é termos mais sacerdotes, de maneira que a Eucaristia, a confissão e a unção dos doentes são ministérios presbiterais, reservados ao padre ordenado. Nesse caso, estudamos a ideia de o Vaticano dar, como deu aos anglicanos, licença para que os bispos possam nomear padres entre esses diáconos permanentes, casados ou não. Isso já está previsto no Código de Direito Canônico, mas cada caso deve fazer um pedido individual ao Papa. Queremos que seja uma licença dada coletivamente, como foi o caso dos anglicanos.

Outra coisa é o estudo sobre o diaconato permanente feminino. O Papa pediu, a pedido das supervisoras gerais das freiras, o estabelecimento de uma comissão de teólogos e biblistas, homens e mulheres, para estudar o diaconato feminino. No novo testamento se fala desse tema, se fala em diaconisas, algumas dioceses dos primeiros séculos tinham essa figura. Também se fala em diaconisas; a diferença é que as diaconisas eram mulheres que ajudavam os diáconos, mas não eram ordenadas, recebiam apenas uma bênção. Em outras comunidades elas eram ordenadas para agir junto às mulheres, em outras com a comunidade inteira.

O que foi solicitado é: como, em vários lugares, se falou sobre o diaconato feminino, que se reative essa comissão, que estava parada há mais de um ano, e que novos membros sejam integrados para continuar esses estudos. É importante ressaltar que é uma comissão para estudo, não é deliberativa.

Ninguém falou sobre ordenação presbiteral de mulheres. Isso é um assunto já consolidado na Igreja Católica, que foi reservado, por Deus, para os homens, como a maternidade é reservada às mulheres.

TF - Durante o Sínodo, houve muita confusão e desinformação, com forte divulgação de notícias falsas sobre o encontro, que foram repercutidas até pelo governo federal. Como o senhor vê essas questões?

Dom Flávio - Quando o novo governo assumiu, talvez por falta de informação, houve o temor de que o Sínodo fosse tratar da internacionalização da Amazônia. Não tinha nada disso, inclusive esse assunto foi colocado de forma bem clara em um dos documentos. Porque não estamos discutindo a Amazônia brasileira. Nós discutimos a Amazônia, portanto nove países que têm uma parte de seu território nessa região. Mas acho que isso foi resolvido, pois o governo brasileiro enviou um diplomata para o Vaticano para esclarecer essa questão, que acho que foi resolvida serenamente e até tranquilamente.

Por que o governo não foi chamado a participar? Porque em nenhum Sínodo na história tivemos a participação de líderes políticos em exercício, mesmo entre os convidados. Já tivemos representantes da ONU, da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), um vencedor do prêmio Nobel, diversos cientistas, muitos professores das universidades romanas e muitos pastoralistas, pois o primeiro eixo é a questão pastoral.

Em relação àqueles que espalharam notícias falsas, eu peço aos que me seguem que rezem por eles, pois a verdade os libertará. Alguns eram tão cruéis nos comentários que eu rezava mesmo, porque se Jesus disse que “com a mesma medida com que medes será medido”, eu não sei o que vai sobrar deles.

Eu peço a Deus a misericórdia para mim, mas quando um sujeito se torna cruel, julgando o Papa e os bispos, dizendo que são irresponsáveis, isso atenta contra a estrutura hierárquica da Santa Igreja Católica. Nós não somos protestantes, que brigam um com o outro e fundam uma nova Igreja. Nós queremos um caminho sinodal, de conversa com o outro.

Se depois o Papa definir algo contra a minha convicção, eu vou acolher essa decisão. Porque Deus prometeu uma bênção especial para Pedro, não para o Flávio, então eu vou ser católico quando eu seguir a Pedro. Pois é sobre esta pedra que é edificada a Igreja de Jesus.

Essas pessoas tiveram um ano e meio para mandar sugestões por e-mail para o Vaticano, que abriu o caminho para que os fiéis do mundo todo sugerissem temas.

João Guilherme Viana


 
 
 
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