Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 25/06/2017

25 de Junho de 2017

Jesus: zelota ou zeloso?

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25 de Junho de 2017

Jesus: zelota ou zeloso?

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07/02/2015 00:00

Jesus: zelota ou zeloso? 2

07/02/2015 00:00

A afirmação que Jesus teria sido um líder revolucionário, engajado na luta de libertação de Israel do domínio romano, retorna, através da obra do iraniano Reza Aslam. Causa grande interesse em não especialistas. A tese parece nova, mas não é. Já foi amplamente debatida na cristologia, durante o século 20, através de boas publicações. Foi enfrentada cientificamente pela pesquisa bíblica e rejeitada pelos exegetas. Vale ressaltar, ligados ao método histórico-crítico de interpretação, interessados em buscar a história das relações de Jesus com os partidos hebraicos da época neotestamentária.

Afirmar que Jesus é zelote ao nível dos revoltosos contra o opressor e invasor, descaracteriza a peculiaridade de sua personalidade e de seu projeto. Seria igual aos demais. Daí, a importância de considerá-Lo no que possui de comum com os grupos influentes e partidos religiosos do seu tempo para, no entanto, demonstrar sua diferença e particularidade. Não para nivelá-Lo. Para fazer-Lhe justiça. De fato, o mesmo Jesus, que tem traços comuns a fariseus, saduceus, essênios, os possui em relação aos zelotes. Entretanto, a diferença é maior que qualquer semelhança. Por isso, soa fantasioso e sem base histórica chamar Jesus de fariseu, de saduceu e até mesmo de essênio. Então, por que seria admissível chamá-Lo de zelote, devido apenas a alguns traços apresentados pelos evangelistas, sem considerar os muitos outros em nítida oposição?

Considerando, como se deve, o contexto conflitante do tempo, é razoável afirmar que Jesus, desde sua juventude, conheceu os zelotes e seu movimento religioso e militante de insurreição contra Roma. De modo semelhante, defendia os explorados e criticava os poderosos. É verdade que um de seus discípulos fora zelote. Chamava-se Simão (Lc 6, 15). Só o fato deste ser cognominado de o zelote, dá a entender que os demais não o eram. Mateus, por exemplo, fora publicano. Portanto, diríamos nós hoje, de ideologia contrária. Recolhia impostos para o opressor. Sua profissão o tornara mal visto.

Jesus divergia do movimento zelote em pontos essenciais. Era contra o fanatismo militante gerador de vingança até a morte. Era contra a violência que gera violência. Pregava as bem-aventuranças da paz e da mansidão, o amor aos inimigos e o perdão às ofensas. Contra tais ensinamentos e práticas não há interpretação possível. Constituem a novidade do seu modo de ser e de existir. Portanto, a luta e a “revolução” de Jesus, que geraram conflito até a morte de cruz é de outra ordem. Pouco tem a ver com Roma e seu império. Suscita aversão interna até o ódio entre seus concidadãos, devido a sua pretensão messiânica entre outras, consideradas blasfêmias. Em especial, a liberdade diante da Lei.

No atual retorno à intolerância religiosa, é útil perceber que Jesus é pacifista. Porém, seu pacifismo é comprometido e interessado. Só o zelo apaixonado O aproxima do zelote. Haja vista a expulsão dos vendilhões do templo a chicote (Jo 2, 14-17). Porém, seu amor à paz até à palavra e ao gesto de perdão o faz diferente e alternativo. Por isso, o zelote também o rejeita. Qual o motivo? O ensinamento: “Guarda a tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão” (Mt 26, 52). Quanto ao tributo dado a César (Mt 22, 15-22), a conhecida frase, não o faz partidário dos zelotes, mesmo que considerássemos como válida a interpretação tendenciosa: “Então devolvei a César a propriedade que pertence a César, e devolvei a Deus a propriedade que pertence a Deus”, ou seja, a Terra Santa. A questão não era só política, simbolizada na terra. Era, sobretudo, religiosa. Por isso, realça a pertença do povo pela eleição e a aliança, no tributo incomparável a ser dado a Deus: a adesão fiel e total.

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Comentários (2)

Valeria Vianna da Cunha Feb 4th 2015, 11:28

Primeiramente, a sua benção Dom Edson! Gostei muito do seu texto por ser o primeiro que li da Arquidiocese, fazendo referência ao livro Zelota, de Reza Aslan. Comecei a ler esse livro, mas não cheguei ao fim por não concordar com a apresentação de Jesus como um líder revolucionário. Pertenço à comunidade da Basílica N.S.de Lourdes - Vila Isabel e sou vicentina.

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Maria do Carmo Queiroz Pimenta Feb 11th 2015, 17:04

Em primeiro peço a sua bênção.Estou lendo o livro Zelota e o texto tem forte fonte histórica como a de Josefo,acho que hoje a nossa sociedade se encontra sem valores e sem testemunho concreto de fé como se tinha nos tempos antigos, e isto está cada vez mais acirrando o apelo pelo transcendente.Eu creio sem ter visto,apenas sentido em minha vida. O livro nos apresenta o homem histórico e como ser humano todos nós temos nossos "partidos" ,a escolha aberta fez a Igreja cometer muitos erros históricos.Não vi e não vejo Jesus Cristo como político e nem simpatizante ,a Bíblia não fala nada sobre a vida pessoal de Jesus,e ela sim é a inspiração divina.Já li outros livros sobre Jesus (Augusto Cury,Peter Creeft...) que não abalaram a minha fé em Jesus. Gostei muito de sua fala "Jesus é pacifista" .O partido de Jesus foi e sempre será o amor e o perdão, é isto que nós católicos devemos ter em mente ao lermos livros históricos sobre Jesus.Parabéns pelo artigo.Vou acompanhá-los.

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Jesus: zelota ou zeloso?

07/02/2015 00:00

A afirmação que Jesus teria sido um líder revolucionário, engajado na luta de libertação de Israel do domínio romano, retorna, através da obra do iraniano Reza Aslam. Causa grande interesse em não especialistas. A tese parece nova, mas não é. Já foi amplamente debatida na cristologia, durante o século 20, através de boas publicações. Foi enfrentada cientificamente pela pesquisa bíblica e rejeitada pelos exegetas. Vale ressaltar, ligados ao método histórico-crítico de interpretação, interessados em buscar a história das relações de Jesus com os partidos hebraicos da época neotestamentária.

Afirmar que Jesus é zelote ao nível dos revoltosos contra o opressor e invasor, descaracteriza a peculiaridade de sua personalidade e de seu projeto. Seria igual aos demais. Daí, a importância de considerá-Lo no que possui de comum com os grupos influentes e partidos religiosos do seu tempo para, no entanto, demonstrar sua diferença e particularidade. Não para nivelá-Lo. Para fazer-Lhe justiça. De fato, o mesmo Jesus, que tem traços comuns a fariseus, saduceus, essênios, os possui em relação aos zelotes. Entretanto, a diferença é maior que qualquer semelhança. Por isso, soa fantasioso e sem base histórica chamar Jesus de fariseu, de saduceu e até mesmo de essênio. Então, por que seria admissível chamá-Lo de zelote, devido apenas a alguns traços apresentados pelos evangelistas, sem considerar os muitos outros em nítida oposição?

Considerando, como se deve, o contexto conflitante do tempo, é razoável afirmar que Jesus, desde sua juventude, conheceu os zelotes e seu movimento religioso e militante de insurreição contra Roma. De modo semelhante, defendia os explorados e criticava os poderosos. É verdade que um de seus discípulos fora zelote. Chamava-se Simão (Lc 6, 15). Só o fato deste ser cognominado de o zelote, dá a entender que os demais não o eram. Mateus, por exemplo, fora publicano. Portanto, diríamos nós hoje, de ideologia contrária. Recolhia impostos para o opressor. Sua profissão o tornara mal visto.

Jesus divergia do movimento zelote em pontos essenciais. Era contra o fanatismo militante gerador de vingança até a morte. Era contra a violência que gera violência. Pregava as bem-aventuranças da paz e da mansidão, o amor aos inimigos e o perdão às ofensas. Contra tais ensinamentos e práticas não há interpretação possível. Constituem a novidade do seu modo de ser e de existir. Portanto, a luta e a “revolução” de Jesus, que geraram conflito até a morte de cruz é de outra ordem. Pouco tem a ver com Roma e seu império. Suscita aversão interna até o ódio entre seus concidadãos, devido a sua pretensão messiânica entre outras, consideradas blasfêmias. Em especial, a liberdade diante da Lei.

No atual retorno à intolerância religiosa, é útil perceber que Jesus é pacifista. Porém, seu pacifismo é comprometido e interessado. Só o zelo apaixonado O aproxima do zelote. Haja vista a expulsão dos vendilhões do templo a chicote (Jo 2, 14-17). Porém, seu amor à paz até à palavra e ao gesto de perdão o faz diferente e alternativo. Por isso, o zelote também o rejeita. Qual o motivo? O ensinamento: “Guarda a tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão” (Mt 26, 52). Quanto ao tributo dado a César (Mt 22, 15-22), a conhecida frase, não o faz partidário dos zelotes, mesmo que considerássemos como válida a interpretação tendenciosa: “Então devolvei a César a propriedade que pertence a César, e devolvei a Deus a propriedade que pertence a Deus”, ou seja, a Terra Santa. A questão não era só política, simbolizada na terra. Era, sobretudo, religiosa. Por isso, realça a pertença do povo pela eleição e a aliança, no tributo incomparável a ser dado a Deus: a adesão fiel e total.

Dom Edson de Castro Homem
Autor

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro