Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/11/2019

15 de Novembro de 2019

Somos irmãos e não lobos uns dos outros

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11/09/2015 17:35 - Atualizado em 11/09/2015 17:35

Somos irmãos e não lobos uns dos outros 0

11/09/2015 17:35 - Atualizado em 11/09/2015 17:35

A Europa é porta de entrada para 560 mil imigrantes ilegais todos os anos. Destes, dois mil africanos morrem ao tentar atravessar o Mediterrâneo, revela o relatório da Comissão Mundial sobre as Migrações Internacionais (Cmmi). Atualmente, vivem 56,1 milhões de estrangeiros no continente europeu, o que representa 7,7% da sua população, num total de 200 milhões no mundo, incluindo 9,2 milhões de refugiados.

O estudo "Migration in an interconnected world: new directions for action", apresentado no dia 5 de outubro, pretende constituir um plano de ação para controlar os fluxos migratórios, dos quais as mulheres (48,6% dos imigrantes) e as crianças são as principais vítimas. As pessoas deslocadas constituem 3% da população mundial, 200 mil pessoas, o equivalente ao número de habitantes no Brasil.

Os países europeus atraem o maior número de imigrantes (28% do total), seguindo-se os Estados Unidos, com 35 milhões de estrangeiros (20%). Estima-se que 10 milhões de ilegais estejam em situação irregular em território norte-americano, a maioria oriundos do México. Todos os anos, 500 mil mexicanos tentam atravessar a fronteira para território norte-americano, registando-se uma média de 400 mortes anuais.

De acordo com dados da ONU (Organização das Nações Unidas), cerca de 2,5 mil imigrantes se afogaram no mar Mediterrâneo neste ano, vítimas dos muitos barcos superlotados que tentam chegar à costa da Itália e da Grécia.

O fluxo de pessoas desesperadas que partem da Síria e do Norte da África na tentativa de alcançar a Europa já é muito maior que o registrado no mesmo período do ano passado. Números recentes mostram que milhares de pessoas estão usando uma rota perigosa através dos Bálcãs para chegar à Alemanha e a outros países do norte da União Europeia (UE). Mais de 300 mil imigrantes já arriscaram suas vidas tentando atravessar o Mediterrâneo neste ano, segundo as Nações Unidas. Em todo o ano passado, foram 219 mil pessoas.

Cerca de 200 mil pessoas desembarcaram na Grécia desde janeiro, enquanto outras 110 mil chegaram à Itália. A maioria dos que chegam às terras gregas optam pela viagem relativamente curta entre a Turquia e as ilhas de Kos, Chios, Lesvos e Samos – em frágeis botes de borracha ou em pequenos barcos de madeira.

A viagem entre a Líbia e a Itália é mais longa e arriscada.

Veja, a seguir, algumas das piores tragédias já ocorridas neste ano:

- Dois barcos com cerca de 500 imigrantes afundaram após deixar Zuwara, na Líbia, em 27 de agosto.

- Corpos de ao menos 71 pessoas, que podem ser imigrantes sírios, foram descobertos em um caminhão abandonado na Áustria, também em 27 de agosto.

-Naufrágio nos arredores da ilha de Lampedusa, na Itália, matou cerca de 800 pessoas em 19 de abril. Ao menos 300 imigrantes se afogaram ao tentar atravessar as águas agitadas do Mediterrâneo em fevereiro.

Nestes dias, uma cena fez com que toda a humanidade refletisse acerca da imigração. Foi o caso da família Kurdi, que estava em busca de melhores condições de vida e com isso ia se refugiar em outro país, mas aconteceu a tragédia onde o bote onde eles estavam veio a naufragar. Com isso, vários morreram e a família Kurdi perdeu três de seus membros. A cena que mais impressionou a humanidade foi a do pequenino Aylan, que tinha três anos de idade e seu corpo fora encontrado numa praia na Turquia.

Essa cena deve levar toda a humanidade a refletir sobre o valor da vida e o valor do próximo. Nós não somos lobos uns dos outros, mas somos irmãos. Com isso, devemos nós rezar e fazer gestos concretos para ajudar estes que tanto sofrem em outros países, mas também em nossa realidade de Brasil.

O maior grupo de imigrantes é de sírios, que fogem da violenta guerra civil em curso no país. Afegãos e eritreus vêm em seguida, geralmente tentando escapar da pobreza e de violações aos direitos humanos. Os grupos originários da Nigéria e do Kosovo também são grandes – pobres e marginalizados integrantes do povo roma (cigano) são boa parte dos imigrantes vindos do último país. Na Itália, pessoas que chegam da Eritreia formam o maior grupo, seguidas por aquelas que vêm da Nigéria. Na Grécia, porém, os sírios formam a maior população, seguidos pelos afegãos.

Há anos a União Europeia tem tentado acordar uma política de asilo. Algo difícil quando se tem 28 Estados-membros, cada um com suas forças policiais e judiciárias. Defender os direitos dos imigrantes pobres está difícil em um ambiente econômico sombrio. Muitos europeus estão desempregados e temem a concorrência com os trabalhadores estrangeiros, e os países da União Europeia não se entendem sobre como dividir o problema dos refugiados. As regras conjuntas mais detalhadas foram estabelecidas no Sistema Europeu Comum de Asilo (Ceas, na sigla em inglês) – mas ter regras é uma coisa, colocá-las em prática em toda a União Europeia é um outro desafio. Há tensões dentro da União Europeia por causa da Convenção de Dublin – a Grécia reclama ter sido inundada com pedidos de asilo, já que muitos imigrantes chegam primeiro lá.

Na Arquidiocese do Rio de Janeiro temos o trabalho com os migrantes internacionais organizado pela Cáritas Arquidiocesana. Esse trabalho vem desde a década de 60 quando Dom Eugenio Sales começou esse trabalho. Hoje, além do acolhimento de migrantes do mundo inteiro, também somos responsáveis por milhares de famílias de refugiados que já estão instaladas em nossa cidade. Existem também outros trabalhos organizados pela Pastoral dos Migrantes, que procura acolher, encaminhar, orientar os que vêm de outros países para aqui viver. Além disso, temos as migrações internas, que é um trabalho que as pastorais sociais da arquidiocese conduzem com muita clareza e caridade. Os problemas dos desalojados e de habitação na grande cidade estão com a Pastoral das Favelas e também com o Vicariato da Caridade Social que, de, certa forma, congregam todas as várias situações sociais da arquidiocese.

Para o trabalho com os refugiados, como dissemos, de longa data já temos a Cáritas Arquidiocesana, que, com seus relacionamentos nacionais e internacionais, procura responder às necessidades daqueles que para cá vêm movidos por situações de injustiça ou perseguição. Porém, de maneira extraordinária, a Cáritas também tem atuado com os migrantes do Haiti, procurando acolhê-los e encaminhá-los.

Quero rezar por todos os migrantes e, de modo muito especial, por todos aqueles que se tornam vítimas de desastres: naufrágios, perseguições, a fome, o frio, o medo e toda a marginalização. Que tenhamos um coração aberto para acolher estes que saem dos seus países para buscar melhores condições de vida. Devemos saber que somo irmãos e, assim, Deus nos fez.

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11/09/2015 17:35 - Atualizado em 11/09/2015 17:35

A Europa é porta de entrada para 560 mil imigrantes ilegais todos os anos. Destes, dois mil africanos morrem ao tentar atravessar o Mediterrâneo, revela o relatório da Comissão Mundial sobre as Migrações Internacionais (Cmmi). Atualmente, vivem 56,1 milhões de estrangeiros no continente europeu, o que representa 7,7% da sua população, num total de 200 milhões no mundo, incluindo 9,2 milhões de refugiados.

O estudo "Migration in an interconnected world: new directions for action", apresentado no dia 5 de outubro, pretende constituir um plano de ação para controlar os fluxos migratórios, dos quais as mulheres (48,6% dos imigrantes) e as crianças são as principais vítimas. As pessoas deslocadas constituem 3% da população mundial, 200 mil pessoas, o equivalente ao número de habitantes no Brasil.

Os países europeus atraem o maior número de imigrantes (28% do total), seguindo-se os Estados Unidos, com 35 milhões de estrangeiros (20%). Estima-se que 10 milhões de ilegais estejam em situação irregular em território norte-americano, a maioria oriundos do México. Todos os anos, 500 mil mexicanos tentam atravessar a fronteira para território norte-americano, registando-se uma média de 400 mortes anuais.

De acordo com dados da ONU (Organização das Nações Unidas), cerca de 2,5 mil imigrantes se afogaram no mar Mediterrâneo neste ano, vítimas dos muitos barcos superlotados que tentam chegar à costa da Itália e da Grécia.

O fluxo de pessoas desesperadas que partem da Síria e do Norte da África na tentativa de alcançar a Europa já é muito maior que o registrado no mesmo período do ano passado. Números recentes mostram que milhares de pessoas estão usando uma rota perigosa através dos Bálcãs para chegar à Alemanha e a outros países do norte da União Europeia (UE). Mais de 300 mil imigrantes já arriscaram suas vidas tentando atravessar o Mediterrâneo neste ano, segundo as Nações Unidas. Em todo o ano passado, foram 219 mil pessoas.

Cerca de 200 mil pessoas desembarcaram na Grécia desde janeiro, enquanto outras 110 mil chegaram à Itália. A maioria dos que chegam às terras gregas optam pela viagem relativamente curta entre a Turquia e as ilhas de Kos, Chios, Lesvos e Samos – em frágeis botes de borracha ou em pequenos barcos de madeira.

A viagem entre a Líbia e a Itália é mais longa e arriscada.

Veja, a seguir, algumas das piores tragédias já ocorridas neste ano:

- Dois barcos com cerca de 500 imigrantes afundaram após deixar Zuwara, na Líbia, em 27 de agosto.

- Corpos de ao menos 71 pessoas, que podem ser imigrantes sírios, foram descobertos em um caminhão abandonado na Áustria, também em 27 de agosto.

-Naufrágio nos arredores da ilha de Lampedusa, na Itália, matou cerca de 800 pessoas em 19 de abril. Ao menos 300 imigrantes se afogaram ao tentar atravessar as águas agitadas do Mediterrâneo em fevereiro.

Nestes dias, uma cena fez com que toda a humanidade refletisse acerca da imigração. Foi o caso da família Kurdi, que estava em busca de melhores condições de vida e com isso ia se refugiar em outro país, mas aconteceu a tragédia onde o bote onde eles estavam veio a naufragar. Com isso, vários morreram e a família Kurdi perdeu três de seus membros. A cena que mais impressionou a humanidade foi a do pequenino Aylan, que tinha três anos de idade e seu corpo fora encontrado numa praia na Turquia.

Essa cena deve levar toda a humanidade a refletir sobre o valor da vida e o valor do próximo. Nós não somos lobos uns dos outros, mas somos irmãos. Com isso, devemos nós rezar e fazer gestos concretos para ajudar estes que tanto sofrem em outros países, mas também em nossa realidade de Brasil.

O maior grupo de imigrantes é de sírios, que fogem da violenta guerra civil em curso no país. Afegãos e eritreus vêm em seguida, geralmente tentando escapar da pobreza e de violações aos direitos humanos. Os grupos originários da Nigéria e do Kosovo também são grandes – pobres e marginalizados integrantes do povo roma (cigano) são boa parte dos imigrantes vindos do último país. Na Itália, pessoas que chegam da Eritreia formam o maior grupo, seguidas por aquelas que vêm da Nigéria. Na Grécia, porém, os sírios formam a maior população, seguidos pelos afegãos.

Há anos a União Europeia tem tentado acordar uma política de asilo. Algo difícil quando se tem 28 Estados-membros, cada um com suas forças policiais e judiciárias. Defender os direitos dos imigrantes pobres está difícil em um ambiente econômico sombrio. Muitos europeus estão desempregados e temem a concorrência com os trabalhadores estrangeiros, e os países da União Europeia não se entendem sobre como dividir o problema dos refugiados. As regras conjuntas mais detalhadas foram estabelecidas no Sistema Europeu Comum de Asilo (Ceas, na sigla em inglês) – mas ter regras é uma coisa, colocá-las em prática em toda a União Europeia é um outro desafio. Há tensões dentro da União Europeia por causa da Convenção de Dublin – a Grécia reclama ter sido inundada com pedidos de asilo, já que muitos imigrantes chegam primeiro lá.

Na Arquidiocese do Rio de Janeiro temos o trabalho com os migrantes internacionais organizado pela Cáritas Arquidiocesana. Esse trabalho vem desde a década de 60 quando Dom Eugenio Sales começou esse trabalho. Hoje, além do acolhimento de migrantes do mundo inteiro, também somos responsáveis por milhares de famílias de refugiados que já estão instaladas em nossa cidade. Existem também outros trabalhos organizados pela Pastoral dos Migrantes, que procura acolher, encaminhar, orientar os que vêm de outros países para aqui viver. Além disso, temos as migrações internas, que é um trabalho que as pastorais sociais da arquidiocese conduzem com muita clareza e caridade. Os problemas dos desalojados e de habitação na grande cidade estão com a Pastoral das Favelas e também com o Vicariato da Caridade Social que, de, certa forma, congregam todas as várias situações sociais da arquidiocese.

Para o trabalho com os refugiados, como dissemos, de longa data já temos a Cáritas Arquidiocesana, que, com seus relacionamentos nacionais e internacionais, procura responder às necessidades daqueles que para cá vêm movidos por situações de injustiça ou perseguição. Porém, de maneira extraordinária, a Cáritas também tem atuado com os migrantes do Haiti, procurando acolhê-los e encaminhá-los.

Quero rezar por todos os migrantes e, de modo muito especial, por todos aqueles que se tornam vítimas de desastres: naufrágios, perseguições, a fome, o frio, o medo e toda a marginalização. Que tenhamos um coração aberto para acolher estes que saem dos seus países para buscar melhores condições de vida. Devemos saber que somo irmãos e, assim, Deus nos fez.

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro