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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/05/2017

27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (19): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (19): Interpretação e tradução da Bíblia

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30/10/2015 16:55 - Atualizado em 30/10/2015 16:55

A Palavra de Deus na Bíblia (19): Interpretação e tradução da Bíblia 0

30/10/2015 16:55 - Atualizado em 30/10/2015 16:55

20.1. A interpretação bíblica na Idade Média

Iniciamos no artigo anterior uma reflexão sobre as características da interpretação bíblica na Idade Média, berço de homens como Joaquim de Fiori e Santo Tomás de Aquino.

O estado incerto dos textos bíblicos não impediu que os teólogos medievais neles meditassem para elaborar suas sínteses. O fato é que a precisão literal não parece ter sido um critério primeiro para eles. A Escritura deve ser acolhida no Espírito, entendida na fé, a única capaz de fazer com que seu sentido exato seja reencontrado.

A polêmica do século 16 acusou a Igreja de ter ocultado a Bíblia do povo. Mas não é verdade. Já mencionamos algumas tentativas de tradução da Bíblia nas línguas locais. Além do mais, toda a arte medieval falava da Bíblia, narrava as histórias bíblicas que enalteciam os mistérios da bondade de Deus e da doçura do Salvador. A cultura medieval, tanto a da Baixa Idade Média como a dos primeiros séculos do segundo milênio, não existiria se a Bíblia não tivesse sido comentada extensamente.

Quem não conhece a Escritura nada pode compreender dos capitéis romanos, dos tímpanos das catedrais góticas, das fachadas dos domos italianos. O que seria a história do Graal sem o sopro do Evangelho que envolveu todos os desejos do homem? A Bíblia esteve maciçamente presente em toda a extensão da Idade Média.

Os autores, contudo, não eram sensíveis à unidade própria de cada livro. Procuravam acima de tudo reencontrar em cada texto singular a unidade de sua fé. A diversidade dos Evangelhos não era entendida como uma multiplicidade de teologias, mas como o sinal da superabundância de Deus que se revela em significados polissêmicos. A particularidade de cada texto esvaía-se ante a totalidade da res da fé.

Por esse motivo, os comentários da alta Idade Média apresentam-se frequentemente como encadeamentos de citações. Pela mesma razão, as concordâncias temáticas e, a partir do século 12, as verbais multiplicaram-se.

Os teólogos que procuravam referências idôneas para sustentar suas argumentações tinham, desse modo, magníficos instrumentos de trabalho. Em decorrência disso, porém, os medievais consideravam a Escritura em uma perspectiva bastante distante da atual. Isso explica a crítica habitual à exegese da Idade Média: o seu objetivo era edificar a alma; não procurava conhecer o sentido literal do texto e com isso teria instrumentalizado e subjetivado a Bíblia. De fato, as interpretações alegóricas da Escritura podem por vezes nos surpreender.

21. A obra de Henri de Lubac: os quatro sentidos da Escritura

Mas a exegese da Idade Média não era apenas isso. Não é feita somente de interpretações que parecem oportunistas para os que não compartilham o seu espírito. Ela geralmente seguia regras bastante firmes, ainda que não formuladas claramente. O padre Henri de Lubac, em sua obra magistral intitulada “L’exégèse médiévale”, mostrou como a reflexão da Idade Média assumiu a Escritura segundo quatro sentidos que Agostinho da Dácia sintetizou em seu famoso dístico de 1827: “a letra ensina os fatos nos quais crês alegoricamente, que realizas moralmente e na direção dos quais tendes anagogicamente”.

Distinguem-se, assim, um sentido literal e três sentidos espirituais: alegórico ou dogmático, moral ou ético, e anagógico. Apresentemos rapidamente esses quatro sentidos, que formam a estrutura essencial da exegese medieval.

O vínculo entre o sentido literal e os sentidos espirituais é bem estabelecido. Não há sentido literal sem os três sentidos espirituais, nem sentidos espirituais sem o sentido literal. Tudo ocorre como se o primeiro e os outros três sentidos fossem necessariamente ligados por uma reciprocidade fundamental. Por sentido literal não é necessário entender os fatos que a exegese tenta reconstituir, mas o que precede cada sentido espiritual, vale dizer, o que precede cada apropriação subjetiva ou o que pertence somente a Deus. O empirismo ou o positivismo são incapazes de compreender esses fatos, que na realidade são de ordem divina e não física. A obra de Deus só pode ser captada na obediência da inteligência e do coração. Para a exegese religiosa, a letra faz parte da história da aliança prestes a se realizar. É somente no interior desse horizonte que se percebe o seu sentido justo e que se o respeita pelo que é: Deus que se apresenta ao homem.

O primeiro sentido espiritual é a alegoria. A palavra alegoria significa “passagem de um gênero a outro”. O sentido intelectualmente verificado de um fato é de um outro gênero em relação ao fato mesmo; a interpretação inteligível ou dogmática é uma alegoria no sentido etimológico da palavra (aliogenos), do mesmo modo que a explicação da parábola do semeador feita por Jesus (Mc 4,1-20 e par.). Toda explicação é, nesse sentido, uma alegoria. A verdade entendida alegoricamente convida o seu ouvinte a segui-la. O sentido moral é o da livre resposta a esse convite, do empenho moral concreto mediante o qual aquele que crê se põe a seguir o Verbo e empenha-se em realizar na própria existência aquele que lhe deu a luz. Assim, o sentido moral orienta a ação para o futuro. Contudo, esse futuro está presente anagogicamente no ato de liberdade. Mediante a anagogia, o teólogo esclarece os traços escatológicos do advento do Senhor, já aqui e não ainda, no hoje do pensamento e da ação. A oração de louvor, forma essencial de toda anagogia, exprime efetivamente, na atualidade cotidiana, o reconhecimento por Aquele para o qual tende a liberdade, o quanto lhe seja possível, malgrado seu pecado.

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A Palavra de Deus na Bíblia (19): Interpretação e tradução da Bíblia

30/10/2015 16:55 - Atualizado em 30/10/2015 16:55

20.1. A interpretação bíblica na Idade Média

Iniciamos no artigo anterior uma reflexão sobre as características da interpretação bíblica na Idade Média, berço de homens como Joaquim de Fiori e Santo Tomás de Aquino.

O estado incerto dos textos bíblicos não impediu que os teólogos medievais neles meditassem para elaborar suas sínteses. O fato é que a precisão literal não parece ter sido um critério primeiro para eles. A Escritura deve ser acolhida no Espírito, entendida na fé, a única capaz de fazer com que seu sentido exato seja reencontrado.

A polêmica do século 16 acusou a Igreja de ter ocultado a Bíblia do povo. Mas não é verdade. Já mencionamos algumas tentativas de tradução da Bíblia nas línguas locais. Além do mais, toda a arte medieval falava da Bíblia, narrava as histórias bíblicas que enalteciam os mistérios da bondade de Deus e da doçura do Salvador. A cultura medieval, tanto a da Baixa Idade Média como a dos primeiros séculos do segundo milênio, não existiria se a Bíblia não tivesse sido comentada extensamente.

Quem não conhece a Escritura nada pode compreender dos capitéis romanos, dos tímpanos das catedrais góticas, das fachadas dos domos italianos. O que seria a história do Graal sem o sopro do Evangelho que envolveu todos os desejos do homem? A Bíblia esteve maciçamente presente em toda a extensão da Idade Média.

Os autores, contudo, não eram sensíveis à unidade própria de cada livro. Procuravam acima de tudo reencontrar em cada texto singular a unidade de sua fé. A diversidade dos Evangelhos não era entendida como uma multiplicidade de teologias, mas como o sinal da superabundância de Deus que se revela em significados polissêmicos. A particularidade de cada texto esvaía-se ante a totalidade da res da fé.

Por esse motivo, os comentários da alta Idade Média apresentam-se frequentemente como encadeamentos de citações. Pela mesma razão, as concordâncias temáticas e, a partir do século 12, as verbais multiplicaram-se.

Os teólogos que procuravam referências idôneas para sustentar suas argumentações tinham, desse modo, magníficos instrumentos de trabalho. Em decorrência disso, porém, os medievais consideravam a Escritura em uma perspectiva bastante distante da atual. Isso explica a crítica habitual à exegese da Idade Média: o seu objetivo era edificar a alma; não procurava conhecer o sentido literal do texto e com isso teria instrumentalizado e subjetivado a Bíblia. De fato, as interpretações alegóricas da Escritura podem por vezes nos surpreender.

21. A obra de Henri de Lubac: os quatro sentidos da Escritura

Mas a exegese da Idade Média não era apenas isso. Não é feita somente de interpretações que parecem oportunistas para os que não compartilham o seu espírito. Ela geralmente seguia regras bastante firmes, ainda que não formuladas claramente. O padre Henri de Lubac, em sua obra magistral intitulada “L’exégèse médiévale”, mostrou como a reflexão da Idade Média assumiu a Escritura segundo quatro sentidos que Agostinho da Dácia sintetizou em seu famoso dístico de 1827: “a letra ensina os fatos nos quais crês alegoricamente, que realizas moralmente e na direção dos quais tendes anagogicamente”.

Distinguem-se, assim, um sentido literal e três sentidos espirituais: alegórico ou dogmático, moral ou ético, e anagógico. Apresentemos rapidamente esses quatro sentidos, que formam a estrutura essencial da exegese medieval.

O vínculo entre o sentido literal e os sentidos espirituais é bem estabelecido. Não há sentido literal sem os três sentidos espirituais, nem sentidos espirituais sem o sentido literal. Tudo ocorre como se o primeiro e os outros três sentidos fossem necessariamente ligados por uma reciprocidade fundamental. Por sentido literal não é necessário entender os fatos que a exegese tenta reconstituir, mas o que precede cada sentido espiritual, vale dizer, o que precede cada apropriação subjetiva ou o que pertence somente a Deus. O empirismo ou o positivismo são incapazes de compreender esses fatos, que na realidade são de ordem divina e não física. A obra de Deus só pode ser captada na obediência da inteligência e do coração. Para a exegese religiosa, a letra faz parte da história da aliança prestes a se realizar. É somente no interior desse horizonte que se percebe o seu sentido justo e que se o respeita pelo que é: Deus que se apresenta ao homem.

O primeiro sentido espiritual é a alegoria. A palavra alegoria significa “passagem de um gênero a outro”. O sentido intelectualmente verificado de um fato é de um outro gênero em relação ao fato mesmo; a interpretação inteligível ou dogmática é uma alegoria no sentido etimológico da palavra (aliogenos), do mesmo modo que a explicação da parábola do semeador feita por Jesus (Mc 4,1-20 e par.). Toda explicação é, nesse sentido, uma alegoria. A verdade entendida alegoricamente convida o seu ouvinte a segui-la. O sentido moral é o da livre resposta a esse convite, do empenho moral concreto mediante o qual aquele que crê se põe a seguir o Verbo e empenha-se em realizar na própria existência aquele que lhe deu a luz. Assim, o sentido moral orienta a ação para o futuro. Contudo, esse futuro está presente anagogicamente no ato de liberdade. Mediante a anagogia, o teólogo esclarece os traços escatológicos do advento do Senhor, já aqui e não ainda, no hoje do pensamento e da ação. A oração de louvor, forma essencial de toda anagogia, exprime efetivamente, na atualidade cotidiana, o reconhecimento por Aquele para o qual tende a liberdade, o quanto lhe seja possível, malgrado seu pecado.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica