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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 12/12/2018

12 de Dezembro de 2018

Sou Charlie, sou Ahmed, sou Yohan, sou... humana

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17/01/2015 01:13 - Atualizado em 17/01/2015 01:14
Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

Sou Charlie, sou Ahmed, sou Yohan, sou... humana 0

Faz uma semana que sou Charlie, como mais de dois milhões de franceses e incontáveis milhões de pessoas mundo afora. Levo tarja preta na alma escrita em francês “Je suis Charlie” e acompanho as manifestações, as procissões, as lágrimas e o luto de Marianne, a República construída pela Revolução que cunhou as três gloriosas palavras “liberdade, igualdade, fraternidade”.

Sou Charlie porque creio na liberdade e no direito de todos de vivê-la e praticá-la. No bojo deste direito estão as caricaturas e os desenhos – nem todos me agradavam - dos cartunistas assassinados. Especialmente, é claro, os que criticavam cáustica e desrespeitosamente mistérios que para mim são sagrados, como católica que sou. Confesso que não apreciava ver crenças que constroem minha identidade – como a Santíssima Trindade e a Virgem Maria – sendo objeto de caricaturas fortemente críticas e irreverentes.

Porém, apesar de não apreciar estas e outras caricaturas, entre as quais as que criticam fortemente o Islã e o Profeta Maomé, não posso não ser Charlie. Quando 12 pessoas são brutalmente assassinadas em nome de Deus, não posso não colocar-me na pele dos mesmos que me ferem e ofendem com suas charges. Não posso... porque eles são vítimas de um assassinato brutal e cruel. Não posso, porque o direito deles à vida é mais sagrado do que o meu a ver minha fé respeitada.

Quando a violência de qualquer tipo faz vítimas, não há outro lugar para se estar senão onde estão elas. Por isso, sou Charlie. Sou também Ahmed, o policial muçulmano que morreu para defender os caricaturistas que criticavam sua religião. Executado brutal e impiedosamente na rua em frente à redação do Charlie Hebdo, Ahmed Merabet era jovem e honesto. Trabalhador, deixou mulher e filhos. Morreu um muçulmano, um homem de bem, um francês, um policial honesto. A violência cega da arma o metralhou em segundos. E desde aí...sou Ahmed.

Sou igualmente qualquer um dos reféns mortos no mercado kosher de Vincennes: Yohan, Yohav, Philippe e François. Sou todos eles e todas elas, vivendo seu susto e seu medo, seu desespero diante do ataque, e finalmente sua morte impiedosa perpetrada pelo atirador de Montrouge. E sou toda a comunidade francesa e judaica que nestes dias começa a sentir mais medo do que até então e teme por suas vidas e pelas de seus filhos. E por isso sou Yohan, Yohav... por isso choro e vivo com eles seu luto, enquanto seus corpos são transportados para Jerusalém.

Sou qualquer muçulmano que hoje se sente triste e constrangido porque o massacre do Charlie Hebdo mostrou uma face de sua religião que não é a verdadeira. Sou qualquer dos devotos de Alá, que neste momento desejam que o mundo não os considere a todos fanáticos, assassinos e pessoas temíveis. Sou membro de qualquer povo que hoje possa ser desprezado, discriminado e vitimado por sua crença ou falta de crença, por sua identidade ou sua prática, por suas vestes ou gestos rituais.

Sou qualquer um e qualquer uma, qualquer passante, qualquer cidadão que hoje perdeu algo da espontaneidade do sorriso e da alegria de viver. Sou iraquiana, sou síria, sou egípcia, sou nigeriana, sou de Boko-Haram. Sou de qualquer lugar onde, hoje, viver é um peso e um terror, e não plena alegria.

Sou todos porque sou uma, porque sou humana, porque sou criada para a vida e não para a morte. E, por isso, a morte violenta de qualquer irmão ou irmã em humanidade me atinge e mata algo em mim. Não posso não sentir e com-padecer com eles e elas, porque eles e elas são eu, são parte de mim.

Não é a civilizada França que está lacerada. Ou o combalido Iraque. Ou a flagelada Síria. É a humanidade que sangra e tem que voltar a crer na liberdade e exercer o inviolável direito de praticá-la. Podem ofender-me, criticar-me, insultar-me. Não tenho o direito de matar quem exerce sua liberdade expressando posições com as quais não concordo. Não me cabe exterminar os que se voltam contra mim e me ofendem.

A condição humana é maior que as nações, que as pátrias, que as ideologias, que as religiões, que os laicismos de todas as formas. Por isso, quando há vítimas em algum embate, o lugar de um ser humano é com elas. O fundamento derradeiro e teológico para isso é o fato de que Deus mesmo está aí. Não se há de encontrá-lo nas armas dos agressores e dos que os vingam com as mesmas armas. Ele mora onde as vítimas sofrem, sangram, choram. E onde os justos padecem e se compadecem.

Por isso sou Charlie, sou Ahmed, sou Yohan... Sou assim porque sou humana... Sou filha de Deus, como todos eles e elas. Tudo está perdoado, como mostra a capa da nova edição do Charlie Hebdo, após a tragédia. Mas o resgate da inocência, além de passar pelo perdão, não pode eludir nem descurar a identificação com as vítimas. Se todos hoje não formos Charlie, amanhã não haverá ninguém para ser nem Charlie nem ninguém. A violência não para e cava o vazio, o abismo onde a humanidade não pode cair.

A teóloga é autora de “O mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.

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