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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/05/2017

27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (18): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (18): Interpretação e tradução da Bíblia

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23/10/2015 15:09 - Atualizado em 23/10/2015 15:09

A Palavra de Deus na Bíblia (18): Interpretação e tradução da Bíblia 0

23/10/2015 15:09 - Atualizado em 23/10/2015 15:09

20. A interpretação bíblica na Idade Média

Ao deixarmos para trás o esboço de leitura da oceânica obra exegética de Santo Agostinho, entramos em um terreno muito acidentado, a Idade Média. Este período riquíssimo da história humana tem sido denominado Idade das Trevas, sem razão suficiente. Por isso, quando se pensa que a Igreja foi a instituição protagonista deste período, não faltarão críticas.

A exegese medieval, que terá seu grande mestre em Santo Tomás de Aquino, trouxe grande riqueza à leitura da Bíblia. Por isso, faremos uma pequena digressão para entender que a Idade Média foi um período de grandes dificuldades, mas também um momento criativo na história da humanidade1.

A Idade Média viu nascer inumeráveis comentários da Escritura, em primeiro lugar fruto da oração e do estudo nos monastérios; em seguida, a partir do século 12, resultado do ensinamento universitário.

A Bíblia é a obra mais lida durante toda a Idade Média. A exegese desse período não parece preocupar-se muito com as questões históricas. Os escritores da época não consideravam necessário verificar a exatidão histórica dos enunciados escriturísticos. A res da Escritura, segundo a definição clássica da verdade como adaequatio rei et intellectus, (adequação das coisas e da realidade) não representa para eles um acontecimento histórico como outro fato qualquer.

Os autores da Idade Média, atentos mais à res da fé do que aos fatos do passado, não se interrogaram sobre a referência factual das narrativas bíblicas, ainda que, como veremos, Tomás de Aquino insista no respeito devido à verdade histórica indicada pela letra. A res da Escritura é um mistério de revelação e de redenção e não um fato a ser inserido entre as datas de nossa história.

Numerosas razões práticas também impediam que os autores se pusessem questões de história objetiva, entre elas principalmente o desmoronamento da cultura sob os golpes dos bárbaros. O conhecimento do grego, que desapareceu com o saque de Roma, não retornará antes do século 12, salvo raras exceções.

O hebraico era ainda menos acessível. Os textos não podiam, portanto, ser interpretados em sua língua original. Além disso, a Escritura é habitualmente lida como lectio divina: serve para edificar a alma e não tanto para informar o intelecto sobre as estruturas racionais dos mistérios revelados, ao menos até o século 12. É possível que o desmoronamento cultural, consequência das contínuas invasões das hordas bárbaras, tenha provocado o empobrecimento da investigação especulativa.

Com efeito, essas perspectivas críticas não foram ignoradas nos primeiros tempos, por exemplo, por Orígenes e Agostinho. Contudo, durante a Alta Idade Média era mais urgente reconstruir a interioridade espiritual. Seja como for, durante alguns séculos a Escritura é percebida, sobretudo, como um texto de edificação.

A transmissão do texto, por outro lado, tornava problemática a sua exatidão, e faltavam os meios para remediar essa lacuna. As primeiras traduções latinas da Bíblia vieram à luz bastante rapidamente, a partir do momento em que os ambientes romanos cultos converteram-se ao cristianismo.

São Cipriano foi a primeira testemunha de uma Bíblia latina inteiramente traduzida do grego, que foi chamada Versão Africana e cujos autores, sem dúvida variados, seguiram critérios de trabalho bastante coerentes uns com os outros. Essa versão foi difundida na Europa, mas adaptada às línguas das diversas comunidades, sobretudo ali onde era empregada na liturgia. Daí as numerosas versões nacionais da Bíblia, que seriam depois reunidas na “Vetus Latina”, a qual não era, todavia, aceita em toda parte, não obstante seu caráter comum. Santo Agostinho, por exemplo, elaborou uma versão pessoal da Escritura utilizando fontes mais ecléticas.

São Jerônimo revisou, a princípio, os Evangelhos e os Salmos litúrgicos da “Vetus Latina”, mas sem que essa sua obra obtivesse grande resultado. Iniciou em seguida uma nova tradução do conjunto da Escritura, a princípio partindo de um texto comumente aceito e atribuído a Orígenes, os famosos hexaples, e posteriormente utilizando o texto massorético recebido das sinagogas. Sua imensa cultura e sua prodigiosa memória permitiam-lhe completar suas fontes com outros textos, alguns deles siríacos. O conjunto dessa obra deu lugar à chamada “Vulgata”. A tradução que se deve propriamente a Jerônimo permanece, todavia, parcial.

Além disso, o texto de Jerônimo foi alterado bastante rapidamente pelos costumes litúrgicos que tentavam preservar os direitos da “Vetus Latina” e de suas versões nacionais. Daí o esforço incessante para melhorar o texto, como ocorreu, por exemplo, por obra de Alcuíno. Abade de São Martinho de Tours (uma abadia célebre por seu scriptorium) por volta dos anos 800, Alcuíno efetuou a revisão da Bíblia baseando-se mais na “Vulgata” do que na “Vetus Latina”. Empenhou-se sobretudo em corrigir os erros de ortografia e de gramática e em retificar o estilo às vezes contaminado por toscos barbarismos.

A história da “Vulgata”, entre os séculos 10 e 11, ainda está por ser escrita. A atual numeração dos capítulos remonta àquela época. Os bibliófilos sabem que as Bíblias do século 12 são particularmente pequenas, por assim dizer de bolso, o que era indispensável para poder viajar rapidamente!

Foi somente por volta de 1455 que a Universidade de Paris – a qual, em 1226, já encomendara a alguns copistas uma Bíblia orgânica, mas que era, de fato, bastante falsificada – adotou uma versão oficial da “Vulgata”, que foi o primeiro texto impresso por Gutenberg. Esse texto, na realidade, não era muito bom. Erasmo o criticou.

1 www.apologeticacatolica.com.br/agnusdei/livr94.htm

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (18): Interpretação e tradução da Bíblia

23/10/2015 15:09 - Atualizado em 23/10/2015 15:09

20. A interpretação bíblica na Idade Média

Ao deixarmos para trás o esboço de leitura da oceânica obra exegética de Santo Agostinho, entramos em um terreno muito acidentado, a Idade Média. Este período riquíssimo da história humana tem sido denominado Idade das Trevas, sem razão suficiente. Por isso, quando se pensa que a Igreja foi a instituição protagonista deste período, não faltarão críticas.

A exegese medieval, que terá seu grande mestre em Santo Tomás de Aquino, trouxe grande riqueza à leitura da Bíblia. Por isso, faremos uma pequena digressão para entender que a Idade Média foi um período de grandes dificuldades, mas também um momento criativo na história da humanidade1.

A Idade Média viu nascer inumeráveis comentários da Escritura, em primeiro lugar fruto da oração e do estudo nos monastérios; em seguida, a partir do século 12, resultado do ensinamento universitário.

A Bíblia é a obra mais lida durante toda a Idade Média. A exegese desse período não parece preocupar-se muito com as questões históricas. Os escritores da época não consideravam necessário verificar a exatidão histórica dos enunciados escriturísticos. A res da Escritura, segundo a definição clássica da verdade como adaequatio rei et intellectus, (adequação das coisas e da realidade) não representa para eles um acontecimento histórico como outro fato qualquer.

Os autores da Idade Média, atentos mais à res da fé do que aos fatos do passado, não se interrogaram sobre a referência factual das narrativas bíblicas, ainda que, como veremos, Tomás de Aquino insista no respeito devido à verdade histórica indicada pela letra. A res da Escritura é um mistério de revelação e de redenção e não um fato a ser inserido entre as datas de nossa história.

Numerosas razões práticas também impediam que os autores se pusessem questões de história objetiva, entre elas principalmente o desmoronamento da cultura sob os golpes dos bárbaros. O conhecimento do grego, que desapareceu com o saque de Roma, não retornará antes do século 12, salvo raras exceções.

O hebraico era ainda menos acessível. Os textos não podiam, portanto, ser interpretados em sua língua original. Além disso, a Escritura é habitualmente lida como lectio divina: serve para edificar a alma e não tanto para informar o intelecto sobre as estruturas racionais dos mistérios revelados, ao menos até o século 12. É possível que o desmoronamento cultural, consequência das contínuas invasões das hordas bárbaras, tenha provocado o empobrecimento da investigação especulativa.

Com efeito, essas perspectivas críticas não foram ignoradas nos primeiros tempos, por exemplo, por Orígenes e Agostinho. Contudo, durante a Alta Idade Média era mais urgente reconstruir a interioridade espiritual. Seja como for, durante alguns séculos a Escritura é percebida, sobretudo, como um texto de edificação.

A transmissão do texto, por outro lado, tornava problemática a sua exatidão, e faltavam os meios para remediar essa lacuna. As primeiras traduções latinas da Bíblia vieram à luz bastante rapidamente, a partir do momento em que os ambientes romanos cultos converteram-se ao cristianismo.

São Cipriano foi a primeira testemunha de uma Bíblia latina inteiramente traduzida do grego, que foi chamada Versão Africana e cujos autores, sem dúvida variados, seguiram critérios de trabalho bastante coerentes uns com os outros. Essa versão foi difundida na Europa, mas adaptada às línguas das diversas comunidades, sobretudo ali onde era empregada na liturgia. Daí as numerosas versões nacionais da Bíblia, que seriam depois reunidas na “Vetus Latina”, a qual não era, todavia, aceita em toda parte, não obstante seu caráter comum. Santo Agostinho, por exemplo, elaborou uma versão pessoal da Escritura utilizando fontes mais ecléticas.

São Jerônimo revisou, a princípio, os Evangelhos e os Salmos litúrgicos da “Vetus Latina”, mas sem que essa sua obra obtivesse grande resultado. Iniciou em seguida uma nova tradução do conjunto da Escritura, a princípio partindo de um texto comumente aceito e atribuído a Orígenes, os famosos hexaples, e posteriormente utilizando o texto massorético recebido das sinagogas. Sua imensa cultura e sua prodigiosa memória permitiam-lhe completar suas fontes com outros textos, alguns deles siríacos. O conjunto dessa obra deu lugar à chamada “Vulgata”. A tradução que se deve propriamente a Jerônimo permanece, todavia, parcial.

Além disso, o texto de Jerônimo foi alterado bastante rapidamente pelos costumes litúrgicos que tentavam preservar os direitos da “Vetus Latina” e de suas versões nacionais. Daí o esforço incessante para melhorar o texto, como ocorreu, por exemplo, por obra de Alcuíno. Abade de São Martinho de Tours (uma abadia célebre por seu scriptorium) por volta dos anos 800, Alcuíno efetuou a revisão da Bíblia baseando-se mais na “Vulgata” do que na “Vetus Latina”. Empenhou-se sobretudo em corrigir os erros de ortografia e de gramática e em retificar o estilo às vezes contaminado por toscos barbarismos.

A história da “Vulgata”, entre os séculos 10 e 11, ainda está por ser escrita. A atual numeração dos capítulos remonta àquela época. Os bibliófilos sabem que as Bíblias do século 12 são particularmente pequenas, por assim dizer de bolso, o que era indispensável para poder viajar rapidamente!

Foi somente por volta de 1455 que a Universidade de Paris – a qual, em 1226, já encomendara a alguns copistas uma Bíblia orgânica, mas que era, de fato, bastante falsificada – adotou uma versão oficial da “Vulgata”, que foi o primeiro texto impresso por Gutenberg. Esse texto, na realidade, não era muito bom. Erasmo o criticou.

1 www.apologeticacatolica.com.br/agnusdei/livr94.htm

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica