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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/08/2019

19 de Agosto de 2019

Cuidados paliativos: valorização do ser humano

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Cuidados paliativos: valorização do ser humano

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24/05/2019 00:00 - Atualizado em 31/05/2019 12:03
Por: Flávia Muniz

Cuidados paliativos: valorização do ser humano 0

A Pontifícia Academia para a Vida, em parceria com a Arquidiocese do Rio, realizará entre os dias 25 e 30 de maio o Congresso Latino-Americano de Cuidados Paliativos. O evento acontecerá em duas etapas, dirigidas a públicos-alvos diferenciados: de 25 a 26, na Catedral Metropolitana, para seminaristas e agentes de pastorais; de 27 a 30, as conferências serão no auditório do 2º andar do Edifício São João Paulo II e voltadas para os profissionais de saúde, bispos e ministros religiosos de quaisquer confissões.

Durante este mês de maio, a Rádio Catedral FM 106,7 apresentou o tema em seus múltiplos espectros. Para abordar as dimensões no campo da medicina e suas competências, o programa “Especial: Cuidados Paliativos” convidou a médica geriatra Anelise Fonseca, membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Participou do programa, ainda, o médico e também presidente da Academia Fides et Ratio - Fé e Razão - da Arquidiocese do Rio, padre Aníbal Gil Lopes.

Qualidade de vida

Coordenadora, atualmente, da Comissão de Geriatria em Cuidados Paliativos, pela Associação Latino-Americana de Cuidados Paliativos, Anelise demonstrou como esse é um tema que abrange um conjunto de ações, para pacientes e seus familiares, diante de uma doença sem possibilidade de cura, ou seja, em grau de irreversibilidade: 

“O principal objetivo é a qualidade de vida. Talvez, por isso, seja um assunto pelo qual as pessoas ficam encantadas, pois não se trata de falar (só) de morte, mas sim, de oferecer qualidade de vida, seja no âmbito da saúde, do direito e da prevenção de agravos. Trabalhamos com o sofrimento e a dor. Porém, não apenas a dor física, trabalhamos com a dor total, isto é, quando já há uma dor física e ela é amplificada por diversas outras questões: emocionais, sociais e até espirituais. Esta, especialmente, sempre muito presente, porém, os profissionais de saúde sequer sabem como fazer a abordagem nesse aspecto”, observou Anelise. 

Espiritualidade

Para a geriatra, a espiritualidade está diretamente ligada ao propósito de vida, ao que o paciente deseja, a sua vontade, suas expectativas e anseios. “Diante do sofrimento e o que ele traz para a vida da pessoa surge o questionamento: ‘o que se pode fazer?’ É então que se tenta uma ‘virada nessa chave’ perante aquilo, em face de que já não se tem nada a fazer, como um câncer, por exemplo. Porque é exatamente o contrário, há muito o que se fazer!”, disse.

Criatividade

Segundo Anelise, a criatividade em medicina paliativa é o que tem possibilitado agregar os diversos benefícios das terapias alternativas. “É algo que exige muita criatividade, pensar ‘fora da caixa’, como hoje se diz, para ofertar ações de saúde que, via de regra, saem ‘fora dos livros’. Hoje em dia, trabalhamos com pet terapia, arteterapia, musicoterapia. São diferentes insights que complementam a área técnica, propriamente dita. Porque cuidados paliativos extravasam a área técnica de saúde - ‘linha dura’ - e alia-se a um ramo mais soft, mais light do ponto de vista terapêutico”, explicou a especialista. 

Valorização do ser humano

De acordo com Anelise, os cuidados paliativos põem em evidência a valorização do ser humano, pois, segundo ela, trata-se de “valorizar a biografia da pessoa, seus valores e a sua construção durante toda a sua vida. Talvez, por isso, encantem tanto, porque nos levam a resgatar, o que tenha se perdido ao logo do tempo”, pontuou. Ela ressaltou também que “é uma oportunidade para que as pessoas consigam se ressignificar, fazer projetos”, afirmou.

Kairós

A médica destacou também como os cuidados paliativos fornecem respostas surpreendentes por parte do paciente. Segundo ela, se alguém recebe o diagnóstico de uma enfermidade  irreversível e tem uma previsão do seu tempo de vida, pode otimizar esse tempo que ainda lhe resta. 

“Ninguém tem uma bola de cristal para saber quanto tempo ainda lhe resta, mas para quem recebe um diagnóstico que ameaça a sua vida, o tempo cronológico  é substituído pelo tempo kairós, isto é, um tempo de graça, que é o tempo de agora, de ficar com quem se gosta e aproveitar as coisas que mais valoriza. Portanto, muda-se a perspectiva. Isso é muito importante, e é nesse sentido que se consegue ressignificar uma pessoa, mesmo diante de uma ameaça de morte. É nesse tempo que vêm as aproximações, as reconciliações, as desculpas e os perdões”, disse.

Reconexão

A especialista exemplificou como algumas terapias alternativas podem ajudar nesse processo de ressignificação e reconexão do paciente com a própria vida e as pessoas da sua convivência. Para ela, vale a pena inserir as pessoas nessas terapias, como é o caso do tratamento de pacientes acometidos por demências: “Se o paciente gostava, por exemplo, de Noel Rosa, por que não lhe oferecer uma música de Noel Rosa, até mesmo para ele se acalmar? O foco terapêutico não pode ser só o medicamento. Também a pet terapia hoje oferece cada vez mais alternativas, com gatos e cães, para acalmar, para troca de afeto, para fazer companhia. Cada vez mais, os cuidados paliativos vêm quebrando paradigmas. É importante, no entanto, saber o quê e porquê se está fazendo. Porque se não souber, pode-se causar muito sofrimento. E o objetivo dos cuidados paliativos é justamente o contrário!”, lembrou Anelise.

Generalistas X Especialistas

A médica lembrou, ainda, que, no caso das pessoas idosas e das crianças, é necessária uma boa assistência médica, e isso deve começar pelo geriatra ou pediatra, pois eles são os generalistas para essas idades: “O geriatra é o generalista da população idosa, assim como o pediatra o é para a população infantil. Ir direto às especialidades médicas restringe, porque os especialistas se ocupam de determinado órgão (coração, rim, pulmão etc.) ou com um determinado sistema do corpo humano (aparelho fonador; sistema neurológico, etc)”, destacou. 

Anelise Fonseca chama a atenção, também, para o fato de que, exatamente por ser um trabalho integralizador, “não existe uma ‘euquipe’. É importante que todos os profissionais se sintam incluídos e busquem a formação, por exemplo: um dentista especializado para uma adequada higiene oral de pacientes com demência e, com isso, erradicar focos infecciosos. Em vários locais do mundo já é uma especialidade médica; no Brasil, ainda é apenas uma área de atuação, mas já há diversos cursos de especialização”, explicou ela. 

Nuances terapêuticas

A médica ressaltou também que há inúmeras situações que envolvem a atuação dos profissionais de saúde, e que necessitam de ações pontuais caso a caso. E exemplificou:

“Nos cuidados paliativos, muitas vezes, utilizamos o efeito colateral de um medicamento a favor do paciente. Por exemplo, eu tenho um paciente que tem salivação em excesso. Nesse caso, eu posso ter que prescrever uma medicação, cujo efeito colateral é a diminuição da saliva. Então, são nuances que realmente precisam ser conhecidas, é preciso mergulhar no universo técnico. Não basta ser formado na área e dizer ‘isso eu já sei fazer, é só conversar’. E não é só isso. Tem que ter interesse. Tem que estudar. É necessário, em razão dos  processos complexos, de sofrimento da família e do paciente, na evolução de um câncer, por exemplo, buscar a técnica em cuidados paliativos para oferecê-los adequadamente”, declarou.

O assunto ‘morte’

“É um tabu. No entanto, faz parte da vida”, disse a médica. Para ela, “não fomos preparados para enfrentá-la. E o assunto deve ser tratado aproveitando as situações do dia a dia, através de filmes, de novelas, de jornais, do cotidiano, enfim. A morte pode vir a qualquer momento. Nas doenças crônicas, ela vem de forma lenta e progressiva e oferece essas oportunidades de lidar com o assunto, de forma gentil, amorosa, sobretudo com as crianças, mas também com os adultos. Seres humanos são complexos. É necessário desenvolver não só ferramentas técnicas, mas também da sociedade. Não adianta! Nascemos e morremos”, concluiu Anelise. 


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