Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 21º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/11/2017

23 de Novembro de 2017

Arquidiocese do Rio realiza “Fórum Social do Dia Mundial dos Pobres”

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23 de Novembro de 2017

Arquidiocese do Rio realiza “Fórum Social do Dia Mundial dos Pobres”

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11/11/2017 23:20 - Atualizado em 15/11/2017 11:20
Por: Flávia Muniz

Arquidiocese do Rio realiza “Fórum Social do Dia Mundial dos Pobres” 0

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Com o tema "Não amemos com palavras, mas com obras" (Jo 3,18) e norteado pela Carta Apostólica Misericórdia e mísera,do Papa Francisco, aconteceu o Fórum Social do Dia Mundial dos Pobres, no dia 11 de novembro, das 8h às 17h, no auditório nobre do Edifício João Paulo II, situado no bairro da Glória, zona sul do Rio. Dentre os membros do clero arquidiocesano, estiveram presentes: dom Joel Portella Amado, bispo auxiliar; monsenhor Paulo Celso Dias, bispo eleito e Coordenador da Pastoral Social; monsenhor Luiz Antônio Lopes, assistente eclesiástico da Pastoral das Favelas; e o Cônego Manuel Manangão, vigário episcopal para a Caridade Social, além de leigos, padres, religiosos e representantes de diversos movimentos pastorais e sociais.

Entre os debatedores, estavam representantes da Secretaria de Trabalho e Renda, do Conselho Estadual de Economia Solidária, da Federação Nacional dos Médicos, da Defensoria Pública do Estado, além de professores e diretores de instituições de ensino públicas e privadas. Foram desenvolvidos 4 eixos temáticos: educação, saúde, trabalho e renda, habitação e moradia, distribuídos em quatro mesas de debates. Apesar do dia chuvoso, cerca de 250 pessoas compareceram ao Fórum, cujo encerramento teve a presença do Cardeal Orani João Tempesta.

A pobreza como hipoteca humanitária

Na abertura, dom Joel Portella conduziu a oração inicial e apresentou o Dia Mundial dos Pobres segundo a perspectiva do Santo Padre, apresentada na Mensagem para o Dia dos Pobres, a ser celebrado no próximo dia 19 de novembro, na semana antecedente ao XXXIII domingo do Tempo Comum e à Solenidade de Cristo Rei.

O bispo auxiliar enfatizou que é muito decisivo e marcante que o Papa tenha criado não o "Dia Católico dos Pobres" mas, sim, o Dia Mundial dos Pobres: "É um papa que viveu a realidade de América Latina e das periferias de Buenos Aires (muitas das imagens que ele usa são retiradas da realidade de pobreza que ele conheceu), e  isso mostra que o Santo Padre percebe que a fé tem uma vinculação muito forte com a vida; e que viver a fé é viver como luz, sal e fermento, então, é interpelar o mundo todo, a partir do que nós fazemos".

Para dom Joel, a questão da pobreza é uma questão humana e que ultrapassou todas as questões: "os milhões de pobres - e estatísticas recentes mostram um salto de  1,5 para 2,6 milhões em 15 anos - são, hoje, uma hipoteca humanitária, que pesa sobre todos, e sobretudo, nas costas dos cristãos", declarou.

Encerrada a exposição do bispo responsável pelas pastorais sociais da arquidiocese, foi a vez da professora Andréa Clapp, da PUC-Rio, apresentar um painel da realidade dos pobres no Brasil, com estatísticas que, entre outros dados, mostram o crescimento da pobreza, de 2001 a 2017, de 1,5 milhões para 2,6 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, significa isso, pessoas c renda per capita de R$85,00 ao mês: "Segundo uma ONG britânica, oito pessoas no planeta possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial. E uma entre cada 10 pessoas vive com menos de US$2 por dia. Isso é a negação total da dignidade", enfatizou a professora.

Para ela, o Dia Mundial dos Pobres surge como espaço de profundo valor para o debate, e a arquidiocese promove uma missão espetacular para essa discussão, pois ela acredita que " acha-se natural ser pobre. É isso não é para ser assim. Há um acordo social de exclusão. Nossa luta, os debates, as ações, são para quebrar esse acordo, que é mundial", concluiu Andréa.

Os 4 eixos temáticos: educação, saúde, trabalho e renda, habitação e moradia.

O Fórum Social pelo Dia Mundial dos Pobres estruturou-se sobre quatro temas, distribuídos em mesas temáticas, sendo estes: educação, saúde, trabalho e renda, habitação e moradia. A partir desses temas 17 debatedores problematizaram a condição dos mais pobres, nessas dimensões, apontando perspectivas e possíveis soluções.

Na sequência, confira os destaques do I Fórum Social pelo Dia Mundial dos Pobres na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

1ª mesa: Educação

Mediados pelo Professor André Luis Barroso, diretor do Colégio Estadual Professor José de Souza Marques, os debatedores da mesa sobre Educação, abordaram o tema, analisando os aspectos da conjuntura atual brasileira, tais como: o papel da escola, a importância da família e os movimentos populares e comunitários.

E para o mediador, o Dia Mundial dos Pobres é mais uma oportunidade de reflexão: "O chamado não é novo, Jesus chamou há 2000 anos; Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida chamaram; e, agora, Francisco chama de novo", ressaltou.

José Geraldo Virgínio - Professor de Escola Pública

Segundo o professor Virgínio, "a cada realidade surgem desafios proporcionais. Tenho 30 alunos, então tenho 30 desafios. É preciso ter habilidade para lidar com isso, no âmbito das escola pública, com alunos em situação de pobreza. Cada aluno evadido, aliado ao desinteresse da família e o descaso das autoridades competentes, representa mais um jovem vulnerável a ingressar no sistema carcerário", disse.

O professor também teceu críticas à atual versão da Base Nacional Comum Curricular, em vias de ser homologada pelo MEC e sancionada pelo Presidente Michel Temer: "essa nova Base, não vejo com bons olhos, porque a LDB existente já é deficitária, e, a meu ver, a BNCC vai fomentar ainda mais que o aluno não consiga assimilar e formar-se cidadão. O aluno já é jovem demais para tomar decisões e, com a Base Curricular que se quer implementar, os alunos terão ainda mais aprofundada a crise de valores em que já estão mergulhados", pontuou o professor, graduado em Biologia.

Júlio Mendes de Assis - Mestre em Serviço Social - PUC-Rio

Assistente Social e Professor dos pré-vestibulares comunitários, Júlio explicou que após a constituição de 1988, com a redemocratização e reabertura política, surge uma parcela expressiva de jovens moradores de periferias e favelas que passam a estar em condições de igualdade para chegar ao vestibular: "a universidade é o espaço que melhor denúncia a desigualdade. O ex-ministro Joaquim Barbosa disse, certa vez, que quando entrava na sala de aula da UERJ, ele se sentia na Suíça e não no Brasil, porque só havia brancos."

Segundo Júlio, foi fundamental o papel da Igreja, com a participação dos jovens e agentes paroquiais, e também na concessão dos espaços das paróquias (salas de catequese) como salas de aulas. A dinâmica dos pré-vestibulares comunitários obedece a uma lógica de cooperação mutua, com pedagogia diferente dos 'prés' privados; instituiu-se a disciplina Cultura e Cidadania; possui uma organização de fácil multiplicação e  agrega diversas bandeiras, sendo "um movimento de movimentos (nordestinos, negros, mulheres, indígenas etc.) de busca por políticas públicas de acesso ao ensino superior, inclusive de adultos que alimentam o sonho de concluir seus estudos", explicou Júlio Mendes.

Neíte Bertine - Diretora de Escola Pública  

Diretora de instituição pública de ensino, a professora Neíte analisou o valor e perspectiva da educação a partir da família: "Nossa escola é pública, porém não é gratuita, pagamos impostos. No nosso mundo familiar a desigualdade impera. Precisamos pensar que nada vai acontecer senão fizermos acontecer antes na nossa família. É dentro de casa que nossas crianças aprendem a ser solidárias. Precisamos ensinar isso aos nossos filhos. Somos católicos praticantes, 'missantes',  e o que fazemos com isso?", indagou a professora.

 

2ª mesa: Saúde

Dirigidos pelo médico Dr. Pedro Pimenti Spinetti, presidente da Associação dos Médicos Católicos do Rio de Janeiro, os debates sobre saúde versaram em torno da necessidade de melhor esclarecimento aos mais pobres do que seja ter uma vida saudável, especialmente, a importância da prevenção e garantia desse direito fundamental: "Saúde não é só não estar doente, a Organização Mundial de Saúde define que a 'saúde é um completo bem estar físico, mental e social' do indivíduo - e poderíamos acrescentar, espiritual também - não apenas a ausência das afecções e enfermidades; e é muito mais do que um valor individual, saúde é um valor comunitário", resumiu o médico pós-graduado em Bioética.

Dr. José Antônio Alexandre Romano - Diretor da Federação Nacional dos Médicos

O médico sanitarista Dr. José Antônio Romano declarou que o Brasil tem a legislação mais avançada do mundo em questão de saúde, mas, segundo ele, a PEC dos gastos tornou ainda mais aguda a situação já precária da saúde no Brasil, vindo a aprofundar-se nos próximos 20 anos: "Os hospitais federais não existem mais para o governo federal (...) E nos últimos 10 anos, houve um esvaziamento dos Conselhos Municipais de Saúde e uma perda de empoderamento dessas Entidades, porque os governos negligenciavam as decisões, isso quando não eram desconstituídos e recompostos os Conselhos conforme os interesses estatais; assim, não há mais plenárias nem ações de reação. Se não fosse a Igreja com seus mecanismos de ação pastoral, a situação da saúde estaria muito pior", admitiu José Antônio.

Claudia Meneses da Silva - Coordenadora Técnica do Programa Consultório na Rua

Representante da Secretaria Municipal de Saúde, Cláudia Meneses esclareceu que o Consultório na Rua está inscrito no nível de assistência primário, realizado pelas equipes das Clínicas da Família, nas Unidade de Saúde, que oferecem serviços nas ruas, realizando busca ativa das doenças, especialmente: DSTs/AIDS, hepatites virais, dermatoses e dependência química (álcool e drogas); saúde bucal, às populações em situação de rua, conforme o Decreto 7053, de 23 de dezembro de 2009, segundo o qual "considera-se população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória." (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d7053.htm).

As ações do Consultório na Rua visam atuar na perspectiva de redução de danos, mediante a garantia de direitos e melhoria da qualidade de vida, através da articulação com as ações sociais e políticas públicas: "Existe uma itinerância muito grande, isso requer uma relação de sensibilização e criação de vínculo e afeto. Mas depende do olhar que se tenha: há quem olhe um ipê e diga 'que lindo!'; há um outro que olha e diz 'mas faz muita sujeira!' " - lamentou Cláudia.

Monsenhor Paulo Celso Dias do Nascimento - assistente eclesiástico da Pastoral da Saúde e bispo eleito.

Refletindo sobre a realidade do pobre e enfermo, Monsenhor Paulo Celso, recém eleito bispo auxiliar, recordou as palavras de dom Luciano Mendes de Almeida, que, segundo ele, dizia sempre "em que eu posso ajudar?"

"Quero valorizar aqui todos os voluntários da Pastoral da Saúde, desde os médicos, até as pessoas mais simples do povo, que se doam; como dom Antônio Augusto diz "cada hospital é uma usina nuclear". Para mim, cada leito é um sacrário. Ali, Jesus está. O irmão enfermo também representa uma bênção para nós. Peço que nenhum enfermo fique sem um gesto de carinho", disse. Para o bispo eleito, "é preciso dar atenção às periferias existenciais, que é a somatização das angústias do nosso tempo", disse. E ressaltou  o trabalho de grupos que atuam nessa dimensão, citando entre eles: grupo de autoajuda  a mulheres traumatizadas por perdas; os Servos da Alegria e o Carinhas Felizes, que levam esperança e razões para sorrir.

E concluiu com versos do poeta Tagore: "Adormeci e sonhei que a vida era alegria. Despertei e vi que a vida era serviço. Servi e vi que o serviço era alegria".

3ª mesa: Trabalho e Renda

Professora Valéria Bastos - Assistente Social - PUC-Rio

A Assistente Social e professora Valéria Bastos destacou que "pobreza é um fenômeno estrutural, não é mera insuficiência de renda, mas resultado da desigualdade." Problematizou o tema, a partir da entrada em vigor - nesse dia 11 - da nova lei trabalhista (Lei 13.467, de 13/07/2017), que aponta mudanças efetivas na relação entre trabalho e geração de rendimentos. E traçou um arco desde a Revolução industrial, passando pelo chamado Fordismo do início do século XX, que gerou o pleno emprego, e foi substituído pelo atual Toyotismo, com a automação dos serviços e substituição da mão de obra, gerando a reestruturação produtiva no mundo do trabalho:

"Na época do chão de fábrica tinha espaço para todo mundo, desde o que lavava o chão, passando pelo que fazia a prensagem, até o que era responsável pela gestão; hoje, a reestruturação produtiva ou 'toyotismo' extingue postos de trabalho, devido à automação dos serviços. Um exemplo: a atividade de ascensorista, que nós víamos, até bem pouco tempo, ser exercida inclusive por pessoas com necessidades especiais, hoje é automatizada", ressaltou Valéria, que é pesquisadora dos núcleos de catadores e cooperativas de reciclagem.

Apontando alternativas a este cenário, disse  haver "a necessidade cada vez mais urgente de organização e desenvolvimento de autogestão desses grupos, com capacitação do quadro de associados; de implementação de política de acesso à securidade social; de inserção dos trabalhadores no viés da economia solidária, para garantir trabalho e geração de renda", concluiu.

Ana Asti - Representante da Organização Mundial de Comércio Justo

A Organização Mundial do Comércio Justo teve início na década de 60 do século XX, com o padre holandês (sigla em inglês WFTO), Frans van der Hoff, que em suas observações da injusta precificação do café junto aos produtores em Orraca, no México, e as incoerências na cadeia produtiva, basicamente devido aos atravessadores, desenvolveu um sistema de economia solidária, mediante a justa precificação e comercialização direta dos produtos.

Representante dessa Organização e diretora de Economia Solidária e Comércio Justo da Secretaria de Desenvolvimento Econômico Solidário, Ana Asti mostrou que "mediante o conhecimento das regras de mercado e a organização em cooperativas, foi possível quebrar o ciclo dos atravessadores. As igrejas se tornaram os primeiros núcleos para o escoamento da produção, organizando as cooperativas, sempre aproximando quem produz de quem consome, evitando, assim, que o dinheiro fique, em grande parte, nas mãos de atravessadores, que encarecem o valor dos produtos para o consumidor final", explicou Ana Asti.

Ela deu como exemplo bem sucedido a Rede Dom Helder Câmara de Economia Solidária, que é um organismo da Arquidiocese do Rio de Janeiro e foi criada para apoiar e fortalecer os grupos de geração de emprego e renda criados sob a inspiração do Evangelho e da ação solidária da Igreja no Rio. Para ela, os agentes pastorais "têm um potencial gigantesco, porque estão com o pé dentro das comunidades, atendem todo um público que pode se beneficiar da economia solidária e do comércio justo", finalizou.

Professora Maria das Graças Siqueira da Rocha - do Movimento Focolares e da Comissão de Economia de Comunhão no Rio de Janeiro

A Economia de Comunhão é um projeto inspirado pela fundadora do Movimento dos Focolares, Chiara Lubich. Segundo Maria das Graças Siqueira da Rocha, membro da Comissão de Economia de Comunhão, a proposta é convocar os empresários e conscientizá-los a considerar o lucro como um meio e não como um fim, objetivando três finalidades: (1) pensar no irmão que precisa, não de um assistencialismo, mas de elevar-se dignamente na realidade social, por isso, o foco é a reinserção no mercado de trabalho; (2) a formação desse empresário, no sentido de pensar no outro, a viver - também no campo empresarial - o "amai-vos uns aos outros", como ensinou Jesus; (3) possibilitar à empresa aplicar, nela mesma, uma política inclusiva de criação de postos de trabalho, como forma de colaborar com o irmão que precisa de quem o reconheça e o inclua. A economia de comunhão é, em síntese, a mensagem do Evangelho inculturada na economia e na dinâmica empresarial.

"Em fevereiro deste ano tivemos um encontro com o Papa Francisco, que quis conhecer a Economia de Comunhão, e ele nos encorajou a continuarmos 'a ser semente, sal e fermento de outra economia, a economia do Reino, na qual os ricos sabem compartilhar as suas riquezas e os pobres são chamados de bem-aventurados' ", concluiu Maria das Graças, citando as palavras do Santo Padre.

 

4ª mesa: Habitação e Moradia

Itamar da Silva - Jornalista e ex-agente da Pastoral de Favelas

O Jornalista Itamar Silva abordou o tema das favelas e o drama das remoções chamando-o de "um assunto atual e, ao mesmo, tempo muito antigo, porém a grande dificuldade é que a sociedade brasileira não enfrenta a desigualdade na qual se deu a formação da sociedade brasileira, há uma resistência muito grande de incorporar os pobres nessa formação e de olhar o quanto de injustiça é produzida ao longo da história".

Coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Itamar analisou a situação da falta de moradia para os mais pobres desde a chegada da Família Real ao Brasil, quando, então, sequer havia esse questionamento, já que a senzala era o lugar dos pobres, em sua maioria negros:

"Cada vez mais os pobres vão sendo empurrados para a periferia e os subúrbios, e a burguesia concentra-se na zona sul, isso foi no contexto de comemoração dos 100 anos da Independência. Faço questão de citar isso, para mostrar a relação direta dessas remoções com contextos de grandes acontecimentos (como, hoje, as olimpíadas e os grandes eventos), e que são marcados por penalizar sempre os mais pobres. Atualmente, vemos a periferização da zona oeste, para a construção dos grandes espaços culturais", denunciou.  Segundo ele, essa mesma lógica ainda está presente no programa "Minha Casa, Minha Vida": "embora o programa tenha, sem dúvida, diminuído em parte o déficit habitacional, no entanto, confiou-se ao mercado a definição da escolha dos locais, e vemos que se repete a lógica da periferização da pobreza", concluiu Itamar.

Adriana Magalhães - Defensora Pública - NUTH

O Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) é um órgão especializado em defesa da habitação, do direito ao território da classe trabalhadora e excluída historicamente. Trabalham, basicamente, com a realidade de favelas e em prol do direito coletivo à moradia em três tipos de demandas diferentes: comunidades consolidadas sem risco de remoção; comunidades consolidadas, mas com ameaça de remoção por diversos motivos; e comunidades recentes, que fizeram uma ocupação, organizada ou não", explicou Adriana. O NUTH realiza também o trabalho de regularização nas comunidades consolidadas, para garantir a posse por usucapião.

Para ela, há na verdade,"um preconceito ideológico em relação à moradia para os mais pobres, a posse nunca foi considerada como um direito em si; e o pretexto para remoções é sempre o risco de dano ambiental. Não raro, peritos do juízo desmontam esses laudos, porém a desqualificação desse direito que é previsto pela Constituição Federal é uma constante", concluiu.

Luiz Severino  - Agente da Pastoral de Favelas

O agente da Pastoral de Favelas Luiz Severino recordou as três décadas da ditadura militar, vividos na Argentina pelo então Cardeal Jorge Mario Bergoglio. Segundo o Luiz, essa experiência forjou a opção preferencial de Francisco pelos pobres, sendo reafirmada nas sucessivas Conferências Episcopais das quais tomou parte, sobretudo a de Aparecida, em que foi coordenador do comitê de redação do documento final.

"A exemplo de Jesus, oriundo região de grande concentração de pessoas necessitadas (Nazaré da Galileia), a Igreja, através das CELAMs de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, apresenta os pobres não como assistidos, mas como protagonistas  de uma Igreja que caminha para a libertação de todos", disse.

Monsenhor Luiz Antônio Pereira Lopes - Coordenador da Pastoral de Favelas

Avaliando o êxito do Fórum Social, monsenhor Luiz Antônio disse ver com alegria e otimismo a realização do Encontro, pois, segundo ele, "as pessoas manifestam sempre a sua confiança na Igreja Católica, que tem realmente um papel muito importante e uma capacidade ímpar de juntar pessoas de pensamentos e condições sociais diferentes, para dialogar".

Ainda no clima de comemoração dos 40 anos da Pastoral de Favelas, da qual é coordenador, monsenhor Luiz Antônio se emocionou profundamente ao falar que o Fórum revelou quantas pessoas boas existem:

"Homens e mulheres de boa vontade, que querem servir, que amam muito o próximo, mesmo num contexto em que a indiferença e o individualismo reinam, e quando é grande a destruição da família e dos movimentos sociais; mas este Fórum, na Semana da Caridade, em preparação ao Dia Mundial dos Pobres, é uma porta da Igreja. Muitos de nós somos de famílias pobres e foi a Igreja que abriu as portas para que nós chegarmos à formação que temos. Então, é hora de sermos Igreja, não apenas com palavras, mas como o Papa pede, em atitudes, do lado dos mais pobres e trabalhar pela construção de uma cidade melhor e de um mundo mais justo e fraterno", finalizou.

Cônego Manuel Manangão - Vigário Episcopal para a Caridade Social

Para o Vigário Episcopal para a Caridade Social, cônego Manuel Manangão, "a fabulosa intuição do Papa de recolocar no centro da vida da Igreja, próximo do encerramento do ano litúrgico, o olhar para aqueles que devem receber uma atenção mais insistente, é reafirmar uma opção que a Igreja faz, primeiramente, pelas pessoas."

Para ele, quando a Igreja explicita isso, na sua doutrina e no seu Magistério traz de volta aquilo que Jesus Cristo tantas vezes falou e que, de uma forma tão sábia, o Papa Bento XVI disse sobre o serviço da caridade para com os mais pobres, ser um pilar da vida da Igreja.

Sobre o Fórum Social, ele avalia que "os temas, transpassados como foram pelas dimensões da ética, da política, da violência, que são constantes hoje, compõem quase uma radiografia daquilo que hoje é a situação dos mais pobres na Cidade do Rio de Janeiro", resumiu padre Manangão.

Dom Orani

Marcando o encerramento do Fórum Social, o arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, declarou ser esta uma ocasião para refletir em que a Igreja do Rio de Janeiro tem convergido para o que é realmente evangélico.

"A Igreja, através dos séculos, sempre marcou presença junto aos pobres, particularmente em nossa arquidiocese, ao longo de sua história, pelo trabalho de ícones como dom Helder Câmara. O Dia Mundial dos Pobres se acopla à Semana da Caridade, realizada pela Caritas Internacional. Foi instituído pelo Papa Francisco, que nos propõe uma semana de reflexões em torno da realidade dos pobres e da pobreza. Assim, incentivamos esse Fórum, para que se aprofundassem esses assuntos, isto é, a realidade dos que o Papa chama de "os descartados". Os problemas são muitos maiores do que as soluções, mas devemos ser Igreja, sentir com e como Igreja, a fim de buscá-las em unidade", concluiu.

O Fórum teve ainda a apresentação do coral "Uma só voz", formado por pessoas em situação de rua. E o grupo cultural da Paróquia Cristo Rei, sob a coordenação do pároco, padre Niraldo Lopes de Carvalho, fez uma performance com música e a declamação dos versos da canção "Eu só peço a Deus", de autoria do compositor gaúcho Raul Ellwanger e imortalizada na voz da intérprete argentina Mercedes Sosa.

Veja também a programação nos vicariatos:

>> Arquidiocese promove o Dia Mundial dos Pobres: ‘uma Igreja em saída’

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Fotos: Carlos Moioli

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