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19 de Julho de 2019

Papa no avião: imigração, não é humano fechar as portas

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Papa no avião: imigração, não é humano fechar as portas

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03/11/2016 11:27 - Atualizado em 03/11/2016 11:28
Por: Rádio Vaticano

Papa no avião: imigração, não é humano fechar as portas 0

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No avião que trouxe o Papa Francisco de Malmö, na Suécia, a Roma, nesta terça-feira, dia primeiro de novembro, o Pontífice conversou com os jornalistas que o acompanharam nesta 17ª viagem apostólica internacional.

Ouça a reportagem na íntegra.

Dentre os temas abordados durante a coletiva estão: imigrantes e refugiados, secularização, laicidade e laicismo, mundanidade espiritual, tráfico de seres humanos e voluntariado na Itália.

Depois de agradecer ao Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, pelas boas-vindas, o Papa iniciou a resposta da primeira pergunta, feita por uma jornalista sueca, agradecendo à Suécia por ter acolhido muitos argentinos, chilenos e uruguaios no tempo da ditadura militar. “A Suécia tem uma tradição longa de acolhimento, mas não somente de receber, mas de integrar, procurar moradia, escola e trabalho. Integrar num povo. Dos 9 milhões de habitantes na Suécia, 850 mil são novos suecos, ou seja, imigrantes, refugiados ou seus filhos”, disse Francisco.


Imigração


A seguir, o Papa fez a distinção entre migrante e refugiado. “O migrante deve ser tratado com certas regras porque migrar é um direito, mas é um direito muito regulado. Ao invés, o refugiado vem de uma situação de guerra, angústia, de fome, de uma situação terrível e o status de refugiado precisa de cuidado, de mais trabalho. Também nisso, a Suécia sempre deu um exemplo na organização, no fazer aprender a língua, a cultura e também integrar na cultura. Na integração das culturas, não devemos nos espantar porque a Europa foi formada com uma integração contínua de culturas, várias culturas”, disse o Pontífice.


Sobre o que pensa em relação aos países que fecham as fronteiras, o Papa disse que “na teoria não se pode fechar o coração a um refugiado, mas há também a prudência dos governantes: devem ser muito abertos a recebê-los, mas também fazer o cálculo de como organizá-los, porque um refugiado não se deve somente receber, mas o integrar. Se um país tem uma capacidade de vinte, digamos assim, de integração, faça os vinte. Se outro tem mais, faça mais. Mas sempre com o coração aberto: não é humano fechar as portas, não é humano fechar o coração. Quando um refugiado ou um migrante não se integra, entra num gueto. Uma cultura que não desenvolve em relação com a outra cultura é perigoso. Acredito que o pior conselheiro para os países que fecham as fronteiras seja o medo, e o melhor conselheiro seja a prudência. Conversei com um funcionário do Governo sueco estes dias e ele me falava de algumas dificuldades neste momento, pois chegam muitos e não se tem tempo de organizá-los, encontrar escola, casa, trabalho e aprender a língua. A prudência deve fazer este cálculo. Não acredito que se Suécia diminuir a sua capacidade de acolhimento o fará por egoísmo ou porque perdeu a capacidade; se há algo desse tipo é porque hoje muitos olham para a Suécia porque conhecem o acolhimento, mas para organizá-los não tem tempo necessário para todos.”

Sobre o que pensa em relação à Suécia ter como Primaz da Igreja Luterana uma mulher, o Papa disse que leu a história daquela área onde esteve e viu que existiu uma rainha que ficou viúva três vezes. Então disse: “Esta mulher é forte! Disseram-me que as mulheres suecas são muito fortes e que alguns homens suecos procuram mulheres de outra nacionalidade. Não sei se é verdade isso!”, disse o Pontífice.


Ordenação de mulheres


Sobre a ordenação de mulheres na Igreja Católica, "a última palavra foi dada por São João Paulo II, e esta permanece", disse Francisco, referindo-se à Carta apostólica 
Ordinatio Sacerdotalis. "As mulheres podem fazer muitas coisas, melhor que os homens, também no campo dogmático. Para esclarecer, talvez para dar uma clareza, não fazer somente uma referência a um documento: na eclesiologia católica existem duas dimensões para pensá-la. A dimensão petrina que é a dos apóstolos, Pedro e o colégio apostólico que é a pastoral dos bispos, e a dimensão mariana que é a dimensão feminina da Igreja. Isso eu já disse aqui mais de uma vez. Eu me pergunto: Quem é mais importante na teologia e na mística da Igreja, os apóstolos ou Maria, no dia de Pentecostes? É Maria. Digo mais. A Igreja é mulher! É “a” Igreja e não “o” Igreja. E a Igreja esposa Jesus Cristo. É um mistério esponsal. À luz deste mistério se entende o porque dessas duas dimensões: a dimensão petrina, ou seja episcopal, e a dimensão mariana com tudo aquilo que seja a maternidade da Igreja, mas num senso mais profundo. Não existe a Igreja sem esta dimensão feminina, porque ela é feminina.”

Iniciativas ecumênicas

Um jornalista disse, em espanhol, que houve encontros ecumênicos ricos com as Igrejas tradicionais: ortodoxa, anglicana e agora a luterana, e que soube que na vigília de Pentecostes, do próximo ano, haverá um evento no Circo Massimo, em Roma, para celebrar o 50º aniversário da Renovação Carismática. 

O senhor promoveu muitas iniciativas em 2014, talvez a primeira vez para um Papa, com os líderes evangélicos. O que aconteceu com estas iniciativas e o que se espera obter da reunião, do encontro do próximo ano?

“Com estas iniciativas... Eu diria que fiz dois tipos de iniciativas. Uma quando fui a Caserta à Igreja Carismática, e também na mesma linha quando, em Turim, fui à Igreja Valdense. Uma iniciativa de reparação e pedido de perdão porque os católicos, parte da Igreja Católica não se comportou de maneira cristã, não se comportou bem, em relação a eles. Ali se devia pedir perdão e curar uma ferida. 

Outra iniciativa foi a do diálogo, e isso em Buenos Aires. Em Buenos Aires, por exemplo, fizemos três encontros no Estádio Luna Park de Buenos Aires que tem a capacidade de acolher 7 mil pessoas. Três encontros com fiéis evangélicos e católicos em linha com a Renovação Carismática, mas também aberta. Encontros que duravam o dia todo: pregava um pastor, um bispo evangélico e pregava um sacerdote católico ou um bispo católico, ou dois e dois, se alternavam. Em dois desses encontros, ou talvez em todos os três, mas em dois com certeza, pregou o Pe. Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. 

Acredito que a coisa venha já dos pontificados precedentes, desde quando eu era em Buenos Aires. E isso nos fez bem. Fizemos também retiros espirituais de três dias com pastores e sacerdotes juntos, com a pregação feita por pastores e um sacerdote ou um bispo. Isso ajudou muito o diálogo, a compreensão, a aproximação, o trabalho, sobretudo o trabalho com os mais carentes. Juntos. E o respeito, o grande respeito. Isso em relação às iniciativas em Buenos Aires e esta agora, aqui em Roma, eu tive várias reuniões com pastores, dois ou três. Alguns vieram dos Estados Unidos e daqui da Europa.

Renovação carismática

O que você mencionou é a celebração que organiza a Iccrs, a celebração para os 50 anos da Renovação Carismática, que nasceu ecumênica, e por isso será uma celebração ecumênica neste sentido, e se realizará no Circo Massimo. Eu espero, se Deus me der vida, de ir falar ali. Parece-me que dura dois dias, mas ainda não foi organizada. Só sei que se realizará na vigília de Pentecostes, e eu falarei em algum momento. 

A propósito de Renovação Carismática e Pentecostais, a palavra pentecostal, a denominação pentecostal hoje é ambígua, porque se refere a muitas coisas que não são iguais, aliás, são opostas. Difundiu-se que se tornou um termo ambíguo. No Brasil, isto é típico, onde se propagou muito.
 
A Renovação Carismática nasce, e um dos primeiros opositores que houve na Argentina fui eu, porque eu era Provincial dos Jesuítas naquela época, quando iniciou na Argentina, e proibi os Jesuítas de ter contatos com eles. Eu disse publicamente que quando se fazia uma celebração litúrgica era preciso fazer uma coisa litúrgica e não uma escola de samba. Eu disse isso. Hoje, penso o contrário, quando as coisas são bem feitas. 

Em Buenos Aires, todos os anos, uma vez por ano, tínhamos na catedral a missa do movimento da Renovação Carismática à qual vinham todos. Eu também experimentei o processo de reconhecimento do bom que a Renovação deu à Igreja. Não podemos nos esquecer da grande figura do Cardeal Suenens, que teve aquela visão profética e ecumênica.”

Secularização

Central a questão da secularização relativa a toda a Europa. Foi perguntado ao Papa se os responsáveis são os governos leigos ou a Igreja que seria muito tímida. A resposta de Francisco é ampla e está ligada abertamente ao pensamento de Bento XVI. Primeiramente, não é “uma fatalidade”. “De um lado”, ressalta, “quando há secularização, há alguma fraqueza na evangelização”, mas, por outro lado, existe também “um processo cultural”, quando o homem, que recebe o mundo de Deus, se sente tão patrão daquela cultura que “se torna patrão de outra cultura”, ou seja, quer tomar o lugar do Deus criador:
 
“Não é um problema de laicidade porque é preciso uma laicidade saudável, que é a autonomia das coisas, a autonomia saudável das coisas, a autonomia saudável das ciências, do pensamento, da política, é necessária uma laicidade sadia. Outra coisa é o laicismo como o que nos foi deixado como herança pelo Iluminismo. Acredito que são essas duas coisas: um pouco a suficiência do homem criador de cultura, mas que vai além dos limites e se sente Deus, e a fraqueza na evangelização que se torna morna e os cristãos mornos. Nesse contexto, nos salva retomar a autonomia saudável no desenvolvimento da cultura e das ciências também com a dependência de ser criatura, não Deus, e também retomar a força da evangelização.”

Para o Papa, “esta secularização é muito forte na cultura e em certas culturas” e é também muito forte em várias formas de mundanidade, a “mundanidade espiritual” que quando entra na Igreja “é pior”, sublinhou o Pontífice, recordando o grande teólogo do Concílio, o Cardeal de Lubac. Portanto, uma secularização “um pouco maquiada” na vida da Igreja e “perigosíssima”. 

A visita do presidente venezuelano Maduro

Sobre a visita do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e o início dos colóquios, o Papa explicou que o próprio Presidente lhe pediu uma audiência porque faria uma escala técnica em Roma. A Maduro, reiterou que o diálogo é o único caminho:

“O único caminho para todos os conflitos, eh? Para todos os conflitos! Ou se dialoga ou se grita, mas não há outro caminho. Eu com o coração aposto tudo no diálogo e acredito que seja necessário seguir este caminho”.

Tráfico de seres humanos

O Papa falou ainda do tráfico de seres humanos. “Sempre me comoveu o fato de que Cristo seja continuamente crucificado em seus irmãos mais fracos”, disse o Papa. E citou o trabalho na Argentina de grupos de fiéis e da sociedade civil contra o trabalho escravo de tantos imigrantes latino-americanos, de um indústria que pegou fogo e da morte de crianças. Francisco falou ainda do trabalho das freiras com as mulheres escravas da prostituição e da Missa que uma vez por ano celebrava na Praça da Constituição com essas pessoas e com quem as ajuda. Por fim, elogiou a Itália no campo do voluntariado.

Foto: AP

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