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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/12/2018

15 de Dezembro de 2018

Laicato: dividir o pão e alimentar a fé

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Laicato: dividir o pão e alimentar a fé

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10/08/2018 15:08 - Atualizado em 16/08/2018 16:20
Por: Priscila Xavier

Laicato: dividir o pão e alimentar a fé 0

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Num período em que o Brasil enfrentava grandes turbulências políticas e que a situação econômica de milhares de brasileiros estava cada vez mais complicada, em São Gonçalo do Amarante, município próximo a Natal, capital do Rio Grande do Norte, os moradores, apesar da dificuldade, dividiam o pão e a fé. Era o ano de 1934, quando nasceu Luiz Severino da Silva.

A cidade era considerada zona rural, a eletricidade ainda custou a chegar, e havia apenas meio de transporte por tração animal. “Tudo era muito precário. A escola só funcionava até a antiga terceira série. Depois, tive de ir a Natal para completar o curso primário”, contou Luiz.

Porém, foi na infância simples que ele aprendeu, de maneira concreta, a importância do trabalho dos leigos numa comunidade. “Minha família era muito religiosa. Mas, como a igreja ficava distante, minha mãe e outros moradores construíram a Capela Santa Clara. Era ali que nos reuníamos, rezávamos, fazíamos as novenas e eu, todo domingo à tarde, realizava os encontros de catequese para as crianças, mesmo com o pouco entendimento que eu tinha, ensinado por meu avô”, recordou.

Devido ao baixo número de vocações sacerdotais naquele período e à extensão do território paroquial, as regiões rurais, como o município de Luiz Severino, recebiam os padres em apenas duas datas por ano: Natal e Sexta-feira da Paixão. “Tínhamos uma forte presença dos leigos na comunidade. Então, improvisávamos uma celebração da Palavra, sem saber o Evangelho do dia, escolhíamos uma passagem e partilhávamos. Como não havia energia, fazíamos as procissões com velas e lanternas. Logo, outros municípios, vendo nossa mobilização, se juntaram a nós”, afirmou.

Para Luiz: “Era um laicato, talvez não consciente como hoje, até mesmo desinformado, uma vez que hoje temos mais acesso à informação, mas, ao mesmo tempo, vivia a fé e seguia o caminho de Deus. Não havia uma formação religiosa, evangélica, mas havia uma vida de fé, reproduzida nas coisas mais simples”, acrescentou.

A preparação para a luta

Em janeiro de 1954, aos 20 anos, Luiz Severino embarcou rumo ao Rio de Janeiro, em busca de melhores condições e, também, para completar o antigo ginásio e cursar o técnico em contabilidade.

Na cidade, ainda com poucos arranha-céus, ele foi acolhido como membro da Paróquia Cristo Redentor, em Laranjeiras. Morando em Santa Teresa, Luiz recebia a visita constante de congregados marianos que subiam o morro para rezar com os moradores. Em pouco tempo, Luiz, já casado, se tornou um deles.

Vítima de uma remoção, Luiz foi morar com a esposa no bairro de Ramos. Na nova casa, faltava tudo. “Mal tínhamos energia, a água vinha misturada com esgoto. A partir daí, passamos a nos informar sobre a questão da moradia”, comentou.

Era o ano de 1961, quando foi fundado o Estado da Guanabara, tendo José Sette Câmara Filho como primeiro governador e último prefeito do Distrito Federal. Já em 1961, Carlos Lacerda assume o poder e, com ele, surge um novo processo: a remoção de favelas. “Começou pelo Morro do Pasmado, em Botafogo. Houve uma resistência muito forte dos moradores. Eu não tinha nada a ver com a história, mas, mesmo assim, participava de todas as reuniões, muitas delas na Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio (Faferj), isso porque já se dizia que o conjunto habitacional em Ramos, onde eu morava, seria removido”, relatou.

Segundo Luiz, não demorou muito e a remoção em Ramos aconteceu. Porém, de maneira mais suave, ao contrário do que ocorreu no Pasmado, onde muitas pessoas foram retiradas à força e casas foram incendiadas. “Todos os moradores de Ramos foram cadastrados. Disseram que eu tinha o direito de visitar a casa oferecida, em Vila Kennedy, e decidir se eu queria ou não sair de onde estava. Muitas das pessoas removidas não tinham condições de sustentar uma casa nos conjuntos habitacionais construídos pelo Lacerda, a maioria era pescador, catador, como os que moravam na comunidade Maria Angu, na Maré”, disse.

Segundo Luiz, “Vila Kennedy era uma área ruralizada, onde o Lacerda resolveu construir casas para vender para o povo. Não tínhamos asfalto, precisávamos nos equilibrar no meio fio ou colocar sacolas nos pés para não sujar os sapatos, não tínhamos meios de transporte, muito menos mercados. Era preciso ir ao centro de Bangu para fazer compras. Foi quando, em 1964, começamos a nos organizar”, destacou.

Essa organização se deu da seguinte forma: cada rua tinha seu representante e um vice, que deveriam participar, mensalmente, de uma assembleia na qual debatiam os principais problemas de cada região. Dessa forma, o grupo conseguiu reunir 16 associações de moradores adjacentes à antiga Companhia Municipal de Transportes. Fizeram um documento relatando o descaso, principalmente quantos aos meios de transporte, e marcaram uma audiência com o secretário de Transportes do Rio. “O secretário levou um susto, pois ainda estávamos em período de ditadura militar”, lembrou.

Luiz também recordou que muitos sacerdotes, alguns deles missionários, lotados na Zona Oeste, lutaram pelos direitos do povo. “Tínhamos um grupo de padres muito bons, como os sacerdotes Nino Miraldi, José Melchiori, José dos Santos, Luiz Manoel, Rafael Nunes, João Cribbin que, juntamente conosco, criaram o grupo Terra e Habitação, que tratava dos conflitos de terras na região”, citou.

A luta no Vidigal

Em 1977, os 320 barracos até então existentes no Morro do Vidigal, em São Conrado, estremeceram com a notícia de que os moradores seriam removidos do local, devido a um suposto risco de deslizamento.

Foi então que, em meio ao desespero, um grupo de residentes buscou auxílio na Arquidiocese do Rio. “Nesse período, eu era membro da Pastoral Operária. Estávamos em reunião na Mitra, quando alguns moradores vieram pedir ajuda ao Cardeal Eugenio de Araújo Salles, que era arcebispo do Rio. Foi então que começamos a lutar com eles por essa causa. Construímos um grupo de resistência, não deixamos os moradores saírem. Enquanto isso, a arquidiocese organizou um grupo jurídico para tratar do problema”, narrou Luiz.

A Prefeitura apresentou laudos que comprovavam a falácia de que o morro corria risco de desabar. “Em contrapartida, Dom Eugenio também contratou engenheiros para a realização de um novo estudo, que confirmou que o morro estava mais firme que o Pão de Açúcar”, disse, entre risos.

A luta do Vidigal marcou o início da Pastoral de Favelas, fincada juntamente com a sentença do jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, dando a vitória aos moradores. Três anos depois, em 1980, a visita do então papa hoje São João Paulo II veio para selar a vitória da “solidariedade dos fracos que ficou forte diante dos poderosos”, conforme declarou Luiz.

A Pastoral

Há 41 anos, Luiz Severino atua como agente da Pastoral de Favelas. De acordo com ele, nada mudou desde a luta do Vidigal até os dias atuais. “Mesmo depois desse tempo, a realidade da remoção ainda existe. O grande problema é que o Rio não era tão cobiçado como hoje. A especulação imobiliária não tem mais espaço, então, eles vão às favelas e fazem de tudo para remover a comunidade e lá instalar um condomínio de luxo. Os pobres sempre ficam sem ter onde morar”, frisou.

Além da resistência diante das remoções, a Pastoral de Favelas realiza um trabalho de formação a cada três meses, nos quais são debatidos temas sociais, e os moradores são conscientizados quanto aos seus direitos à moradia, assegurados pela Constituição Federal e o Código Civil.

Para ele, que desde muito novo compreendeu a missão do laicato na sociedade, os leigos também necessitam de seu próprio espaço para, assim como o clero, fazer a Igreja crescer. “Nunca ouvi dizer que Jesus foi ordenado padre, Ele era um leigo, assim como os apóstolos. Existia uma comunidade, a qual deu início ao Cristianismo. Jesus criou sua comunidade, da qual todos nós, hoje, somos protagonistas, e somos chamados por Ele de amigos. Se o leigo não tiver seu espaço de participação efetiva, a Igreja não cresce. O leigo é aquele que caminha junto com o padre e a comunidade. Ser protagonista é ser corresponsável com a Igreja, que não se resume apenas ao templo, mas também é estendida à nossa casa e às demais atividades”, finalizou.

Foto: Carlos Moioli


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