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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/03/2017

27 de Março de 2017

A força de um menino morto

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A força de um menino morto

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14/09/2015 17:16 - Atualizado em 14/09/2015 17:17

A força de um menino morto 0

14/09/2015 17:16 - Atualizado em 14/09/2015 17:17

Interrompo aqui a série de artigos sobre os cinco sentidos que vinha escrevendo.  Sinto-me obrigada a isso desde que vi a foto do pequeno menino sírio sobre as areias da praia turca de Bodrum. O absurdo da tragédia daquela criança vestida e calçada, com o rostinho sobre a areia e os bracinhos para trás como duas asas, paralisou-me e tornou-me incapaz de pensar ou fazer qualquer outra coisa.

Não é a primeira vez que vejo fotos de migrantes mortos.  Esse genocídio vem se tornando diuturno e abundam na grande imprensa as fotos chocantes que mostram a imensa quantidade de seres humanos em desespero batendo às portas da Europa, trazendo entre eles vários cadáveres.  No entanto, a foto do pequeno Aylan tinha algo diferente.  Talvez fosse o fato de estar vestido com uma roupa tão parecida com a das nossas crianças, calçado com sapatos que qualquer neto meu poderia estar usando.  Talvez tenha sido a idade, o físico, o formato da cabeça, a cor dos cabelos, todos idênticos aos de meu neto Lucas, que mora na França. Talvez tenha sido tudo isso e muito mais.

O fato é que não consegui parar de pensar e sentir a dor que aquele menino morto nas costas da Europa trouxe ao meu coração.  Talvez exatamente por ser algo tão desprovido de qualquer violência, qualquer arrogância, qualquer agressividade.  Tudo ali é inocência, mansidão, doçura, vulnerabilidade, que convidam ao silêncio, à reverência, ao arrependimento e ao pedido de perdão mais profundo.  E também e não menos ao desejo de uma radical conversão pelo fato de mostrar com tanta evidência até onde podem chegar a injustiça, a desordem estrutural do mundo, a falência de uma humanidade que teima em voltar as costas para o sofrimento de povos inteiros. 

A infância assassinada de Aylan não grita, não aponta dedo acusador, não eleva a voz, porque voz já não há.  Jaz à beira do mar como se dormindo estivesse.  E seu corpinho intacto, deitado de bruços, dá a impressão de dormir o sono bem-aventurado e angelical dos pequenos ao final de um dia de muita brincadeira e agitação. E por isso mesmo move corações e consciências.

O pequeno sírio que morreu afogado nas costas da Turquia, fugindo junto com a família do inferno da guerra e das privações, não pode mais andar, correr, falar, gritar por socorro, denunciar, chorar.  Está morto.  No entanto, sua imagem captada pelas lentes da fotógrafa turca Nilüfer Demi tem sido mais eloquente do que discursos, teorias ou protestos e manifestações. A começar pela própria fotógrafa, que se disse “petrificada” ao ver o corpo do menino.  Decidiu fotografá-lo para que “seu clamor fosse ouvido”.

O que estadistas, religiosos, intelectuais e pessoas várias, de maior ou menor grau de boa vontade e reta intenção tentam fazer sem sucesso, esta criança morta parece que começa a conseguir.  A foto multiplicou-se ao infinito nas redes sociais e comoveu o mundo.  Iniciativas começaram a surgir, seja por parte de governos europeus, como o da Alemanha e da Inglaterra, até grupos da sociedade civil, que se organizam e se voluntariam para iniciativas de acolhimento e recepção aos migrantes que vivem à deriva sem ter para onde ir, entregues à própria sorte. O Papa Francisco fez um apelo veemente a todas as casas religiosas, para que abram suas portas e acolham esses que vagam pelo mundo sem teto e sem chão, buscando apenas seu direito mais fundamental: viver.

Por sua vez, a foto do pequeno Aylan desvelou a verdade sobre muitas hipocrisias. Diante da evidência nua e impotente de uma criança sem vida, impedida de seguir ao encontro de seu futuro, não é mais possível mascarar intolerâncias e insensibilidades como as de alguns países europeus, que se negam a rever sua política migratória e abrir suas fronteiras para acolher os migrantes que chegam cada vez em maior número.

Mover corações e mentes, desvelar a verdade que permanecia cativa da injustiça são atos salvíficos, só possíveis de acontecer quando Deus penetra a realidade humana e a penetra com sua graça e sua luz.  Por isso, fazendo uma leitura teológica do doloroso e injusto evento da morte do menino sírio, ouso dizer que se trata de um evento crístico.  Crística é a imagem do menino inocente morto pelas forças da injustiça e da ganância das grandes potências.  Crística é a vítima indefesa que jaz inerte devido à violência e ao ódio que imperam no mundo desumanizado em que vivemos.  Crístico é o poder mobilizador que tem a imagem do pequeno Aylan, que logra transformar corações de pedra em corações de carne.

O menino morto sobre a areia de Bodrum é Aylan Curdi, criança irrequieta de três anos, que há poucos dias corria e brincava com o irmão Galip e outros amiguinhos. Mas é também mais que Aylan Curdi.  É uma vítima inocente do pecado coletivo do qual somos todos culpados.  É um pequeno Cristo, que desde a sua inocência e injusta morte gera fecundamente frutos de redenção para a mesma humanidade que o vitimou.

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A força de um menino morto

14/09/2015 17:16 - Atualizado em 14/09/2015 17:17

Interrompo aqui a série de artigos sobre os cinco sentidos que vinha escrevendo.  Sinto-me obrigada a isso desde que vi a foto do pequeno menino sírio sobre as areias da praia turca de Bodrum. O absurdo da tragédia daquela criança vestida e calçada, com o rostinho sobre a areia e os bracinhos para trás como duas asas, paralisou-me e tornou-me incapaz de pensar ou fazer qualquer outra coisa.

Não é a primeira vez que vejo fotos de migrantes mortos.  Esse genocídio vem se tornando diuturno e abundam na grande imprensa as fotos chocantes que mostram a imensa quantidade de seres humanos em desespero batendo às portas da Europa, trazendo entre eles vários cadáveres.  No entanto, a foto do pequeno Aylan tinha algo diferente.  Talvez fosse o fato de estar vestido com uma roupa tão parecida com a das nossas crianças, calçado com sapatos que qualquer neto meu poderia estar usando.  Talvez tenha sido a idade, o físico, o formato da cabeça, a cor dos cabelos, todos idênticos aos de meu neto Lucas, que mora na França. Talvez tenha sido tudo isso e muito mais.

O fato é que não consegui parar de pensar e sentir a dor que aquele menino morto nas costas da Europa trouxe ao meu coração.  Talvez exatamente por ser algo tão desprovido de qualquer violência, qualquer arrogância, qualquer agressividade.  Tudo ali é inocência, mansidão, doçura, vulnerabilidade, que convidam ao silêncio, à reverência, ao arrependimento e ao pedido de perdão mais profundo.  E também e não menos ao desejo de uma radical conversão pelo fato de mostrar com tanta evidência até onde podem chegar a injustiça, a desordem estrutural do mundo, a falência de uma humanidade que teima em voltar as costas para o sofrimento de povos inteiros. 

A infância assassinada de Aylan não grita, não aponta dedo acusador, não eleva a voz, porque voz já não há.  Jaz à beira do mar como se dormindo estivesse.  E seu corpinho intacto, deitado de bruços, dá a impressão de dormir o sono bem-aventurado e angelical dos pequenos ao final de um dia de muita brincadeira e agitação. E por isso mesmo move corações e consciências.

O pequeno sírio que morreu afogado nas costas da Turquia, fugindo junto com a família do inferno da guerra e das privações, não pode mais andar, correr, falar, gritar por socorro, denunciar, chorar.  Está morto.  No entanto, sua imagem captada pelas lentes da fotógrafa turca Nilüfer Demi tem sido mais eloquente do que discursos, teorias ou protestos e manifestações. A começar pela própria fotógrafa, que se disse “petrificada” ao ver o corpo do menino.  Decidiu fotografá-lo para que “seu clamor fosse ouvido”.

O que estadistas, religiosos, intelectuais e pessoas várias, de maior ou menor grau de boa vontade e reta intenção tentam fazer sem sucesso, esta criança morta parece que começa a conseguir.  A foto multiplicou-se ao infinito nas redes sociais e comoveu o mundo.  Iniciativas começaram a surgir, seja por parte de governos europeus, como o da Alemanha e da Inglaterra, até grupos da sociedade civil, que se organizam e se voluntariam para iniciativas de acolhimento e recepção aos migrantes que vivem à deriva sem ter para onde ir, entregues à própria sorte. O Papa Francisco fez um apelo veemente a todas as casas religiosas, para que abram suas portas e acolham esses que vagam pelo mundo sem teto e sem chão, buscando apenas seu direito mais fundamental: viver.

Por sua vez, a foto do pequeno Aylan desvelou a verdade sobre muitas hipocrisias. Diante da evidência nua e impotente de uma criança sem vida, impedida de seguir ao encontro de seu futuro, não é mais possível mascarar intolerâncias e insensibilidades como as de alguns países europeus, que se negam a rever sua política migratória e abrir suas fronteiras para acolher os migrantes que chegam cada vez em maior número.

Mover corações e mentes, desvelar a verdade que permanecia cativa da injustiça são atos salvíficos, só possíveis de acontecer quando Deus penetra a realidade humana e a penetra com sua graça e sua luz.  Por isso, fazendo uma leitura teológica do doloroso e injusto evento da morte do menino sírio, ouso dizer que se trata de um evento crístico.  Crística é a imagem do menino inocente morto pelas forças da injustiça e da ganância das grandes potências.  Crística é a vítima indefesa que jaz inerte devido à violência e ao ódio que imperam no mundo desumanizado em que vivemos.  Crístico é o poder mobilizador que tem a imagem do pequeno Aylan, que logra transformar corações de pedra em corações de carne.

O menino morto sobre a areia de Bodrum é Aylan Curdi, criança irrequieta de três anos, que há poucos dias corria e brincava com o irmão Galip e outros amiguinhos. Mas é também mais que Aylan Curdi.  É uma vítima inocente do pecado coletivo do qual somos todos culpados.  É um pequeno Cristo, que desde a sua inocência e injusta morte gera fecundamente frutos de redenção para a mesma humanidade que o vitimou.

Maria Clara Lucchetti Bingemer
Autor

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio