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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/05/2019

23 de Maio de 2019

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24/02/2015 00:00 - Atualizado em 24/02/2015 09:18

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24/02/2015 00:00 - Atualizado em 24/02/2015 09:18

Com o início da Quaresma, um dos temas mais importantes é a conversão. É uma das opções que se tem na liturgia ao impor as cinzas sobre as nossas cabeças: “convertei-vos e crede no Evangelho”! Uma conversão profunda e completa que todos devemos fazer neste tempo propício de jejum, esmola, oração, penitência e conversão. 

No Evangelho de Lc 4,1-13 vemos o Espírito de Deus conduzir Jesus ao deserto – e é um convite a cada um de nós também – para refletir e decidir. Não temos condições de nos retirar, durante 40 dias, para o deserto, mas podemos encontrar algum tempo para pensar, meditar, rezar, enfim, refletir e decidir dar passos nessa caminhada. O mais difícil será, primeiro, nos convencer de que necessitamos disso. Geralmente tão cansados de nosso corre-corre e de nossas preocupações, que só queremos nos distrair. E a sociedade faz de tudo para nos divertir, para evitar que reflitamos!

Deixar-se conduzir pelo Espírito de Deus não é mera contemplação, alegre ou dolorosa, da situação que está aí. É uma tomada de consciência, para decidir, para recolocar em discussão ou verificar o rumo da nossa vida. É um apelo à conversão, ou seja, a voltar a Deus, a procurar a Deus. Num mundo onde ilusões e mentiras estão tão espalhadas, buscar a vontade de Deus exige – como fez Jesus – firme apego à Palavra divina, à Sagrada Escritura. Apego não apenas à letra, mas ao espírito, à vontade de Deus. Noutras palavras: fé, confiança no Pai.

A conversão é o desejo da pessoa de sair de si, e que tem sua origem no ‘ser nascido de Deus’, que o impulsiona a buscar e encontrar o sentido último para sua vida em Deus-Amor (cf. GS 16,1). O êxodo de si traz inerente a disposição das relações interpessoais e com o cosmo, no sentido de cuidar, aperfeiçoar a natureza criada, e criando com o outro a fraternidade e solidariedade, e consigo mesmo, amando, abraçando e agradecendo o dom precioso da vida, e nisso enxergamos e contemplamos a Deus no serviço e na gratuidade.

Vivemos num mundo inteiramente secularizado e longe da fonte divina, pois o homem se ilude, muitas vezes por medo, que pode prever e planejar tudo com cálculos cada vez mais precisos (cf. CIC 29). O ser humano é semelhante a Deus, não por sua capacidade de pensar e repensar, criar e recriar. Mas Deus, quando o criou, o fez de uma forma ótima a cada um de nós; criou o mundo e quis o melhor para suas criaturas. Precisamos estar plugados e interligados a Deus frente ao caos que fere a dignidade humana. Conversão hoje é comprometer-se com a pessoa e com o cuidado do planeta. Jesus é o caminho que nos leva ao Pai. Ele conseguiu conjugar desafios e oportunidades, ler o novo no antigo, projetar luz na escuridão, e libertará da desumanização pelo amor.

Conversão é esta passagem de uma atitude velha para uma nova; é transformar o modo de ver, pensar e agir à luz do espírito e da fé que enobrece o coração (cf. Jl 2, 12ss). Abrandar a dureza do coração. Conversão consiste no descentrar-se de si e focar-se em Deus e no bem do próximo. A nova atitude de vida proposta pelo projeto de Deus Pai torna a criatura humana capaz de ir ao encontro do outro e de amá-lo, para que aconteça o perdão e a comunhão, para a liberdade e a paz, concretizando a proposta de Jesus. A conversão liberta das seduções do mundo e encoraja a enfrentar as artimanhas enganadoras que ofuscam o autêntico amor. Deixa a pessoa livre, solidária, misericordiosa, alegre e esperançosa diante da vida, vivendo a dinâmica do discernir entre o bem e o mal.

Fazer com que Deus seja o centro da existência e tenha primazia no coração é conversão. As práticas quaresmais de fazer penitências e dar esmolas, a fazer privações momentâneas, ser mais piedoso são passos que nos ajudam! Porém, tudo isso nos deve levar a uma atitude real de conversão, que é o crer, expresso em gestos concretos de vida e não apenas em aceitar verdades intelectuais (Tg 2,14-24). Daí a importância em ouvir a proposta de Jesus, acolhendo com o coração e colocando em pratica.

‘O experienciar’ a conversão é exercitar-se no agir e no rever crenças acumuladas ao longo da vida; o homem velho foi vencido e redimido por Jesus Cristo. É preciso ter ciência do processo de transformação que se dá no novo e no divino na pessoa do outro. Permanecer novo abandonando odres velhos, jeitos estéreis e superficiais de ser e viver; ser capaz de criar uma visão nova; viver a dinâmica da alteridade, de estar atenta às necessidades e carências do outro; eliminar remendos do bem aparente e assumir atitudes de compromisso e de transformação. Conversão, enfim, exige da pessoa sair de si e expor-se à ação pneumatológica que a torna uma pessoa livre, solidária, misericordiosa, esperançosa, alegre, portadora e promotora de paz.

Buscar o reino de Deus e sua justiça significa anunciar a misericórdia de Deus por palavras e obras, sem falsear nem mascarar, como o mundo tenta fazer. Lutar e trabalhar por um mundo mais justo, mais humano nos coloca em risco e nos compromete, assim foi com Jesus e será conosco, seus discípulos missionários! Tomar consciência do pecado e buscar a misericórdia de Deus, que purifica o nosso coração!

Atualizemos e renovemos nossos compromissos numa conversão real e necessária aos nossos tempos.

 

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24/02/2015 00:00 - Atualizado em 24/02/2015 09:18

Com o início da Quaresma, um dos temas mais importantes é a conversão. É uma das opções que se tem na liturgia ao impor as cinzas sobre as nossas cabeças: “convertei-vos e crede no Evangelho”! Uma conversão profunda e completa que todos devemos fazer neste tempo propício de jejum, esmola, oração, penitência e conversão. 

No Evangelho de Lc 4,1-13 vemos o Espírito de Deus conduzir Jesus ao deserto – e é um convite a cada um de nós também – para refletir e decidir. Não temos condições de nos retirar, durante 40 dias, para o deserto, mas podemos encontrar algum tempo para pensar, meditar, rezar, enfim, refletir e decidir dar passos nessa caminhada. O mais difícil será, primeiro, nos convencer de que necessitamos disso. Geralmente tão cansados de nosso corre-corre e de nossas preocupações, que só queremos nos distrair. E a sociedade faz de tudo para nos divertir, para evitar que reflitamos!

Deixar-se conduzir pelo Espírito de Deus não é mera contemplação, alegre ou dolorosa, da situação que está aí. É uma tomada de consciência, para decidir, para recolocar em discussão ou verificar o rumo da nossa vida. É um apelo à conversão, ou seja, a voltar a Deus, a procurar a Deus. Num mundo onde ilusões e mentiras estão tão espalhadas, buscar a vontade de Deus exige – como fez Jesus – firme apego à Palavra divina, à Sagrada Escritura. Apego não apenas à letra, mas ao espírito, à vontade de Deus. Noutras palavras: fé, confiança no Pai.

A conversão é o desejo da pessoa de sair de si, e que tem sua origem no ‘ser nascido de Deus’, que o impulsiona a buscar e encontrar o sentido último para sua vida em Deus-Amor (cf. GS 16,1). O êxodo de si traz inerente a disposição das relações interpessoais e com o cosmo, no sentido de cuidar, aperfeiçoar a natureza criada, e criando com o outro a fraternidade e solidariedade, e consigo mesmo, amando, abraçando e agradecendo o dom precioso da vida, e nisso enxergamos e contemplamos a Deus no serviço e na gratuidade.

Vivemos num mundo inteiramente secularizado e longe da fonte divina, pois o homem se ilude, muitas vezes por medo, que pode prever e planejar tudo com cálculos cada vez mais precisos (cf. CIC 29). O ser humano é semelhante a Deus, não por sua capacidade de pensar e repensar, criar e recriar. Mas Deus, quando o criou, o fez de uma forma ótima a cada um de nós; criou o mundo e quis o melhor para suas criaturas. Precisamos estar plugados e interligados a Deus frente ao caos que fere a dignidade humana. Conversão hoje é comprometer-se com a pessoa e com o cuidado do planeta. Jesus é o caminho que nos leva ao Pai. Ele conseguiu conjugar desafios e oportunidades, ler o novo no antigo, projetar luz na escuridão, e libertará da desumanização pelo amor.

Conversão é esta passagem de uma atitude velha para uma nova; é transformar o modo de ver, pensar e agir à luz do espírito e da fé que enobrece o coração (cf. Jl 2, 12ss). Abrandar a dureza do coração. Conversão consiste no descentrar-se de si e focar-se em Deus e no bem do próximo. A nova atitude de vida proposta pelo projeto de Deus Pai torna a criatura humana capaz de ir ao encontro do outro e de amá-lo, para que aconteça o perdão e a comunhão, para a liberdade e a paz, concretizando a proposta de Jesus. A conversão liberta das seduções do mundo e encoraja a enfrentar as artimanhas enganadoras que ofuscam o autêntico amor. Deixa a pessoa livre, solidária, misericordiosa, alegre e esperançosa diante da vida, vivendo a dinâmica do discernir entre o bem e o mal.

Fazer com que Deus seja o centro da existência e tenha primazia no coração é conversão. As práticas quaresmais de fazer penitências e dar esmolas, a fazer privações momentâneas, ser mais piedoso são passos que nos ajudam! Porém, tudo isso nos deve levar a uma atitude real de conversão, que é o crer, expresso em gestos concretos de vida e não apenas em aceitar verdades intelectuais (Tg 2,14-24). Daí a importância em ouvir a proposta de Jesus, acolhendo com o coração e colocando em pratica.

‘O experienciar’ a conversão é exercitar-se no agir e no rever crenças acumuladas ao longo da vida; o homem velho foi vencido e redimido por Jesus Cristo. É preciso ter ciência do processo de transformação que se dá no novo e no divino na pessoa do outro. Permanecer novo abandonando odres velhos, jeitos estéreis e superficiais de ser e viver; ser capaz de criar uma visão nova; viver a dinâmica da alteridade, de estar atenta às necessidades e carências do outro; eliminar remendos do bem aparente e assumir atitudes de compromisso e de transformação. Conversão, enfim, exige da pessoa sair de si e expor-se à ação pneumatológica que a torna uma pessoa livre, solidária, misericordiosa, esperançosa, alegre, portadora e promotora de paz.

Buscar o reino de Deus e sua justiça significa anunciar a misericórdia de Deus por palavras e obras, sem falsear nem mascarar, como o mundo tenta fazer. Lutar e trabalhar por um mundo mais justo, mais humano nos coloca em risco e nos compromete, assim foi com Jesus e será conosco, seus discípulos missionários! Tomar consciência do pecado e buscar a misericórdia de Deus, que purifica o nosso coração!

Atualizemos e renovemos nossos compromissos numa conversão real e necessária aos nossos tempos.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro