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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/10/2018

20 de Outubro de 2018

Ouvir e obedecer

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01/02/2015 00:00

temp_titleliturgiaaa_30012015093528A Palavra de Deus fala-nos sobre a importância da “escuta”. Na primeira leitura temos um trecho do livro do Deuteronômio onde Deus, pela boca de Moisés, seu servo, comunica ao povo que ele não ficará sem a sua Palavra, porque depois de Moisés Ele há de suscitar um outro profeta, e a esse também o povo deve “escutar”.

Deus poderia falar com cada um, mas Moisés recorda ao povo que esta foi a escolha feita pelo próprio povo no Monte Horeb. O autor sagrado atribui a instituição da profecia ao acontecimento relatado em Ex 20,18-21, onde ao ouvir o som da trombeta e ao ver trovões e relâmpagos e a montanha (o Horeb) em chamas, o povo teve medo e pediu a Moisés que ele fosse a partir de então o seu intermediário, a fim de trazer-lhes a Palavra do Eterno.

A promessa de Deus implica bênção e maldição, tanto para o profeta, quanto para o povo. Com relação ao profeta, Deus lhe dará a Sua Palavra, a qual ele deve transmitir ao povo. Essa é a bênção de Deus para ele. Mas, se ele transmitir em nome de Deus uma Palavra que Deus não lhe falou ou se falar em nome de outros deuses, isso acarretará a sua morte. Eis a maldição que acompanhará a desobediência. Com relação ao povo, este será abençoado pela presença do profeta e, consequentemente, da Palavra do Eterno. Todavia, quem não der ouvidos ao profeta incorrerá no castigo dos desobedientes, que não é mencionado, mas que implica em “dar contas a Deus” da Palavra recebida, não ouvida e nem posta em prática.

O Salmo 94 serve muito bem de resposta a este trecho do Deuteronômio. Ele é chamado de “Salmo Invitatório” porque é um convite a louvar ao Senhor, a ir ao seu encontro. Chama-nos a atenção o v. 8 que: “Se ouvirdes hoje a voz de Deus não endureçais os vossos corações”. O autor sagrado utiliza o verbo endurecer para dizer o que “não deve” acontecer com o nosso coração. Ao recebermos a Palavra de Deus não devemos “endurecer o nosso coração”, ou seja, não devemos fechá-lo, mas devemos deixá-lo aberto, a fim de que a mesma Palavra de Deus possa encontrar em nós acolhida, possa ser ouvida e, é claro, posta em prática.

O Evangelho de hoje também vai nos falar sobre a importância de “escutar” a voz de Jesus. Estamos no início do Evangelho de Marcos, logo depois do chamado dos quatro primeiros discípulos, e Jesus entra na sinagoga, no dia de sábado. Como Mestre que é, Jesus começa a ensinar, e o seu ensinamento causa a “admiração” de todos, porque Jesus ensina com “autoridade” e não como os mestres da Lei.

O termo “autoridade” tem um sentido muito peculiar. Algumas vezes o tomamos de maneira negativa, no sentido de “autoritarismo”. Originalmente, contudo, ele designa alguém que fala “a partir de si mesmo”. Jesus não ensina algo que está fora d’Ele, mas Ele é a própria fonte daquilo o que ele ensina.

Jesus inaugura um novo tempo, que vem marcado pela força da sua Palavra. Um homem possuído por um espírito impuro começa a falar e Jesus, apenas com o poder da sua Palavra, exorciza esse demônio. A vinda de Jesus inaugura o “tempo novo” marcado por uma luta entre o Reino dos Céus e o reino de Satanás, mas esta é uma luta que já está vencida, porque ressuscitando dos mortos, Cristo venceu a morte.

Gostaria de chamar a atenção em primeiro lugar para o fato de o ensinamento de Jesus ser “novo” e “dado com autoridade”. Em que sentido o ensinamento de Jesus é novo? No sentido de que Ele veio como o verdadeiro intérprete de tudo o que Deus, até então, tinha-nos dito através da Escritura do Antigo Testamento. O seu ensinamento é “dado com autoridade” porque ele não fala a partir de algo que está externo a Ele, mas fala a partir de si mesmo. Ele é a Palavra e, por isso, Ele nos fala a partir de si, com autoridade plena, levando-nos a contemplar n’Ele a imagem perfeita das realidades que Ele nos anuncia.

Em segundo lugar seria interessante olhar para a primeira leitura, o salmo e a atitude dos demônios em Mc 1,27 e do vento e do mar em Mc 4,41. Os demônios “obedecem” Jesus, e saem do homem. O vento e o mar “obedecem” Jesus e se acalmam. A primeira leitura e o salmo são um convite a “ouvirmos” e a “obedecermos” a Jesus. O verbo obedecer utilizado por Marcos no seu Evangelho é um composto do verbo ouvir (akouo). Trata-se do verbo hypakouo. Precisamos “ouvir” e “obedecer”, porque senão o nosso ouvir não foi autêntico, àquele que nos fala com “autoridade”, com a autoridade de quem deu sua vida e depois a retomou para nos mostrar que só Ele tem o poder de salvar-nos.

Que a liturgia que celebramos possa subir fervorosa para junto do trono de Deus, a fim de que Ele, pela força do seu Espírito de amor, nos ajude a ouvir com “ouvidos de discípulo” a sua Palavra e que nós a coloquemos em prática todos os dias da nossa vida.

imagem: Rudolf Yelin Elder www.cuvantul-ortodox.ro

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Ouvir e obedecer

01/02/2015 00:00

temp_titleliturgiaaa_30012015093528A Palavra de Deus fala-nos sobre a importância da “escuta”. Na primeira leitura temos um trecho do livro do Deuteronômio onde Deus, pela boca de Moisés, seu servo, comunica ao povo que ele não ficará sem a sua Palavra, porque depois de Moisés Ele há de suscitar um outro profeta, e a esse também o povo deve “escutar”.

Deus poderia falar com cada um, mas Moisés recorda ao povo que esta foi a escolha feita pelo próprio povo no Monte Horeb. O autor sagrado atribui a instituição da profecia ao acontecimento relatado em Ex 20,18-21, onde ao ouvir o som da trombeta e ao ver trovões e relâmpagos e a montanha (o Horeb) em chamas, o povo teve medo e pediu a Moisés que ele fosse a partir de então o seu intermediário, a fim de trazer-lhes a Palavra do Eterno.

A promessa de Deus implica bênção e maldição, tanto para o profeta, quanto para o povo. Com relação ao profeta, Deus lhe dará a Sua Palavra, a qual ele deve transmitir ao povo. Essa é a bênção de Deus para ele. Mas, se ele transmitir em nome de Deus uma Palavra que Deus não lhe falou ou se falar em nome de outros deuses, isso acarretará a sua morte. Eis a maldição que acompanhará a desobediência. Com relação ao povo, este será abençoado pela presença do profeta e, consequentemente, da Palavra do Eterno. Todavia, quem não der ouvidos ao profeta incorrerá no castigo dos desobedientes, que não é mencionado, mas que implica em “dar contas a Deus” da Palavra recebida, não ouvida e nem posta em prática.

O Salmo 94 serve muito bem de resposta a este trecho do Deuteronômio. Ele é chamado de “Salmo Invitatório” porque é um convite a louvar ao Senhor, a ir ao seu encontro. Chama-nos a atenção o v. 8 que: “Se ouvirdes hoje a voz de Deus não endureçais os vossos corações”. O autor sagrado utiliza o verbo endurecer para dizer o que “não deve” acontecer com o nosso coração. Ao recebermos a Palavra de Deus não devemos “endurecer o nosso coração”, ou seja, não devemos fechá-lo, mas devemos deixá-lo aberto, a fim de que a mesma Palavra de Deus possa encontrar em nós acolhida, possa ser ouvida e, é claro, posta em prática.

O Evangelho de hoje também vai nos falar sobre a importância de “escutar” a voz de Jesus. Estamos no início do Evangelho de Marcos, logo depois do chamado dos quatro primeiros discípulos, e Jesus entra na sinagoga, no dia de sábado. Como Mestre que é, Jesus começa a ensinar, e o seu ensinamento causa a “admiração” de todos, porque Jesus ensina com “autoridade” e não como os mestres da Lei.

O termo “autoridade” tem um sentido muito peculiar. Algumas vezes o tomamos de maneira negativa, no sentido de “autoritarismo”. Originalmente, contudo, ele designa alguém que fala “a partir de si mesmo”. Jesus não ensina algo que está fora d’Ele, mas Ele é a própria fonte daquilo o que ele ensina.

Jesus inaugura um novo tempo, que vem marcado pela força da sua Palavra. Um homem possuído por um espírito impuro começa a falar e Jesus, apenas com o poder da sua Palavra, exorciza esse demônio. A vinda de Jesus inaugura o “tempo novo” marcado por uma luta entre o Reino dos Céus e o reino de Satanás, mas esta é uma luta que já está vencida, porque ressuscitando dos mortos, Cristo venceu a morte.

Gostaria de chamar a atenção em primeiro lugar para o fato de o ensinamento de Jesus ser “novo” e “dado com autoridade”. Em que sentido o ensinamento de Jesus é novo? No sentido de que Ele veio como o verdadeiro intérprete de tudo o que Deus, até então, tinha-nos dito através da Escritura do Antigo Testamento. O seu ensinamento é “dado com autoridade” porque ele não fala a partir de algo que está externo a Ele, mas fala a partir de si mesmo. Ele é a Palavra e, por isso, Ele nos fala a partir de si, com autoridade plena, levando-nos a contemplar n’Ele a imagem perfeita das realidades que Ele nos anuncia.

Em segundo lugar seria interessante olhar para a primeira leitura, o salmo e a atitude dos demônios em Mc 1,27 e do vento e do mar em Mc 4,41. Os demônios “obedecem” Jesus, e saem do homem. O vento e o mar “obedecem” Jesus e se acalmam. A primeira leitura e o salmo são um convite a “ouvirmos” e a “obedecermos” a Jesus. O verbo obedecer utilizado por Marcos no seu Evangelho é um composto do verbo ouvir (akouo). Trata-se do verbo hypakouo. Precisamos “ouvir” e “obedecer”, porque senão o nosso ouvir não foi autêntico, àquele que nos fala com “autoridade”, com a autoridade de quem deu sua vida e depois a retomou para nos mostrar que só Ele tem o poder de salvar-nos.

Que a liturgia que celebramos possa subir fervorosa para junto do trono de Deus, a fim de que Ele, pela força do seu Espírito de amor, nos ajude a ouvir com “ouvidos de discípulo” a sua Palavra e que nós a coloquemos em prática todos os dias da nossa vida.

imagem: Rudolf Yelin Elder www.cuvantul-ortodox.ro

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida