Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

“O Senhor, nossa alegria e refúgio”

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16 de Outubro de 2018

“O Senhor, nossa alegria e refúgio”

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“O Senhor, nossa alegria e refúgio” 0

15/02/2015 00:00

Hoje a Igreja nos apresenta duas possibilidades de primeira leitura: uma do livro do Levítico e outra do segundo livro dos Reis. As duas tratam da mesma temática: a situação terrível daqueles que eram acometidos pela lepra. Na primeira leitura, mais estreitamente ligada com o Evangelho, porque no Evangelho Jesus vai mandar o leproso apresentar-se ao sacerdote para cumprir justamente este preceito presente na primeira leitura, vemos como o Levítico apresenta o tratamento a ser dado a quem era acometido por esta enfermidade. O sacerdote tinha a função de declarar se alguém estava ou não leproso.

Uma vez constatada a doença, a pessoa era alijada da comunidade, pois deveria habitar fora do acampamento e devia também dar sinais exteriores da sua enfermidade – cabelos em desordem, barba coberta e gritos de impuro – para evitar que qualquer um se aproximasse dela e ficasse também impuro.

Era uma situação de profundo isolamento social e também espiritual. A doença era considerada também sob o ponto de vista religioso. Daí o sacerdote ter o dever de verificar se se tratava ou não da impureza da lepra. Era um mal tão terrível, que só podia significar um castigo divino. Tocar um leproso era causa de impureza, assim como tocar o corpo de um defunto. Daí percebemos a tristeza de quem era acometido por tal enfermidade: era como que um morto, estando todavia ainda vivo.

Nesse estado o que resta ao homem senão recorrer a Deus, nosso refúgio? É o que vemos no Salmo 31, cantado como resposta à primeira leitura na liturgia de hoje. O refrão diz: “Sois, Senhor, para mim, alegria e refúgio”. Nos sofrimentos mais atrozes da vida, só no Senhor podemos reencontrar a alegria e só n’Ele podemos nos refugiar, certos de que Ele sempre nos acolhe, consola e fortalece.

O Evangelho de Marcos nos apresenta o contato de Jesus com um leproso. Um leproso se aproxima de Jesus suplicando-lhe a cura. O verbo que o lecionário traduz como “pedir” e que indica a atitude do leproso em relação a Jesus é o grego parakaléo. O verbo parakaléo pode significar muitas coisas, como consolar, por exemplo. É nesse sentido de “consolar” que Ele é usado em Is 40,1. Mas o verbo parakaléo, do qual provém uma palavra bem conhecida, o termo Paráclito, é um composto do prefixo para e do verbo kaléo. Kaléo significa “chamar”, “invocar” e o prefixo para no grego significa “junto de” alguma coisa ou de alguém. O leproso “chama Jesus para junto dele”, invoca Jesus como sendo o seu “paráclito”. Aliás, em João o próprio Jesus afirma que o Espírito Santo é o “outro Paráclito”, porque o “Primeiro Paráclito” é o próprio Jesus (cf. Jo 14,16).

Que bela imagem temos diante dos nossos olhos: o leproso vê em Jesus o seu “Paráclito”, aquele que pode estar junto dele para curá-lo da sua “morte”. A palavra do leproso, que se prostra de joelhos diante de Jesus, é uma verdadeira profissão de fé: “Se queres tens o poder de curar-me”.

A atitude de Jesus para com o leproso aparece descrita nos vv. 41-43. A seção é aberta por um verbo importante. Esse verbo aparece em algum textos gregos para designar o ato de comer as vísceras do animal que era oferecido em sacrifício. Por extensão designa um “remexer das vísceras” do interior do homem, do que há de mais profundo nele e, por isso, significa também “compaixão”. O interior de Jesus é completamente mexido e remexido ao ver o homem leproso. Claro, pois Ele é o “Senhor da vida” e não quer ver na morte os “filhos amados do Pai”.

Basta uma palavra, a palavra poderosa de Jesus, para que esse homem fique curado: “Eu quero, sê puro”.

A atitude de Jesus, contudo, está em pleno acordo com a Lei, porque Jesus ordena que o leproso vá ao sacerdote, para que este, conforme ordena a Lei, possa ratificar a cura e receber do miraculado o que Moisés previu na Lei.

Todos nós somos como esse leproso. Jesus já veio e já morreu para nos curar da nossa lepra que é o pecado. O pecado é como uma lepra que destrói a nossa alma, que nos dilacera, que nos mutila, que nos divide. Jesus veio e se apresentou a nós como aquele que veio para nos curar dessa lepra e para nos devolver a saúde. Precisamos, todavia, imitar o exemplo desse leproso. Precisamos entrar num processo penitencial, e a Quaresma que já se aproxima é a nossa grande chance. Devemos reconhecer que em nós existe uma lepra que nos divide, que nos dilacera, que vai aos poucos deformando o nosso coração. Devemos reconhecer que fora de Jesus não existe cura para isso. Só Ele é o nosso refúgio, só Ele nos traz a alegria da cura, como diz o refrão do Salmo 31 que rezamos.

Precisamos então, conscientes da nossa impureza, acorrermos a Ele, que veio justamente para “tirar o pecado do mundo”. Como o leproso, prostremo-nos, reconhecendo que ele “tem o poder” de nos curar. E deixemos que Ele nos toque. Ele não teme a nossa impureza.

A impureza que existe em nós, e para a qual tantas vezes não queremos olhar, da qual tantas vezes fugimos, essa impureza não O assusta. Ele não pode contaminar-se com ela, e, por isso, Ele nos toca, e o seu toque é um toque purificador, que nos devolve a saúde do corpo e da alma. Às vezes nos desanimamos porque Ele já nos tocou tantas vezes e já nos curou tantas vezes, mas tantas vezes retornamos a cair na doença. Para Ele não importa. Cada novo encontro é uma novidade para Ele! O que para nós é doloroso e vergonhoso, para Ele é uma alegria, porque Ele veio para isso: para nos tocar e com seu toque nos purificar da nossa lepra interior. Basta que deixemo-nos hoje pelo Senhor, para que possamos experimentar o poder de sua cura, a força do seu Espírito devolvendo-nos a saúde.

Podemos concluir nossa reflexão lançando um breve olhar para a segunda leitura. São Paulo define em poucas palavras a finalidade doxológica da nossa existência: “fazei tudo para a glória (dóxa) de Deus”. A Eucaristia é uma grande doxologia, uma grande “glorificação” do Pai. Deixemos que a nossa vida também seja doxológica, que as nossas palavras e, sobretudo, o nosso modo de viver, dê glória ao Criador.

6º Domingo do Tempo Comum
Dia 15 de fevereiro

1ª Leitura - Lv 13,1-2.44-46
Salmo - 31 (32),1-2.5.11 (R.7)
2ª Leitura - 1Cor 10,31-11,1
Evangelho - Mc 1,40-45

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“O Senhor, nossa alegria e refúgio”

15/02/2015 00:00

Hoje a Igreja nos apresenta duas possibilidades de primeira leitura: uma do livro do Levítico e outra do segundo livro dos Reis. As duas tratam da mesma temática: a situação terrível daqueles que eram acometidos pela lepra. Na primeira leitura, mais estreitamente ligada com o Evangelho, porque no Evangelho Jesus vai mandar o leproso apresentar-se ao sacerdote para cumprir justamente este preceito presente na primeira leitura, vemos como o Levítico apresenta o tratamento a ser dado a quem era acometido por esta enfermidade. O sacerdote tinha a função de declarar se alguém estava ou não leproso.

Uma vez constatada a doença, a pessoa era alijada da comunidade, pois deveria habitar fora do acampamento e devia também dar sinais exteriores da sua enfermidade – cabelos em desordem, barba coberta e gritos de impuro – para evitar que qualquer um se aproximasse dela e ficasse também impuro.

Era uma situação de profundo isolamento social e também espiritual. A doença era considerada também sob o ponto de vista religioso. Daí o sacerdote ter o dever de verificar se se tratava ou não da impureza da lepra. Era um mal tão terrível, que só podia significar um castigo divino. Tocar um leproso era causa de impureza, assim como tocar o corpo de um defunto. Daí percebemos a tristeza de quem era acometido por tal enfermidade: era como que um morto, estando todavia ainda vivo.

Nesse estado o que resta ao homem senão recorrer a Deus, nosso refúgio? É o que vemos no Salmo 31, cantado como resposta à primeira leitura na liturgia de hoje. O refrão diz: “Sois, Senhor, para mim, alegria e refúgio”. Nos sofrimentos mais atrozes da vida, só no Senhor podemos reencontrar a alegria e só n’Ele podemos nos refugiar, certos de que Ele sempre nos acolhe, consola e fortalece.

O Evangelho de Marcos nos apresenta o contato de Jesus com um leproso. Um leproso se aproxima de Jesus suplicando-lhe a cura. O verbo que o lecionário traduz como “pedir” e que indica a atitude do leproso em relação a Jesus é o grego parakaléo. O verbo parakaléo pode significar muitas coisas, como consolar, por exemplo. É nesse sentido de “consolar” que Ele é usado em Is 40,1. Mas o verbo parakaléo, do qual provém uma palavra bem conhecida, o termo Paráclito, é um composto do prefixo para e do verbo kaléo. Kaléo significa “chamar”, “invocar” e o prefixo para no grego significa “junto de” alguma coisa ou de alguém. O leproso “chama Jesus para junto dele”, invoca Jesus como sendo o seu “paráclito”. Aliás, em João o próprio Jesus afirma que o Espírito Santo é o “outro Paráclito”, porque o “Primeiro Paráclito” é o próprio Jesus (cf. Jo 14,16).

Que bela imagem temos diante dos nossos olhos: o leproso vê em Jesus o seu “Paráclito”, aquele que pode estar junto dele para curá-lo da sua “morte”. A palavra do leproso, que se prostra de joelhos diante de Jesus, é uma verdadeira profissão de fé: “Se queres tens o poder de curar-me”.

A atitude de Jesus para com o leproso aparece descrita nos vv. 41-43. A seção é aberta por um verbo importante. Esse verbo aparece em algum textos gregos para designar o ato de comer as vísceras do animal que era oferecido em sacrifício. Por extensão designa um “remexer das vísceras” do interior do homem, do que há de mais profundo nele e, por isso, significa também “compaixão”. O interior de Jesus é completamente mexido e remexido ao ver o homem leproso. Claro, pois Ele é o “Senhor da vida” e não quer ver na morte os “filhos amados do Pai”.

Basta uma palavra, a palavra poderosa de Jesus, para que esse homem fique curado: “Eu quero, sê puro”.

A atitude de Jesus, contudo, está em pleno acordo com a Lei, porque Jesus ordena que o leproso vá ao sacerdote, para que este, conforme ordena a Lei, possa ratificar a cura e receber do miraculado o que Moisés previu na Lei.

Todos nós somos como esse leproso. Jesus já veio e já morreu para nos curar da nossa lepra que é o pecado. O pecado é como uma lepra que destrói a nossa alma, que nos dilacera, que nos mutila, que nos divide. Jesus veio e se apresentou a nós como aquele que veio para nos curar dessa lepra e para nos devolver a saúde. Precisamos, todavia, imitar o exemplo desse leproso. Precisamos entrar num processo penitencial, e a Quaresma que já se aproxima é a nossa grande chance. Devemos reconhecer que em nós existe uma lepra que nos divide, que nos dilacera, que vai aos poucos deformando o nosso coração. Devemos reconhecer que fora de Jesus não existe cura para isso. Só Ele é o nosso refúgio, só Ele nos traz a alegria da cura, como diz o refrão do Salmo 31 que rezamos.

Precisamos então, conscientes da nossa impureza, acorrermos a Ele, que veio justamente para “tirar o pecado do mundo”. Como o leproso, prostremo-nos, reconhecendo que ele “tem o poder” de nos curar. E deixemos que Ele nos toque. Ele não teme a nossa impureza.

A impureza que existe em nós, e para a qual tantas vezes não queremos olhar, da qual tantas vezes fugimos, essa impureza não O assusta. Ele não pode contaminar-se com ela, e, por isso, Ele nos toca, e o seu toque é um toque purificador, que nos devolve a saúde do corpo e da alma. Às vezes nos desanimamos porque Ele já nos tocou tantas vezes e já nos curou tantas vezes, mas tantas vezes retornamos a cair na doença. Para Ele não importa. Cada novo encontro é uma novidade para Ele! O que para nós é doloroso e vergonhoso, para Ele é uma alegria, porque Ele veio para isso: para nos tocar e com seu toque nos purificar da nossa lepra interior. Basta que deixemo-nos hoje pelo Senhor, para que possamos experimentar o poder de sua cura, a força do seu Espírito devolvendo-nos a saúde.

Podemos concluir nossa reflexão lançando um breve olhar para a segunda leitura. São Paulo define em poucas palavras a finalidade doxológica da nossa existência: “fazei tudo para a glória (dóxa) de Deus”. A Eucaristia é uma grande doxologia, uma grande “glorificação” do Pai. Deixemos que a nossa vida também seja doxológica, que as nossas palavras e, sobretudo, o nosso modo de viver, dê glória ao Criador.

6º Domingo do Tempo Comum
Dia 15 de fevereiro

1ª Leitura - Lv 13,1-2.44-46
Salmo - 31 (32),1-2.5.11 (R.7)
2ª Leitura - 1Cor 10,31-11,1
Evangelho - Mc 1,40-45

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida