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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/07/2019

19 de Julho de 2019

Nossa Senhora de Nazaré

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Nossa Senhora de Nazaré

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09/10/2015 00:00 - Atualizado em 10/10/2015 18:50

Nossa Senhora de Nazaré 0

09/10/2015 00:00 - Atualizado em 10/10/2015 18:50

Neste final de semana nossos olhos se voltam para a grande manifestação do Círio de Nazaré em Belém do Pará. É um ponto de chegada depois de tantas celebrações e reflexões e, ao mesmo tempo, tempo de partida para tantas outras manifestações na chamada “quadra nazarena”. A tradição atual tem uma história antiga que precede ao encontro da imagem junto ao Igarapé do jovem Plácido, que deu início à tradição do Círio em Belém. A imagem que chegou às terras paraenses tem uma tradição antiga, muitas vezes envolta em tradições orais e lenda, mas que demonstram um carinho muito grande para com a mãe de Jesus.

Nossa Senhora de Nazaré surge de uma antiga tradição cristã não documentada do primeiro século, que atribui que o próprio São José teria esculpido uma imagem de Maria em madeira, em Nazaré na Galiléia e que São Lucas Evangelista a pintou. Mais tarde, a imagem foi levada para o mosteiro de Cauliniana, na Espanha. Depois, já no século VI, no ano de 711, foi levada para Portugal.

Com a invasão dos Mouros em Portugal, o rei Rodrigo, último rei visigodo da Península Ibérica, fugiu levando as relíquias de São Brás, São Bartolomeu e a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, junto com sua família e com Frei Romano que sempre o acompanhou.

Antes de morrer, Frei Romano teria escondido a imagem numa gruta. A imagem ficou ali por mais de 400 anos. Ela foi descoberta em 1182, por pastores que andavam pela região. Por causa da sua simplicidade, beleza e diferença dos padrões de imagens, Nossa Senhora de Nazaré voltou a ser venerada.

O cavaleiro Diego Fuas Roupinho, que era Alcaide do porto de Mós e Almirante de Dom Afonso, assim foi salvo por milagre de Nossa Senhora de Nazaré: Ele perseguia uma caça num dia de muita neblina. A caça caiu num abismo por causa da cerração. O cavaleiro não sabia que corria para o abismo. Mas, antes caísse, ele vinha rezando a Senhora de Nazaré para que o protegesse.

De repente, então, o cavalo parou. A cerração se dissipou e ele viu que estava à beira de um abismo onde a caça tinha caído. Após esse milagre, a vila onde ocorreu passou a ser chamada de vila de Nossa Senhora de Nazaré. Lá, foi construída uma pequena capela por Diego Roupinho, o cavaleiro salvo. Hoje existe ali uma grande Igreja em homenagem a Nossa Senhora.

Os Jesuítas foram os primeiros responsáveis em propagar a devoção de Nossa Senhora de Nazaré por toda a região de Portugal e posteriormente para toda a Europa. A principal casa de estudos e noviciado do mosteiro Jesuíta em Portugal é dedicada a Nossa Senhora de Nazaré.

No dia 8 de setembro do ano de 1630, após uma grande tempestade, um pescador saiu para ver suas redes no mar de Saquarema no estado do Rio de Janeiro. Ao passar diante de um morro, onde hoje está erguida a Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora de Nazaré, viu uma forte luz e foi verificar o que era. No local do brilho, ele encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

Levou a imagem para sua casa na vila dos pescadores, reuniu todos os pescadores, fizeram orações e foram dormir. No dia seguinte, a imagem reapareceu no local onde havia sido encontrada. Isso aconteceu por duas vezes.  Todos entenderam que era para construir uma capela naquele local. Muitos milagres aconteceram a partir de então e a capela ficou pequena, sendo necessário construir uma igreja bem maior. Sua festa é celebrada no dia 8 de setembro.

As diversas tradições fizeram também que a imagem de Nossa Senhora de Nazaré diferente nos vários locais. No norte do Brasil a tradição que se iniciou em Vigia de Nazaré haveria de tomar corpo e ser solenemente celebrada na capital da Província do Grão Pará, a cidade de Santa Maria de Belém. Ali a tradição tomou o nome de círio de Nazaré que haveria de influenciar as demais celebrações nazarenas.

Círio, cereus, é uma palavra que significa vela grande.  A devoção à Senhora de Nazaré foi levada para Belém do Pará pelos padres Jesuítas há mais de 200 anos e se tornou a maior festa católica do mundo dedicada à Mãe de Jesus. A festa é celebrada desde 1793, e hoje, mais de 2 milhões de pessoas (numa mesma celebração) participam todos os anos.  É celebrada no segundo domingo de outubro. Esse mesmo público é repetido outros dias durante as diversas manifestações.

O Círio a que hoje assistimos é bem mais do que uma simples procissão devocional. Além disso, ele é ponto inicial para um ciclo de Romarias na própria Belém de outros Círios que ocorre em todo o interior do Estado do Pará e também em outros estados, envolvendo procissão e festa e no qual se desenrola o que denominamos de um sistema de intercâmbio de pessoas, interesses e manifestações simbólicas marcadas pelas trocas e um amplo sentimento de complementaridade e reciprocidade. Em Belém do Pará a tradição do Círio faz cultura. A cultura do norte do Brasil é marcada por esse evento.

Uma das características da Festa de Nazaré é que ela é um ponto nodal (fim e início) de um ciclo no calendário regional que compreende um tempo muito particular – daí as expressões referentes ao Círio como a grande festa dos paraenses, com as correspondentes saudações de um "um bom ou feliz Círio" nos encontros entre pessoas às vésperas do evento, tal como se deseja votos para outras ocasiões de ano como, por exemplo, ao desejar um bom Natal ou um feliz Ano Novo. O cumprimento ritual atualiza a passagem de um ciclo a outro, revela os desejos comunitários e o sentimento de pertencimento e a renovação de relações socialmente estabelecidas. Por isso mesmo, em seus desdobramentos, a realização da Festa durante a quinzena vai mostrar esses aspectos valorativos que lhes são próprios.

A conjugação dessas diferentes disposições é que dá à Festa de Nossa Senhora de Nazaré uma dimensão peculiar, permitindo uma combinação entre opostos, um clima de conciliação no qual a padroeira é, por excelência, o símbolo aglutinador. Na prática do ritual e no seu desempenho, essa conexão de domínios – do alto/ baixo, do sagrado/ profano – aparece na conjugação de categorias sociais distintas, na suspensão das barreiras sociais e na busca de uma motivação coletiva comum a todos. O povo acompanha, em grande parte, a procissão descalço – em especial quem vai segurando a corda. Pagar a promessa com extremo sacrifício significa mobilizar instrumentos que identificam diferentes grupos sociais os quais, nesse contexto, integram uma espécie de comunidade de iguais.

Eis um belo momento que marca o nosso país. Peço a proteção de Nossa Senhora de Nazaré para toda a Amazônia. Cumprimento a Igreja Metropolitana de Santa Maria do Grão Pará, o seu Excelentíssimo Senhor Arcebispo Dom Alberto Taveira Corrêa, o reverendo clero e todo o amado povo do Pará.  Que a Virgem Santíssima de Nazaré a todos nós nos ilumine e proteja junto de Deus!

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Nossa Senhora de Nazaré

09/10/2015 00:00 - Atualizado em 10/10/2015 18:50

Neste final de semana nossos olhos se voltam para a grande manifestação do Círio de Nazaré em Belém do Pará. É um ponto de chegada depois de tantas celebrações e reflexões e, ao mesmo tempo, tempo de partida para tantas outras manifestações na chamada “quadra nazarena”. A tradição atual tem uma história antiga que precede ao encontro da imagem junto ao Igarapé do jovem Plácido, que deu início à tradição do Círio em Belém. A imagem que chegou às terras paraenses tem uma tradição antiga, muitas vezes envolta em tradições orais e lenda, mas que demonstram um carinho muito grande para com a mãe de Jesus.

Nossa Senhora de Nazaré surge de uma antiga tradição cristã não documentada do primeiro século, que atribui que o próprio São José teria esculpido uma imagem de Maria em madeira, em Nazaré na Galiléia e que São Lucas Evangelista a pintou. Mais tarde, a imagem foi levada para o mosteiro de Cauliniana, na Espanha. Depois, já no século VI, no ano de 711, foi levada para Portugal.

Com a invasão dos Mouros em Portugal, o rei Rodrigo, último rei visigodo da Península Ibérica, fugiu levando as relíquias de São Brás, São Bartolomeu e a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, junto com sua família e com Frei Romano que sempre o acompanhou.

Antes de morrer, Frei Romano teria escondido a imagem numa gruta. A imagem ficou ali por mais de 400 anos. Ela foi descoberta em 1182, por pastores que andavam pela região. Por causa da sua simplicidade, beleza e diferença dos padrões de imagens, Nossa Senhora de Nazaré voltou a ser venerada.

O cavaleiro Diego Fuas Roupinho, que era Alcaide do porto de Mós e Almirante de Dom Afonso, assim foi salvo por milagre de Nossa Senhora de Nazaré: Ele perseguia uma caça num dia de muita neblina. A caça caiu num abismo por causa da cerração. O cavaleiro não sabia que corria para o abismo. Mas, antes caísse, ele vinha rezando a Senhora de Nazaré para que o protegesse.

De repente, então, o cavalo parou. A cerração se dissipou e ele viu que estava à beira de um abismo onde a caça tinha caído. Após esse milagre, a vila onde ocorreu passou a ser chamada de vila de Nossa Senhora de Nazaré. Lá, foi construída uma pequena capela por Diego Roupinho, o cavaleiro salvo. Hoje existe ali uma grande Igreja em homenagem a Nossa Senhora.

Os Jesuítas foram os primeiros responsáveis em propagar a devoção de Nossa Senhora de Nazaré por toda a região de Portugal e posteriormente para toda a Europa. A principal casa de estudos e noviciado do mosteiro Jesuíta em Portugal é dedicada a Nossa Senhora de Nazaré.

No dia 8 de setembro do ano de 1630, após uma grande tempestade, um pescador saiu para ver suas redes no mar de Saquarema no estado do Rio de Janeiro. Ao passar diante de um morro, onde hoje está erguida a Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora de Nazaré, viu uma forte luz e foi verificar o que era. No local do brilho, ele encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

Levou a imagem para sua casa na vila dos pescadores, reuniu todos os pescadores, fizeram orações e foram dormir. No dia seguinte, a imagem reapareceu no local onde havia sido encontrada. Isso aconteceu por duas vezes.  Todos entenderam que era para construir uma capela naquele local. Muitos milagres aconteceram a partir de então e a capela ficou pequena, sendo necessário construir uma igreja bem maior. Sua festa é celebrada no dia 8 de setembro.

As diversas tradições fizeram também que a imagem de Nossa Senhora de Nazaré diferente nos vários locais. No norte do Brasil a tradição que se iniciou em Vigia de Nazaré haveria de tomar corpo e ser solenemente celebrada na capital da Província do Grão Pará, a cidade de Santa Maria de Belém. Ali a tradição tomou o nome de círio de Nazaré que haveria de influenciar as demais celebrações nazarenas.

Círio, cereus, é uma palavra que significa vela grande.  A devoção à Senhora de Nazaré foi levada para Belém do Pará pelos padres Jesuítas há mais de 200 anos e se tornou a maior festa católica do mundo dedicada à Mãe de Jesus. A festa é celebrada desde 1793, e hoje, mais de 2 milhões de pessoas (numa mesma celebração) participam todos os anos.  É celebrada no segundo domingo de outubro. Esse mesmo público é repetido outros dias durante as diversas manifestações.

O Círio a que hoje assistimos é bem mais do que uma simples procissão devocional. Além disso, ele é ponto inicial para um ciclo de Romarias na própria Belém de outros Círios que ocorre em todo o interior do Estado do Pará e também em outros estados, envolvendo procissão e festa e no qual se desenrola o que denominamos de um sistema de intercâmbio de pessoas, interesses e manifestações simbólicas marcadas pelas trocas e um amplo sentimento de complementaridade e reciprocidade. Em Belém do Pará a tradição do Círio faz cultura. A cultura do norte do Brasil é marcada por esse evento.

Uma das características da Festa de Nazaré é que ela é um ponto nodal (fim e início) de um ciclo no calendário regional que compreende um tempo muito particular – daí as expressões referentes ao Círio como a grande festa dos paraenses, com as correspondentes saudações de um "um bom ou feliz Círio" nos encontros entre pessoas às vésperas do evento, tal como se deseja votos para outras ocasiões de ano como, por exemplo, ao desejar um bom Natal ou um feliz Ano Novo. O cumprimento ritual atualiza a passagem de um ciclo a outro, revela os desejos comunitários e o sentimento de pertencimento e a renovação de relações socialmente estabelecidas. Por isso mesmo, em seus desdobramentos, a realização da Festa durante a quinzena vai mostrar esses aspectos valorativos que lhes são próprios.

A conjugação dessas diferentes disposições é que dá à Festa de Nossa Senhora de Nazaré uma dimensão peculiar, permitindo uma combinação entre opostos, um clima de conciliação no qual a padroeira é, por excelência, o símbolo aglutinador. Na prática do ritual e no seu desempenho, essa conexão de domínios – do alto/ baixo, do sagrado/ profano – aparece na conjugação de categorias sociais distintas, na suspensão das barreiras sociais e na busca de uma motivação coletiva comum a todos. O povo acompanha, em grande parte, a procissão descalço – em especial quem vai segurando a corda. Pagar a promessa com extremo sacrifício significa mobilizar instrumentos que identificam diferentes grupos sociais os quais, nesse contexto, integram uma espécie de comunidade de iguais.

Eis um belo momento que marca o nosso país. Peço a proteção de Nossa Senhora de Nazaré para toda a Amazônia. Cumprimento a Igreja Metropolitana de Santa Maria do Grão Pará, o seu Excelentíssimo Senhor Arcebispo Dom Alberto Taveira Corrêa, o reverendo clero e todo o amado povo do Pará.  Que a Virgem Santíssima de Nazaré a todos nós nos ilumine e proteja junto de Deus!

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro