Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

Ouvir e acolher

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

16 de Outubro de 2018

Ouvir e acolher

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

05/07/2015 13:54 - Atualizado em 05/07/2015 13:55

Ouvir e acolher 0

05/07/2015 13:54 - Atualizado em 05/07/2015 13:55

O Evangelho e a primeira leitura nos colocam em contato com o tema da “rejeição do profeta”. Seja Jesus, no passo do Evangelho deste domingo, seja Ezequiel, que será enviado aos filhos de Israel, ambos farão a experiência de anunciar a Palavra a um povo de “cabeça dura”, uma “nação de rebeldes” como se expressará Ezequiel na primeira leitura.

A primeira leitura nos traz o início do cap. 2 do livro de Ezequiel. Ezequiel, normalmente datado entre 592 e 571 a.C. viveu a triste e dura experiência do exílio. O trecho em questão está na primeira parte do livro que vai de 1,1 a 3,21. Estamos dentro do contexto da vocação do profeta e da sua visão da “glória” de YHWH[1]. Neste ponto do texto passamos da visão para a recepção pelo profeta de uma palavra de YHWH. Essa “palavra de YHWH” seguida da visão do livro se estende até 3,15. Todavia, a nós interessam os versículos lidos nesta liturgia, ou seja, 2,2-5. Encontramos aqui três elementos:

O profeta recebe o espírito, sem o qual não seria capaz de compreender a Palavra de YHWH;

O povo, como se pode depreender dos vv. 3-4, quebrou a Aliança com YHWH;

Deus, então, lhes envia um profeta. A missão deste profeta não depende da aceitação do povo, pois “quer o escutem ou não” saberão que YHWH o enviou, com o objetivo de, ao anunciar a Palavra de YHWH, esta venha a se manifestar como uma palavra de juízo: juízo de salvação para os que a acolheram e, de condenação para os que a ela voltarem as costas.

Assim se dá também com Jesus. Os homens, pelo pecado, quebraram a Aliança com Deus. Deus, no entanto, não se contentou de apenas nos enviar os profetas da Antiga Aliança. Ele quis enviar o seu Filho que é um profeta e mais que um profeta, para nos anunciar a Palavra de Deus que nos vem também como palavra de juízo: ela é salvação para os que a acolhem num coração bom; ela é condenação para aqueles que voltam suas costas para o Senhor. Os conterrâneos de Jesus não olham para a Palavra, mas simplesmente para aquele que a porta. Eles desprezam Jesus porque é apenas um de seus conterrâneos e não esperam de seus conterrâneos nada de especial. Assim, eles se fecham à Palavra e perdem a oportunidade de receber a salvação que vem de Deus.

Cada um de nós deve fazer o seu exame de consciência. Será que ouvimos de bom grado e acolhemos num coração sincero a Palavra de Deus que nos corrige, ensina, admoesta e chama à conversão? Ou será que somos do grupo daqueles que não acolhem a Palavra?

Uma questão marginal da perícope de Mc 6,1-6 mas que pode ser relevante no âmbito pastoral é a questão a respeito do dogma da Virgindade perpétua de Maria associada à imagem dos irmãos de Jesus que aparecem nesta perícope. Ora, em nenhum lugar se afirma que estes “irmãos” de Jesus sejam “filhos de Maria”; em segundo lugar, embora o grego e o hebraico tenham palavras específicas para diferenciar primo, irmão, tio etc, era comum no contexto semita que um parente próximo fosse também chamado de irmão (é o que acontece no livro do Gênesis quando Ló é chamado “irmão de Abraão” embora ele fosse, de fato, sobrinho de Abraão); por fim, é preciso ter em mente que a Tradição que nos legou este evangelho é a mesma Tradição que nos legou o dogma da perpétua Virgindade de Maria. Assim sendo, temos uma mesma Tradição que nos deixa duas realidades: o dogma e o Evangelho, que não podem estar contrapostas entre si. Por isso, esta passagem nunca poderia ser entendida como uma negação da Virgindade perpétua de Maria. Quem assim a entende, a está lendo fora do contexto da Tradição, sem o qual nem mesmo a Escritura se mantém enquanto Escritura.

A segunda leitura não está, no que diz respeito à temática, relacionada com as outras duas leituras. Todavia, aqui está um tema que não poderia deixar de ser tocado neste domingo. O apóstolo fala de um “espinho na carne”. Muito se tem conjecturado a respeito disso. Os exegetas se dividem em achar que pode se tratar de uma fraqueza física, do peso de ser perseguido pelos “falsos irmãos” e alguns cogitam que possa se tratar de uma fraqueza moral do apóstolo, que se percebe muitas vezes “fazendo o mal” que odeia e não o “bem que tanto ama”. Todavia, não é a natureza da fraqueza o mais importante aqui e, sim, a capacidade que o apóstolo tem de perceber que é na sua fraqueza que a “graça” de Deus se manifesta. Também nós percebemos na nossa vida a existência de muitas fraquezas. Inúmeras são aquelas vezes nas quais não fazemos o bem que quereríamos, mas acabamos por executar justamente o mal que tanto repelimos. O mais importante é perceber que, em tudo, a minha força vem de Deus e ela se manifesta quando eu me reconheço fraco.



[1] Utilizamos a transliteração do tetragrama sagrado “YHWH” ao invés da tradução corrente na Bíblia de Jerusalém no nome divino como Yahweh. Assim o fazemos tanto por respeito à cultura judaica, que nunca lê o tetragrama sagrado, mas sempre o substitui por algum epíteto divino, quanto pelo fato de que tal tradução do nome divino é apenas conjectural.

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

Ouvir e acolher

05/07/2015 13:54 - Atualizado em 05/07/2015 13:55

O Evangelho e a primeira leitura nos colocam em contato com o tema da “rejeição do profeta”. Seja Jesus, no passo do Evangelho deste domingo, seja Ezequiel, que será enviado aos filhos de Israel, ambos farão a experiência de anunciar a Palavra a um povo de “cabeça dura”, uma “nação de rebeldes” como se expressará Ezequiel na primeira leitura.

A primeira leitura nos traz o início do cap. 2 do livro de Ezequiel. Ezequiel, normalmente datado entre 592 e 571 a.C. viveu a triste e dura experiência do exílio. O trecho em questão está na primeira parte do livro que vai de 1,1 a 3,21. Estamos dentro do contexto da vocação do profeta e da sua visão da “glória” de YHWH[1]. Neste ponto do texto passamos da visão para a recepção pelo profeta de uma palavra de YHWH. Essa “palavra de YHWH” seguida da visão do livro se estende até 3,15. Todavia, a nós interessam os versículos lidos nesta liturgia, ou seja, 2,2-5. Encontramos aqui três elementos:

O profeta recebe o espírito, sem o qual não seria capaz de compreender a Palavra de YHWH;

O povo, como se pode depreender dos vv. 3-4, quebrou a Aliança com YHWH;

Deus, então, lhes envia um profeta. A missão deste profeta não depende da aceitação do povo, pois “quer o escutem ou não” saberão que YHWH o enviou, com o objetivo de, ao anunciar a Palavra de YHWH, esta venha a se manifestar como uma palavra de juízo: juízo de salvação para os que a acolheram e, de condenação para os que a ela voltarem as costas.

Assim se dá também com Jesus. Os homens, pelo pecado, quebraram a Aliança com Deus. Deus, no entanto, não se contentou de apenas nos enviar os profetas da Antiga Aliança. Ele quis enviar o seu Filho que é um profeta e mais que um profeta, para nos anunciar a Palavra de Deus que nos vem também como palavra de juízo: ela é salvação para os que a acolhem num coração bom; ela é condenação para aqueles que voltam suas costas para o Senhor. Os conterrâneos de Jesus não olham para a Palavra, mas simplesmente para aquele que a porta. Eles desprezam Jesus porque é apenas um de seus conterrâneos e não esperam de seus conterrâneos nada de especial. Assim, eles se fecham à Palavra e perdem a oportunidade de receber a salvação que vem de Deus.

Cada um de nós deve fazer o seu exame de consciência. Será que ouvimos de bom grado e acolhemos num coração sincero a Palavra de Deus que nos corrige, ensina, admoesta e chama à conversão? Ou será que somos do grupo daqueles que não acolhem a Palavra?

Uma questão marginal da perícope de Mc 6,1-6 mas que pode ser relevante no âmbito pastoral é a questão a respeito do dogma da Virgindade perpétua de Maria associada à imagem dos irmãos de Jesus que aparecem nesta perícope. Ora, em nenhum lugar se afirma que estes “irmãos” de Jesus sejam “filhos de Maria”; em segundo lugar, embora o grego e o hebraico tenham palavras específicas para diferenciar primo, irmão, tio etc, era comum no contexto semita que um parente próximo fosse também chamado de irmão (é o que acontece no livro do Gênesis quando Ló é chamado “irmão de Abraão” embora ele fosse, de fato, sobrinho de Abraão); por fim, é preciso ter em mente que a Tradição que nos legou este evangelho é a mesma Tradição que nos legou o dogma da perpétua Virgindade de Maria. Assim sendo, temos uma mesma Tradição que nos deixa duas realidades: o dogma e o Evangelho, que não podem estar contrapostas entre si. Por isso, esta passagem nunca poderia ser entendida como uma negação da Virgindade perpétua de Maria. Quem assim a entende, a está lendo fora do contexto da Tradição, sem o qual nem mesmo a Escritura se mantém enquanto Escritura.

A segunda leitura não está, no que diz respeito à temática, relacionada com as outras duas leituras. Todavia, aqui está um tema que não poderia deixar de ser tocado neste domingo. O apóstolo fala de um “espinho na carne”. Muito se tem conjecturado a respeito disso. Os exegetas se dividem em achar que pode se tratar de uma fraqueza física, do peso de ser perseguido pelos “falsos irmãos” e alguns cogitam que possa se tratar de uma fraqueza moral do apóstolo, que se percebe muitas vezes “fazendo o mal” que odeia e não o “bem que tanto ama”. Todavia, não é a natureza da fraqueza o mais importante aqui e, sim, a capacidade que o apóstolo tem de perceber que é na sua fraqueza que a “graça” de Deus se manifesta. Também nós percebemos na nossa vida a existência de muitas fraquezas. Inúmeras são aquelas vezes nas quais não fazemos o bem que quereríamos, mas acabamos por executar justamente o mal que tanto repelimos. O mais importante é perceber que, em tudo, a minha força vem de Deus e ela se manifesta quando eu me reconheço fraco.



[1] Utilizamos a transliteração do tetragrama sagrado “YHWH” ao invés da tradução corrente na Bíblia de Jerusalém no nome divino como Yahweh. Assim o fazemos tanto por respeito à cultura judaica, que nunca lê o tetragrama sagrado, mas sempre o substitui por algum epíteto divino, quanto pelo fato de que tal tradução do nome divino é apenas conjectural.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida