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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/07/2017

24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (9): Interpretação e tradução da Bíblia

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24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (9): Interpretação e tradução da Bíblia

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17/08/2015 18:04 - Atualizado em 17/08/2015 18:04

A Palavra de Deus na Bíblia (9): Interpretação e tradução da Bíblia 0

17/08/2015 18:04 - Atualizado em 17/08/2015 18:04

9. A tradição latina: Agostinho e Jerônimo

‘A definição de “pais latinos” não é autoevidente. No sentido estrito, “Pai”, seja em grego, latim ou siríaco, implica num paladino da ortodoxia dogmática, quase sempre um bispo, que pode, portanto, pertencer a qualquer época. A definição mais generosa poderia começar com a tradução latina de Hermas e prosseguir por 800 anos até o século vinte.’ (North, 1995, p. 208).

Nos artigos anteriores vimos parte da evolução da tradução e da interpretação da Bíblia no ambiente de língua grega, ou seja, no lado oriental do cristianismo primitivo. Não podemos nos esquecer que a Bíblia cristã nasce junto com o alvorecer da idade apostólica. Sobre isso trataremos mais adiante.

Nesta seção iremos tratar de alguns aspectos importantes da interpretação da Bíblia entre os escritores e tradutores da Bíblia em língua latina.

A definição ou mesmo uma tentativa de caracterização da Patrística Latina não parece ser uma tarefa fácil, mas será imprescindível para reconstituirmos o contexto dentro do qual situaremos a obra agostiniana de exegese. Juntamente com aquela de Jerônimo, o tradutor, ele é o Pai da ‘Vulgata Latina’.

Antes de mais nada, é preciso recordar o marco historiográfico do fim da política da pax romana, em 410, com o assalto a Roma por Alarico1, e as cada vez mais constantes ‘invasões’ bárbaras.

Deste dado, no entanto, nos interessa ressaltar a reação que marcará o amadurecimento irreversível da cultura do Cristianismo Ocidental através da imposição da cultura greco-romana, barreira à ‘barbarização’ do Império Romano.

Isto é, a crise do Império Romano possibilita ‘paradoxalmente’ ao cristianismo nascente, aparentemente em oposição à ordem estabelecida, e por isso perseguido, ganhar mais formas e estruturas, a ponto de não só subsistir como também de desenvolver-se sobremaneira.2

Tudo isso, então, lhe permitirá ir forjando sua forma ocidental e latina do cristianismo, que se imporá e plasmará toda a idade dita medieval.

No entanto, o cristianismo latino, ambiente da cultura exegética de Agostinho, antecede e prepara esse fato; trata-se do cristianismo ‘africano’3, do século 2, que lendo inicialmente a Vetus Latina e depois, solidificada pela obra de Jerônimo, a Vulgata, garante a passagem do mundo exegético greco-oriental para aquele latino ocidental.

10. Tertuliano e Cipriano

Isto é, nomes como Tertuliano4 e Cipriano5, entre outros, formam uma verdadeira coluna de sustentação para afirmarmos que a fonte das ideias teológicas do Cristianismo Latino, que se expande e brilha no período medieval, tem morada na formação do pensamento cristão que evolui na África do Norte, no segundo século.

Cipriano, Bispo de Cartago em 246, aos 35 anos, no período de grandes perseguições dos imperadores Valeriano e Décio, foi decapitado em 258 d.C. Temos dados precisos de sua biografia graças ao diácono Pônzio, Vita, e às Acta Martiriarum.

Sobre Tertuliano, este apologeta cristão, que ao término de sua vida (c.213) tornou-se o mais radical que os montanistas, de quem se aproximara, encontrar-se-a afastado do conjunto da Igreja e da ortodoxia. No entanto, o valor de sua obra literária funda definitivamente a latinidade cristã e irá influenciar o bispo e mártir São Cipriano.

Uma primeira característica desses autores constitui-se na herança da obra de Alexandria. Estes não romperam com a tradição de leitura da exegese das Escolas de Alexandria e Antioquia, mesmo através do latim, cumprindo a tarefa de interpretar as Sagradas Páginas.

Assim afirma J. Danielou ao buscar as fontes do cristianismo latino entre os meios pagãos e do judaísmo da Diáspora. Ele oferece indicadores dessa cultura através da produção exegética, um misto de originalidade e continuidade com o grande cristianismo da Patrística Grega.

Referências:

1Cfr. Sobre as fontes literárias da história Latina, é louvável a aparição recente de uma edição crítica, bilíngue, M. da Glória Novak, M.L. Néri e A.A. Peterlini (org.), Historiadores Latinos, Martins Fontes, SP, 1999.

2 Cfr. É o que afirmam muitos historiadores, como Arnold J. Toynbee, Helenismo. História de uma Civilização, espec., A Vitória do Cristianismo, 204-13.

3 História Geral da África, do qual citamos A. Mahjoubi, O Período Romano e pós-romano na África do Norte, in G. Mokhtar, História Geral da África:

4 J. Trebolle Barrera, A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã. Introdução à História da Bíblia, 416-28.

5 Cfr. M. Simonetti, Letteratura cristiana antica. Testi originali a fronte, vol.I, 870-73.

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A Palavra de Deus na Bíblia (9): Interpretação e tradução da Bíblia

17/08/2015 18:04 - Atualizado em 17/08/2015 18:04

9. A tradição latina: Agostinho e Jerônimo

‘A definição de “pais latinos” não é autoevidente. No sentido estrito, “Pai”, seja em grego, latim ou siríaco, implica num paladino da ortodoxia dogmática, quase sempre um bispo, que pode, portanto, pertencer a qualquer época. A definição mais generosa poderia começar com a tradução latina de Hermas e prosseguir por 800 anos até o século vinte.’ (North, 1995, p. 208).

Nos artigos anteriores vimos parte da evolução da tradução e da interpretação da Bíblia no ambiente de língua grega, ou seja, no lado oriental do cristianismo primitivo. Não podemos nos esquecer que a Bíblia cristã nasce junto com o alvorecer da idade apostólica. Sobre isso trataremos mais adiante.

Nesta seção iremos tratar de alguns aspectos importantes da interpretação da Bíblia entre os escritores e tradutores da Bíblia em língua latina.

A definição ou mesmo uma tentativa de caracterização da Patrística Latina não parece ser uma tarefa fácil, mas será imprescindível para reconstituirmos o contexto dentro do qual situaremos a obra agostiniana de exegese. Juntamente com aquela de Jerônimo, o tradutor, ele é o Pai da ‘Vulgata Latina’.

Antes de mais nada, é preciso recordar o marco historiográfico do fim da política da pax romana, em 410, com o assalto a Roma por Alarico1, e as cada vez mais constantes ‘invasões’ bárbaras.

Deste dado, no entanto, nos interessa ressaltar a reação que marcará o amadurecimento irreversível da cultura do Cristianismo Ocidental através da imposição da cultura greco-romana, barreira à ‘barbarização’ do Império Romano.

Isto é, a crise do Império Romano possibilita ‘paradoxalmente’ ao cristianismo nascente, aparentemente em oposição à ordem estabelecida, e por isso perseguido, ganhar mais formas e estruturas, a ponto de não só subsistir como também de desenvolver-se sobremaneira.2

Tudo isso, então, lhe permitirá ir forjando sua forma ocidental e latina do cristianismo, que se imporá e plasmará toda a idade dita medieval.

No entanto, o cristianismo latino, ambiente da cultura exegética de Agostinho, antecede e prepara esse fato; trata-se do cristianismo ‘africano’3, do século 2, que lendo inicialmente a Vetus Latina e depois, solidificada pela obra de Jerônimo, a Vulgata, garante a passagem do mundo exegético greco-oriental para aquele latino ocidental.

10. Tertuliano e Cipriano

Isto é, nomes como Tertuliano4 e Cipriano5, entre outros, formam uma verdadeira coluna de sustentação para afirmarmos que a fonte das ideias teológicas do Cristianismo Latino, que se expande e brilha no período medieval, tem morada na formação do pensamento cristão que evolui na África do Norte, no segundo século.

Cipriano, Bispo de Cartago em 246, aos 35 anos, no período de grandes perseguições dos imperadores Valeriano e Décio, foi decapitado em 258 d.C. Temos dados precisos de sua biografia graças ao diácono Pônzio, Vita, e às Acta Martiriarum.

Sobre Tertuliano, este apologeta cristão, que ao término de sua vida (c.213) tornou-se o mais radical que os montanistas, de quem se aproximara, encontrar-se-a afastado do conjunto da Igreja e da ortodoxia. No entanto, o valor de sua obra literária funda definitivamente a latinidade cristã e irá influenciar o bispo e mártir São Cipriano.

Uma primeira característica desses autores constitui-se na herança da obra de Alexandria. Estes não romperam com a tradição de leitura da exegese das Escolas de Alexandria e Antioquia, mesmo através do latim, cumprindo a tarefa de interpretar as Sagradas Páginas.

Assim afirma J. Danielou ao buscar as fontes do cristianismo latino entre os meios pagãos e do judaísmo da Diáspora. Ele oferece indicadores dessa cultura através da produção exegética, um misto de originalidade e continuidade com o grande cristianismo da Patrística Grega.

Referências:

1Cfr. Sobre as fontes literárias da história Latina, é louvável a aparição recente de uma edição crítica, bilíngue, M. da Glória Novak, M.L. Néri e A.A. Peterlini (org.), Historiadores Latinos, Martins Fontes, SP, 1999.

2 Cfr. É o que afirmam muitos historiadores, como Arnold J. Toynbee, Helenismo. História de uma Civilização, espec., A Vitória do Cristianismo, 204-13.

3 História Geral da África, do qual citamos A. Mahjoubi, O Período Romano e pós-romano na África do Norte, in G. Mokhtar, História Geral da África:

4 J. Trebolle Barrera, A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã. Introdução à História da Bíblia, 416-28.

5 Cfr. M. Simonetti, Letteratura cristiana antica. Testi originali a fronte, vol.I, 870-73.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica