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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/11/2017

19 de Novembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (16): Interpretação e tradução da Bíblia

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19 de Novembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (16): Interpretação e tradução da Bíblia

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09/10/2015 00:00 - Atualizado em 16/10/2015 14:59

A Palavra de Deus na Bíblia (16): Interpretação e tradução da Bíblia 0

09/10/2015 00:00 - Atualizado em 16/10/2015 14:59

O leitor destes artigos já se deu conta da imensidão de elementos que compõem o continental patrimônio de Santo Agostinho. Não me refiro às obras teológicas e morais, mas somente às bíblicas.

No momento em que Santo Agostinho escreve suas homilias e comentários bíblicos, a Igreja começava a viver novos tempos, por causa do Edito de Constantino (313 d.C), que liberou a Igreja da Perseguição externa do Império. Mas, sobretudo, vêm à tona querelas internas, heresias e contradições que exigiram muita inteligência, caridade e energia!

18. Uma Teologia Bíblica do “Ágape” na Primeira Carta

A primeira questão que se coloca à categoria ‘ágape’ (amor) em seu uso na teologia de Santo Agostinho refere-se ao uso ou influência da filosofia platônica, reconhecidamente presente no ambiente e na formação do bispo de Hipona. “Ágape” ou “Philia”, afinal Agostinho construiu uma teologia cristã ou filosofia cristã helenizada?

A influência da filosofia neoplatônica, não só sobre o pensamento de Agostinho, como também sobre o cristianismo primitivo é evidente1.

É o que afirma Arnold J. Toynbee, “Helenismo. História de uma Civilização”, p. 26: “Na Filosofia helênica, o cristianismo encontrou o meio intelectual para a formulação das crenças cristãs em termos aceitáveis a minoria educada da sociedade helênica. Na estrutura do Império Romano, a Igreja cristã encontrou o modelo funcional para a sua própria organização.”

Mas é necessário também afirmar contra outros historiadores que, repudiando o helenismo, sobretudo após a reforma, atribuem a ‘decadência’ da Igreja à esta empresa, “O Cristianismo grego afastou-se das tradições do helenismo com inovações radicais em numerosos campos... A poesia litúrgica e piedosa greco-cristã foi reformulada no séc. VII em moldes sírio-cristãos.”

Embora se possa dizer que “O Cristianismo superou o Helenismo, ele não o repudiou, e nem podia. Pois, os elementos da cultura helênica, que antes adotara,   serviram como instrumentos de realização de seu objetivo, aquele de converter o mundo helênico. As Escrituras da Igreja cristã eram escritas em grego e latim.”

Não nos cabe aqui entrar em detalhes, aqui é necessário como premissa, mostrar um aspecto central da Exegese Joanina de Santo Agostinho, isto é, a sua hermenêutica: o ‘gozo’ ou o ‘amor’: “Na História da Teologia cristã as realidades que se devem usufruir são o Pai, o Filho e o Espírito Santo, isto é, a Trindade” (Doct. Christ. V,59)2.

Para os platônicos, o objetivo supremo é a visão, mas na definição de Agostinho, o verbo ‘godere’ (usufruir) mostra já a peculiaridade de seu pensamento: “Usufruir significa aderir a uma realidade por amor por causa dessa mesma realidade” (Doct. Christ. I, IV,4)3.

O “amor” torna-se assim a voz central na sua theologia, graças a qual Santo Agostinho supera o pensamento platônico, meramente intelectual4.

Na segunda parte da “Doctrina Christiana”, partindo de Mt 22,37, o duplo mandamento do amor, Santo Agostinho coloca-se o problema da contradição entre o objetivo único proposto pela filosofia platônica: o gozo de Deus como Sumo Bem e aquele duplo, expresso no mandamento: o amor a Deus e ao próximo.

Por isso, os estudiosos afirmam, como Reventlow, “Agostino o resolve considerando o amor ao próximo englobado no amor de Deus, também no sentido que se deve conduzir o próximo ao amor de Deus (XXII, 21)... O mandamento do amor induz Agostinho a precisar: ‘amor’ não indica um relação meramente intelectual, do tipo filosófico, bem que, uma relação etico-pessoal. Surge assim, a teologia própria de Agostinho”5.

Trata-se da substância do Evangelho e da Literatura Joanina, a auto-Revelação Divina, que se exprime na sublime ‘definição’: 1Jo 4,8 “qui non diligit non novit Deum quoniam Deus caritas est”: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.

1 Cfr. J. Daniélou, Message Évangelique et Culture Hellénistique , vol. II, Desclée & Cerf, Paris, 19912, espec., Platon dans le moyen-platonisme Chrétien, p. 103-22.

2  Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, in Storia dell’interpretazione biblica, p. 117.

3 Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, in Storia dell’interpretazione biblica, p. 117.

4 Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, p. 118.

5 Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, in Storia dell’interpretazione biblica, 117; A. Vita (org.), Sant’Agostino, Commento al Vangelo e alla Prima Epistola, Città Nuova, Roma, 19852, espec. 54-6; assim como toda a obra de D. Dideberg, Saint Augustin et la Première Épître de Saint Jean. Une Théologie de l’Agapè, Beauchesne, Paris, 1975, 29-53.

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A Palavra de Deus na Bíblia (16): Interpretação e tradução da Bíblia

09/10/2015 00:00 - Atualizado em 16/10/2015 14:59

O leitor destes artigos já se deu conta da imensidão de elementos que compõem o continental patrimônio de Santo Agostinho. Não me refiro às obras teológicas e morais, mas somente às bíblicas.

No momento em que Santo Agostinho escreve suas homilias e comentários bíblicos, a Igreja começava a viver novos tempos, por causa do Edito de Constantino (313 d.C), que liberou a Igreja da Perseguição externa do Império. Mas, sobretudo, vêm à tona querelas internas, heresias e contradições que exigiram muita inteligência, caridade e energia!

18. Uma Teologia Bíblica do “Ágape” na Primeira Carta

A primeira questão que se coloca à categoria ‘ágape’ (amor) em seu uso na teologia de Santo Agostinho refere-se ao uso ou influência da filosofia platônica, reconhecidamente presente no ambiente e na formação do bispo de Hipona. “Ágape” ou “Philia”, afinal Agostinho construiu uma teologia cristã ou filosofia cristã helenizada?

A influência da filosofia neoplatônica, não só sobre o pensamento de Agostinho, como também sobre o cristianismo primitivo é evidente1.

É o que afirma Arnold J. Toynbee, “Helenismo. História de uma Civilização”, p. 26: “Na Filosofia helênica, o cristianismo encontrou o meio intelectual para a formulação das crenças cristãs em termos aceitáveis a minoria educada da sociedade helênica. Na estrutura do Império Romano, a Igreja cristã encontrou o modelo funcional para a sua própria organização.”

Mas é necessário também afirmar contra outros historiadores que, repudiando o helenismo, sobretudo após a reforma, atribuem a ‘decadência’ da Igreja à esta empresa, “O Cristianismo grego afastou-se das tradições do helenismo com inovações radicais em numerosos campos... A poesia litúrgica e piedosa greco-cristã foi reformulada no séc. VII em moldes sírio-cristãos.”

Embora se possa dizer que “O Cristianismo superou o Helenismo, ele não o repudiou, e nem podia. Pois, os elementos da cultura helênica, que antes adotara,   serviram como instrumentos de realização de seu objetivo, aquele de converter o mundo helênico. As Escrituras da Igreja cristã eram escritas em grego e latim.”

Não nos cabe aqui entrar em detalhes, aqui é necessário como premissa, mostrar um aspecto central da Exegese Joanina de Santo Agostinho, isto é, a sua hermenêutica: o ‘gozo’ ou o ‘amor’: “Na História da Teologia cristã as realidades que se devem usufruir são o Pai, o Filho e o Espírito Santo, isto é, a Trindade” (Doct. Christ. V,59)2.

Para os platônicos, o objetivo supremo é a visão, mas na definição de Agostinho, o verbo ‘godere’ (usufruir) mostra já a peculiaridade de seu pensamento: “Usufruir significa aderir a uma realidade por amor por causa dessa mesma realidade” (Doct. Christ. I, IV,4)3.

O “amor” torna-se assim a voz central na sua theologia, graças a qual Santo Agostinho supera o pensamento platônico, meramente intelectual4.

Na segunda parte da “Doctrina Christiana”, partindo de Mt 22,37, o duplo mandamento do amor, Santo Agostinho coloca-se o problema da contradição entre o objetivo único proposto pela filosofia platônica: o gozo de Deus como Sumo Bem e aquele duplo, expresso no mandamento: o amor a Deus e ao próximo.

Por isso, os estudiosos afirmam, como Reventlow, “Agostino o resolve considerando o amor ao próximo englobado no amor de Deus, também no sentido que se deve conduzir o próximo ao amor de Deus (XXII, 21)... O mandamento do amor induz Agostinho a precisar: ‘amor’ não indica um relação meramente intelectual, do tipo filosófico, bem que, uma relação etico-pessoal. Surge assim, a teologia própria de Agostinho”5.

Trata-se da substância do Evangelho e da Literatura Joanina, a auto-Revelação Divina, que se exprime na sublime ‘definição’: 1Jo 4,8 “qui non diligit non novit Deum quoniam Deus caritas est”: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.

1 Cfr. J. Daniélou, Message Évangelique et Culture Hellénistique , vol. II, Desclée & Cerf, Paris, 19912, espec., Platon dans le moyen-platonisme Chrétien, p. 103-22.

2  Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, in Storia dell’interpretazione biblica, p. 117.

3 Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, in Storia dell’interpretazione biblica, p. 117.

4 Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, p. 118.

5 Cfr. H.G. Reventlow, La Bibbia e il Pensiero Antico: Agostino, in Storia dell’interpretazione biblica, 117; A. Vita (org.), Sant’Agostino, Commento al Vangelo e alla Prima Epistola, Città Nuova, Roma, 19852, espec. 54-6; assim como toda a obra de D. Dideberg, Saint Augustin et la Première Épître de Saint Jean. Une Théologie de l’Agapè, Beauchesne, Paris, 1975, 29-53.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica