Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 29/03/2017

29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (11): Interpretação e tradução da Bíblia

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29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (11): Interpretação e tradução da Bíblia

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30/08/2015 00:00 - Atualizado em 03/09/2015 15:34

A Palavra de Deus na Bíblia (11): Interpretação e tradução da Bíblia 0

30/08/2015 00:00 - Atualizado em 03/09/2015 15:34

Na seção anterior pudemos ver o ambiente cultural, religioso e político no qual se forma a tradição latina da fé cristã. Elementos importantes como Cipriano, Tertuliano entre outros preparam o terreno para a aparição de dois gigantes: São Jerônimo e Santo Agostinho.

12. Jerônimo

Vale a pena sabermos algumas coisas sobre o Pai da ‘Bíblia Latina’ antes de examinarmos alguns aspectos de sua tradição.

Jerônimo nasceu no ano de 342. Era filho de Eusébio, da cidade de Stridon, já na divisa entre a Panômia e a Dalmácia, em terras não distantes de Aquileia, na Itália. Sua família era cristã, nobre e rica. Acompanhando o costume da época, foi batizado apenas aos 18 anos, contudo, teve uma educação cristã desde criança. Seu pai percebeu logo as precoces aptidões que Jerônimo tinha para os estudos e apenas esperou que ele chegasse à adolescência para enviá-lo a estudar em Roma. Ali usando a pequena fortuna que seu pai lhe deu, procurou os melhores mestres. Tendo, porém, uma juventude um tanto livre.

No centro do mundo civilizado de então, o jovem dedicou-se com afinco aos estudos da gramática, da retórica e da filosofia. Estudou latim tendo como professor de línguas um famoso pagão chamado Donato. Jerônimo tornou-se um grande latinista, sendo também muito bom conhecedor do grego e de outros idiomas mais. Ele dedicava horas e horas de seus dias lendo, estudando e até decorando livros de grandes autores latinos: Cícero, Virgílio, Horácio, Tácito. E ainda encontrava disposição para conhecer autores gregos, entre eles Homero e Platão. Tal era seu entusiasmo e admiração pelos escritores clássicos que logo formou uma biblioteca só com obras deles, chegando até a copiar à mão vários desses livros.

Jerônimo quis visitar Jerusalém. Queria caminhar pela Terra Santa, venerar os lugares que foram santificados pela presença de Nosso Senhor. Aproveitou a ocasião de sua estada em Jerusalém para aprofundar seus conhecimentos da língua hebraica. Ele desejava ter um meio a mais para conhecer melhor as Sagradas Escrituras. Assim, poderia ter mais segurança nas respostas às questões que o Papa São Dâmaso lhe fazia constantemente a respeito de passagens difíceis dos Livros Sagrados.

Ele foi, então, para Chalcis no deserto da Síria e lá passou quatro anos. Tinha uma vida de monge e aproveitou o tempo para aprofundar seus conhecimentos em hebraico e estudar os escritos de São Paulo. Jerônimo deixou o ambiente monacal e dirigiu-se a Constantinopla. Ele queria ver e ouvir São Gregório Nanzianzeno. Devido à sua oratória e erudição, esse santo era conhecido como sendo “o Teólogo”.

Durante três anos ele ali permaneceu estudando com São Gregório. Foi ele quem lhe abriu o espírito ao amor pela exegese das Sagradas Escrituras. Foi nessa ocasião também que Jerônimo teve oportunidade de fazer uma grande e profunda amizade com dois outros luzeiros que brilhavam na Igreja do Oriente: São Basílio e seu irmão São Gregório de Nissa.

O primeiro grande resultado alcançado foi a versão latina do Novo Testamento. Jerônimo utilizou-se de uma das antigas versões latinas chamada “Vetus Latina”, além de usar o texto em grego dos evangelistas. Porém, não parou por aí. Traduziu também todo o Antigo Testamento diretamente do hebraico para o latim, rejeitando a versão dos LXX. Nesta tradução, excluiu os livros escritos diretamente em grego, considerando-os não canônicos. Nascia assim a “Vulgata”. Uma versão das Sagradas Escrituras escrita em um latim de estilo popular e fácil, porém elegante. Dada a excelente qualidade do trabalho feito por São Jerônimo, ela tornou-se de domínio indiscutível na Igreja latina1.

Entretanto, a partir do século 6 problemas começaram a aparecer. Surgiram cópias e mais cópias descuidadas da “Vulgata”, das quais se destaca como mais conhecida a “Parisiense”, muito usada, mas infiel ao original de São Jerônimo. Essa versão, inclusive, teria sido a primeira impressa por Gutemberg, o inventor da imprensa, entre 1450 e 1452.

Em 1545, o Papa Paulo III abriu o Concílio de Trento, cujo principal objetivo era responder às proposições da reforma protestante. Neste Concílio, foi definido que as tradições apostólicas devem ser aceitas com o mesmo respeito que as Sagradas Escrituras, cujo cânone também foi fixado: a Vulgata de São Jerônimo foi declarada autêntica, ou seja, suficiente para a demonstração dos dogmas da Igreja.

Essa autenticidade só foi definitivamente interpretada pelo Papa Pio XII em 1943, quando o mesmo afirmou que a Vulgata é fonte segura da doutrina católica sendo substancialmente fiel ao texto original. Na Encíclica “Divino Afflante Spritu”, Pio XII permite e incentiva as traduções da Vulgata em língua moderna para o uso comum. No Concílio Vaticano II, aberto em 1961, o Papa Paulo VI ordenou que fosse feita uma nova revisão no texto de São Jerônimo. A nova redação, a “neo-vulgata”, resultou no texto oficial da Igreja adotado em 1979 e perdurando até os dias de hoje. 


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A Palavra de Deus na Bíblia (11): Interpretação e tradução da Bíblia

30/08/2015 00:00 - Atualizado em 03/09/2015 15:34

Na seção anterior pudemos ver o ambiente cultural, religioso e político no qual se forma a tradição latina da fé cristã. Elementos importantes como Cipriano, Tertuliano entre outros preparam o terreno para a aparição de dois gigantes: São Jerônimo e Santo Agostinho.

12. Jerônimo

Vale a pena sabermos algumas coisas sobre o Pai da ‘Bíblia Latina’ antes de examinarmos alguns aspectos de sua tradição.

Jerônimo nasceu no ano de 342. Era filho de Eusébio, da cidade de Stridon, já na divisa entre a Panômia e a Dalmácia, em terras não distantes de Aquileia, na Itália. Sua família era cristã, nobre e rica. Acompanhando o costume da época, foi batizado apenas aos 18 anos, contudo, teve uma educação cristã desde criança. Seu pai percebeu logo as precoces aptidões que Jerônimo tinha para os estudos e apenas esperou que ele chegasse à adolescência para enviá-lo a estudar em Roma. Ali usando a pequena fortuna que seu pai lhe deu, procurou os melhores mestres. Tendo, porém, uma juventude um tanto livre.

No centro do mundo civilizado de então, o jovem dedicou-se com afinco aos estudos da gramática, da retórica e da filosofia. Estudou latim tendo como professor de línguas um famoso pagão chamado Donato. Jerônimo tornou-se um grande latinista, sendo também muito bom conhecedor do grego e de outros idiomas mais. Ele dedicava horas e horas de seus dias lendo, estudando e até decorando livros de grandes autores latinos: Cícero, Virgílio, Horácio, Tácito. E ainda encontrava disposição para conhecer autores gregos, entre eles Homero e Platão. Tal era seu entusiasmo e admiração pelos escritores clássicos que logo formou uma biblioteca só com obras deles, chegando até a copiar à mão vários desses livros.

Jerônimo quis visitar Jerusalém. Queria caminhar pela Terra Santa, venerar os lugares que foram santificados pela presença de Nosso Senhor. Aproveitou a ocasião de sua estada em Jerusalém para aprofundar seus conhecimentos da língua hebraica. Ele desejava ter um meio a mais para conhecer melhor as Sagradas Escrituras. Assim, poderia ter mais segurança nas respostas às questões que o Papa São Dâmaso lhe fazia constantemente a respeito de passagens difíceis dos Livros Sagrados.

Ele foi, então, para Chalcis no deserto da Síria e lá passou quatro anos. Tinha uma vida de monge e aproveitou o tempo para aprofundar seus conhecimentos em hebraico e estudar os escritos de São Paulo. Jerônimo deixou o ambiente monacal e dirigiu-se a Constantinopla. Ele queria ver e ouvir São Gregório Nanzianzeno. Devido à sua oratória e erudição, esse santo era conhecido como sendo “o Teólogo”.

Durante três anos ele ali permaneceu estudando com São Gregório. Foi ele quem lhe abriu o espírito ao amor pela exegese das Sagradas Escrituras. Foi nessa ocasião também que Jerônimo teve oportunidade de fazer uma grande e profunda amizade com dois outros luzeiros que brilhavam na Igreja do Oriente: São Basílio e seu irmão São Gregório de Nissa.

O primeiro grande resultado alcançado foi a versão latina do Novo Testamento. Jerônimo utilizou-se de uma das antigas versões latinas chamada “Vetus Latina”, além de usar o texto em grego dos evangelistas. Porém, não parou por aí. Traduziu também todo o Antigo Testamento diretamente do hebraico para o latim, rejeitando a versão dos LXX. Nesta tradução, excluiu os livros escritos diretamente em grego, considerando-os não canônicos. Nascia assim a “Vulgata”. Uma versão das Sagradas Escrituras escrita em um latim de estilo popular e fácil, porém elegante. Dada a excelente qualidade do trabalho feito por São Jerônimo, ela tornou-se de domínio indiscutível na Igreja latina1.

Entretanto, a partir do século 6 problemas começaram a aparecer. Surgiram cópias e mais cópias descuidadas da “Vulgata”, das quais se destaca como mais conhecida a “Parisiense”, muito usada, mas infiel ao original de São Jerônimo. Essa versão, inclusive, teria sido a primeira impressa por Gutemberg, o inventor da imprensa, entre 1450 e 1452.

Em 1545, o Papa Paulo III abriu o Concílio de Trento, cujo principal objetivo era responder às proposições da reforma protestante. Neste Concílio, foi definido que as tradições apostólicas devem ser aceitas com o mesmo respeito que as Sagradas Escrituras, cujo cânone também foi fixado: a Vulgata de São Jerônimo foi declarada autêntica, ou seja, suficiente para a demonstração dos dogmas da Igreja.

Essa autenticidade só foi definitivamente interpretada pelo Papa Pio XII em 1943, quando o mesmo afirmou que a Vulgata é fonte segura da doutrina católica sendo substancialmente fiel ao texto original. Na Encíclica “Divino Afflante Spritu”, Pio XII permite e incentiva as traduções da Vulgata em língua moderna para o uso comum. No Concílio Vaticano II, aberto em 1961, o Papa Paulo VI ordenou que fosse feita uma nova revisão no texto de São Jerônimo. A nova redação, a “neo-vulgata”, resultou no texto oficial da Igreja adotado em 1979 e perdurando até os dias de hoje. 


Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica