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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/11/2017

20 de Novembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (14): Interpretação e tradução da Bíblia

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20 de Novembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (14): Interpretação e tradução da Bíblia

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18/09/2015 16:58 - Atualizado em 18/09/2015 16:59

A Palavra de Deus na Bíblia (14): Interpretação e tradução da Bíblia 0

18/09/2015 16:58 - Atualizado em 18/09/2015 16:59

15.3. A EXEGESE DE SANTO AGOSTINHO

Trata-se antes de, modestamente, apresentar alguns princípios da exegese de Santo Agostinho, que encontramos em “Doctrina Christiana” e, em um segundo momento, examinar alguns tópicos da exegese agostiniana do ágape em São João, tanto numa visão introdutória ao “Comentário do Evangelho” como também num já clássico estudo sobre a Primeira Epístola.

15.4. DE DOCTRINA CHRISTIANA

Esta obra, composta de quatro livros, teve seus três primeiros escritos provavelmente em 397 e revisada em 427 (Retractattiones II, 4,30), quando apareceu o quarto livro. Ele contém uma síntese da doutrina cristã baseada na distinção entre uti e frui: “Frui” significa afeiçoar-se a algo por si mesmo, ou seja, “fruir e aderir a alguma coisa por amor a ela própria”(De Doc. Christ 1,4). “Utilizar”, ao contrário, e servir-se de algo para alcançar um objeto que se ama; ou seja, dizemos “usar”, quando buscamos um objeto por outro” (De Civ. Dei XI,25).

15.5. PRINCÍPIOS HERMENÊUTICOS AGOSTINIANOS

Em “De Doctrina Christiana”, Agostinho expõe como há de se interpretar as dificuldades e ambiguidades do texto bíblico, relacionando à interpretação bíblica e à doutrina cristã: “Agostinho de Hipona tende a uma divisão quadripartida: história, etiologia, analogia e alegoria. Para ele, os sentidos literal e espiritual são igualmente válidos (signum et res). A regula fidei é o que determina qual dos sentidos, literal ou figurativo, prevalece em cada caso. Este recurso ao critério da regula fidei levanta o problema de quais devem ser as relações entre a hermenêutica bíblica e o dogma. Qualquer desenvolvimento autônomo da hermenêutica em relação ao dogma fica interdito”1.

E aqui está sua intuição fundamental, a saber, que a dificuldade de interpretar a Escritura nasce da incerteza de compreender onde a linguagem é própria, onde é figurada. A análise da linguagem em âmbito semiótico leva Santo Agostinho a formular a teoria do sinal, a mais completa que encontramos na antiguidade.

Em Doct.Christ. III,II, 2: Este trecho estabelece princípios inestimáveis. Em termos modernos, Santo Agostinho afirma que, para resolver uma dificuldade de ‘leitura’, primeiramente se deve recorrer à analogia scripturae, e então à analogia fidei, ou ainda ao contexto próximo.

Em Doct.Christ.III, XXVII, 38 e XXVIII, 39, Santo Agostinho reconhece claramente os diversos sentidos da Escritura. Antes de tudo, porém, não renuncia ao sensus auctoris (sentido do autor), porque é próprio aquele que o Espírito Santo inspira e é através da intenção consciente do autor que Deus fala, pois a ‘compreensão plena’ que advém das Escrituras depende do Espírito Santo. Ele é a origem da Escritura e possibilita que os passos mais obscuros sejam acessíveis ao leitor-crente, o que não elimina o esforço de ordem filológica: “A primeira regra que se deve seguir para esclarecer as dúvidas é a referência às línguas originais, hebraica e grega.

Veremos mais adiante, na sua exegese joanina, a força do ‘amor’ como fonte moral, enquanto ‘novo mandamento’ e enquanto obra do conhecimento do Espírito, fonte de perfeição da vida cristã.

E em âmbito retórico, ele sugere a revolucionária novidade de relacionar os textos da Escritura e da literatura cristã àqueles clássicos do paganismo, como instrumento escolástico das normas de retórica.

Outro aspecto importante da hermenêutica agostiniana, presente nesta obra, é a fundamentação moral a que a interpretação da Escritura corretamente conduz. A Bíblia é um manual de ética e o acento é posto sobre o mandamento, mas para isso deve ser manual de doutrina de fé e mística.

Mesmo sem esgotar os muitos aspectos dessa complexa obra, podemos seguir as máximas de um contemporâneo discípulo de Agostinho, P. Grech, quando afirma que essa obra indicava as regras definitivas da hermenêutica bíblica e eclesial, baseadas sobre o esforço composto da razão (ele, por exemplo, recomendava o conhecimento do grego e do hebraico) e o acolhimento da fé, como regra.

Algo que o Documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” (1993), séculos depois, repete e recorda a exegetas e a todos os cristãos que alimentam sua fé nas Escrituras.

O problema da interpretação da Bíblia não é uma invenção moderna como algumas vezes se quer fazer crer. A Bíblia mesma atesta que sua interpretação apresenta dificuldades. Ao lado de textos límpidos, ela comporta passagens obscuras. Lendo certos oráculos de Jeremias, Daniel se interrogava longamente sobre o sentido deles (Dn 9,2). Segundo os Atos dos Apóstolos, um etíope do primeiro século encontrava-se na mesma situação a propósito de uma passagem do livro de Isaías (Is 53,7-8) e reconhecia ter necessidade de um intérprete (At 8,30-35). A segunda carta de Pedro declara que “nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular” (2 Pd1,20) e ela observa, de outro lado, que as cartas do apóstolo Paulo contêm “alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras, para sua própria perdição”  (2 Pd 3,16).

1   TREBOLLE, Barrera. Cristianismo Latino e Ocidental. _________. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã. Petropolis: Vozes, p. 652-53

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (14): Interpretação e tradução da Bíblia

18/09/2015 16:58 - Atualizado em 18/09/2015 16:59

15.3. A EXEGESE DE SANTO AGOSTINHO

Trata-se antes de, modestamente, apresentar alguns princípios da exegese de Santo Agostinho, que encontramos em “Doctrina Christiana” e, em um segundo momento, examinar alguns tópicos da exegese agostiniana do ágape em São João, tanto numa visão introdutória ao “Comentário do Evangelho” como também num já clássico estudo sobre a Primeira Epístola.

15.4. DE DOCTRINA CHRISTIANA

Esta obra, composta de quatro livros, teve seus três primeiros escritos provavelmente em 397 e revisada em 427 (Retractattiones II, 4,30), quando apareceu o quarto livro. Ele contém uma síntese da doutrina cristã baseada na distinção entre uti e frui: “Frui” significa afeiçoar-se a algo por si mesmo, ou seja, “fruir e aderir a alguma coisa por amor a ela própria”(De Doc. Christ 1,4). “Utilizar”, ao contrário, e servir-se de algo para alcançar um objeto que se ama; ou seja, dizemos “usar”, quando buscamos um objeto por outro” (De Civ. Dei XI,25).

15.5. PRINCÍPIOS HERMENÊUTICOS AGOSTINIANOS

Em “De Doctrina Christiana”, Agostinho expõe como há de se interpretar as dificuldades e ambiguidades do texto bíblico, relacionando à interpretação bíblica e à doutrina cristã: “Agostinho de Hipona tende a uma divisão quadripartida: história, etiologia, analogia e alegoria. Para ele, os sentidos literal e espiritual são igualmente válidos (signum et res). A regula fidei é o que determina qual dos sentidos, literal ou figurativo, prevalece em cada caso. Este recurso ao critério da regula fidei levanta o problema de quais devem ser as relações entre a hermenêutica bíblica e o dogma. Qualquer desenvolvimento autônomo da hermenêutica em relação ao dogma fica interdito”1.

E aqui está sua intuição fundamental, a saber, que a dificuldade de interpretar a Escritura nasce da incerteza de compreender onde a linguagem é própria, onde é figurada. A análise da linguagem em âmbito semiótico leva Santo Agostinho a formular a teoria do sinal, a mais completa que encontramos na antiguidade.

Em Doct.Christ. III,II, 2: Este trecho estabelece princípios inestimáveis. Em termos modernos, Santo Agostinho afirma que, para resolver uma dificuldade de ‘leitura’, primeiramente se deve recorrer à analogia scripturae, e então à analogia fidei, ou ainda ao contexto próximo.

Em Doct.Christ.III, XXVII, 38 e XXVIII, 39, Santo Agostinho reconhece claramente os diversos sentidos da Escritura. Antes de tudo, porém, não renuncia ao sensus auctoris (sentido do autor), porque é próprio aquele que o Espírito Santo inspira e é através da intenção consciente do autor que Deus fala, pois a ‘compreensão plena’ que advém das Escrituras depende do Espírito Santo. Ele é a origem da Escritura e possibilita que os passos mais obscuros sejam acessíveis ao leitor-crente, o que não elimina o esforço de ordem filológica: “A primeira regra que se deve seguir para esclarecer as dúvidas é a referência às línguas originais, hebraica e grega.

Veremos mais adiante, na sua exegese joanina, a força do ‘amor’ como fonte moral, enquanto ‘novo mandamento’ e enquanto obra do conhecimento do Espírito, fonte de perfeição da vida cristã.

E em âmbito retórico, ele sugere a revolucionária novidade de relacionar os textos da Escritura e da literatura cristã àqueles clássicos do paganismo, como instrumento escolástico das normas de retórica.

Outro aspecto importante da hermenêutica agostiniana, presente nesta obra, é a fundamentação moral a que a interpretação da Escritura corretamente conduz. A Bíblia é um manual de ética e o acento é posto sobre o mandamento, mas para isso deve ser manual de doutrina de fé e mística.

Mesmo sem esgotar os muitos aspectos dessa complexa obra, podemos seguir as máximas de um contemporâneo discípulo de Agostinho, P. Grech, quando afirma que essa obra indicava as regras definitivas da hermenêutica bíblica e eclesial, baseadas sobre o esforço composto da razão (ele, por exemplo, recomendava o conhecimento do grego e do hebraico) e o acolhimento da fé, como regra.

Algo que o Documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” (1993), séculos depois, repete e recorda a exegetas e a todos os cristãos que alimentam sua fé nas Escrituras.

O problema da interpretação da Bíblia não é uma invenção moderna como algumas vezes se quer fazer crer. A Bíblia mesma atesta que sua interpretação apresenta dificuldades. Ao lado de textos límpidos, ela comporta passagens obscuras. Lendo certos oráculos de Jeremias, Daniel se interrogava longamente sobre o sentido deles (Dn 9,2). Segundo os Atos dos Apóstolos, um etíope do primeiro século encontrava-se na mesma situação a propósito de uma passagem do livro de Isaías (Is 53,7-8) e reconhecia ter necessidade de um intérprete (At 8,30-35). A segunda carta de Pedro declara que “nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular” (2 Pd1,20) e ela observa, de outro lado, que as cartas do apóstolo Paulo contêm “alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras, para sua própria perdição”  (2 Pd 3,16).

1   TREBOLLE, Barrera. Cristianismo Latino e Ocidental. _________. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã. Petropolis: Vozes, p. 652-53

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica