Arquidiocese do Rio de Janeiro

28º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/08/2018

20 de Agosto de 2018

O Senhor cura nossas chagas

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

20 de Agosto de 2018

O Senhor cura nossas chagas

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

05/09/2015 20:37 - Atualizado em 05/09/2015 20:38

O Senhor cura nossas chagas 0

05/09/2015 20:37 - Atualizado em 05/09/2015 20:38

O Pão da Palavra e o Pão Eucarístico nos guardam para a vida que virá! É isso o que nos diz a liturgia de hoje na oração pós-comunhão: “Ó Deus, que nutris e fortificais vossos fiéis com o alimento da vossa palavra e do vosso pão, concedei-nos, por estes dons do vosso Filho, viver com ele para sempre.”

O Cristo nos alimenta nestas duas mesas. É necessário recolher, com cuidado, cada fragmento do Corpo de Cristo, que nestas duas mesas se dá a nós como um alimento salutar que nos nutre e nos guarda para a vida.

Queira o Senhor também pronunciar sobre na assembleia dominical um grande “Effathá”, a fim de que nossos ouvidos se abram à sua Palavra.

O Evangelho hoje nos apresenta o Cristo que circula no meio das cidades pagãs. Ele, o Cristo, não segue o itinerário mais óbvio, mas o itinerário teologicamente mais adequado. Ele literalmente circula no meio das cidades pagãs realizando sinais que visam chamar os homens à conversão.

Hoje, trazem à Jesus um surdo, que falava com dificuldade, para que Ele lhe imponha as mãos. Esse gesto de impor as mãos possui muitos significados na Escritura: transmissão de um carisma (1Tm 4,14); transmissão do Espírito; cura etc. Aqui trazem a Jesus um surdo para que Ele o cure. Esse homem, porque não ouve, também fala com dificuldade, não consegue se expressar. Jesus leva o surdo-gago “a sós”[1] para longe da multidão e realiza uma série de gestos que o colocam, ainda que através de uma linguagem simbólica, em diálogo com o surdo-gago. Jesus coloca o dedo em seus ouvidos, com saliva toca sua língua e elevando os olhos aos céus ordena: “Effathá!” O dedo é sinal de poder. Em Ex 8,15 se reconhece que as pragas são enviadas pelo dedo de Deus! A saliva possuía, segundo a crença dos antigos, um poder medicinal. Ao elevar os olhos ao céu Jesus recorda que é de lá que, de acordo com o salmista, vem o auxílio: “Levanto os olhos para os montes: de onde me virá o auxílio?” (Sl 121,1) “Levanto os olhos a ti, que habitas no céu!” (Sl 123,1) Jesus não está nem realizando um rito mágico, como falsamente interpretam alguns; nem tampouco usando um ritual de curandeirismo do seu tempo.

Jesus que poderia curar apenas pelo poder de sua palavra como já demonstrara no caso da filha da siro-fenícia, quer realizar aqui a cura utilizando-se de uma moldura que recorre a um rico simbolismo fundado na cultura e na religiosidade profundamente bíblica do seu povo.

Imediatamente, diz a Palavra, os ouvidos do surdo se abriram e soltou-se-lhe a língua e falava corretamente; e falava o que é reto (do grego, órthos)!

Jesus, todavia, como já é comum no Evangelho de Marcos, proíbe que seus milagres sejam divulgados, porque o que importa é o sentido do milagre e não o milagre em si. Estupefata, a multidão comenta: “Ele faz tudo bem!” Tal exclamação nos remete ao Gênesis, quando o autor bíblico diz: “E Deus viu que tudo era bom!” A exemplo do Pai, o Cristo faz bem todas as coisas. E a multidão ainda aclama nos moldes da primeira leitura que ouvimos: “Faz ouvir os surdos e falar os mudos.”

Mateus reconhece nos gesto de Jesus a realização da profecia messiânica de Is 35: “Sede fortes, não temais; (...) os olhos do cego se desgrudarão, os ouvidos do surdo se abrirão (...)”

Que maravilhosa unidade: Isaías profetizou; o Cristo realizou e nós colhemos os frutos do que Cristo realizou. Isaías profetizou que os ouvidos do surdo se abririam; o Cristo curou o surdo-gago inaugurando, assim, os tempos messiânicos; hoje, também o Cristo pronuncia solenemente sobre casa assembleia eucarística um novo “Effathá!” O Evangelho que hoje ouvimos foi logo assumido nas liturgias batismais primitivas a fim de que os neófitos tivessem os ouvidos abertos para escutar a Palavra e a língua livre para proclamá-la retamente (órthos!). Também nós somos uma assembleia batismal. O Mistério da Assembleia reside no fato de sermos aqueles que foram renascidos em Cristo, ressuscitados com Ele, tocados em nossos ouvidos e lábios para ouvirmos e proclamarmos a sua Palavra. Essa Palavra já aconteceu em nós, mas precisa ser assumida e assimilada, por isso ela volta a cada ciclo B, neste 23º domingo, para nos recordarmos daquilo o que foi feito em nós e cantarmos com o salmista: “Bendize, ó minha alma ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida! O Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor faz erguer-se o caído!”

O Senhor hojenos toma em suas mãos e nos leva a sós, a um lugar à parte, onde ele cura a nossa chaga mais profunda, que é a surdez espiritual. Quando ouvimos a Palavra e a nossa boca a proclama, tudo em nós se torna luz e compreendemos os milagres que estão ao nosso lado e que, de tão óbvios, se tornam imperceptíveis. Um desses milagres é a assembleia, onde não pode haver acepção de pessoas. Todos nela têm o mesmo valor: ricos e pobres; ministros e povo; todos possuem a mesma dignidade. Não cabe, naqueles que entendem o milagre da assembleia, a acepção de pessoas. O valor da assembleia não está na consideração de cada membro individualmente, com seus evidentes pecados. O seu valor reside no fato dela ser sacramento de Cristo, seu Corpo Místico. Quando contemplamos essa realidade percebemos que o outro ao nosso lado, seja ele quem for, é um membro desse corpo, e deve ser reverenciado pelo que ele significa. É um desafio maior do que parece, mas peçamos nesta assembleia que o Espírito do Senhor nos dê olhos espirituais, que eles desgrudem como profetizou Isaías, para que possamos ver com os olhos de Deus!



[1] Cf. BJ

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

O Senhor cura nossas chagas

05/09/2015 20:37 - Atualizado em 05/09/2015 20:38

O Pão da Palavra e o Pão Eucarístico nos guardam para a vida que virá! É isso o que nos diz a liturgia de hoje na oração pós-comunhão: “Ó Deus, que nutris e fortificais vossos fiéis com o alimento da vossa palavra e do vosso pão, concedei-nos, por estes dons do vosso Filho, viver com ele para sempre.”

O Cristo nos alimenta nestas duas mesas. É necessário recolher, com cuidado, cada fragmento do Corpo de Cristo, que nestas duas mesas se dá a nós como um alimento salutar que nos nutre e nos guarda para a vida.

Queira o Senhor também pronunciar sobre na assembleia dominical um grande “Effathá”, a fim de que nossos ouvidos se abram à sua Palavra.

O Evangelho hoje nos apresenta o Cristo que circula no meio das cidades pagãs. Ele, o Cristo, não segue o itinerário mais óbvio, mas o itinerário teologicamente mais adequado. Ele literalmente circula no meio das cidades pagãs realizando sinais que visam chamar os homens à conversão.

Hoje, trazem à Jesus um surdo, que falava com dificuldade, para que Ele lhe imponha as mãos. Esse gesto de impor as mãos possui muitos significados na Escritura: transmissão de um carisma (1Tm 4,14); transmissão do Espírito; cura etc. Aqui trazem a Jesus um surdo para que Ele o cure. Esse homem, porque não ouve, também fala com dificuldade, não consegue se expressar. Jesus leva o surdo-gago “a sós”[1] para longe da multidão e realiza uma série de gestos que o colocam, ainda que através de uma linguagem simbólica, em diálogo com o surdo-gago. Jesus coloca o dedo em seus ouvidos, com saliva toca sua língua e elevando os olhos aos céus ordena: “Effathá!” O dedo é sinal de poder. Em Ex 8,15 se reconhece que as pragas são enviadas pelo dedo de Deus! A saliva possuía, segundo a crença dos antigos, um poder medicinal. Ao elevar os olhos ao céu Jesus recorda que é de lá que, de acordo com o salmista, vem o auxílio: “Levanto os olhos para os montes: de onde me virá o auxílio?” (Sl 121,1) “Levanto os olhos a ti, que habitas no céu!” (Sl 123,1) Jesus não está nem realizando um rito mágico, como falsamente interpretam alguns; nem tampouco usando um ritual de curandeirismo do seu tempo.

Jesus que poderia curar apenas pelo poder de sua palavra como já demonstrara no caso da filha da siro-fenícia, quer realizar aqui a cura utilizando-se de uma moldura que recorre a um rico simbolismo fundado na cultura e na religiosidade profundamente bíblica do seu povo.

Imediatamente, diz a Palavra, os ouvidos do surdo se abriram e soltou-se-lhe a língua e falava corretamente; e falava o que é reto (do grego, órthos)!

Jesus, todavia, como já é comum no Evangelho de Marcos, proíbe que seus milagres sejam divulgados, porque o que importa é o sentido do milagre e não o milagre em si. Estupefata, a multidão comenta: “Ele faz tudo bem!” Tal exclamação nos remete ao Gênesis, quando o autor bíblico diz: “E Deus viu que tudo era bom!” A exemplo do Pai, o Cristo faz bem todas as coisas. E a multidão ainda aclama nos moldes da primeira leitura que ouvimos: “Faz ouvir os surdos e falar os mudos.”

Mateus reconhece nos gesto de Jesus a realização da profecia messiânica de Is 35: “Sede fortes, não temais; (...) os olhos do cego se desgrudarão, os ouvidos do surdo se abrirão (...)”

Que maravilhosa unidade: Isaías profetizou; o Cristo realizou e nós colhemos os frutos do que Cristo realizou. Isaías profetizou que os ouvidos do surdo se abririam; o Cristo curou o surdo-gago inaugurando, assim, os tempos messiânicos; hoje, também o Cristo pronuncia solenemente sobre casa assembleia eucarística um novo “Effathá!” O Evangelho que hoje ouvimos foi logo assumido nas liturgias batismais primitivas a fim de que os neófitos tivessem os ouvidos abertos para escutar a Palavra e a língua livre para proclamá-la retamente (órthos!). Também nós somos uma assembleia batismal. O Mistério da Assembleia reside no fato de sermos aqueles que foram renascidos em Cristo, ressuscitados com Ele, tocados em nossos ouvidos e lábios para ouvirmos e proclamarmos a sua Palavra. Essa Palavra já aconteceu em nós, mas precisa ser assumida e assimilada, por isso ela volta a cada ciclo B, neste 23º domingo, para nos recordarmos daquilo o que foi feito em nós e cantarmos com o salmista: “Bendize, ó minha alma ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida! O Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor faz erguer-se o caído!”

O Senhor hojenos toma em suas mãos e nos leva a sós, a um lugar à parte, onde ele cura a nossa chaga mais profunda, que é a surdez espiritual. Quando ouvimos a Palavra e a nossa boca a proclama, tudo em nós se torna luz e compreendemos os milagres que estão ao nosso lado e que, de tão óbvios, se tornam imperceptíveis. Um desses milagres é a assembleia, onde não pode haver acepção de pessoas. Todos nela têm o mesmo valor: ricos e pobres; ministros e povo; todos possuem a mesma dignidade. Não cabe, naqueles que entendem o milagre da assembleia, a acepção de pessoas. O valor da assembleia não está na consideração de cada membro individualmente, com seus evidentes pecados. O seu valor reside no fato dela ser sacramento de Cristo, seu Corpo Místico. Quando contemplamos essa realidade percebemos que o outro ao nosso lado, seja ele quem for, é um membro desse corpo, e deve ser reverenciado pelo que ele significa. É um desafio maior do que parece, mas peçamos nesta assembleia que o Espírito do Senhor nos dê olhos espirituais, que eles desgrudem como profetizou Isaías, para que possamos ver com os olhos de Deus!



[1] Cf. BJ

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida