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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/03/2019

23 de Março de 2019

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21/02/2015 00:00

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Ainda ecoando as orientações do início da Quaresma, quando fomos chamados à oração, jejum e esmola como passos importantes para darmos concretamente durante este tempo favorável, creio que o assunto do desapego dos bens e a partilha merecem também o nosso empenho. Muitas vezes o tema da “esmola” não ressoa muito bem em nosso ouvido, mas aprofundando, essa prática nos ajuda a irmos contra a corrente em nosso mundo onde o dinheiro e os bens assumem cada vez mais um lugar central na vida da humanidade.

“Há três coisas que mantém a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe”. São palavras fortes e precisas de São Pedro Crisólogo. Dentro desse espírito de misericórdia, tão necessário hoje, é que temos também a abertura para o outro, pois ao evangelizarmos nos comprometemos como irmão. Aqui no Brasil, a Campanha da Fraternidade colabora para que nossa atitude quaresmal encontre caminhos na questão social, tão complexa em nosso país. Lembremos que o tempo da Quaresma é um tempo propício para a penitência, oração, lectio divina, confissão, conversão e a esmola. Não basta jejuar ou procurar abandonar um pecado sem que nos concretizemos também em ajudar os que mais precisam da nossa caridade, como consequência de nossa conversão sincera.

Esmola é uma palavra de origem latina que tem suas raízes no grego e significa “compaixão”, “misericórdia”, “solidariedade” e “partilha”. Diz-nos o dicionário que “é uma pequena quantia de dinheiro dada a um pedinte por caridade. Pode ser concessão, graça ou favor”. Em hebraico se diz Tzedakah e, curiosamente, para a justiça Tzedek. Podemos concluir que partilhar (dar esmolas) é cumprir, fazer justiça. Aquilo que é dado como partilha faz parte das posses de quem coloca os seus bens a serviço dos empobrecidos.

A esmola, no sentido cristão, liga-se à penitência e à oração, como bem nos recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 1434: “A Penitência interior do cristão pode ter expressões bem variadas. As Escrituras e os padres insistem principalmente em três formas: o jejum, a oração e a esmola, que exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros”. Por isso, a Igreja considera a esmola um ato de penitência praticado nos momentos fortes, seja Quaresma como Advento. Na oração, reconhecemos que tudo vem do Pai, Pai de todos e, sobretudo, dos pobres. Na penitência renunciamos não só ao que é supérfluo e também não só ao alimento. Logo, o que damos é fruto de nossa renúncia; trata-se, de fato de um testemunho de caridade fraterna: “é também uma prática de justiça que agrada a Deus” (CIC, n. 2462).

Partilhar (dar esmolas) é devolver a Deus, como gratidão e expiação, todos os bens que Ele nos concede em abundância. Tem finalidade teocêntrica em primeiro lugar, haja vista o fato de que: “tive fome e me deste o que comer; tive sede e me deste o que beber; era peregrino e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e na prisão, e me visitastes”.

No olhar do grande patrono dos párocos, São João Maria Vianney, “a esmola é de um mérito tão grande aos olhos de Deus, que ela é muito poderosa para atrair sobre nós as misericórdias de Deus, que ela parece colocar nossa salvação em segurança”.

E em nossa sociedade, a força do Adversário da humanidade se manifesta no egoísmo, no abuso de poder, na busca da felicidade e do sucesso pessoal a todo custo, que exclui os outros e faz de muitos deles vítimas desse poder e desse sucesso.

A real esmola cristã não está em dar dinheiro ou objetos, coisas, enfim, mas sim em dar-se a si mesmo aos outros, vendo no necessitado o próprio Jesus. Que nós aprendamos acolher a cada um que vem até nós, como o próprio Cristo. Esmola, de modo bem amplo, é o amor fraterno em concretude: a esmola do perdão, de escutar o outro, de ir ao encontro dos necessitados com espírito de amor cristão. E quantos necessitados existem e quanto de justiça cada fiel cristão pode e deve praticar!!!

Não compadecer-se e solidarizar-se pelos empobrecidos é tornarmo-nos menos humanos, egoístas e avarentos, quando não pensamos mais em sociedade, em comunidade e não nos preocupamos mais com a dor do próximo. Em contrapartida, a partilha é atitude de coração, é atenção, é concretizar, é dom e discernimento, que deve ser experenciada pelo fiel cristão que contempla o amor de Deus.

O Papa Francisco, em discurso na FAO, disse que: “Enquanto se fala de novos direitos, o faminto está aí, na esquina da rua, e pede carta de cidadania, ser considerado em sua condição, receber uma alimentação de base sadia. Pede-nos dignidade, não esmola”. O Sumo Pontífice explicou o trabalho da Igreja em matéria de nutrição e destacou que Ela “sempre busca estar atenta e solícita a respeito a tudo o que se refere ao bem-estar espiritual e material das pessoas, acima de tudo dos que vivem marginalizados e são excluídos, para que se garanta sua segurança e sua dignidade”. “Vivemos em uma época em que as relações entre as nações estão muito frequentemente danificadas pela suspeita recíproca, que, às vezes, se converte em formas de agressão bélica e econômica, escava a amizade entre irmãos e rechaça ou descarta o que já está excluído”. Isto “sabe bem quem carece do pão cotidiano e de um trabalho decente. Este é o quadro do mundo, no qual devemos reconhecer os limites de colocações apoiadas na soberania de cada um dos Estados, entendida como absoluta, e nos interesses nacionais, condicionados frequentemente por reduzidos grupos de poder”.

Precisamos criar e restabelecer vínculos de solidariedade e fraternidade para com aqueles que a nossa sociedade ou comunidade exclui e rejeita. Fazendo isto, encarnamos o que Jesus fez na sua atuação terrena. Em lugar de procurar seduzir as multidões, multiplicando os pães, ou de impor seu poder, com a força ou fazendo milagres, como o diabo sugeria (Lc 4, 1-13), Jesus testemunhou a bondade de Deus que liberta os que são escravos das forças do mal, perdoa os pecados, reconcilia filhos e irmãos, cura as doenças e o desespero, salva os que estavam perdidos e comunica a vida em plenitude. O projeto de Jesus é nosso projeto e programa de vida, para que a nossa conversão não seja apenas emoção passageira, mas a prática de uma vida nova e duradoura inspirada nos ensinamentos mais importantes da palavra de Deus, que os profetas e Jesus resumiram como “a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23, 23).

O Papa Francisco, na missa do domingo, 15 de fevereiro deste ano com os novos cardeais, concluiu assim a sua homilia: “Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade”. A prática da esmola neste tempo da Quaresma vai muito além: deve nos levar a um novo tipo de vida e de sociedade! Eis o tempo de conversão!

 

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21/02/2015 00:00

Ainda ecoando as orientações do início da Quaresma, quando fomos chamados à oração, jejum e esmola como passos importantes para darmos concretamente durante este tempo favorável, creio que o assunto do desapego dos bens e a partilha merecem também o nosso empenho. Muitas vezes o tema da “esmola” não ressoa muito bem em nosso ouvido, mas aprofundando, essa prática nos ajuda a irmos contra a corrente em nosso mundo onde o dinheiro e os bens assumem cada vez mais um lugar central na vida da humanidade.

“Há três coisas que mantém a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe”. São palavras fortes e precisas de São Pedro Crisólogo. Dentro desse espírito de misericórdia, tão necessário hoje, é que temos também a abertura para o outro, pois ao evangelizarmos nos comprometemos como irmão. Aqui no Brasil, a Campanha da Fraternidade colabora para que nossa atitude quaresmal encontre caminhos na questão social, tão complexa em nosso país. Lembremos que o tempo da Quaresma é um tempo propício para a penitência, oração, lectio divina, confissão, conversão e a esmola. Não basta jejuar ou procurar abandonar um pecado sem que nos concretizemos também em ajudar os que mais precisam da nossa caridade, como consequência de nossa conversão sincera.

Esmola é uma palavra de origem latina que tem suas raízes no grego e significa “compaixão”, “misericórdia”, “solidariedade” e “partilha”. Diz-nos o dicionário que “é uma pequena quantia de dinheiro dada a um pedinte por caridade. Pode ser concessão, graça ou favor”. Em hebraico se diz Tzedakah e, curiosamente, para a justiça Tzedek. Podemos concluir que partilhar (dar esmolas) é cumprir, fazer justiça. Aquilo que é dado como partilha faz parte das posses de quem coloca os seus bens a serviço dos empobrecidos.

A esmola, no sentido cristão, liga-se à penitência e à oração, como bem nos recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 1434: “A Penitência interior do cristão pode ter expressões bem variadas. As Escrituras e os padres insistem principalmente em três formas: o jejum, a oração e a esmola, que exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros”. Por isso, a Igreja considera a esmola um ato de penitência praticado nos momentos fortes, seja Quaresma como Advento. Na oração, reconhecemos que tudo vem do Pai, Pai de todos e, sobretudo, dos pobres. Na penitência renunciamos não só ao que é supérfluo e também não só ao alimento. Logo, o que damos é fruto de nossa renúncia; trata-se, de fato de um testemunho de caridade fraterna: “é também uma prática de justiça que agrada a Deus” (CIC, n. 2462).

Partilhar (dar esmolas) é devolver a Deus, como gratidão e expiação, todos os bens que Ele nos concede em abundância. Tem finalidade teocêntrica em primeiro lugar, haja vista o fato de que: “tive fome e me deste o que comer; tive sede e me deste o que beber; era peregrino e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e na prisão, e me visitastes”.

No olhar do grande patrono dos párocos, São João Maria Vianney, “a esmola é de um mérito tão grande aos olhos de Deus, que ela é muito poderosa para atrair sobre nós as misericórdias de Deus, que ela parece colocar nossa salvação em segurança”.

E em nossa sociedade, a força do Adversário da humanidade se manifesta no egoísmo, no abuso de poder, na busca da felicidade e do sucesso pessoal a todo custo, que exclui os outros e faz de muitos deles vítimas desse poder e desse sucesso.

A real esmola cristã não está em dar dinheiro ou objetos, coisas, enfim, mas sim em dar-se a si mesmo aos outros, vendo no necessitado o próprio Jesus. Que nós aprendamos acolher a cada um que vem até nós, como o próprio Cristo. Esmola, de modo bem amplo, é o amor fraterno em concretude: a esmola do perdão, de escutar o outro, de ir ao encontro dos necessitados com espírito de amor cristão. E quantos necessitados existem e quanto de justiça cada fiel cristão pode e deve praticar!!!

Não compadecer-se e solidarizar-se pelos empobrecidos é tornarmo-nos menos humanos, egoístas e avarentos, quando não pensamos mais em sociedade, em comunidade e não nos preocupamos mais com a dor do próximo. Em contrapartida, a partilha é atitude de coração, é atenção, é concretizar, é dom e discernimento, que deve ser experenciada pelo fiel cristão que contempla o amor de Deus.

O Papa Francisco, em discurso na FAO, disse que: “Enquanto se fala de novos direitos, o faminto está aí, na esquina da rua, e pede carta de cidadania, ser considerado em sua condição, receber uma alimentação de base sadia. Pede-nos dignidade, não esmola”. O Sumo Pontífice explicou o trabalho da Igreja em matéria de nutrição e destacou que Ela “sempre busca estar atenta e solícita a respeito a tudo o que se refere ao bem-estar espiritual e material das pessoas, acima de tudo dos que vivem marginalizados e são excluídos, para que se garanta sua segurança e sua dignidade”. “Vivemos em uma época em que as relações entre as nações estão muito frequentemente danificadas pela suspeita recíproca, que, às vezes, se converte em formas de agressão bélica e econômica, escava a amizade entre irmãos e rechaça ou descarta o que já está excluído”. Isto “sabe bem quem carece do pão cotidiano e de um trabalho decente. Este é o quadro do mundo, no qual devemos reconhecer os limites de colocações apoiadas na soberania de cada um dos Estados, entendida como absoluta, e nos interesses nacionais, condicionados frequentemente por reduzidos grupos de poder”.

Precisamos criar e restabelecer vínculos de solidariedade e fraternidade para com aqueles que a nossa sociedade ou comunidade exclui e rejeita. Fazendo isto, encarnamos o que Jesus fez na sua atuação terrena. Em lugar de procurar seduzir as multidões, multiplicando os pães, ou de impor seu poder, com a força ou fazendo milagres, como o diabo sugeria (Lc 4, 1-13), Jesus testemunhou a bondade de Deus que liberta os que são escravos das forças do mal, perdoa os pecados, reconcilia filhos e irmãos, cura as doenças e o desespero, salva os que estavam perdidos e comunica a vida em plenitude. O projeto de Jesus é nosso projeto e programa de vida, para que a nossa conversão não seja apenas emoção passageira, mas a prática de uma vida nova e duradoura inspirada nos ensinamentos mais importantes da palavra de Deus, que os profetas e Jesus resumiram como “a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23, 23).

O Papa Francisco, na missa do domingo, 15 de fevereiro deste ano com os novos cardeais, concluiu assim a sua homilia: “Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade”. A prática da esmola neste tempo da Quaresma vai muito além: deve nos levar a um novo tipo de vida e de sociedade! Eis o tempo de conversão!

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro