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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/11/2017

23 de Novembro de 2017

Ética, moral e gratidão marcam o encerramento da Semana da Filosofia

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23 de Novembro de 2017

Ética, moral e gratidão marcam o encerramento da Semana da Filosofia

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20/10/2017 18:50 - Atualizado em 20/10/2017 18:56
Por: Flávia Muniz

Ética, moral e gratidão marcam o encerramento da Semana da Filosofia 0

Encerrou-se nesta quinta-feira, 19, a XXVIII Semana da Filosofia, do Seminário Arquidiocesano de São José, tendo como temática do dia a ética na educação. As palestras versaram sobre a atual definição de ética nos parâmetros curriculares (PCNs) e a relação ética x moral na educação contemporânea. Os temas foram desenvolvidos pelo professor de História Thomas Giulliano, autor do livro "Desconstruindo Paulo Freire" e do blog "historiaexpressa", e pela professora Maria Judith Sucupira, Filósofa e Doutora em  Educação (UFRJ).

O professor Giulliano realizou a primeira palestra, intitulada "A definição da ética segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais", demonstrando que a história da educação, no Brasil, é compreendida no arco de José de Anchieta a Paulo Freire. O professor, no entanto, contextualizou os PCNs na chamada  Era Vargas - mais precisamente o Estado Novo (1937-1945) - período no qual é criado o Ministério da Educação(1930), e sendo a proposta da LDB citada, pela primeira vez, na Constituição de 1934.

Giulliano salientou que os PCNs antecedem às LDBs, já que estas dizem respeito às disciplinas, e aqueles ao professor, do qual exigem que deva "ler o contemporâneo", incluindo "tanto os domínios do saber tradicionalmente presentes no trabalho escolar quanto as preocupações contemporâneas com o meio ambiente, com a saúde, com a sexualidade e as questões éticas relativas à igualdade de direitos, à dignidade do ser humano e à sua liberdade". É a chamada "prática educacional baseada em Temas Transversais... Ética, Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde e da Orientação Sexual", como refere o documento.

Entretanto, para Giulliano, trata-se de uma prática educacional tal como pensada por Paulo Freire, ou seja, a partir de uma linha socioconstrutivista 'à brasileira', em que "o aluno deve perceber-se integrante, dependente e transformador do ambiente. É a visão paulofreiriana de realidade, segundo a qual não importa quem você é, mas o que você pode construir", explicou. Para Thomas Giulliano, o aclamado "Patrono da Educação Brasileira" retirou a noção de "hospedeiro" em Marx, referente ao proletariado, e a inseriu em sala de aula, adequando-a ao alunado, que, ao "tomar consciência", passa a ser um "agente transformador".

Neste ponto, Giulliano criticou os PCNs por não oferecerem background, isto é, não são fornecidas referências bibliográficas, não é possível saber a que se remete o texto do documento ao apresentar certas definições, e todavia, é possível reconhecer, nessas orientações, pressupostos oriundos, por exemplo, do Manifesto Comunista de Karl Marx acerca do conflito de militância. Essa é, segundo o professor Thomas, a noção de ética preconizada nos parâmetros: "Os PCNs são mais perigosos, porque são abstratos; neles, a ideia de consciência antecede a de família. No espaço escolar, segundo os PCNs, a ética é para questionar os valores consagrados pela tradição e pelos costumes, sob gerenciamento do Estado. Não há escola laica, e sim laicista", advertiu.

E concluiu, dizendo ser necessário que todos compreendam que "essas pautas contemporâneas de doutrinação, de sexualização nas escolas, são pautas velhas. Um exemplo é que inúmeros livros contemporâneos sobre sexualidade foram prefaciados ainda por Paulo Freire. O que temos feito hoje é nadar contra uma maré de longo prazo. E estamos muito atrasados, somos náufragos, na verdade." E apontou a autoformação, o estudo contínuo, como caminho para mudar o atual cenário: "Se estourar uma guerra, eu não tenho condições de dirigir um tanque. Assim também, estudar é fundamental, antes de se engajar em ações concretas", finalizou.

Homenagem

Os alunos do Seminário Arquidiocesano e o corpo docente, representados pelo padre reitor Cônego Leandro Câmara, prestaram homenagem à professora Marcia, que há 22 anos leciona língua francesa aos seminaristas, colaborando, assim, no processo formativo dos futuros Sacerdotes da arquidiocese. Cônego Leandro Câmara enalteceu a atuação da mestra que, nesses anos de dedicação ao seminário, "foi mais do que professora. Ajudou a formar padres e bispos. Foi conselheira, quando muitos estavam em crise e duvidosos quanto à sua vocação; doava seu tempo, muito além da sala de aula. E foi, sem dúvida, num espaço predominantemente masculino, a presença feminina que se fez também materna a quantos disso precisaram", ressaltou o reitor.

Para a professora, carinhosamente chamada de "Madame Márcia", as palavras dirigidas pelo padre reitor não foram para ela, mas para todos que têm o privilégio, a graça e a alegria de chegar ao seminário, pois sendo a casa de José é, também, casa de Maria e de Jesus. "Aqui, entre os bispos, seminaristas e reitores, só tive felicidade, bondade e muito carinho. Digo que trabalhar aqui foi a 'cereja do bolo' da minha profissão. Foi um presente de Nosso Senhor". Referindo-se aos alunos, disse: "Neste seminário, encontram-se "plantas" raríssimas, que precisam ser cultivadas com muito amor. Dos que deixaram o seminário, digo: São José ficou com eles, saíram, mas levaram no coração uma semente preciosa", disse emocionada a professora.

Ética e moral na Educação

Ocupante da cadeira Tobias Barreto, na Academia Brasileira de Educação, a professora Maria Judith Sucupira foi a última palestrante dessa edição da Semana de Filosofia, abordando o tema "A relação ética x moral no processo educacional". Ela iniciou, lembrando que o ensino da Moral, no Brasil, é um legado ainda do período republicano, "instituído na primeira lei da Educação, por Benjamin Constant, em 1889; posteriormente, em 1964, o regime militar se apropriou e instituiu a disciplina 'Moral e Cívica' como 'espaço de propaganda'", explicou a pedagoga.

Alinhada com o tema desenvolvida pelo professor Thomas Giulliano, Maria Judith demonstrou que os PCNs utilizam da ética para o que se deva usar com as crianças: "É uma imposição. Não é do âmbito da criança a palavra ética, que, atualmente, está muito longe do sentido original, inclusive porque 'ética', tem origem no grego 'ethos', e moral, é do latim 'morus', já nisso se vê que são ideias diferentes", pontuou.

Para ela, a ética está associada ao exercício das virtudes, o que, no grego, é entendido como 'excelência': "a ética pretende uma excelência de vida rumo à felicidade", disse. A expressão, segundo ela, foi, primeiramente, utilizada por Homero, significando a excelência de uma habilidade física (referia-se aos pés do corredor vencedor). Mais tarde, com os pré-socráticos e Aristóteles, assumiu a acepção tal como a filosofia a entende.

Maria Judith, por seu turno, postula que a ética consiste "numa reflexão profunda, que visa a compreender o ser humano no que há de sublime, a partir de manifestações culturais, tradicionais e, principalmente, universais", pontuou. Por isso, segundo ela, "ninguém nasce ético, é preciso que alguém lhe ensine. Para a criança, por exemplo, justiça é a satisfação, pura e simples, dos seus desejos. Ora, isso precisa ser corrigido, orientado. Mas, há por aí, em algumas universidades, uma 'novidade novidadeira', de que criança filosofa", ironizou Maria Judith, para quem, atualmente, "grassa um relativismo cada vez mais absurdo e forte, que define o  'ético', como sendo 'o consenso originado do discurso de um determinado grupo, e que passa a ser entendido como 'certo'. Nós, porém, propomos o certo e o errado; o bem e o mal; o verdadeiro e o falso; o belo, o bom e o verdadeiro são princípios fundamentais para se que proponha uma Educação ética", afirmou.

A partir dessas noções, Maria Judith expôs algumas de suas linhas de orientação pedagógica, dizendo que, em seus grupos de trabalho e pesquisa em pedagogia, orienta e realiza a iniciação das crianças nas quatro virtudes iniciais: a temperança, a perseverança, a justiça e a amizade: "pesquisas mostram que é possível, já aos 6 meses, a criança ser iniciada na distinção do certo e do errado e nas virtudes da amizade e da prudência", observou a professora.

Ela recordou também a noção kantiana, segundo a qual "a educação deve tender para a perfeição do homem, enquanto homem". E defende que a educação é teleológica, isto é, aponta para uma meta, uma finalidade específica e explícita (não implícita), tem um ideal, um "telos" (alvo, destino): levar o educando a ser ético, autônomo, que desenvolva todas as qualidades. No entanto, "o adolescente, hoje, é cada vez menos capacitado ao raciocínio lógico-abstrato. Há um processo em curso de mediocrização do alunado. As escolas estão cada vez mais falhando em ética, já não se corrigem atitudes antiéticas, e há professores omissos, porque tiveram uma formação desvirtuada na sua graduação", asseverou a Maria Judith.

Ao concluir sua exposição, a professora recordou que a educação é, necessariamente, normativa, e, por extensão, a ética  é prescritiva, como a medicina: "tome o antibiótico, senão você não se cura; o educador tem um 'telos', deve apontar o certo e o errado, evitando, contudo, a rigidez dialética", finalizou. 

A avaliação da XXVIII Semana de Filosofia

Para o vice-coordenador da Semana de Filosofia, o seminarista Ellber Lima - aluno do 2º ano de Filosofia - a Semana superou todos os objetivos. Nos anos anteriores, o evento trazia assuntos de cunho religioso. Este ano, os seminaristas inovaram e ousaram, trazendo temas da atualidade, polêmicos e de interesse social, sobre os quais muitos ainda têm receio de falar:

"Tratamos de ética na medicina, no jornalismo, na política, na educação. Ousamos trazer palestrantes de diversas universidades, até de outros estados, e de alto nível acadêmico. E, nesse ano, fizemos, ao final de cada dia, uma pesquisa com os participantes, e todos elogiaram muito a iniciativa", resumiu.

Para o seminarista, no atual contexto, tão permeado por ideologias, é importante resgatar o sentido original da ética, do que é e não é ético: "somos seminaristas e seremos formadores de opinião, por isso queremos resgatar a ética pura, sem nenhuma visão politicamente incorreta e sem devaneios", concluiu.

Leia mais:

Ideologia e guerras culturais são tópicos do primeiro dia da Semana de Filosofia

Ativismo judicial pró-aborto e bioética são temas do 2º dia da Semana de Filosofia

 

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