Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14/12/2017

14 de Dezembro de 2017

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

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14 de Dezembro de 2017

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

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11/10/2017 18:43 - Atualizado em 11/10/2017 18:48
Por: Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Nossa Senhora da Conceição Aparecida 0

Nossa Senhora da Conceição Aparecida / Arqrio

(300 anos - 1717-2107)
O tricentenário da fé, da devoção e da evangelização sob a tutela de Maria!

O tricentenário da fé, da devoção e da evangelização sob a tutela de Maria!

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés. Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna (São Bernardo).

            O Brasil acordou no dia 12 de outubro de 2017 ainda mais retumbante, munido com uma alegria particularmente filial e de intensidade límpida em relação a Beata Sempre Virgem Maria, cognominada Nossa Senhora Aparecida! No coração dos brasileiros e católicos urge cantar e louvar a Mãe do Senhor, na passagem dos 300 anos de sua aparição nas águas do rio Paraíba.

Em todas as dioceses do Brasil, em suas diversas agremiações, paróquias e movimentos, graças à proclamação do ‘Ano Mariano’, congregou-se, numa só voz , o sabor dos louvores a Mãe de Deus e nossa. Sua imagem peregrinou vitoriosamente entre catedrais e capelinhas rurais, espalhadas por todo este imenso país. Festejou-se em sua passagem, sempre rico de eventos do coração, de milagres e folguedos, o afeto que sua presença sempre nos causa.

A celebração dos 300 anos é uma grande ação de graças. Todas as dioceses do Brasil, desde 2014, se preparam, recebendo a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, que percorre cidades e periferias, lembrando aos pobres e abandonados que eles são os prediletos do coração misericordioso de Deus.

            Mas em tempos foscos e tão carregados de ideologias estranhas, de compromissos redutores (politicamente corretos) que tanto afetam nossa pregação e ação pública, e considerando, sobretudo, a urgente e a nobre tarefa do Diálogo Ecumênico, a pretexto da passagem de mais um lustro da aparição brasileira da Virgem, não estaríamos extrapolando a identidade cristã ao considerarmos com tal ênfase o papel a Virgem Maria, não estaríamos colocando em perigo nossa verdadeira e imprescindível missão: o culto e seguimento, exclusivo, a Cristo?

            De que maneira nosso culto e devoção a Virgem Maria, por ocasião e a propósito das celebrações do Tricentenário de Aparecida (1717 -2017), nos colocam a necessidade de refletirmos sobre a validade de nosso comportamento pessoal (devoção) e eclesial (liturgia) em relação a Mãe de Deus e nossa? Onde encontraríamos alguns marcos modernos para avaliarmos, serena e aprofundadamente, estes questionamentos sobre o Ano Mariano e a devoção a Virgem?

            Nosso intento é recordar, após 43 anos (1974), o forte posicionamento mariológico do Papa do Concílio Vaticano II, em seu encaminhamento após a desaparição do saudoso Papa João XXIII, e que por isso teve a difícil tarefa de acompanhar a sua justa recepção em tempos muito difíceis, de contestação e crise de identidades, o memorável Beato Papa Paulo VI na Exortação Apostólica“Marialis Cultus” (1974).

            Queremos, por fim, após breve passagem pelos eixos principais da Exortação Apostólica “Marialis Cultus”, que buscou esclarecer a presença da Virgem na Liturgia e na vida e prática devocional da Igreja, alcançar também, a mensagem forte do Documento de Aparecida(2007), expressão do episcopado latino-americano e do Caribe, em comunhão com toda a Igreja (presidido então pelo Santo Padre emérito, Bento XVI), que, sugestivamente, foi celebrado nos âmbitos da terra de Nossa Senhora da Conceição Aparecida:

Maria, Mãe de Jesus Cristo e de seus discípulos, tem estado muito perto de nós, tem-nos acolhido, tem cuidado de nós e de nossos trabalhos, amparando-nos, como a João Diego e a nossos povos, na dobra de seu manto, sob sua maternal proteção. Temos pedido a ela, como mãe, perfeita discípula e pedagoga da evangelização, que nos ensine a ser filhos em seu Filho e a fazer o que Ele nos disser (cf. Jo 2,5).

            Para o cristianismo, a veneração da Virgem Maria é um exercício filial desde as primeiras horas de sua existência, com matizes e tons diferentes em cada época, mas com igual intensidade e certeza de estar em sintonia com o Evangelho do Filho (pedagoga da evangelização).

I. Marialis Cultus (Beato Papa Paulo VI – 2 de fevereiro de 1974)

Desde quando fomos assumidos para ocupar a Cátedra de Pedro, esforçamo-nos, constantemente, por dar incremento ao culto mariano, não apenas com o intuito de interpretar o sentir da Igreja e o nosso pendor pessoal, mas também porque ele, como é sabido, se insere, qual parte nobilíssima, no contexto daquele culto sagrado, em que vêm confluir a culminância da sapiência e o vértice da religião, e que, por conseguinte, é dever primário do Povo de Deus.

            O Beato Papa Paulo VI após o Concílio Vaticano II, com diversas ordenações, incrementava o culto e a figura da Virgem, no momento em que, em nome de certa ‘centralidade’ cristológica, parecia necessário diminuir o brilho e a relevância do culto a Santíssima Virgem Maria:

O desenvolvimento, por nós auspiciado, da devoção para com a Virgem Maria, inserida, conforme acima aludimos, no álveo do único culto que, com razão e justeza, é chamado "cristão", pois de Cristo se origina e assume eficácia em Cristo, encontra completa expressão e por meio de Cristo, no Espírito, conduz ao Pai, é elemento qualificante da genuína piedade da Igreja. Por uma necessidade íntima, de fato, essa piedade reflete, na prática cultual, o plano redentor de Deus; pelo que, ao lugar singular que coube a Maria em tal plano, corresponde também um culto singular para com ela (LG 66); como, ainda, a todo o progresso autêntico do culto cristão segue-se necessariamente um correto incremento da veneração para com a Mãe do Senhor. De resto, a história da piedade demonstra que "as diversas formas de devoção para com a Mãe de Deus, que a Igreja aprovou, dentro dos limites da doutrina sã e ortodoxa" (LG 66) se desenvolvem em subordinação harmônica ao culto de Cristo, e gravitam à volta deste, qual ponto de referência natural e necessário das mesmas. Também na nossa época assim sucede. A reflexão da Igreja contemporânea, sobre o mistério de Cristo e sobre a sua própria natureza, levou-a a encontrar, na base do primeiro e como coroa da segunda, a mesma figura de mulher: a Virgem Maria, precisamente, enquanto ela é Mãe de Cristo e Mãe da Igreja. E o acrescido conhecimento da missão de Maria transmutou-se em veneração repassada de alegria, para com ela, e em respeito de adoração para com o sapiente desígnio de Deus, que colocou na sua família - a Igreja - como em todo e qualquer lar doméstico, a figura de uma mulher, que, escondidamente e em espírito de serviço, vela pelo seu bem e "benignamente" protege, na sua caminhada em direção à pátria, até que chegue o dia glorioso do Senhor".

            O Beato Paulo VI chamava a atenção para a ‘necessidade íntima’ de estabelecer legames sólidos entre o culto a Cristo, isto é, a Liturgia e a autêntica devotio mariae na Igreja. A saber, o lugar e as modalidades da Veneração a Virgem no conjunto do ano litúrgico, como também no conjunto dos atos devocionais, de popular e autêntica piedade mariana.

Por uma necessidade íntima, de fato, essa piedade reflete, na prática cultual, o plano redentor de Deus; pelo que, ao lugar singular que coube a Maria em tal plano, corresponde também um culto singular para com ela (LG 66); como, ainda, a todo o progresso autêntico do culto cristão segue-se necessariamente um correto incremento da veneração para com a Mãe do Senhor.

            Nesta argumentação, Paulo VI afastava a falácia de uma concorrência indesejável entre o incremento da devoção mariana e a fé em Cristo, seu Filho.

E se os anos 70 marcavam o intenso interesse ecumênico oriundo do próprio Concílio, era preciso, ao mesmo tempo, distinguir as coisas e atitudes autênticas que nos aproximavam uns dos outros e a ameaça (sempre real) da perda de elementos essenciais da identidade católica, silhueta imprescindível no estabelecimento de um sadio e correto diálogo com os irmãos da reforma. Eram tempos que, segundo Paulo VI, ‘podiam provocar em alguns uma desorientação momentânea’:

Nos nossos tempos, as mudanças que se operaram nos costumes sociais, na sensibilidade dos povos, nos modos de expressar-se da literatura e das artes e nas formas de comunicação social, influíram também sobre as manifestações do sentimento religioso. Certas práticas cultuais, que em tempos não distantes pareciam aptas para exprimir o mesmo sentimento religioso dos indivíduos e das comunidades cristãs, aparecem hoje como insuficientes e inadequadas, porque ligadas a esquemas socioculturais do passado, ao mesmo tempo que, em muitas partes, se vão buscando novas formas expressivas da imutável relação das criaturas com o seu Criador, dos filhos com o seu Pai. Ora, isto pode provocar em alguns uma desorientação momentânea; no entanto, quem com espírito confiante em Deus refletir sobre tais fenômenos descobrirá que muitas tendências da piedade contemporânea, a interiorização do sentimento religioso, por exemplo, estão destinadas a concorrer para o progresso da mesma piedade cristã em geral, e da piedade para com a Virgem Santíssima em particular. Deste modo, a nossa época, no atender fielmente à tradição, e ao considerar atentamente os progressos da teologia e das ciências, contribuirá para o louvor daquela, a quem, segundo as suas proféticas palavras, haveriam de chamar bem-aventurada todas as gerações (cf. Lc 1,48).

            As mudanças no modelo da Igreja, isto é, as eclesiologias pós-conciliares, também apontavam para superações de exageros. Era hora de deixar para trás as  mariolatrias, camufladas em comportamentos de resistências tradicionalistas, ao mesmo tempo em que se reinseria de modo inequívoco, através da fundamental Constituição Dogmática “Lumem Gentium”, a figura da Virgem, como ‘Mãe e Modelo da Igreja’.

O nosso mediador é só um, segundo a palavra do apóstolo: "não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos (1 Tim. 2, 5-6). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece” (LG 60).

            A liturgia cristã, reorientada pela Constituição Dogmática “Sacrossanctum Concilium”, garantia, sem peias, um lugar adequado e digno da Virgem no conjunto do Ano Litúrgico, como se, através do Mistério Pascal do Filho, acedêssemos, reciprocamente, aos frutos do Mistério Virginal da Mãe, visitados e saboreados ao longo do calendário anual:

Quando a liturgia, depois, volve o seu olhar quer para a Igreja primitiva, quer para a contemporânea, aí encontra, amiúde e sem esforço, Maria: nos primórdios, como presença orante, juntamente com os apóstolos;(21) mais proximamente, como presença operante, juntamente com a qual a Igreja quer viver o mistério de Cristo: "Dai à vossa Igreja, unida a Maria na paixão de Cristo, participar da ressurreição do Senhor"; (22) além disso, como voz de louvor, juntamente com a qual quer glorificar a Deus: "...fazei-nos dóceis ao Espírito Santo, para cantar com ela o vosso louvor"; (23) e dado que a mesma liturgia é um culto que exige um modo de proceder na vida coerente, nela se implora poderem os féis traduzir o culto a Virgem Maria, num amor bem concreto e sofrido pela Igreja, como admiravelmente propõe a oração após a comunhão da festa de 15 de setembro: "...que, recordando as dores de Nossa Senhora, completemos em nós, para o bem da Igreja, o que falta à paixão do Cristo".

            O Papa Paulo VI respeitava perfeitamente o ‘espírito do Concílio’, por isso expôs este aprofundamento amoroso e intenso sobre o culto e a devoção a Virgem Maria, na Igreja pós-Conciliar.

Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava São Ambrósio (188). Com efeito, no mistério da Igreja, a qual é também, com razão, chamada mãe e Virgem, a bem-aventurada Virgem Maria, foi adiante como modelo eminente e único de Virgem e de mãe (189). Porque, acreditando e obedecendo, gerou na terra, sem ter conhecido varão, por obra e graça do Espírito Santo, o Filho do eterno Pai; nova Eva, que acreditou sem a mais leve sombra de dúvida, não na serpente antiga, mas no mensageiro celeste. E deu à luz um Filho, que Deus estabeleceu primogénito de muitos irmãos (Rom. 8,29), isto é, dos fiéis, para cuja geração e educação Ela coopera com amor de mãe (LG 64)

Arrefecer estes aspectos do culto mariano ou confiná-lo à simples devotio privada era ‘trair’ as exigências teológicas que se revelaram nos desígnios divinos, que em sua sabedoria quis colocá-la no centro da Encarnação Redentora do Cristo, incumbindo-a de ‘tarefa’ (eis aqui a Serva do Senhor! Lc 1, 38) tão primordial, no ‘sim’ que modificou definitivamente os rumos da História (da Salvação) Humana!

Desejamos acentuar bem isto: o culto que a Igreja universal tributa hoje a Santíssima Virgem é derivação, prolongamento e acréscimo incessante daquele mesmo culto que a Igreja de todos os tempos lhe rendeu, com escrupuloso estudo da verdade e com uma sempre vigilante nobreza de formas. Da tradição perene, viva, em virtude da presença ininterrupta do Espírito e do contínuo dar ouvidos à Palavra, a Igreja do nosso tempo extrai motivações, argumentos e estímulo para o culto que presta à bem-aventurada Virgem Maria. E a própria Liturgia, que recebe do Magistério aprovação e alento, é expressão altíssima e documento probatório dessa mesma tradição viva.

            Uma questão foi ‘bem acentuada’ pelo Sumo Pontífice, a Igreja contemporânea ao Concílio, com todas as necessárias mudanças e renovamentos que teve que exercer presentes em “Marialis Cultus”, não se distanciou, nem traiu aquilo que ininterruptamente a Igreja Apostólica o fez desde os primórdios!

            Mais ainda, não se pode ‘exilar’ a memória da Virgem do contexto litúrgico. Ela pertence, com o devido mérito, à memória cristã da Salvação celebrada e atualizada no decorrer do Ano Litúrgico. Isso é uma exigência de compreensão e fidelidade ao Mistério de Cristo, verdadeiro Centro da Liturgia (Per ipsum, et cum ipso, et in ipso). O autêntico culto à Mãe se verifica como uma exigência que promana da excelência Salvífica do Filho Encarnado.

Além disso, o Beato Paulo VI insistiu que a apreciação das virtudes humanas da Mãe por parte da Igreja, na Liturgia, compõe uma verdadeira ‘escola’ de catequese cristã, em vista do único seguimento ao Cristo.

Mas, ao passo que, na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria (cfr. Ef. 5,27), os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a família dos eleitos. A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando-a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo. Pois Maria, que entrou intimamente na História da Salvação, e, por assim dizer, reúne em si e reflete os imperativos mais altos da nossa fé, ao ser exaltada e venerada, atrai os fiéis ao Filho, ao Seu sacrifício e ao amor do Pai. Por sua parte, a Igreja, procurando a glória de Cristo, torna-se mais semelhante àquela que é seu tipo e sublime figura, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, e buscando e fazendo em tudo a vontade divina. Daqui vem igualmente que, na sua ação apostólica, a Igreja olha, com razão, para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por ação do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens (LG 65).

Pela apreciação da vida da Virgem, sempre em união com o Filho, aprendem-se as necessárias facetas do bom seguir a Cristo, no mundo. Pelos Mistérios da Mãe e pelos Méritos de Cristo, somos inseridos no centro da história da Salvação, que é Cristo inteiro. Assim nos ensinou o Concílio:

A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultaneamente com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência, foi na terra a nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça (LG 61)

            Após havermos considerado, assim, irmãos caríssimos, a veneração que a tradição litúrgica da Igreja universal e o rito romano renovado exprimem para com a Santa Mãe de Deus, se nos lembrarmos, depois, que a liturgia, pelo seu proeminente valor cultual, constitui uma norma de ouro para a piedade cristã e se observarmos, ainda, que a Igreja, quando celebra os sagrados mistérios, assume uma atitude de fé e de amor semelhante a da Virgem Santíssima, poderemos compreender quão justa é a exortação do Concílio Vaticano II a todos os filhos da Igreja, "para que promovam, generosamente, o culto, especialmente litúrgico, a bem-aventurada Virgem Maria" (LG 67). Exortação esta, que desejaríamos ver, por toda a parte, acatada sem reservas e posta em prática com zelo.

            A mesma Exortação Apostólica insiste que, não somente o culto litúrgico seja palco adequado à necessária e devida veneração à Mãe de Deus, mas se aprofunde e renove a devotio Mariae nas diversas instâncias de uma longa tradição filial e afetuosa, constante ao longo do caminho da Igreja:

O mesmo Concílio Vaticano II, no entanto, exorta a que, ao lado do culto litúrgico, se promovam outras formas de piedade, sobretudo aquelas que têm sido recomendadas pelo Magistério (LG 67). Como é bem conhecida, a veneração dos fiéis para com a Mãe de Deus tem revestido, de fato, formas multíplices, de acordo com as circunstâncias de lugar e de tempo, com a diversa sensibilidade dos povos e com as suas diferentes tradições culturais. Disso resulta que, sujeitas ao desgaste do tempo, essas formas em que se expressa a piedade se apresentem necessitadas de renovação, que dê azo a nelas serem substituídos os elementos caducos, a serem valorizados os perenes, e a serem incorporados os dados doutrinais adquiridos pela reflexão teológica e propostos pelo Magistério eclesiástico.

            Imediatamente, a dupla preocupação do Concílio. De um lado, posicionar o desenvolvimento da devoção popular no interior da mais profunda doutrina da Igreja, do outro, considerar a importância da devoção nas identidades particulares das Igrejas, formando um imenso tesouro para a Universidade Eclesial. A Virgem está inserida plenamente no âmbito do Mistério do Filho e a da Santíssima Trindade, da qual é Serva:

É da máxima conveniência, antes de mais nada, que os exercícios de piedade para com a Virgem Maria exprimam, de maneira clara, a característica trinitária e cristológica que lhes é intrínseca e essencial. O culto cristão, de fato, é por sua natureza culto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, ou, conforme se expressa a liturgia, ao Pai por Cristo no Espírito. Nesta perspectiva, torna-se ele extensivo, legitimamente, se bem que de maneira substancialmente diversa, em primeiro lugar e de modo singular, a Mãe do Senhor, e depois aos santos, nos quais a Igreja proclama o Mistério Pascal, por isso mesmo que eles sofreram com Cristo e com Ele foram glorificados (SC 104).

            É evidente que aqui se buscou corrigir duas rotas: aquela que a separava e enclaustrava, exclusivamente, na imaginação e no afeto popular, sem perceber claramente a plena cidadania da Mãe de Deus na Igreja, através dos vínculos mistéricos. Do outro, insistindo com os ‘minimalistas’ em termos marianos, que, de certa maneira, reduziam a relevante da figura da Virgem, em vista de engrandecer e centralizar aquela de Cristo:

Na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente d'Ele: foi em vista d'Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos. A genuína piedade cristã, certamente, nunca deixou de pôr em realce essa ligação indissolúvel e a essencial referência da Virgem Maria ao divino Salvador (LG 66). Parece-nos, contudo, sobremaneira conforme com uma certa linha espiritual seguida na nossa época, dominada e absorvida pela "questão de Cristo", (44) que nas expressões do culto a Virgem Maria se dê um relevo especial ao aspecto cristológico e se envidem esforços no sentido de elas refletirem o plano de Deus, o qual preestabeleceu "com um só e mesmo decreto a origem de Maria e da Encarnação da divina Sapiência". (45) Isto concorrerá, sem dúvida, para tornar mais sólida a piedade para com a Mãe de Jesus e fazer dela um instrumento eficaz para que alcancemos todos "o pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem perfeito, a medida da plena estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4,13). Por outro lado, contribuirá isso também para aumentar o culto devido ao mesmo Cristo, porque, segundo o sentir perene da Igreja, reforçado autorizadamente nos nossos dias (LG 66), "é referido ao Senhor aquilo com que se procura agradar a Serva; desse modo, redunda em prol do Filho aquilo mesmo que é devido à Mãe... De tal sorte, transfere-se para o Rei aquela honra que, em humilde tributo, se presta à Rainha".

Chama atenção a preocupação do Beato Papa Paulo VI para que se incremente a piedade popular mariana sob sólidas bases bíblicas num esforço claro de ‘diálogo ecumênico’, de modo a afastar as dúvidas ou críticas ao sadio exercício de chama-la de Mãe de Deus, com todos os privilégios deste título:

A necessidade de um cunho bíblico em toda e qualquer forma de culto é hoje algo sentida, como um postulado geral da piedade cristã. O progresso dos estudos bíblicos, a crescente difusão das Sagradas Escrituras e, sobretudo, o exemplo da tradição e a íntima moção do Espírito orientam os cristãos do nosso tempo para servir-se cada dia mais da Bíblia, qual livro fundamental de oração e para tirar dela genuína inspiração e modelos insuperáveis. O culto a bem-aventurada Virgem Maria não pode ser eximido a esta orientação geral da piedade cristã (DV 25); antes pelo contrário, deve ele inspirar-se particularmente em tal orientação, para adquirir novo vigor e dela tirar seguro proveito.

            Concluo este breve passeio pela doutrina e a orientação dadas pela Exortação Apostólica do Beato Papa Paulo VI (1974), com a esplêndida chamada de atenção para o estranho fenômeno de ‘desafeição’ a Virgem Maria em ambientes contemporâneos nos quais ela parece retrógrada e inadequada para as novas exigências e feições femininas. Não se pode esquecer que então, eram intensas as exigências do ‘feminismo’.

Observa-se, na realidade, que é difícil enquadrar a imagem da Virgem Maria conforme resulta de certa literatura devocional, nas condições de vida da sociedade contemporânea e, em particular, nas da mulher. E isso quer a consideremos no ambiente doméstico, onde tanto as leis como a evolução dos costumes tendem justamente para lhe reconhecer a igualdade e a corresponsabilidade com o homem, na direção da vida familiar, quer a consideremos no campo político, onde ela conquistou em muitos países um poder de intervenção na coisa pública, a par do homem, quer a consideremos, ainda, no campo social, onde ela desenvolve a sua atividade nos mais variados setores operativos, deixando cada dia mais o restrito ambiente do lar, quer a consideremos, enfim, no campo cultural, onde lhe são proporcionadas possibilidades novas de pesquisa científica e de afirmação intelectual...

            O Venerando São João Paulo II retomará esta temática em “Mulieris Dignitatem” (1988).

II. O Documento de Aparecida (2007)

As maiores riquezas de nossos povos são a fé no Deus amor e a tradição católica na vida e na cultura. Manifesta-se na fé madura de muitos batizados e na piedade popular que expressa “o amor a Cristo sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação (...), o amor ao Senhor presente na Eucaristia (...), – o Deus próximo dos pobres e dos que sofrem, – a profunda devoção a Santíssima Virgem de Guadalupe, de Aparecida ou dos diversos títulos nacionais e locais”

            No centro da teologia sobre Maria no Documento de Aparecida, a certeza que a identidade mariana presente desde as primeiras horas da evangelização latino-americana será marcante em sua cultura e desenvolvimento. O texto de Aparecida sempre alude as sombras e luzes desta cultura popular no desenvolvimento da libertação dos povos latino-americanos.

            Quais seriam os traços desta presença positiva e tradicional da Mãe de Jesus na identidade e na missão cristãs na América Latina? De que maneira se expressa aqui a teologia do Concílio que apresentamos em “Marialis Cultus” nas novas exigências da evangelização em nosso continente?

            O documento dedica uma seção específica a Virgem Maria no conjunto da missão e da identidade dos discípulos-missionários: ‘6.1.4 Maria, discípula e missionária’, nos números 266-272.

            Entre os dados da realidade latino- americana se fez destaque a urgente e incansável ‘opção pelos pobres’. Um cristianismo que descurasse tal hermenêutica falsificaria sua fé, sua identidade e, particularmente, sua missão. Seria um cristianismo insípido: Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens (Mt 5, 13). Entre as pobrezas da América Latina destaca-se aqui aquela que sofrem as mulheres:

Nesta hora da América Latina e do Caribe, é imperativo tomar consciência da situação precária que afeta a dignidade de muitas mulheres. Algumas, desde crianças e adolescentes, são submetidas a múltiplas formas de violência dentro e fora de casa: tráfico, violação, escravização e assédio sexual; desigualdades na esfera do trabalho, da política e da economia; exploração publicitária por parte de muitos meios de comunicação social que as tratam como objeto de lucro.

            A dinâmica do Mistério libertador de Jesus se aplica em particular a Virgem, ‘pobre serva do Senhor’. Primeiramente do pecado, a maior miserabilidade da existência humana. Por isso se destacam os rostos da devoção à imagem ‘negra’ da Virgem de Aparecida, tão idêntica à maioria dos pobres brasileiros, na face da escravidão brasileira e da exploração dos mais pobres, como aqueles que a encontram no leito do rio Paraíba.

            Tão forte quanto será para toda a América Latina o encontro da Virgem de Guadalupe com os pobres povos indígenas. Dois olhares confluídos para sempre em seu manto materno.

            Depois de algumas décadas e de ambiente que percebiam mais alienação do que oportunidades nas inspirações das devoções populares, o Documento de Aparecida, sem ingenuidades, reafirma este filão tão promissor para incrementar a identidade popular e libertária do catolicismo latino-americano:

A piedade popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e, ainda que se viva em uma multidão, não é uma “espiritualidade de massas”. Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um crucifixo, um rosário, uma vela que se acende para acompanhar um filho em sua enfermidade, um Pai Nosso recitado entre lágrimas, um olhar entranhável a uma imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao céu em meio a uma alegria singela.

            Por isso, é mister pensar e afirmar que uma autêntica devoção e espiritualidade marianas inserem os cristãos no caminho de discípulos-missionários, em total fidelidade aos apelos libertadores do Evangelho de Cristo:

Hoje, quando em nosso continente latino-americano e caribenho se quer enfatizar o discipulado e a missão, é ela quem brilha diante de nossos olhos como imagem acabada e fidelíssima do seguimento de Cristo. Esta é a hora da seguidora mais radical de Cristo, de seu magistério discipular e missionário ao qual nos envia o Papa Bento XVI: “Maria Santíssima, a Virgem pura e sem mancha, é para nós escola de fé destinada a nos conduzir e a nos fortalecer no caminho que conduz ao encontro com o Criador do céu e da Terra. O Papa veio a Aparecida com viva alegria para nos dizer em primeiro lugar: Permaneçam na escola de Maria. Inspirem-se em seus ensinamentos. Procurem acolher e guardar dentro do coração as luzes que ela, por mandato divino, envia a vocês a partir do alto”

            Não podemos deixar de perceber esta inspiração quando o autor do Hino da Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida refere-se a Virgem, como a fonte da  maternidade brasileira da ‘infância desvalida’. Um apelo a viver a espiritualidade deste dia, engajado no Evangelho da Libertação Integral de todo homem e do homem todo, tal qual foi gerado e entregue ao mundo por Maria:

Ajude-nos a companhia sempre próxima, cheia de compreensão e ternura, de Maria Santíssima. Que ela nos mostre o fruto bendito de seu ventre e nos ensine a responder como fez ela no mistério da anunciação e encarnação. Que nos ensine a sair de nós mesmos no caminho de sacrifício, de amor e serviço, como fez na visita à sua prima Isabel, para que, peregrinos a caminho, cantemos as maravilhas que Deus tem feito em nós, conforme a sua promessa.

Viva a Mãe de Deus e nossa,
Sem pecado concebida!
Salve, ó Virgem Imaculada,
Ó Senhora Aparecida!
 

1. Aqui estão vossos devotos,
Cheios de fé incendida,
De conforto e de esperança,
Ó Senhora Aparecida!

2. Lá no cimo do Calvário,
De tormentos combalida,
Jesus fez-Vos nossa Mãe,
Ó Senhora Aparecida!

3. A cumprir divinos planos,
Por Deus fostes escolhida,
Padroeira do Brasil,
Ó Senhora Aparecida!

4. Protegei a Santa Igreja,
Ó Mãe terna e estremecida,
Protegei a nossa pátria,
Ó Senhora Aparecida!

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