Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 17/08/2018

17 de Agosto de 2018

É Ele mesmo

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08/08/2015 15:58 - Atualizado em 08/08/2015 15:58

É Ele mesmo 0

08/08/2015 15:58 - Atualizado em 08/08/2015 15:58

“Não podemos viver sem o domingo!”

Essa expressão dos mártires diante dos seus algozes fixa para nós o valor e o sentido do domingo cristão. De fato, não podemos viver sem o domingo. Pela expressão “dominicum” em latim se entendia tanto o Dia do Senhor, como a celebração eucarística, tendo em vista que essas duas realidades estão profundamente unidas. O domingo é o Dia do Senhor e nele celebramos o mistério da nossa salvação. Não se concebe, na fé cristã, Domingo sem Eucaristia.

O dia do Domingo é uma antecipação daquele dia definitivo no qual estaremos para sempre com o Senhor (cf. 1 Ts 4,17) e a celebração eucarística é o prenúncio, a antecipação do banquete escatológico prometido aos seus por Cristo. Meus irmãos, também nós hoje somos convidados a dizer com estes santos mártires dos primeiros séculos: “Não podemos viver sem o domingo!” Não podemos viver sem o domingo porque neste dia é que nos são reveladas as realidades mais profundas da vida cristã.

Neste dia celebramos a Eucaristia, e quando pensamos a Eucaristia não devemos pensar somente no mistério da presença real de Cristo, mas no todo que é a Eucaristia, uma ação de graças ao Pai por Cristo na força do Espírito Santo (Puebla 917). Na celebração destes divinos mistérios contemplamos àquilo o que nos tornamos no dia do nosso batismo: somos um corpo vivo, o corpo místico de Cristo, que se reúne em torno deste santo Altar! Neste dia de domingo, reunidos numa santa assembléia, nos congregamos em torno da Palavra Divina que hoje salta para nós de dentro do livro da Sagrada Escritura.

Neste dia “oitavo e último”, dia que é “glória dos dias”, somos colocados em contato com o Cristo Mestre, com o Cristo Sacerdote, com o Cristo Diácono Servidor do Pai, através dos ministros que servem o altar de Deus. Por fim, somos gloriosamente tocados pelo Corpo do Senhor (cf. Is 6,6-7), que qual brasa retirada do altar nos purifica e nos separa a salvação. Este é realmente o “dia que é glória dos dias”!

Nesse dia de festa o Senhor reserva para nós uma palavra, o grande discurso do pão da vida, de João 6, que começamos a ouvir dois domingos atrás e foi, de certo modo, interrompido pelo domingo da Transfiguração, continua hoje, será interrompido novamente pelo domingo onde celebraremos a festa da Assunção de Nossa Senhora e será concluído no 21º Domingo do Tempo Comum. Hoje Deus nos fala nos versículos 41-51. Esse trecho do evangelho pode ser dividido em duas partes: uma primeira que começa no versículo 41 e vai até o v. 47, introduzida pelas palavras de Jesus: “Eu sou o pão que desceu do céu” e concluída pela promessa: “Em verdade, em verdade vos digo, quem crê, possui a vida eterna”. A segunda parte começa no v. 48 onde Jesus diz: “Eu sou o pão da vida” e termina com uma promessa e num prenúncio: “Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”.

Essa primeira parte nos relembra a passagem do Êxodo, quando os israelitas começaram a murmurar contra Moisés, reclamando a falta de alimento. Moisés afirma que a murmuração do povo não é, na verdade, contra ele, tendo em vista que ele foi apenas um instrumento de Deus para operar a libertação, mas a murmuração do povo se dirigia, em última análise, ao próprio Deus, o grande empreendedor da libertação. Aqui também os judeus, tendo recebido uma palavra de libertação, a saber, o dito de Jesus “Eu sou o pão que desceu do céu”, começam a murmurar.

Na verdade, a murmuração deles não se dirige, em última análise, contra o Cristo, mas contra o próprio Pai e seu desígnio de salvação, tendo em vista que foi o Pai que enviou o seu Filho para dar a sua vida pela vida do mundo. E assim, os judeus, murmurando contra Cristo e contra o Pai, começam a questionar a origem de Jesus. Eles pensam que o conhecem e se escandalizam com sua origem divina: Como ele pode dizer que desceu do céu? Eles conhecem o homem Jesus, mas não o conhecem verdadeiramente, porque Ele é homem-Deus, humano-divino, nasceu da Virgem, mas dela nasceu porque nela se encarnou, Aquele que os céus não podem conter veio habitar no seio da Virgem.

Contra a murmuração dos judeus Jesus afirma mais uma vez a sua origem divina, Ele é aquele do qual se fala no v. 46: “Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai”. Jesus ainda afirma a necessidade da intervenção do Pai para a fé possa ser suscitada no coração do homem. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai.” É o Pai quem nos atrai para o Cristo.

O primeiro movimento não é nosso, não se trata de uma iniciativa meramente humana. O primeiro movimento é de Deus, do Pai, Ele é o sedutor, quem nos atrai. Podemos aqui nos lembrar daquelas palavras do profeta Jeremias: Seduziste-me Senhor e me deixei seduzir. Só pode ir a Jesus quem é atraído pelo Pai e, conseqüentemente, quem se deixa atrair. Mas o Pai nos atrai para quê? Vivemos no meio de duas forças de atração: a do Pai e a do Mundo. O mundo nos atrai para a morte; o pai nos atrai para a vida em abundância, para a ressurreição do último dia, afinal esta é a promessa: “E eu o ressuscitarei no último dia”. E como o Pai realiza essa atração: através da sua Palavra. Pela sua Palavra o Pai nos atrai ao Filho. Jesus retoma aqui uma passagem do livro do profeta Jeremias, no cap. 31, o assim chamado “Livro da Consolação de Jeremias”, que diz: “Todos serão ensinados por Deus”.

Qual é o contexto em que Jeremias nos dá essa profecia? No contexto de uma promessa de restauração, onde a Lei não será algo fora do homem, onde a palavra divina não será uma realidade externa ao homem, mas estará gravada no coração, nas entranhas, de cada um daqueles que quiserem seguir o Senhor. O Pai nos atrai para o Filho gravando nas nossas entranhas a sua Palavra. A primeira parte desse Evangelho que acabamos de ouvir é encerrada, enfim, com uma promessa: Quem crê, possui a vida eterna. Jesus não afirma aqui que somente irão para a glória do Pai aqueles que crerem. Muitas vezes os homens não crêem por motivos que fogem ao seu controle e que não podemos julgar.

Existem às vezes limitações no homem, de ordem psicológica, cultural, que os impedem de aceitar o Evangelho. A Igreja no ensina que estes, mesmo sem terem a reta fé, se seguem a sua consciência e buscam o bem podem se salvar. Mas, então, o que há de melhor naqueles que têm fé? Qual o sentido de ter fé? Aquele que tem fé, aquele que crê, já “possui” a vida eterna! O que não tem fé vive das esperanças humanas, e as esperanças meramente humanas são caducas. A vida do homem é feita de altos e baixos, de vitórias e derrotas e, muitas vezes, mais de derrotas que de vitórias, mas de baixos que de altos. E, por fim, a morte, para quem não tem fé, parece ser a falência total. O homem que não tem fé, por mais que ganhe neste mundo, espera somente a falência final, onde nada poderá salvá-lo.

Mas, o que tem fé já possui de alguma forma a vida eterna. O que tem fé também experimenta altos e baixos, vitórias e fracassos, perdas e ganhos e, também, morrerá, igualzinho aos que não têm fé. Mas, pela fé, pelos óculos da fé, ele vê o que os outros não vêem. Ele tomou a firme decisão de crer que aquilo que não se vê é mais real que aquilo o que se vê. Pela fé já possuímos de forma antecipada aquilo o que ainda nos será dado: a glória futura. A fé não nos livra das tribulações presentes, nem nos deve fazer agir de forma descomprometida com a realidade que nos cerca, mas deve ser sempre um estímulo a olharmos para além das aparências e vermos o que está à frente, o que nos espera, para onde caminhamos.

Jesus nos abre mais uma seção do seu discurso com a afirmação: Eu sou o pão da vida. O pão que desceu do céu é o pão que dá vida aos homens. E Jesus relembra aos seus ouvintes a passagem do Maná do deserto. O maná foi o pão de Deus para os homens, mas um pão transitório, um pão que alimentou a vida dos israelitas por um tempo determinado: quarenta anos.

Também o profeta Elias, desanimado pelo cansaço e pelas constantes fugas daqueles que queriam tirar-lhe a vida, foi alimentado por Deus com um pão especial, que o fortaleceu, fazendo caminhar ainda por quarenta dias e por quarenta noites até o Horeb, o monte de Deus. Mas o pão que o Cristo nos dá não é um pão transitório, capaz de sustentar a nossa vida apenas por quarenta dias, ou talvez por quarenta anos. O pão que Cristo nos oferece é Ele mesmo, quem d’Ele comer, de acordo com a sua promessa, nunca morrerá.

O pão que Cristo nos oferece é a sua carne para a vida do mundo. Nós que participamos da Eucaristia recebemos este pão. Mas, devemos estar atentos ao modo como recebemos a Eucaristia. O mistério que celebramos não é somente o mistério da presença real de Cristo, uma presença que queremos muitas vezes viver de forma intimista. O mistério que celebramos na Eucaristia é o mistério da vida de Cristo que foi toda doada ao Pai e a nós, que foi toda ela uma glorificação perfeita do Pai, consumada na sua entrega de cruz, máxima expressão de amor, porque o mesmo apóstolo João nos ensina que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Nós que comemos desse pão e cremos nessa promessa de eternidade devemos nos tornar aquilo o que comemos.

Se Cristo deu a sua carne para a vida do mundo, nós que recebemos a sua carne e o seu sangue neste divino alimento, devemos também dar a nossa carne, que é sacramento da carne do próprio Cristo, para a vida do mundo. A nossa vida deve ser uma eucaristia, ou seja, uma ação de graças ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo. A nossa vida deve ser toda ela doada, ao Pai e aos irmãos, ou melhor, ao Pai pelos irmãos. Os irmãos são os instrumentos através dos quais expressamos o nosso amor a Deus, a nossa entrega a Ele.

A Palavra, que já é Pão para nós, se fez carne no seio da Virgem e hoje se dará a nós nos sinais sacramentais. A Palavra de Deus se faz carne e sangue para nós neste divino alimento que nos sustenta no longo caminho que temos pela frente até o monte de Deus, a Jerusalém celeste. Estes dons do pão e do vinho que vamos oferecer se tornarão para nós “sacramento de salvação”. Que a exemplo do profeta Elias, nós que também muitas vezes pedimos a Deus a morte, porque já não suportamos o peso das tribulações - e cada um sabe o peso das suas tribulações, e ninguém pode se atrever a julgar o fardo de ninguém mais leve que o seu, porque cada um traz um fardo adequado à sua capacidade - que nós que estamos à beira de pedir a Deus a morte possamos seguir o conselho do anjo que nos diz como disse ao profeta: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer!” Com a força desse alimento podemos percorrer o caminho. Já no início da proclamação dessas leituras o anjo nos convidava a ficarmos de pé e a comermos o primeiro alimento, que é a Palavra.

Como o profeta Ezequiel você e eu comemos hoje o rolo da Palavra de Deus. Mas que alegria e que grata surpresa! Deus tem reservado para nós ainda mais. Fortalecidos pelo alimento da Palavra, pelo pão da Palavra, receberemos agora o Pão do Sacrifício, o Vinho da Alegria! Levantemo-nos! Eis o convite do anjo. Mas hoje o anjo nos convida a levantarmos não somente o nosso corpo, mas o nosso coração e a nossa mente. Que os nossos corações estejam realmente no alto, em Deus, embora nossos pés ainda estejam nessa terra. Que com os nossos corações em Deus possamos alimentados com a Palavra e com o Pão Eucarístico cantarmos com o salmista: “Provai e vede quão suave é o Senhor!”

 

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08/08/2015 15:58 - Atualizado em 08/08/2015 15:58

“Não podemos viver sem o domingo!”

Essa expressão dos mártires diante dos seus algozes fixa para nós o valor e o sentido do domingo cristão. De fato, não podemos viver sem o domingo. Pela expressão “dominicum” em latim se entendia tanto o Dia do Senhor, como a celebração eucarística, tendo em vista que essas duas realidades estão profundamente unidas. O domingo é o Dia do Senhor e nele celebramos o mistério da nossa salvação. Não se concebe, na fé cristã, Domingo sem Eucaristia.

O dia do Domingo é uma antecipação daquele dia definitivo no qual estaremos para sempre com o Senhor (cf. 1 Ts 4,17) e a celebração eucarística é o prenúncio, a antecipação do banquete escatológico prometido aos seus por Cristo. Meus irmãos, também nós hoje somos convidados a dizer com estes santos mártires dos primeiros séculos: “Não podemos viver sem o domingo!” Não podemos viver sem o domingo porque neste dia é que nos são reveladas as realidades mais profundas da vida cristã.

Neste dia celebramos a Eucaristia, e quando pensamos a Eucaristia não devemos pensar somente no mistério da presença real de Cristo, mas no todo que é a Eucaristia, uma ação de graças ao Pai por Cristo na força do Espírito Santo (Puebla 917). Na celebração destes divinos mistérios contemplamos àquilo o que nos tornamos no dia do nosso batismo: somos um corpo vivo, o corpo místico de Cristo, que se reúne em torno deste santo Altar! Neste dia de domingo, reunidos numa santa assembléia, nos congregamos em torno da Palavra Divina que hoje salta para nós de dentro do livro da Sagrada Escritura.

Neste dia “oitavo e último”, dia que é “glória dos dias”, somos colocados em contato com o Cristo Mestre, com o Cristo Sacerdote, com o Cristo Diácono Servidor do Pai, através dos ministros que servem o altar de Deus. Por fim, somos gloriosamente tocados pelo Corpo do Senhor (cf. Is 6,6-7), que qual brasa retirada do altar nos purifica e nos separa a salvação. Este é realmente o “dia que é glória dos dias”!

Nesse dia de festa o Senhor reserva para nós uma palavra, o grande discurso do pão da vida, de João 6, que começamos a ouvir dois domingos atrás e foi, de certo modo, interrompido pelo domingo da Transfiguração, continua hoje, será interrompido novamente pelo domingo onde celebraremos a festa da Assunção de Nossa Senhora e será concluído no 21º Domingo do Tempo Comum. Hoje Deus nos fala nos versículos 41-51. Esse trecho do evangelho pode ser dividido em duas partes: uma primeira que começa no versículo 41 e vai até o v. 47, introduzida pelas palavras de Jesus: “Eu sou o pão que desceu do céu” e concluída pela promessa: “Em verdade, em verdade vos digo, quem crê, possui a vida eterna”. A segunda parte começa no v. 48 onde Jesus diz: “Eu sou o pão da vida” e termina com uma promessa e num prenúncio: “Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”.

Essa primeira parte nos relembra a passagem do Êxodo, quando os israelitas começaram a murmurar contra Moisés, reclamando a falta de alimento. Moisés afirma que a murmuração do povo não é, na verdade, contra ele, tendo em vista que ele foi apenas um instrumento de Deus para operar a libertação, mas a murmuração do povo se dirigia, em última análise, ao próprio Deus, o grande empreendedor da libertação. Aqui também os judeus, tendo recebido uma palavra de libertação, a saber, o dito de Jesus “Eu sou o pão que desceu do céu”, começam a murmurar.

Na verdade, a murmuração deles não se dirige, em última análise, contra o Cristo, mas contra o próprio Pai e seu desígnio de salvação, tendo em vista que foi o Pai que enviou o seu Filho para dar a sua vida pela vida do mundo. E assim, os judeus, murmurando contra Cristo e contra o Pai, começam a questionar a origem de Jesus. Eles pensam que o conhecem e se escandalizam com sua origem divina: Como ele pode dizer que desceu do céu? Eles conhecem o homem Jesus, mas não o conhecem verdadeiramente, porque Ele é homem-Deus, humano-divino, nasceu da Virgem, mas dela nasceu porque nela se encarnou, Aquele que os céus não podem conter veio habitar no seio da Virgem.

Contra a murmuração dos judeus Jesus afirma mais uma vez a sua origem divina, Ele é aquele do qual se fala no v. 46: “Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai”. Jesus ainda afirma a necessidade da intervenção do Pai para a fé possa ser suscitada no coração do homem. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai.” É o Pai quem nos atrai para o Cristo.

O primeiro movimento não é nosso, não se trata de uma iniciativa meramente humana. O primeiro movimento é de Deus, do Pai, Ele é o sedutor, quem nos atrai. Podemos aqui nos lembrar daquelas palavras do profeta Jeremias: Seduziste-me Senhor e me deixei seduzir. Só pode ir a Jesus quem é atraído pelo Pai e, conseqüentemente, quem se deixa atrair. Mas o Pai nos atrai para quê? Vivemos no meio de duas forças de atração: a do Pai e a do Mundo. O mundo nos atrai para a morte; o pai nos atrai para a vida em abundância, para a ressurreição do último dia, afinal esta é a promessa: “E eu o ressuscitarei no último dia”. E como o Pai realiza essa atração: através da sua Palavra. Pela sua Palavra o Pai nos atrai ao Filho. Jesus retoma aqui uma passagem do livro do profeta Jeremias, no cap. 31, o assim chamado “Livro da Consolação de Jeremias”, que diz: “Todos serão ensinados por Deus”.

Qual é o contexto em que Jeremias nos dá essa profecia? No contexto de uma promessa de restauração, onde a Lei não será algo fora do homem, onde a palavra divina não será uma realidade externa ao homem, mas estará gravada no coração, nas entranhas, de cada um daqueles que quiserem seguir o Senhor. O Pai nos atrai para o Filho gravando nas nossas entranhas a sua Palavra. A primeira parte desse Evangelho que acabamos de ouvir é encerrada, enfim, com uma promessa: Quem crê, possui a vida eterna. Jesus não afirma aqui que somente irão para a glória do Pai aqueles que crerem. Muitas vezes os homens não crêem por motivos que fogem ao seu controle e que não podemos julgar.

Existem às vezes limitações no homem, de ordem psicológica, cultural, que os impedem de aceitar o Evangelho. A Igreja no ensina que estes, mesmo sem terem a reta fé, se seguem a sua consciência e buscam o bem podem se salvar. Mas, então, o que há de melhor naqueles que têm fé? Qual o sentido de ter fé? Aquele que tem fé, aquele que crê, já “possui” a vida eterna! O que não tem fé vive das esperanças humanas, e as esperanças meramente humanas são caducas. A vida do homem é feita de altos e baixos, de vitórias e derrotas e, muitas vezes, mais de derrotas que de vitórias, mas de baixos que de altos. E, por fim, a morte, para quem não tem fé, parece ser a falência total. O homem que não tem fé, por mais que ganhe neste mundo, espera somente a falência final, onde nada poderá salvá-lo.

Mas, o que tem fé já possui de alguma forma a vida eterna. O que tem fé também experimenta altos e baixos, vitórias e fracassos, perdas e ganhos e, também, morrerá, igualzinho aos que não têm fé. Mas, pela fé, pelos óculos da fé, ele vê o que os outros não vêem. Ele tomou a firme decisão de crer que aquilo que não se vê é mais real que aquilo o que se vê. Pela fé já possuímos de forma antecipada aquilo o que ainda nos será dado: a glória futura. A fé não nos livra das tribulações presentes, nem nos deve fazer agir de forma descomprometida com a realidade que nos cerca, mas deve ser sempre um estímulo a olharmos para além das aparências e vermos o que está à frente, o que nos espera, para onde caminhamos.

Jesus nos abre mais uma seção do seu discurso com a afirmação: Eu sou o pão da vida. O pão que desceu do céu é o pão que dá vida aos homens. E Jesus relembra aos seus ouvintes a passagem do Maná do deserto. O maná foi o pão de Deus para os homens, mas um pão transitório, um pão que alimentou a vida dos israelitas por um tempo determinado: quarenta anos.

Também o profeta Elias, desanimado pelo cansaço e pelas constantes fugas daqueles que queriam tirar-lhe a vida, foi alimentado por Deus com um pão especial, que o fortaleceu, fazendo caminhar ainda por quarenta dias e por quarenta noites até o Horeb, o monte de Deus. Mas o pão que o Cristo nos dá não é um pão transitório, capaz de sustentar a nossa vida apenas por quarenta dias, ou talvez por quarenta anos. O pão que Cristo nos oferece é Ele mesmo, quem d’Ele comer, de acordo com a sua promessa, nunca morrerá.

O pão que Cristo nos oferece é a sua carne para a vida do mundo. Nós que participamos da Eucaristia recebemos este pão. Mas, devemos estar atentos ao modo como recebemos a Eucaristia. O mistério que celebramos não é somente o mistério da presença real de Cristo, uma presença que queremos muitas vezes viver de forma intimista. O mistério que celebramos na Eucaristia é o mistério da vida de Cristo que foi toda doada ao Pai e a nós, que foi toda ela uma glorificação perfeita do Pai, consumada na sua entrega de cruz, máxima expressão de amor, porque o mesmo apóstolo João nos ensina que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Nós que comemos desse pão e cremos nessa promessa de eternidade devemos nos tornar aquilo o que comemos.

Se Cristo deu a sua carne para a vida do mundo, nós que recebemos a sua carne e o seu sangue neste divino alimento, devemos também dar a nossa carne, que é sacramento da carne do próprio Cristo, para a vida do mundo. A nossa vida deve ser uma eucaristia, ou seja, uma ação de graças ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo. A nossa vida deve ser toda ela doada, ao Pai e aos irmãos, ou melhor, ao Pai pelos irmãos. Os irmãos são os instrumentos através dos quais expressamos o nosso amor a Deus, a nossa entrega a Ele.

A Palavra, que já é Pão para nós, se fez carne no seio da Virgem e hoje se dará a nós nos sinais sacramentais. A Palavra de Deus se faz carne e sangue para nós neste divino alimento que nos sustenta no longo caminho que temos pela frente até o monte de Deus, a Jerusalém celeste. Estes dons do pão e do vinho que vamos oferecer se tornarão para nós “sacramento de salvação”. Que a exemplo do profeta Elias, nós que também muitas vezes pedimos a Deus a morte, porque já não suportamos o peso das tribulações - e cada um sabe o peso das suas tribulações, e ninguém pode se atrever a julgar o fardo de ninguém mais leve que o seu, porque cada um traz um fardo adequado à sua capacidade - que nós que estamos à beira de pedir a Deus a morte possamos seguir o conselho do anjo que nos diz como disse ao profeta: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer!” Com a força desse alimento podemos percorrer o caminho. Já no início da proclamação dessas leituras o anjo nos convidava a ficarmos de pé e a comermos o primeiro alimento, que é a Palavra.

Como o profeta Ezequiel você e eu comemos hoje o rolo da Palavra de Deus. Mas que alegria e que grata surpresa! Deus tem reservado para nós ainda mais. Fortalecidos pelo alimento da Palavra, pelo pão da Palavra, receberemos agora o Pão do Sacrifício, o Vinho da Alegria! Levantemo-nos! Eis o convite do anjo. Mas hoje o anjo nos convida a levantarmos não somente o nosso corpo, mas o nosso coração e a nossa mente. Que os nossos corações estejam realmente no alto, em Deus, embora nossos pés ainda estejam nessa terra. Que com os nossos corações em Deus possamos alimentados com a Palavra e com o Pão Eucarístico cantarmos com o salmista: “Provai e vede quão suave é o Senhor!”

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida