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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 26/06/2019

26 de Junho de 2019

Congresso de Cuidados Paliativos reflete sobre bioética e dimensão pastoral

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26 de Junho de 2019

Congresso de Cuidados Paliativos reflete sobre bioética e dimensão pastoral

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27/05/2019 19:58 - Atualizado em 27/05/2019 20:06
Por: Flávia Muniz

Congresso de Cuidados Paliativos reflete sobre bioética e dimensão pastoral 0

O segundo dia do Congresso Latino-Americano de Cuidados Paliativos reuniu, neste domingo, 26 de maio, no auditório do subsolo da Catedral Metropolitana, cerca de 480 participantes, entre padres, seminaristas e fiéis leigos, alguns vindos de outras dioceses que compõem o Regional Leste 1. As conferências desse dia trataram os cuidados paliativos do ponto de vista da bioética e da dimensão pastoral. E os conferencistas foram, nessa ordem: o professor titular de bioética da Universidade de São Paulo (USP), Dalton Luiz de Paula Ramos; o secretário da Pontifícia Academia para a Vida (PAV), Monsenhor Riccardo Mansueli; e o bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio e recém-eleito secretário geral da Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Joel Portella Amado, que preside o congresso.

Além destes, estavam também presentes o bispo auxiliar e referencial da Pastoral da Saúde arquidiocesana, Dom Paulo Celso Dias do Nascimento, o presidente da Academia Fé e Razão da Arquidiocese, padre Aníbal Gil Lopes, membro titular da PAV e organizador do congresso, e o professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio, André Marcelo Machado Soares, também membro titular da Academia Fé e Razão e do conselho científico do Congresso Latino-Americano de Cuidados Paliativos.

Bioética

Abrindo a manhã de conferências, o titular em bioética da USP, o odontólogo Dalton Ramos, apresentou a comunicação "Aspectos éticos-existenciais acerca da morte e do morrer". Ramos iniciou, recordando que a Igreja celebrava, naquele dia, a memória de São Felipe Nery. Lembrou que este santo, já na reta final da sua existência e também necessitado de cuidados paliativos, surpreendia a todos com uma indisfarçável alegria; e que, perguntado sobre isto, São Felipe, respondia: "Estou muito feliz, porque estou indo para a Casa do Pai."

Partindo dessa perspectiva, Ramos contou a sua experiência pessoal quando iniciava os estudos de pós-graduação em bioética na USP, e a situação que foi determinante para sua decisão de assumir, definitivamente, a bioética como norteador da sua atuação profissional e como linha de pesquisa acadêmica. Ao ser procurado por um amigo padre, que lhe pediu ajuda para um jovem aidético, Ramos, que até então resistia a se envolver, concretamente, com cuidados paliativos, disse ter se sentido atingido em seu íntimo, pela forma como o padre o interpelou:

"Depois de me explicar tudo sobre o jovem, ele me disse: 'O que você, que é meu amigo, pode fazer por esse rapaz que quer ser nosso amigo?' A partir daí, minhas resistências se reduziram a  pó, e eu senti que não podia mais me esquivar."

'Multi' e 'inter'

Após narrar os desdobramentos dos cuidados oferecidos ao jovem, por ele e o amigo sacerdote, o especialista definiu, então, que "ética é a relação entre o gesto e o todo nele aplicado. É preciso considerar todos os aspectos envolvidos naquela específica realidade, à qual se destinam os gestos. E isso implica envolver não só a expertise técnica, mas também pessoal dos profissionais envolvidos. O 'todo implicado' está nas mãos de todos os envolvidos com o paciente", disse. E continuou: "Em cuidados paliativos, não basta ser 'multi' (disciplinar), é fundamental ser 'inter', ou seja, deve haver interação e integração entre as diversas áreas de atuação. E há que se levar em conta que cada pessoa humana tem um rosto, um nome e um sobrenome. Vale a pena ter sempre presente, por exemplo, os rostos de pessoas que nos sejam queridas, para manter acesa a fagulha que não nos deixará, nunca, perder de vista a dignidade inerente a toda pessoa humana, pois para os nossos amados, queremos o todo e o melhor", afirmou Dalton Ramos.

São João Paulo II e a PAV

O especialista em bioética concluiu sua conferência, ilustrando o aspecto antropológico dos cuidados paliativos, com uma frase de São João Paulo II. Segundo Dalton Ramos, a frase foi dita pelo papa polonês a um grande amigo, o médico e geneticista francês, Jérôme Lejeune, a quem se deve a descoberta da anomalia cromossômica (material genético extra do  cromossomo 21), que dá origem à Síndrome de Down. Segundo Ramos, o papa João Paulo II pediu para que Lejeune estruturasse a Pontifícia Academia para a Vida, quando o médico estava já em fase terminal e, por isso mesmo, questionou o convite do papa, recebendo de Sua Santidade a seguinte resposta: "A vida tem significado até o último momento". Diante de tal contrapartida, Lejeune aceitou e, em poucos meses, estruturou a PAV, sendo o seu primeiro presidente, mas vindo a falecer, infelizmente, antes de presidir sua primeira reunião.

Suetónio, São Francisco e a irmã morte

Mediando os debates e as perguntas, o professor André Marcelo Machado Soares recordou o grande historiador do Império Romano, Caio Suetónio Tranquilo (69-ca.141), e sua célebre obra Vidas dos doze Cézares. De acordo com o professor André Machado, o historiador entendia que "uma morte com sentido só pode vir de uma vida vivida com sentido", lembrou o professor. E completou: "Certamente, é por isso, também, que São Francisco chamou a morte de 'irmã morte'", observou.

Monsenhor Riccardo Mansueli, por sua vez, destacou que "não queremos morrer. Queremos, porém, ultrapassar a morte, sobreviver, deixando algo de nós - nosso patrimônio genético nos nossos filhos e netos - a nossa cultura e a nossa história. Por isso, buscamos o sentido da nossa existência, e indagamo-nos 'Deus me fez nascer para quê? Qual o sentido da minha vida?'. De fato, somente através de nós, isto é, da pessoa humana, foi que Deus disse algo ao mundo", afirmou Monsenhor Mansueli.

Pertença social e eterna

Seguindo a mesma linha argumentativa, padre Aníbal Lopes recordou que o batismo é "a nossa inserção na história da salvação. Por meio dele, tornamo-nos instrumento e sinal. E, no que diz respeito aos cuidados paliativos, devemos ser instrumento e sinal para trazer a pessoa de volta à pertença social, porém mais do que isso: do ponto de vista da fé, pelo batismo, nós nos inserimos na Igreja em sua dimensão eterna", disse. E, dirigindo-se aos sacerdotes e seminaristas presentes, afirmou: "Por meio dos cuidados paliativos, devemos trazer a pessoa enferma de volta à pertença eclesial", exortou. E concluiu, dizendo: "A vida é pertença. Isso implica em 'costurar' o sentido profundo do sacramento da Reconciliação, portanto, o sacerdote deve ser o vínculo possível para que o outro volte a ser e a sentir-se pertença ao todo, isto é, àquilo que, entre nós, chamamos 'Comunhão dos santos'", finalizou.

Orientações pastorais

A segunda parte do dia foi dedicada à reflexão e proposições no campo pastoral. A conferência "Indicações para uma Pastoral dos Cuidados Paliativos - início de uma caminhada" foi proferida pelo presidente do congresso, o bispo auxiliar Dom Joel Portella Amado, recém-eleito secretário geral da CNBB.

Em seu peculiar bom humor, Dom Joel descontraiu os participantes, citando o verso de Carlos Drummond de Andrade, "E agora, José?", e apresentou, a partir daí, as indicações de ordem prática, com vistas à implantação dos cuidados paliativos como ação pastoral e missão evangelizadora da Igreja: "O objetivo é levar para a vida comunitária, na realidade concreta do dia a dia, a presença eclesial junto a quem vive essa  necessidade dos cuidados paliativos", explicou o bispo auxiliar.

Para Dom Joel, ainda não se tem definido um caminho, este se faz, caminhando:

"O primeiro passo é o que estamos dando hoje: este congresso e a participação de vocês, congressistas. O segundo diz respeito a se pensar uma pastoral profundamente marcada pela experiência do encontro, segundo o Evangelho de São Mateus 25, 36 - 'estive doente e me visitastes' - que nos impele à missão, na perspectiva do Cireneu, de Verônica e do Bom Samaritano, esta deve ser a mística de uma pastoral que se propõe ao serviço por meio de cuidados paliativos", pontuou.

Reportando-se a alguns casos muito concretos de sua experiência como pároco, Dom Joel observou que "o sofrimento traz com ele uma 'catarata existencial', que nos cega em relação às necessidades reais do enfermo. Cuidados Paliativos envolvem solidariedade, sobretudo para com os mais pobres, que não podem dispor de um serviço home care, que não dispõem de um plano de saúde. E mais do que isso: as ciências e os agentes envolvidos deverão atuar em rede. Oferecer cuidados paliativos, junto aos mais pobres, é uma questão humanitária, para muito além da dimensão social", exortou o bispo.

Para ele, a dimensão missionária dessa ação pastoral pode ser definida nos seguintes termos: "Evangelizar, testemunhando a solidariedade e a gratuidade, junto às pessoas e famílias, cujas situações de saúde não encontram condições de cura", resumiu.

Por fim, apresentou aos participantes uma imagem de uma visita de Dom Orani a um paciente terminal no Inca IV, durante a Trezena de São Sebastião. Mostrando a imagem, o bispo auxiliar assim exortou a todos: "O que o Pastor faz na dimensão diocesana, deve suscitar igual testemunho na dimensão comunitária", concluiu Dom Joel.

Descontração

Após a conferência, foi proporcionado um momento descontração: um stand up comedy com o humorista católico Fábio Borges arrancou sonoras gargalhadas do público presente.

Princípios norteadores

Na etapa final dos trabalhos, formaram-se grupos de reflexão, monitorados pelos seminaristas, com o objetivo de traçarem princípios norteadores para a ação pastoral em cuidados paliativos, no âmbito da Arquidiocese do Rio. O coordenador da Pastoral arquidiocesana, cônego Cláudio Santos, apresentou os norteadores apontados pelos participantes, e, em princípio, são eles:

1. decisão unânime de não se criar uma nova pastoral, mas inserir a ação pastoral de cuidados paliativos no âmbito da Pastoral da Saúde;

2. a nova ação exige a capilaridade da comunidade paroquial, isto é, a ação em cuidados paliativos não deve ser exclusividade de uma única pastoral - no caso, a Pastoral da Saúde; também não deve ser setorizada, ao contrário, deve envolver toda a comunidade paroquial;

3. deve ser oferecida formação permanente nos três níveis da eclesialidade (arquidiocesano, vicarial e paroquial), de forma continuada e que qualifique os agentes espiritual e psicologicamente, para bem dispensarem os cuidados paliativos. Dar continuidade às formações sobre o tema, também para os seminaristas. E capacitação específica para os agentes da Pastoral da Saúde e pastorais afins (da Pessoa Idosa, da Pessoa com Deficiência etc); elaboração de cartilhas com conteúdo formativo;

4. recrutar pessoas com esse carisma e perfil, que tenham experiência e aptidão para cuidados paliativos.

5. não limitar-se à pessoa do enfermo e à doença; ir além, levar o rosto misericordioso do Cristo onde quer que os cuidados paliativos deverão alcançar (solidariedade em rede).

6. envolver famílias e voluntariado, especialmente jovens estudantes de medicina e das áreas afins com os cuidados paliativos (Direito, Serviço social, Psicologia etc.)

7. acolher os que estão afastados, não se limitando aos católicos.

8. desenvolver a Pastoral da Escuta sigilosa e confiável.

9. estabelecer diálogos com as instituições e entidades que promovem direitos e benefícios.

Cônego Cláudio apontou, ainda, o desafio inicial para a implementação dessas ações, o qual, segundo ele, diz respeito a "reunir os vicariatos e os párocos, para que conheçam o assunto; e, para isso, será necessária a distribuição de cartilhas e o estudo sistemático do conteúdo do congresso", observou padre Cláudio.

Mensageiros

Ao final desse segundo dia de conferências, a pedido de Dom Paulo Celso, o vigário episcopal para a Caridade Social, Monsenhor Manuel Manangão dirigiu as palavras de encerramento aos seminaristas e fiéis leigos:

"Os presentes, hoje, deixam de ser ouvintes, para serem mensageiros, a exemplo de Jesus: 'O que ouvi de meu Pai, isto vos transmiti'. Assim, agora, cada um de vocês é chamado a transmitir e a fazer acontecer, unidos aos Pastores referenciais - cada um - para cada específica Pastoral na arquidiocese, e todos unidos ao arcebispo", concluiu Monsenhor Manangão.

Em seguida, todos se dirigiram à capela do Santíssimo, na Catedral, para a Santa Missa, que foi presidida por Dom Joel Portella Amado, concelebrada pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de La Plata, na Argentina, Dom Alberto Germán Bochatey Chaneton, e os demais sacerdotes presentes.

O Congresso Latino-Americano de Cuidados Paliativos prossegue até o dia 30 de maio, sediado, a partir de agora, no Edifício São João Paulo II, na Glória.

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