Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 10/12/2018

10 de Dezembro de 2018

"O que podemos temer se Deus morreu por nós e pela nossa salvação? "

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10 de Dezembro de 2018

"O que podemos temer se Deus morreu por nós e pela nossa salvação? "

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26/02/2015 11:05 - Atualizado em 26/02/2015 11:05

"O que podemos temer se Deus morreu por nós e pela nossa salvação? " 0

26/02/2015 11:05 - Atualizado em 26/02/2015 11:05

A primeira leitura nos apresenta o sacrifício de Isaac, ou como outros preferem chamar, o “sacrifício de Abraão”. Os padres da Igreja sempre leram este texto a partir da tipologia. Isaac é um typos Cristo, ou seja, ele representa nesta cena o próprio Cristo. Vários são os sinais que ajudam a estabelecer a comparação, por exemplo, o fato de Isaac levar às suas costas o feixe de lenhas sobre o qual deveria ser sacrificado, assim como Cristo levará a Cruz às costas; também o fato de Isaac obedecer em tudo a Abraão, indo em direção ao seu próprio sacrifício, ainda que sem saber, como um manso cordeiro que é levado ao matadouro. 

Cristo também, silenciosamente e obediente em tudo ao Pai assumiu a cruz por nós e por nossa salvação. Todavia, enquanto Deus poupou Isaac e poupou também, de certa forma, Abraão, que se via angustiado em ter de sacrificar o “seu único”, Ele não se poupou e não poupou o seu Cristo, mas aceitou que Ele, o Cristo, se oferecesse no madeiro da cruz por nós, e o Pai viu o seu Cordeiro imolado por amor dos homens.

O Salmo 115 canta a alegria do homem que é liberto por Deus dos apuros e que decide “erguer o cálice da salvação” e pronunciar uma berakah como forma de ação de graças a Deus que o livrou de seus inimigos. O salmista canta ainda a alegria de cumprir a vontade do Senhor. Abraão se encaixa neste salmo, porque cumpriu até o fim a vontade de Deus e também porque experimentou a libertação que Deus lhe concedeu poupando-o de oferecer “seu único”.

O Evangelho, coração da liturgia da Palavra, nos traz como em todos os ciclos A, B e C o relato da transfiguração, neste ano B, segundo Marcos.
Podemos estabelecer a seguinte estrutura para a perícope evangélica desse segundo Domingo da Quaresma:

9,2a: Jesus aparece sozinho com seus discípulos

9,2b-3: Transfiguração

9,4: Aparição de Moisés e Elias

9,5-6: Intervenção de Pedro a respeito de Moisés e Elias

9,7: Voz do Pai

9,8: Jesus sozinho com seus discípulos

9,9-10: A ordem de Jesus a respeito do segredo que deve ser mantido.

O v. 2 começa com uma indicação temporal, “seis dias depois”, que não é apresentada no texto do lecionário. A indicação temporal é importante em Marcos. Ele costuma ser mais vago, mas aqui é bem preciso (cf. p. ex. 1,9; 2,1; 4,35; 8,1). Orígenes compara esses seis dias com os seis dias da criação, que preparam o “Sábado”. Um pano de fundo vétero-testametário importante é Ex 24,16, onde a “nuvem”, sinal da presença de Deus, cobre o Sinai durante seis dias, até que no sétimo dia Deus se dirige a Moisés do meio da nuvem.

Analisemos agora os vv. 2-4: em 9,2-3 temos a Transfiguração e em 9,4 a Aparição de Moisés e Elias. Mais uma vez é necessário ressaltar que a referência a “seis dias” tem um objetivo teológico, ou seja, o de alinhar essa narrativa com a tradição mosaica de Ex 24,16. A Transfiguração em si também tem traços da tradição mosaica, uma vez que também o rosto de Moisés em Ex 34,29-35 brilhava.

A comparação com Moisés, todavia, é parcial. Ele é comparado também com Adão por causa da citação das vestes. Gn 3,21 fala das vestes que Deus teceu para Adão. Textos judaicos sobre este versículo falam que eram “vestes de glória”, porque feitas pelo próprio Deus. A referência às vestes nos remete também à entronização do rei. Essa referência seria, então, uma forma de demonstrar que Jesus é o Novo Adão e o Rei Messias que está prestes a ser entronizado: na cruz (revelação trágica).

Existe aqui uma alusão à Ressurreição, uma vez que o próprio Jesus, em 9,9, os proíbe severamente de contar o que aconteceu a alguém, até que ele próprio (Jesus) tenha “ressuscitado dos mortos”.

Em 9,5-6 temos a intervenção de Pedro a respeito de Moisés e Elias. A ideia da tenda aponta para Moisés e para o período no qual o povo viveu em tendas no deserto. Mais uma vez a incompreensão de Pedro é ressaltada no v.6.

Por fim chegamos aos vv. 7-8, que nos mostram a teofania do Pai que faz ouvir a sua “voz”:

• 9,7: Voz do Pai

• 9,8: Jesus sozinho com seus discípulos

“Ouvir o Cristo” significa voltar a 8,34: “tomar a cruz e segui-lo”. O Pai, como na cena do Batismo, dá testemunho do Filho: “o amado”. Eles não precisam de tenda, porque a “nuvem”, sinal da presença de Deus, os cobrirá. O testemunho do Pai demonstra que Jesus é maior que Moisés e Elias.

Cristo, nosso Isaac, é a plenitude da lei e dos profetas; Ele próprio é a Palavra contida também na lei e nos profetas e que se fez carne para a nossa salvação. Ele morrerá, mas a sua morte será gloriosa. A aparente derrota é, na verdade, a vitória.

Assim como Abraão cumpre o seu teste de sacrificar o seu Filho no “não sacrifício” feito por obediência à Palavra de Deus advinda a Ele por meio do anjo, assim também Cristo manifesta toda a sua glória numa aparente “não glória” de morte de cruz, que redundará na grande glória, na mais triunfal de todas: a sua ressurreição. No caminho quaresmal não devemos temer as cruzes e a morte que nos espera, porque sabemos que sairemos vencedores com Aquele que se transfigurou e que ressuscitou dos mortos para a nossa salvação.

Diante da certeza desse amor que assume a morte e a vence por nós, podemos fazer nossas as Palavras do apóstolo Paulo na segunda leitura. O que podemos temer se Deus morreu por nós e pela nossa salvação? Se Ele desceu à mansão dos mortos, por nós quem nos acusará? Como diz o salmista, Ele é quem nos defende do inimigo mentiroso, do diabo, daquele que quer nos fazer perder a salvação. Ergamos o nosso cálice, o cálice da Eucaristia e demos graças a Deus que nos fez justiça, enviando o “Seu único” para a nossa salvação.

 Segundo Domingo da Quaresma

1 de março de 2015

Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18 

Sl 115 (116B)

Rm 8,31b-34

Mc 9,2-10

 

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"O que podemos temer se Deus morreu por nós e pela nossa salvação? "

26/02/2015 11:05 - Atualizado em 26/02/2015 11:05

A primeira leitura nos apresenta o sacrifício de Isaac, ou como outros preferem chamar, o “sacrifício de Abraão”. Os padres da Igreja sempre leram este texto a partir da tipologia. Isaac é um typos Cristo, ou seja, ele representa nesta cena o próprio Cristo. Vários são os sinais que ajudam a estabelecer a comparação, por exemplo, o fato de Isaac levar às suas costas o feixe de lenhas sobre o qual deveria ser sacrificado, assim como Cristo levará a Cruz às costas; também o fato de Isaac obedecer em tudo a Abraão, indo em direção ao seu próprio sacrifício, ainda que sem saber, como um manso cordeiro que é levado ao matadouro. 

Cristo também, silenciosamente e obediente em tudo ao Pai assumiu a cruz por nós e por nossa salvação. Todavia, enquanto Deus poupou Isaac e poupou também, de certa forma, Abraão, que se via angustiado em ter de sacrificar o “seu único”, Ele não se poupou e não poupou o seu Cristo, mas aceitou que Ele, o Cristo, se oferecesse no madeiro da cruz por nós, e o Pai viu o seu Cordeiro imolado por amor dos homens.

O Salmo 115 canta a alegria do homem que é liberto por Deus dos apuros e que decide “erguer o cálice da salvação” e pronunciar uma berakah como forma de ação de graças a Deus que o livrou de seus inimigos. O salmista canta ainda a alegria de cumprir a vontade do Senhor. Abraão se encaixa neste salmo, porque cumpriu até o fim a vontade de Deus e também porque experimentou a libertação que Deus lhe concedeu poupando-o de oferecer “seu único”.

O Evangelho, coração da liturgia da Palavra, nos traz como em todos os ciclos A, B e C o relato da transfiguração, neste ano B, segundo Marcos.
Podemos estabelecer a seguinte estrutura para a perícope evangélica desse segundo Domingo da Quaresma:

9,2a: Jesus aparece sozinho com seus discípulos

9,2b-3: Transfiguração

9,4: Aparição de Moisés e Elias

9,5-6: Intervenção de Pedro a respeito de Moisés e Elias

9,7: Voz do Pai

9,8: Jesus sozinho com seus discípulos

9,9-10: A ordem de Jesus a respeito do segredo que deve ser mantido.

O v. 2 começa com uma indicação temporal, “seis dias depois”, que não é apresentada no texto do lecionário. A indicação temporal é importante em Marcos. Ele costuma ser mais vago, mas aqui é bem preciso (cf. p. ex. 1,9; 2,1; 4,35; 8,1). Orígenes compara esses seis dias com os seis dias da criação, que preparam o “Sábado”. Um pano de fundo vétero-testametário importante é Ex 24,16, onde a “nuvem”, sinal da presença de Deus, cobre o Sinai durante seis dias, até que no sétimo dia Deus se dirige a Moisés do meio da nuvem.

Analisemos agora os vv. 2-4: em 9,2-3 temos a Transfiguração e em 9,4 a Aparição de Moisés e Elias. Mais uma vez é necessário ressaltar que a referência a “seis dias” tem um objetivo teológico, ou seja, o de alinhar essa narrativa com a tradição mosaica de Ex 24,16. A Transfiguração em si também tem traços da tradição mosaica, uma vez que também o rosto de Moisés em Ex 34,29-35 brilhava.

A comparação com Moisés, todavia, é parcial. Ele é comparado também com Adão por causa da citação das vestes. Gn 3,21 fala das vestes que Deus teceu para Adão. Textos judaicos sobre este versículo falam que eram “vestes de glória”, porque feitas pelo próprio Deus. A referência às vestes nos remete também à entronização do rei. Essa referência seria, então, uma forma de demonstrar que Jesus é o Novo Adão e o Rei Messias que está prestes a ser entronizado: na cruz (revelação trágica).

Existe aqui uma alusão à Ressurreição, uma vez que o próprio Jesus, em 9,9, os proíbe severamente de contar o que aconteceu a alguém, até que ele próprio (Jesus) tenha “ressuscitado dos mortos”.

Em 9,5-6 temos a intervenção de Pedro a respeito de Moisés e Elias. A ideia da tenda aponta para Moisés e para o período no qual o povo viveu em tendas no deserto. Mais uma vez a incompreensão de Pedro é ressaltada no v.6.

Por fim chegamos aos vv. 7-8, que nos mostram a teofania do Pai que faz ouvir a sua “voz”:

• 9,7: Voz do Pai

• 9,8: Jesus sozinho com seus discípulos

“Ouvir o Cristo” significa voltar a 8,34: “tomar a cruz e segui-lo”. O Pai, como na cena do Batismo, dá testemunho do Filho: “o amado”. Eles não precisam de tenda, porque a “nuvem”, sinal da presença de Deus, os cobrirá. O testemunho do Pai demonstra que Jesus é maior que Moisés e Elias.

Cristo, nosso Isaac, é a plenitude da lei e dos profetas; Ele próprio é a Palavra contida também na lei e nos profetas e que se fez carne para a nossa salvação. Ele morrerá, mas a sua morte será gloriosa. A aparente derrota é, na verdade, a vitória.

Assim como Abraão cumpre o seu teste de sacrificar o seu Filho no “não sacrifício” feito por obediência à Palavra de Deus advinda a Ele por meio do anjo, assim também Cristo manifesta toda a sua glória numa aparente “não glória” de morte de cruz, que redundará na grande glória, na mais triunfal de todas: a sua ressurreição. No caminho quaresmal não devemos temer as cruzes e a morte que nos espera, porque sabemos que sairemos vencedores com Aquele que se transfigurou e que ressuscitou dos mortos para a nossa salvação.

Diante da certeza desse amor que assume a morte e a vence por nós, podemos fazer nossas as Palavras do apóstolo Paulo na segunda leitura. O que podemos temer se Deus morreu por nós e pela nossa salvação? Se Ele desceu à mansão dos mortos, por nós quem nos acusará? Como diz o salmista, Ele é quem nos defende do inimigo mentiroso, do diabo, daquele que quer nos fazer perder a salvação. Ergamos o nosso cálice, o cálice da Eucaristia e demos graças a Deus que nos fez justiça, enviando o “Seu único” para a nossa salvação.

 Segundo Domingo da Quaresma

1 de março de 2015

Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18 

Sl 115 (116B)

Rm 8,31b-34

Mc 9,2-10

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida