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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/10/2018

22 de Outubro de 2018

“Toda missão de liderança deve ser de serviço”

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22 de Outubro de 2018

“Toda missão de liderança deve ser de serviço”

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24/04/2017 13:00 - Atualizado em 24/04/2017 13:00
Por: REVISTA DO IESE - BARCELONA

“Toda missão de liderança deve ser de serviço” 0

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No dia 23 de janeiro de 2017, o Papa Francisco nomeou o monsenhor Fernando Ocariz como Prelado do Opus Dei, tornando-se assim o novo Grão Chanceler da Universidade de Navarra. Nascido no dia 27 de outubro de 1944. É o mais jovem de oito irmãos, um dos quais, José Ocariz, é professor emérito de Contabilidade e Controle no Instituto de Estudos superiores da Empresa (IESE).

Monsenhor Ocariz é licenciado em ciências físicas pela Universidade de Barcelona (1966) e em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense (1969). Sendo estudante, conviveu em Roma com São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei. Obteve o doutorado em teologia, em 1971, na Universidade de Navarra. Nesse mesmo ano foi ordenado sacerdote. Nos seus primeiros anos como sacerdote dedicou-se, especialmente, à pastoral juvenil e universitária.

Desde 1994 foi vigário geral do Opus Dei, e no ano 2014 foi nomeado vigário auxiliar da Prelazia. Durante os últimos 22 anos acompanhou o anterior Prelado, monsenhor Javier Echevarría, nas suas visitas pastorais a mais de 70 países.

Como novo Grão Chanceler, seu trabalho principal é velar para que a Universidade de Navarra, na Espanha, cumpra com suas finalidades, de acordo com seu espírito fundacional, conservando a identidade cristã e mantendo atualizada a expressão da sua missão e dos seus valores.

1. Como entender a liderança?

Monsenhor Fernando Ocariz – Jesus Cristo, que é o Mestre e o Senhor, disse de si mesmo que não tinha vindo para ser servido, mas para servir. Toda missão de governo e de liderança é, e deve ser, de serviço. No meu caso é óbvio que se trata de um serviço à Igreja e ao Papa, governando essa parte do Povo de Deus, que é a Prelazia do Opus Dei. Para os membros da Obra o meu trabalho concretiza-se em garantir que recebam a necessária formação cristã e atenção pastoral, para facilitar a cada um a própria santificação e evangelização da sociedade, desde o lugar e situação em que se encontra dentro dela. Isto implica também dar-lhes impulso e luz, por palavras e por escritos.

Encaro a minha tarefa, confiando na ajuda do céu, pois sou consciente de que é Deus quem santifica. Por isso, desde o primeiro momento, pedi aos fiéis das prelazias e aos cooperadores que me ajudem com suas orações e a mesma coisa peço agora às pessoas ligadas ao Instituto de Estudos superiores da Empresa (IESE).

2. Com que critérios valorizam o urgente e o importante e como considera a direção de uma organização, na qual se encontram diferenças culturais com o mesmo objetivo comum?

Monsenhor Ocariz – São Josemaría, fundador do Opus Dei - que foi também o promotor e o primeiro Grão Chanceler da Universidade de Navarra - chamava a atenção sobre o perigo de descuidar o importante por causa do atendimento das urgências. Insistia – e, assim, ele se comportava - que é necessário estudar bem os assuntos, com todo o tempo que cada um requer, não menos, nem tampouco mais. A precipitação não é diligência, nem o adiamento é prudência. Para prevenir o nervosismo e as pressas, que levam facilmente a decidir antes de ter ponderado todos os dados relevantes, costumava dizer: “o urgente pode esperar, o muito urgente deve esperar”.  A rapidez certa, a agilidade, é fruto do trabalho intenso e constante, assim como do acompanhamento das decisões, para ir cumprindo as etapas, sem deixar que os assuntos se enfraqueçam.

Todas essas condições de um bom trabalho de direção cumprem-se mais facilmente, se o governo é colegial, como está estabelecido no Opus Dei, por disposição prudente do fundador. Há mais acertos, e se caminha com mais agilidade, se várias pessoas estudam a mesma questão. A diligência não consiste em deixar de lado alguém, que pode contribuir com sua opinião, mas sim em não deixar estagnações (“fazer charcos”, dizia São Josemaría), isto é, não reter os assuntos, mas examiná-los e dar-lhes prosseguimento, para que outros vejam e todos possam contribuir para a decisão comum.  

Trabalhar dessa forma, facilita a avaliação do importante e do urgente. Eu afirmaria, que um critério básico a esse respeito, é o seguinte: o mais importante é aquilo, que afeta diretamente às pessoas. A organização tem, sem dúvida, a sua relevância, mas é secundária: primeiro estão as pessoas, e para um cristão coerente, que recebeu e valoriza o imenso dom da fé, esse serviço prioritário às pessoas é também serviço a Deus.

Com respeito à forma de harmonizar a diversidade cultural e o objetivo comum na Prelazia do Opus Dei, a chave está em fomentar a liberdade. A principal finalidade do Opus Dei é formar os seus membros, para que cada um atue, livre e responsavelmente, no lugar e na situação que lhe corresponde, procurando concretizar a sua fé naquilo que faz. Ninguém no Opus Dei lhes dirá que solução devem adotar nos assuntos profissionais, sociais, políticos, etc.: ele ou ela terão que decidir de acordo com sua consciência, conforme, naturalmente, à sua formação profissional específica e ao seu modo pessoal de ser e de pensar. O pluralismo resultante não é nenhum caos. A harmonia surge da própria diversidade polifônica, pela qual cada um contribui com a sinfonia do conjunto, com a tarefa de evangelização. É, no fundo, a unidade católica que existe na Igreja, lar comum para todos os povos.

3. Como deveria viver cada dia quem busca ser uma pessoa melhor e a excelência no seu trabalho de direção de empresas?

Monsenhor Ocariz – Não pretendo, nem posso, propor uma solução concreta. Posso sim sugerir algumas ideias gerais que, aplicadas segundo o modo de ser de cada um, talvez possam ser úteis. É bem conhecido o fato de que os diretores de empresa estão habitualmente sob pressão, pela abundância e dificuldade do trabalho e, sobretudo, pela responsabilidade que pesa sobre eles.

Em primeiro lugar, parece-me importante compartilhar as cargas, especialmente com os colaboradores imediatos: saber delegar. Se às pessoas se lhes demonstra confiança, se lhes dá responsabilidade e margem para suas iniciativas, costumam reagir bem, assumindo a tarefa como próprias e identificando-se com o projeto comum.

Em segundo lugar, aconselharia às pessoas que creem descarregar o peso sobre Deus, que é nosso Pai. Um bom profissional e um bom cristão trabalha tudo o que pode e como melhor sabe e, ao mesmo tempo, entende que nem tudo está sob seu controle, e deixa também o que não controla sob o cuidado de Deus. Jesus Cristo ensinou-nos que Deus é um Pai amoroso, que se ocupa das aves do céu e dos lírios do campo, e muito mais de seus filhos. Se encararmos todos nossos dias com fé prática e verdadeira na Providencia Divina, que governa tudo para o nosso bem - ainda que, às vezes, não entendemos assim -, cresceremos como pessoas no nosso trabalho e o faremos bem melhor, livres de angustias, que fazem mal e lhe tiram eficácia.

Nesse sentido, também é muito útil cuidar do descanso: do próprio e de quem trabalham conosco. Equilibrar a dedicação às nossas obrigações e recuperar as forças, permite seguir cuidando-as com renovado impulso.

4. Como se pode compatibilizar a misericórdia - que tanto nos fala o Papa Francisco - com as exigências de um mercado que, muitas vezes, parece não ter alma?  Como deveríamos ajudar a promover uma economia mais social?

Monsenhor Ocariz – Como plasmar a misericórdia nas atividades econômicas vai nos dizer a própria misericórdia, se deixarmos que ela entre e conforme a nossa vida. O Papa Francisco ensina que a misericórdia é criativa. Na sua carta motivada pela clausura do Jubileu do Ano da Misericórdia, animou-nos a dar espaço para a “fantasia da misericórdia”, que dá impulso a iniciativas originais. É uma atitude permanente de sentir no próprio coração as misérias alheias, sofrê-las como próprias e procurar aliviá-las.

Com essa disposição profundamente enraizada, os cristãos, que desenvolvem a sua profissão no âmbito do comércio, das finanças, da indústria, etc., podem contribuir a “dar alma” ao mercado e a todas instituições sociais, isto é, atuando nesse mundo com a consciência de que nos negócios participam muitas pessoas, com a vontade firme de praticar a justiça e com o desejo de atender eficazmente as necessidades dos demais. Isto já contribui, ainda que seja através de pequenas atitudes, a tornar mais social a economia. Tenho a certeza de que o IESE desenvolve isso na sua tarefa de formação dos empresários. Além disso, o IESE pode contribuir com estudos e propostas relevantes, para que as atuações empresariais e a política econômica e de trabalho caminhem nessa direção.

Finalmente, é preciso praticar a misericórdia como um dom gratuito, para ajudar a resolver as carências, materiais ou espirituais, que o mercado não pode remediar, ou não resolve de fato. Muitos empresários têm iniciativas de assistência e de promoção humana, que são a prova da criatividade da misericórdia.

5. Como evitar que o afã de sucesso embarace o desejo de ajudar aos outros?

Monsenhor Ocariz – Não são incompatíveis, se nascem do mesmo impulso e olham para o mesmo fim. A santificação do trabalho, que é um aspecto nuclear na espiritualidade do Opus Dei, se torna realidade trabalhando bem, com competência, e por um motivo sobrenatural. Se na nossa atividade procurarmos amar a Deus e ao próximo, todas as outras intenções se unificam e torna santa a própria atividade. Então não existe oposição entre o sucesso e a solidariedade. Um diretor de empresa que deseja ser um bom cristão, procura o sucesso para levar adiante o seu projeto profissional e, ao mesmo tempo, para ajudar a outras pessoas. Os dois desejos se reforçam mutuamente.

6. Concretamente, como podemos introduzir uma visão mais humanista das relações humanas no trabalho?

Monsenhor Ocariz – Estou seguro de que já se faz isso, constantemente, no IESE, ao enfatizar que uma empresa é uma comunidade de pessoas, e mostrar como deve refletir-se esta realidade nos estilos de direção.  Ao mesmo tempo, as pessoas formadas no IESE ampliam essa visão e as práticas consequentes de mil formas distintas, ao aplicar o que aprenderam às suas diversas situações profissionais, e sempre com atenção particular aos mais necessitados.

7. Quais os critérios que devem ser considerados, segundo sua opinião, para enfrentar esse desafio o homem e a mulher? Como são cada vez mais necessários dois salários para manter a casa, que problemas essas mudanças supõe para a família?

Monsenhor Ocariz – Não só porque fazem falta dois salários num lar, mas, também, porque uma mãe de família pode estar em condições de desenvolver um projeto profissional pessoal.

É triste encontrar-se nesse conflito: família ou profissão. Também para os homens essa realidade se apresenta com frequência. Logicamente, as mulheres, se podem e se querem, deixam o trabalho que realizam fora do lar, para se concentrarem na atenção dos filhos, por exemplo, enquanto são menores de idade. É uma decisão, às vezes necessária e, geralmente, digna de aplausos.

Por outro lado, são muitas as mulheres que conjugam a atenção à família com outro trabalho, como também são, mais frequentemente, os homens que reduzem sua jornada laboral, para dedicar mais tempo à família. Conciliar família e profissão é uma das questões mais importantes, que está pendente na atual sociedade em muitos países. Sei que no IESE se presta muita atenção a ela, e confio que aqui nasçam contribuições para encontrar as soluções.

Mas queria, sobretudo, sublinhar algo fundamental. As mães e os pais de família, ao cuidarem do seu lar e educarem os seus filhos, com grande amor e sacrifício, no meio de muitas dificuldades, ainda que, às vezes, nem tudo sai bem ou não conseguem fazer como desejariam, eles realizam algo grandioso.  São causa dos maiores benefícios: a formação e a felicidade de pessoas concretas, e ser tornam credores da gratidão de toda a sociedade, pois dão uma contribuição insubstituível ao bem comum. Principalmente, Deus os olha com agrado. São Josemaría costumava lembrar aos empresários, que o melhor e o principal “negócio” que têm é a sua família.

8. Quais seriam, na sua opinião, os valores que distinguiriam uma empresa ética, seja nos tempos bons como nos maus, quando se devem tomar medidas antipáticas?

Monsenhor Ocariz – Neste ponto qualquer diretor de empresa saberá o que fazer muito melhor do que eu. Penso que convém considerar que as situações podem ser, em certas ocasiões, muito diversas e complexas.

Podem existir pessoas insensíveis, mas não há dúvida de que muitos diretores sofrem bastante, quando se sentem forçados a reduzir os custos, porque não se encontra outra forma de garantir a continuidade da empresa. Sofrem, porque vem naqueles que foram afetados pelas medidas, pessoas e famílias que, talvez, corram o perigo de ficarem sem trabalho durante um longo tempo. Sofrem também pela preocupação ou pelo desânimo, que pode surgir entre os funcionários que ficam no emprego, bem como pela sua própria preocupação diante do futuro da empresa e, consequentemente, das suas próprias famílias e as dos outros que dependem dela.

Essa reação, em tempos maus, é um sintoma da ética de um diretor de empresa: com a atenção prioritária às pessoas, saberá plasmar as políticas e práticas certas da sua empresa. Em tempos bons, a mesma atitude levará os diretores a colocarem todo seu talento na  procura  da prosperidade da empresa, sem limitarem-se a buscar só um  benefício a curto prazo.  Cuidarão do “capital humano”, por exemplo, investindo na formação dos trabalhadores.

A atenção primordial às pessoas explica também o respeito às leis ou ao meio ambiente.  Respeito que forma parte da missão da empresa e da sua contribuição ao bem comum. Em algumas ocasiões é muito difícil integrar todos esses fatores: decidir é complicado e está exposto ao erro. Em todo caso a ética não é um limite, nem um complemento da boa ação gerencial, mas uma dimensão essencial.

9. É suficiente a introdução de códigos de boas condutas e mecanismos de supervisão para que a empresa tenha uma base ética?

Monsenhor Ocariz – Os códigos, principalmente, se são acompanhados no seu cumprimento, podem ser de grande ajuda. Expressam as orientações éticas fundamentais e as aplicam às distintas facetas da atividade empresarial. Entretanto, na vida real, decide-se em situações concretas, e as diversíssimas situações que se encontram na realidade não podem estar todas previstas num código. Para acertar em cada situação, os diretores de empresa, por um lado, devem ter muito bem arraigados os princípios éticos e profissionais, mas, por outro lado, também necessitam experiência, tenacidade e fortaleza, para resistir às pressões para ceder ao mal, e flexibilidade para retificar. Aprender essas atitudes e exercitá-las é parte da formação do diretor de empresa.

Foto: flickr.com/photos/opus-dei

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