Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 30/04/2017

30 de Abril de 2017

O sofrimento é escola e não castigo

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12/07/2015 15:13 - Atualizado em 12/07/2015 15:13

O sofrimento é escola e não castigo 0

12/07/2015 15:13 - Atualizado em 12/07/2015 15:13

O sofrimento é escola e não castigo / Arqrio

Logo depois do assalto em que foi vítima, pela segunda vez, na cidade do Rio de Janeiro, o seu Cardeal Arcebispo, Dom Orani João Tempesta, começaram aparecer no facebook algumas inadequadas publicações, de ateus, dizendo que nunca foram assaltados e que o Cardeal Arcebispo, em menos de um ano foi assaltado duas vezes. O Senhor Cardeal Tempesta apenas foi vítima de todo o sofrimento e “achaque” que diariamente passam milhares de milhares de seus féis cariocas. Com a graça de Deus o Senhor Cardeal Tempesta apresentou a Deus este seu sofrimento em favor da paz na cidade do Rio de Janeiro. Por isso há quem, diante dos sofrimentos alheios, especialmente de pessoas de fé, se pergunte: “Como ela pode sofrer desse modo, se é alguém ‘de Deus’? Não poderia Ele, que é todo poderoso, livrá-la desse mal, uma vez que eu, um simples descrente de tudo, não sofro assim?” E ainda se justifica: “Nunca fui assaltado, não perdi parentes de forma trágica, não tenho doença alguma, jamais sofri acidente etc.”.

Esse grito vem de longe na história e por isso tanto a Filosofia clássica quanto a Teologia (a própria Sagrada Escritura registra queixas dos homens contra Deus devido aos sofrimentos humanos, especialmente dos justos: Jr 12,1s; Ml 2,17; Jó 21,7s; Sl 73...) buscam refletir sobre o problema com argumentos que não respondem cabalmente a questão, pois ela pertence, em sua essência, aos insondáveis desígnios de Deus, mas lançam luzes sobre o enigma e nos encorajam a lutar sem esmorecer frente aos percalços da vida dos quais ninguém – por melhor que se julgue em relação aos semelhantes – está isento.

Desse modo, podemos dizer que por mais estranho que pareça, a reflexão a respeito do sofrimento nos leva a melhor entender o lugar de destaque do ser humano ante as demais criaturas. Sim, o mineral não sofre. Por mais que seja talhado ou sacudido pelos homens ou pelos abalos da própria natureza não reage; o vegetal já esboça reação ao ser atacado com sua capacidade própria de se defender soltando, por exemplo, líquido leitoso e irritante ao agressor, espinhando-o ou se restaurando com o tempo; o animal irracional além de sofrer demonstra esse padecimento ao esbravejar, atacar com seus meios ou gemer ante as agonias que lhes são impostos por outros animais ou mesmo pelos homens.

No entanto, o ser humano mentalmente sadio é o que mais padece (o psicopata, por exemplo, se caracteriza entre outras coisas pelo raciocínio programado, pela ausência de sentimentos e, sobretudo de compaixão – sofrer com – para com quem o rodeia), pois, além de sentir uma dor ou sofrer com os problemas da humanidade, também reflete a respeito dessas mazelas. Sua dor nas costas, por exemplo, além do incômodo físico o faz pensar nos negócios a resolver, mas que terão de ser adiados causando prejuízos financeiros a si e à sua família; a crise socioeconômica, infelizmente, deixará muitas pessoas desempregadas acarretando fome, quebra nas vendas e, portanto, mais desempregos ou mesmo ondas de assaltos etc. Ora, refletir sobre isso é ser nobre. Nenhuma pessoa com grandeza de alma é imune ao sofrimento próprio ou de terceiros.

Os antigos gregos em seu bom-senso natural – sem conhecerem, evidentemente, a Redenção de Cristo – já refletiram sobre os sofrimentos que nos cercam e chegaram a conclusões muito interessantes a ponto de conceberem o trocadilho: phátos=máthos. Ele quer dizer que o sofrimento (phátos deu passio, passionis no latim, paixão ou sofrimento em português) é uma escola ou aprendizado. Ninguém aprende sem passar pela dor ou por problemas de ordens diversas, em grau maior ou menor.

Na tradição cristã, vemos que Deus não tira o sofrimento da vida do ser humano, mas o transfigura. Sim, o mal é uma desordem que Deus não quer, mas, em sua sábia providência, insondável a nós, permite e acompanha esse mal para nos levar a uma melhor realização enquanto seres humanos; não sofremos em vão (Santo Agostinho. Livro sobre a fé, a esperança e a caridade, cap. 27), mas em união com o próprio Senhor Jesus que mostrou-nos a importância de padecermos com Ele a fim de nos tornarmos co-herdeiros do Reino (cf. Rm 8,17).

Aliás, Deus não prometeu e nem promete uma vida de mera prosperidade aqui na terra àqueles que se fizeram seus discípulos. Ao contrário, convida-nos a tomar a nossa cruz e segui-Lo (cf. Mt 16,24) ou a não nos gloriarmos senão na sua cruz (cf. Gl 6,14) que é escândalo e loucura (1Cor 1,18-25), mas também instrumento de salvação já prefigurado no Antigo Testamento no episódio da serpente de bronze (cf. Nm 21,8-9).

Mais: o Pai que ama os filhos deseja educá-los aplicando-lhes a devida correção – que pode trazer sofrimento – a fim de fazê-los cada vez menos mesquinhos e mais nobres a fim de que, aos poucos, possam ir se assemelhando a Ele na santidade a que todos somos chamados por meio da perfeição (cf. Lv 19,2; Mt 5,48; 1Pd 1,16). Daí o autor da carta aos Hebreus ter escrito longamente e com uma linguagem forte aos sofredores de seu tempo, mas que serve também, certamente, a nós hoje o seguinte: “Vós esquecestes a exortação que vos foi dirigida como a filhos: Meu filho não desprezes a correção do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor educa a quem ama, e castiga a quem acolhe como filho. É para a vossa correção que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não corrige? Se estais privados da correção da qual todos participam, então sois bastardos e não filhos. Nós tivemos nossos pais segundo a carne para nos corrigir, e os respeitávamos. Não haveremos de ser muito mais submissos ao Pai dos espíritos, a fim de vivermos? Pois eles nos corrigiram por pouco tempo, segundo o que lhes parecia bem. Deus, porém, nos educa para o nosso bem, a fim de nos comunicar a sua santidade. Toda correção, com efeito, no momento não parece motivo de alegria, mas de tristeza. Depois, no entanto, produz naqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça” (Hb 12,5-11).

Esta passagem está em plena consonância com outras que trazem lições muito semelhantes como, por exemplo, Ap 3,19: “Quanto a mim, repreendo e corrijo a todos os que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te” ou Pr 3,11-12: “Meu filho, não desprezes a disciplina de Iahweh, nem te canses com a sua exortação; porque Iahweh repreende os que ele ama, como um pai ao filho que preza”.

Vê-se, assim, que o cristão não busca o sofrimento com sadismo, mas o aceita como instrumento de purificação – o que, evidentemente, não o impede de tudo fazer para amenizá-lo ou mesmo debelá-lo – em sua vida de crescimento interior na chamada ascese passiva (para diferenciar da ascese ativa, aquela que o próprio homem realiza por conta própria a fim de combater as forças do mal aninhadas em seu íntimo), por sinal, muito meritória.

Desse modo, não é cabível queixar-se de Deus sábio e santo ou questioná-Lo com petulância sobre as razões de nossos sofrimentos ou dos problemas alheios, pois ainda que não entendamos agora (só o Juízo Final revelará tudo, conforme o Catecismo da Igreja Católica n. 1040) o porquê desta ou daquela dificuldade em específico, de forma geral temos a certeza de que o Senhor deseja nos purificar rasgando o nosso íntimo cheio de orgulhos, vaidades ou apegos a bens passageiros e até supérfluos a fim de que nos abramos a Ele. Aqueles que não sofrem, nada aprendem e, consequentemente, não progridem; ficam estagnados na sua caminhada rumo à santidade a qual todos somos chamados.

Todos sabemos que o Cardeal Tempesta perdeu a sua cruz que portava para os assaltantes. O próprio Cardeal Tempesta disse em uma de suas catequeses desta semana: “Dias atrás fiquei privado de um símbolo que me acompanhava desde a visita “ad limina” que fiz ao Papa João Paulo II em janeiro de 2003, quando ainda bispo de São José do Rio Preto. Foi a última vez que o encontrei pessoalmente, estava já bem adoentado e em 2005 ele partiria para a eternidade. Em sua mensagem aos Bispos do Regional Sul 1, na época, ele recordou: “a época em que vivemos é ao mesmo tempo dramática e fascinante. Se por um lado parece que os homens vão ao encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado manifestam a angustiante procura de sentido de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração”. No dia desse pronunciamento ele entregou a cada bispo uma cruz peitoral. Receber uma cruz com um cordão de um santo não é presente de todos os dias! Nos últimos anos tenho-a usado sempre. Uma cruz prateada simples, com o brasão do Papa santo no seu verso. Era uma recordação de um grande amigo e do chamado à santidade. É claro que o sentido continua. O sentido não está no objeto que se perdeu. A imprensa deu grande destaque a esse símbolo que me foi subtraído no último domingo, porém, eu faço um pedido: que por onde estiver que ajude muitos jovens no encontro com Jesus Cristo, que deu sua vida na Cruz e que, como passou pelas mãos do Papa Santo, São João Paulo II, leve as pessoas a serem santas! É a minha oração e confiança. Essa será para mim mais uma memória deste rico mês de julho. É o nosso compromisso com uma cidade mais justa e fraterna. Que chegue aos corações de muitos e toque a vida das pessoas”.

A propósito da pretensa “imunidade” dos cristãos ante o sofrimento, especialmente daqueles que trazem consigo algum símbolo religioso (sacramental), o Pe. Marcel-Marie Desmarais, OP, assegura com razão o seguinte: “creio piamente nas intervenções miraculosas de Deus, mas digo e repito pela centésima vez que Deus não é um robô, uma engrenagem que se ponha automaticamente em funcionamento, graças a certos gestos ou atitudes que produzissem, por assim dizer, efeitos mágicos. Não. Deus não é um robô, Deus é um Pai. Sabe melhor que nós o que precisamos. E, sobretudo tem em vista a salvação da nossa alma, bem mais do que os bens materiais a que tanto nos apegamos” (Clínica do coração. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1979, p. 12-13).

Em suma, o cristão reflete sobre tudo isso e busca, apesar de sua condição de criatura limitada, realizar os planos de Deus em sua vida. Ele não procura, como dito, o sofrimento à moda de um sádico, mas, ainda que licitamente os combata, tenta, sem revoltas, entendê-los dentro dos sábios planos divinos buscando forças para suportá-los na oração contínua e na prática dos sacramentos, especialmente da Confissão e da Eucaristia. Afinal, na comunhão ele recebe o próprio Cristo em seu corpo, sangue, alma e divindade como alimento e sustento para as agruras desta vida em demanda da pátria definitiva.

Sem essa força divina, o ser humano pode tornar-se alguém mesquinho que só reclama, critica ou mesmo blasfema frente aos problemas que o angustiam, mas não encontra a força necessária para vencê-los, caindo, por isso, não raras vezes, em terríveis desatinos... Até mesmo em suicídio. Por isso agradecemos a Deus o exemplo de serenidade do nosso amado irmão, Cardeal Tempesta, que nos ensinou a ir ao encontro de Cristo, a sermos santos, a praticarmos o bem e a confiarmos em Deus, porque Ele sempre guia nossos caminhos! O sofrimento, a perda da cruz peitoral do Cardeal Tempesta, nos matricula na escola de Jesus que nos chama a vivermos como irmãos!

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12/07/2015 15:13 - Atualizado em 12/07/2015 15:13

Logo depois do assalto em que foi vítima, pela segunda vez, na cidade do Rio de Janeiro, o seu Cardeal Arcebispo, Dom Orani João Tempesta, começaram aparecer no facebook algumas inadequadas publicações, de ateus, dizendo que nunca foram assaltados e que o Cardeal Arcebispo, em menos de um ano foi assaltado duas vezes. O Senhor Cardeal Tempesta apenas foi vítima de todo o sofrimento e “achaque” que diariamente passam milhares de milhares de seus féis cariocas. Com a graça de Deus o Senhor Cardeal Tempesta apresentou a Deus este seu sofrimento em favor da paz na cidade do Rio de Janeiro. Por isso há quem, diante dos sofrimentos alheios, especialmente de pessoas de fé, se pergunte: “Como ela pode sofrer desse modo, se é alguém ‘de Deus’? Não poderia Ele, que é todo poderoso, livrá-la desse mal, uma vez que eu, um simples descrente de tudo, não sofro assim?” E ainda se justifica: “Nunca fui assaltado, não perdi parentes de forma trágica, não tenho doença alguma, jamais sofri acidente etc.”.

Esse grito vem de longe na história e por isso tanto a Filosofia clássica quanto a Teologia (a própria Sagrada Escritura registra queixas dos homens contra Deus devido aos sofrimentos humanos, especialmente dos justos: Jr 12,1s; Ml 2,17; Jó 21,7s; Sl 73...) buscam refletir sobre o problema com argumentos que não respondem cabalmente a questão, pois ela pertence, em sua essência, aos insondáveis desígnios de Deus, mas lançam luzes sobre o enigma e nos encorajam a lutar sem esmorecer frente aos percalços da vida dos quais ninguém – por melhor que se julgue em relação aos semelhantes – está isento.

Desse modo, podemos dizer que por mais estranho que pareça, a reflexão a respeito do sofrimento nos leva a melhor entender o lugar de destaque do ser humano ante as demais criaturas. Sim, o mineral não sofre. Por mais que seja talhado ou sacudido pelos homens ou pelos abalos da própria natureza não reage; o vegetal já esboça reação ao ser atacado com sua capacidade própria de se defender soltando, por exemplo, líquido leitoso e irritante ao agressor, espinhando-o ou se restaurando com o tempo; o animal irracional além de sofrer demonstra esse padecimento ao esbravejar, atacar com seus meios ou gemer ante as agonias que lhes são impostos por outros animais ou mesmo pelos homens.

No entanto, o ser humano mentalmente sadio é o que mais padece (o psicopata, por exemplo, se caracteriza entre outras coisas pelo raciocínio programado, pela ausência de sentimentos e, sobretudo de compaixão – sofrer com – para com quem o rodeia), pois, além de sentir uma dor ou sofrer com os problemas da humanidade, também reflete a respeito dessas mazelas. Sua dor nas costas, por exemplo, além do incômodo físico o faz pensar nos negócios a resolver, mas que terão de ser adiados causando prejuízos financeiros a si e à sua família; a crise socioeconômica, infelizmente, deixará muitas pessoas desempregadas acarretando fome, quebra nas vendas e, portanto, mais desempregos ou mesmo ondas de assaltos etc. Ora, refletir sobre isso é ser nobre. Nenhuma pessoa com grandeza de alma é imune ao sofrimento próprio ou de terceiros.

Os antigos gregos em seu bom-senso natural – sem conhecerem, evidentemente, a Redenção de Cristo – já refletiram sobre os sofrimentos que nos cercam e chegaram a conclusões muito interessantes a ponto de conceberem o trocadilho: phátos=máthos. Ele quer dizer que o sofrimento (phátos deu passio, passionis no latim, paixão ou sofrimento em português) é uma escola ou aprendizado. Ninguém aprende sem passar pela dor ou por problemas de ordens diversas, em grau maior ou menor.

Na tradição cristã, vemos que Deus não tira o sofrimento da vida do ser humano, mas o transfigura. Sim, o mal é uma desordem que Deus não quer, mas, em sua sábia providência, insondável a nós, permite e acompanha esse mal para nos levar a uma melhor realização enquanto seres humanos; não sofremos em vão (Santo Agostinho. Livro sobre a fé, a esperança e a caridade, cap. 27), mas em união com o próprio Senhor Jesus que mostrou-nos a importância de padecermos com Ele a fim de nos tornarmos co-herdeiros do Reino (cf. Rm 8,17).

Aliás, Deus não prometeu e nem promete uma vida de mera prosperidade aqui na terra àqueles que se fizeram seus discípulos. Ao contrário, convida-nos a tomar a nossa cruz e segui-Lo (cf. Mt 16,24) ou a não nos gloriarmos senão na sua cruz (cf. Gl 6,14) que é escândalo e loucura (1Cor 1,18-25), mas também instrumento de salvação já prefigurado no Antigo Testamento no episódio da serpente de bronze (cf. Nm 21,8-9).

Mais: o Pai que ama os filhos deseja educá-los aplicando-lhes a devida correção – que pode trazer sofrimento – a fim de fazê-los cada vez menos mesquinhos e mais nobres a fim de que, aos poucos, possam ir se assemelhando a Ele na santidade a que todos somos chamados por meio da perfeição (cf. Lv 19,2; Mt 5,48; 1Pd 1,16). Daí o autor da carta aos Hebreus ter escrito longamente e com uma linguagem forte aos sofredores de seu tempo, mas que serve também, certamente, a nós hoje o seguinte: “Vós esquecestes a exortação que vos foi dirigida como a filhos: Meu filho não desprezes a correção do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor educa a quem ama, e castiga a quem acolhe como filho. É para a vossa correção que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não corrige? Se estais privados da correção da qual todos participam, então sois bastardos e não filhos. Nós tivemos nossos pais segundo a carne para nos corrigir, e os respeitávamos. Não haveremos de ser muito mais submissos ao Pai dos espíritos, a fim de vivermos? Pois eles nos corrigiram por pouco tempo, segundo o que lhes parecia bem. Deus, porém, nos educa para o nosso bem, a fim de nos comunicar a sua santidade. Toda correção, com efeito, no momento não parece motivo de alegria, mas de tristeza. Depois, no entanto, produz naqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça” (Hb 12,5-11).

Esta passagem está em plena consonância com outras que trazem lições muito semelhantes como, por exemplo, Ap 3,19: “Quanto a mim, repreendo e corrijo a todos os que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te” ou Pr 3,11-12: “Meu filho, não desprezes a disciplina de Iahweh, nem te canses com a sua exortação; porque Iahweh repreende os que ele ama, como um pai ao filho que preza”.

Vê-se, assim, que o cristão não busca o sofrimento com sadismo, mas o aceita como instrumento de purificação – o que, evidentemente, não o impede de tudo fazer para amenizá-lo ou mesmo debelá-lo – em sua vida de crescimento interior na chamada ascese passiva (para diferenciar da ascese ativa, aquela que o próprio homem realiza por conta própria a fim de combater as forças do mal aninhadas em seu íntimo), por sinal, muito meritória.

Desse modo, não é cabível queixar-se de Deus sábio e santo ou questioná-Lo com petulância sobre as razões de nossos sofrimentos ou dos problemas alheios, pois ainda que não entendamos agora (só o Juízo Final revelará tudo, conforme o Catecismo da Igreja Católica n. 1040) o porquê desta ou daquela dificuldade em específico, de forma geral temos a certeza de que o Senhor deseja nos purificar rasgando o nosso íntimo cheio de orgulhos, vaidades ou apegos a bens passageiros e até supérfluos a fim de que nos abramos a Ele. Aqueles que não sofrem, nada aprendem e, consequentemente, não progridem; ficam estagnados na sua caminhada rumo à santidade a qual todos somos chamados.

Todos sabemos que o Cardeal Tempesta perdeu a sua cruz que portava para os assaltantes. O próprio Cardeal Tempesta disse em uma de suas catequeses desta semana: “Dias atrás fiquei privado de um símbolo que me acompanhava desde a visita “ad limina” que fiz ao Papa João Paulo II em janeiro de 2003, quando ainda bispo de São José do Rio Preto. Foi a última vez que o encontrei pessoalmente, estava já bem adoentado e em 2005 ele partiria para a eternidade. Em sua mensagem aos Bispos do Regional Sul 1, na época, ele recordou: “a época em que vivemos é ao mesmo tempo dramática e fascinante. Se por um lado parece que os homens vão ao encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado manifestam a angustiante procura de sentido de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração”. No dia desse pronunciamento ele entregou a cada bispo uma cruz peitoral. Receber uma cruz com um cordão de um santo não é presente de todos os dias! Nos últimos anos tenho-a usado sempre. Uma cruz prateada simples, com o brasão do Papa santo no seu verso. Era uma recordação de um grande amigo e do chamado à santidade. É claro que o sentido continua. O sentido não está no objeto que se perdeu. A imprensa deu grande destaque a esse símbolo que me foi subtraído no último domingo, porém, eu faço um pedido: que por onde estiver que ajude muitos jovens no encontro com Jesus Cristo, que deu sua vida na Cruz e que, como passou pelas mãos do Papa Santo, São João Paulo II, leve as pessoas a serem santas! É a minha oração e confiança. Essa será para mim mais uma memória deste rico mês de julho. É o nosso compromisso com uma cidade mais justa e fraterna. Que chegue aos corações de muitos e toque a vida das pessoas”.

A propósito da pretensa “imunidade” dos cristãos ante o sofrimento, especialmente daqueles que trazem consigo algum símbolo religioso (sacramental), o Pe. Marcel-Marie Desmarais, OP, assegura com razão o seguinte: “creio piamente nas intervenções miraculosas de Deus, mas digo e repito pela centésima vez que Deus não é um robô, uma engrenagem que se ponha automaticamente em funcionamento, graças a certos gestos ou atitudes que produzissem, por assim dizer, efeitos mágicos. Não. Deus não é um robô, Deus é um Pai. Sabe melhor que nós o que precisamos. E, sobretudo tem em vista a salvação da nossa alma, bem mais do que os bens materiais a que tanto nos apegamos” (Clínica do coração. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1979, p. 12-13).

Em suma, o cristão reflete sobre tudo isso e busca, apesar de sua condição de criatura limitada, realizar os planos de Deus em sua vida. Ele não procura, como dito, o sofrimento à moda de um sádico, mas, ainda que licitamente os combata, tenta, sem revoltas, entendê-los dentro dos sábios planos divinos buscando forças para suportá-los na oração contínua e na prática dos sacramentos, especialmente da Confissão e da Eucaristia. Afinal, na comunhão ele recebe o próprio Cristo em seu corpo, sangue, alma e divindade como alimento e sustento para as agruras desta vida em demanda da pátria definitiva.

Sem essa força divina, o ser humano pode tornar-se alguém mesquinho que só reclama, critica ou mesmo blasfema frente aos problemas que o angustiam, mas não encontra a força necessária para vencê-los, caindo, por isso, não raras vezes, em terríveis desatinos... Até mesmo em suicídio. Por isso agradecemos a Deus o exemplo de serenidade do nosso amado irmão, Cardeal Tempesta, que nos ensinou a ir ao encontro de Cristo, a sermos santos, a praticarmos o bem e a confiarmos em Deus, porque Ele sempre guia nossos caminhos! O sofrimento, a perda da cruz peitoral do Cardeal Tempesta, nos matricula na escola de Jesus que nos chama a vivermos como irmãos!