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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/07/2017

24 de Julho de 2017

O pão da vida

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24 de Julho de 2017

O pão da vida

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31/07/2015 18:19 - Atualizado em 31/07/2015 18:19

O pão da vida 0

31/07/2015 18:19 - Atualizado em 31/07/2015 18:19

No Evangelho de João, o dom da eucaristia não é apresentado durante a última ceia, como encontramos nos evangelhos sinóticos. O autor do quarto evangelho insere o tema da eucaristia num discurso de Jesus por ocasião do sinal da multiplicação dos pães. Sendo o Evangelho de João datado pelos exegetas na década de 90 d.C., podemos pensar que as comunidades cristãs já se reuniam por mais de 50 anos para celebrar a ceia do Senhor – o testemunho escrito mais antigo parece ser o de São Paulo, na década de 50 d.C. (1Cor 11,17-34). Qual seria, então, a razão para João escrever esse discurso sobre o pão da vida?

Na caminhada do povo de Israel pelo deserto rumo à terra prometida, ocorreu uma experiência paradigmática para a espiritualidade do Antigo Testamento: eles intuíram que o ser humano possui uma dependência radical de Deus e passaram a exprimir tal dependência através da simbologia do alimento. Um importante testemunho sobre esta percepção se encontra em Dt 8,3: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Assim, para a tradição espiritual vétero-testamentária, a palavra de Deus é o verdadeiro alimento que mantém o homem vivo (cf. Pr 9,3).

Em consonância com essa perspectiva espiritual aberta na Primeira Aliança, o Evangelho de João apresenta Jesus como o verdadeiro alimento porque Ele é a Palavra Encarnada do Pai. Por meio de sua presença, de suas palavras e de suas atitudes, os homens podem ter acesso e conhecer o verdadeiro Deus. Não são mais as pedras da lei, mas o testemunho de Cristo, cumprindo-as e plenificando-as, que revela quem é o Pai e qual a sua vontade para os homens. Embora o Senhor tenha cumprido, plenamente, em sua vida esta intuição espiritual da palavra divina-alimento, Ele a extrapolou apresentando sua carne e seu sangue como alimento para a vida eterna. No discurso do pão da vida, Jesus é o doador da vida eterna aos homens. O pão e o vinho são identificados com o seu corpo e o seu sangue entregues na Cruz. Assim, como Ele venceu a morte, aqueles que comem do seu corpo-pão e bebem do seu sangue-vinho ressuscitarão e viverão eternamente com Ele.

Existe uma relação intrínseca entre palavra e eucaristia no capítulo sexto do Evangelho de João. A morte de Cristo se dá pela sua obediência a palavra salvífica do Pai. A eucaristia, o corpo e o sangue de Jesus nascem do cumprimento até a morte da vontade amorosa de Deus. Tendo amado os seus que estavam no mundo, Jesus amou-os até o fim (Jo 13,1). Assim, o cristão é chamado a comungar do corpo e do sangue do Senhor para que possa ser capaz de cumprir em sua vida a vontade de Deus Pai no seguimento do mandamento do amor.

Ainda é importante destacar o papel do Espírito Santo atuante tanto na proclamação da Palavra quanto na comunicação da vida eterna por meio do corpo e do sangue do Senhor. A palavra de Cristo não é só mandamento puramente, mas é, também, a unção que possibilita o seu cumprimento. Sem a virtude do Espírito, o homem não pode realizar a vontade de Deus. Igualmente em relação ao corpo e ao sangue, pois é pela ação do Pneuma que ocorre a transubstanciação e a comunicação da salvação (cf. Jo 6,63).

A resposta para a pergunta sobre a razão pela qual João nos deixou o discurso do pão da vida parece ser a intenção de mostrar a identidade mais profunda de Jesus – aquele que sacia a fome de Deus dos homens – e relacionar a entrega do Senhor com a palavra e a eucaristia – a morte de Jesus, decorrente da sua obediência ao mandamento de seu Pai gera para a Igreja o dom da eucaristia, alimento que possibilita aos homens avançarem no discipulado de Cristo, vivendo a lei do amor em meio a tantas adversidades.

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31/07/2015 18:19 - Atualizado em 31/07/2015 18:19

No Evangelho de João, o dom da eucaristia não é apresentado durante a última ceia, como encontramos nos evangelhos sinóticos. O autor do quarto evangelho insere o tema da eucaristia num discurso de Jesus por ocasião do sinal da multiplicação dos pães. Sendo o Evangelho de João datado pelos exegetas na década de 90 d.C., podemos pensar que as comunidades cristãs já se reuniam por mais de 50 anos para celebrar a ceia do Senhor – o testemunho escrito mais antigo parece ser o de São Paulo, na década de 50 d.C. (1Cor 11,17-34). Qual seria, então, a razão para João escrever esse discurso sobre o pão da vida?

Na caminhada do povo de Israel pelo deserto rumo à terra prometida, ocorreu uma experiência paradigmática para a espiritualidade do Antigo Testamento: eles intuíram que o ser humano possui uma dependência radical de Deus e passaram a exprimir tal dependência através da simbologia do alimento. Um importante testemunho sobre esta percepção se encontra em Dt 8,3: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Assim, para a tradição espiritual vétero-testamentária, a palavra de Deus é o verdadeiro alimento que mantém o homem vivo (cf. Pr 9,3).

Em consonância com essa perspectiva espiritual aberta na Primeira Aliança, o Evangelho de João apresenta Jesus como o verdadeiro alimento porque Ele é a Palavra Encarnada do Pai. Por meio de sua presença, de suas palavras e de suas atitudes, os homens podem ter acesso e conhecer o verdadeiro Deus. Não são mais as pedras da lei, mas o testemunho de Cristo, cumprindo-as e plenificando-as, que revela quem é o Pai e qual a sua vontade para os homens. Embora o Senhor tenha cumprido, plenamente, em sua vida esta intuição espiritual da palavra divina-alimento, Ele a extrapolou apresentando sua carne e seu sangue como alimento para a vida eterna. No discurso do pão da vida, Jesus é o doador da vida eterna aos homens. O pão e o vinho são identificados com o seu corpo e o seu sangue entregues na Cruz. Assim, como Ele venceu a morte, aqueles que comem do seu corpo-pão e bebem do seu sangue-vinho ressuscitarão e viverão eternamente com Ele.

Existe uma relação intrínseca entre palavra e eucaristia no capítulo sexto do Evangelho de João. A morte de Cristo se dá pela sua obediência a palavra salvífica do Pai. A eucaristia, o corpo e o sangue de Jesus nascem do cumprimento até a morte da vontade amorosa de Deus. Tendo amado os seus que estavam no mundo, Jesus amou-os até o fim (Jo 13,1). Assim, o cristão é chamado a comungar do corpo e do sangue do Senhor para que possa ser capaz de cumprir em sua vida a vontade de Deus Pai no seguimento do mandamento do amor.

Ainda é importante destacar o papel do Espírito Santo atuante tanto na proclamação da Palavra quanto na comunicação da vida eterna por meio do corpo e do sangue do Senhor. A palavra de Cristo não é só mandamento puramente, mas é, também, a unção que possibilita o seu cumprimento. Sem a virtude do Espírito, o homem não pode realizar a vontade de Deus. Igualmente em relação ao corpo e ao sangue, pois é pela ação do Pneuma que ocorre a transubstanciação e a comunicação da salvação (cf. Jo 6,63).

A resposta para a pergunta sobre a razão pela qual João nos deixou o discurso do pão da vida parece ser a intenção de mostrar a identidade mais profunda de Jesus – aquele que sacia a fome de Deus dos homens – e relacionar a entrega do Senhor com a palavra e a eucaristia – a morte de Jesus, decorrente da sua obediência ao mandamento de seu Pai gera para a Igreja o dom da eucaristia, alimento que possibilita aos homens avançarem no discipulado de Cristo, vivendo a lei do amor em meio a tantas adversidades.

Padre Vitor Gino Finelon
Autor

Padre Vitor Gino Finelon

Professor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida