Arquidiocese do Rio de Janeiro

28º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/11/2019

19 de Novembro de 2019

O desafio dos bispos hoje

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19 de Novembro de 2019

O desafio dos bispos hoje

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30/01/2015 08:37 - Atualizado em 30/01/2015 08:37

O desafio dos bispos hoje 0

30/01/2015 08:37 - Atualizado em 30/01/2015 08:37

Na bonita e frutuosa convivência de bispos que temos todos os anos no Curso dos Bispos aqui no Rio de Janeiro, no Centro de Estudos e Formação do Sumaré, sempre é um bom momento de refletir sobre a nossa missão enquanto aprofundamos alguns assuntos ligados ao Concílio Vaticano II, que completa o seu jubileu de ouro. A reflexão sobre os documentos “Inter Mirifica”, “Nostra Aetate” e “Dignitatis humanae” foram importantes nessa conclusão da comemoração do Concílio. Nestes cinco anos tivemos a oportunidade de aprofundar os temas dos documentos conciliares. É um desafio para nós bispos nesse tempo de tantas contestações, violência, decadência e incertezas.

Vivemos numa época de profundas e sucessivas mudanças. A Igreja é chamada com coragem, entusiasmo e criatividade a proclamar a mensagem do Evangelho, para que nossos povos tenham vida e a tenham em plenitude, pois o Reino de Jesus é um Reino de Vida. Por isso precisamos de testemunhas transbordantes do Cristo.

Nós somos conscientes de nossos limites, mas não esmorecemos, porque animados pelo mesmo Espírito que impeliu os apóstolos à missão. O Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos “Apostolorum Successores” já nos mostrava a identidade e real missão do bispo, que deve estar inserido no Mistério do Cristo. Na Igreja Católica, o bispo é sucessor dos apóstolos, com a tarefa de se colocar a serviço de uma determinada porção do povo de Deus e, em unidade com o Papa, fazer suas “as preocupações por todas as Igrejas”, como dizia de si mesmo São Paulo (2Cor 11,28). O Papa Bento XVI recordou que somos sinais do Cristo Rei crucificado que vai ao encontro dos desfigurados para levar a verdadeira ressurreição. Por isso mesmo, o bispo deve ser visível princípio de unidade e de comunhão, principalmente com seu clero, que são os seus primeiros colaboradores, proporcionando os verdadeiros fundamentos da Igreja no mundo de hoje, numa continuidade da missão dos Doze no Colégio Episcopal, portanto agindo sempre em comunhão e participação.

A difusão do individualismo, do crescimento do poder dos grandes grupos econômicos têm enfraquecido a política, com riscos para a democracia. Para esse mundo cansado somos chamados a ser sinais de esperança. E já nos preparando para a Campanha da Fraternidade que nos foca na missão da Igreja na sociedade, também promovendo vida na consciência de nosso povo, para que se exija melhorias e um esforço do Estado nos campos da saúde, educação, segurança alimentar, previdência social, acesso à terra e à moradia digna, criação de emprego e apoio a organizações solidárias.

O bispo é o promotor da paz em sua diocese, nesta porção do Povo de Deus que lhe é confiada, deve ser elo de paz e unidade, sinal de paz frente a tantas violências que banalizam a vida, tanto nas periferias das grandes cidades como no campo. Recordo um trecho da Epístola de Santo Inácio de Antioquia aos Filadélfios: “Tende uma só Eucaristia, pois é una a Carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, uno o cálice da unidade de Seu Sangue, uno o altar e uno o bispo com o presbitério e os diáconos”. Poderíamos aprofundar esse tema no Ano da Paz que ora vivemos em nosso país, convocado pela CNBB. Entre as causas da violência estão a exclusão, a idolatria do dinheiro, o individualismo e o utilitarismo, a deteriorização do tecido social, a corrupção no setor público e privado, o tráfico de armas, drogas e pessoas; paraísos fiscais e lavagem de dinheiro. Fatores agravantes são as falências dos sistemas penal e de saúde.

Bispo é aquele que leva a esperança frente a toda desesperança que se apresenta! Enfim, o serviço-diálogo-anúncio-comunhão expressa a pedagogia da evangelização e da missão do bispo hoje. O serviço, que pressupõe o conhecimento dos problemas, anseios, frustrações, alegrias e tristezas dos interlocutores, consiste na inserção social, em vista da libertação integral e da reconciliação. “Um cristão não é dono de si mesmo, e sim que está entregue ao serviço de Deus” (Santo Inácio de Antioquia). O diálogo consiste na abertura e escuta do outro, sempre portador de “sementes do Verbo”. Já o anúncio trata-se da explicitação do testemunho cristão, enquanto proclamação clara da Boa Nova de Jesus Cristo. E a comunhão é o resultado da fé em Jesus Cristo, suscitada, acolhida e partilhada, dando origem a uma comunidade de discípulos missionários, “Tem cuidado pela unidade, pois nada há de melhor” (Santo Inácio de Antioquia).

Hoje ser bispo é testemunhar a fé ao extremo como pai que ouve, com carinho e atenção, os seus filhos e os corrige se necessário, mas os corrige com caridade e para a vida. Vale lembrar as palavras do Papa Francisco, aos 19 de setembro de 2013, quando fala do relacionamento dos bispos e padres: “Quero lembrar-lhes a amizade com os sacerdotes. Eles são as pessoas mais próximas, os primeiros onde buscar conselho e ajuda e os primeiros a quem acompanhar como pais, irmãos e amigos. Uma das tarefas primordiais de vocês deve ser o cuidado espiritual do presbitério e a atenção às necessidades humanas de cada sacerdote, sobretudo nos momentos mais delicados e importantes de seus ministérios e de suas vidas”. Ser bispo é ser pastor, Bom Pastor, Mestre da fé, Guia do seu povo pelo caminho que é Jesus. Nas palavras de Santo Inácio de Antioquia, “Onde quer que se apresente o bispo, aí esteja também a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus nos assegura a presença da Igreja”. (Aos Esmirnenses 8, 2). Em suma, ser bispo é lembrar do antigo provérbio, sempre visto como critério para a escolha de quem deve dirigir uma diocese: “Seja santo para rezar, sábio para ensinar e prudente para governar”.

Nestes dias que compartilhamos a reflexão e amizade no 24º Curso Anual dos Bispos do Brasil, peço a Deus para que a reflexão sobre a comunicação, diálogo com as religiões e a liberdade das religiões nos ajudem ainda mais nessa comunhão e serviço à Igreja em todo o nosso país.

E que tenhamos sempre a oração de intercessão do nosso povo para que “sejamos santos para rezar, sábios para ensinar e prudentes para governar”.

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O desafio dos bispos hoje

30/01/2015 08:37 - Atualizado em 30/01/2015 08:37

Na bonita e frutuosa convivência de bispos que temos todos os anos no Curso dos Bispos aqui no Rio de Janeiro, no Centro de Estudos e Formação do Sumaré, sempre é um bom momento de refletir sobre a nossa missão enquanto aprofundamos alguns assuntos ligados ao Concílio Vaticano II, que completa o seu jubileu de ouro. A reflexão sobre os documentos “Inter Mirifica”, “Nostra Aetate” e “Dignitatis humanae” foram importantes nessa conclusão da comemoração do Concílio. Nestes cinco anos tivemos a oportunidade de aprofundar os temas dos documentos conciliares. É um desafio para nós bispos nesse tempo de tantas contestações, violência, decadência e incertezas.

Vivemos numa época de profundas e sucessivas mudanças. A Igreja é chamada com coragem, entusiasmo e criatividade a proclamar a mensagem do Evangelho, para que nossos povos tenham vida e a tenham em plenitude, pois o Reino de Jesus é um Reino de Vida. Por isso precisamos de testemunhas transbordantes do Cristo.

Nós somos conscientes de nossos limites, mas não esmorecemos, porque animados pelo mesmo Espírito que impeliu os apóstolos à missão. O Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos “Apostolorum Successores” já nos mostrava a identidade e real missão do bispo, que deve estar inserido no Mistério do Cristo. Na Igreja Católica, o bispo é sucessor dos apóstolos, com a tarefa de se colocar a serviço de uma determinada porção do povo de Deus e, em unidade com o Papa, fazer suas “as preocupações por todas as Igrejas”, como dizia de si mesmo São Paulo (2Cor 11,28). O Papa Bento XVI recordou que somos sinais do Cristo Rei crucificado que vai ao encontro dos desfigurados para levar a verdadeira ressurreição. Por isso mesmo, o bispo deve ser visível princípio de unidade e de comunhão, principalmente com seu clero, que são os seus primeiros colaboradores, proporcionando os verdadeiros fundamentos da Igreja no mundo de hoje, numa continuidade da missão dos Doze no Colégio Episcopal, portanto agindo sempre em comunhão e participação.

A difusão do individualismo, do crescimento do poder dos grandes grupos econômicos têm enfraquecido a política, com riscos para a democracia. Para esse mundo cansado somos chamados a ser sinais de esperança. E já nos preparando para a Campanha da Fraternidade que nos foca na missão da Igreja na sociedade, também promovendo vida na consciência de nosso povo, para que se exija melhorias e um esforço do Estado nos campos da saúde, educação, segurança alimentar, previdência social, acesso à terra e à moradia digna, criação de emprego e apoio a organizações solidárias.

O bispo é o promotor da paz em sua diocese, nesta porção do Povo de Deus que lhe é confiada, deve ser elo de paz e unidade, sinal de paz frente a tantas violências que banalizam a vida, tanto nas periferias das grandes cidades como no campo. Recordo um trecho da Epístola de Santo Inácio de Antioquia aos Filadélfios: “Tende uma só Eucaristia, pois é una a Carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, uno o cálice da unidade de Seu Sangue, uno o altar e uno o bispo com o presbitério e os diáconos”. Poderíamos aprofundar esse tema no Ano da Paz que ora vivemos em nosso país, convocado pela CNBB. Entre as causas da violência estão a exclusão, a idolatria do dinheiro, o individualismo e o utilitarismo, a deteriorização do tecido social, a corrupção no setor público e privado, o tráfico de armas, drogas e pessoas; paraísos fiscais e lavagem de dinheiro. Fatores agravantes são as falências dos sistemas penal e de saúde.

Bispo é aquele que leva a esperança frente a toda desesperança que se apresenta! Enfim, o serviço-diálogo-anúncio-comunhão expressa a pedagogia da evangelização e da missão do bispo hoje. O serviço, que pressupõe o conhecimento dos problemas, anseios, frustrações, alegrias e tristezas dos interlocutores, consiste na inserção social, em vista da libertação integral e da reconciliação. “Um cristão não é dono de si mesmo, e sim que está entregue ao serviço de Deus” (Santo Inácio de Antioquia). O diálogo consiste na abertura e escuta do outro, sempre portador de “sementes do Verbo”. Já o anúncio trata-se da explicitação do testemunho cristão, enquanto proclamação clara da Boa Nova de Jesus Cristo. E a comunhão é o resultado da fé em Jesus Cristo, suscitada, acolhida e partilhada, dando origem a uma comunidade de discípulos missionários, “Tem cuidado pela unidade, pois nada há de melhor” (Santo Inácio de Antioquia).

Hoje ser bispo é testemunhar a fé ao extremo como pai que ouve, com carinho e atenção, os seus filhos e os corrige se necessário, mas os corrige com caridade e para a vida. Vale lembrar as palavras do Papa Francisco, aos 19 de setembro de 2013, quando fala do relacionamento dos bispos e padres: “Quero lembrar-lhes a amizade com os sacerdotes. Eles são as pessoas mais próximas, os primeiros onde buscar conselho e ajuda e os primeiros a quem acompanhar como pais, irmãos e amigos. Uma das tarefas primordiais de vocês deve ser o cuidado espiritual do presbitério e a atenção às necessidades humanas de cada sacerdote, sobretudo nos momentos mais delicados e importantes de seus ministérios e de suas vidas”. Ser bispo é ser pastor, Bom Pastor, Mestre da fé, Guia do seu povo pelo caminho que é Jesus. Nas palavras de Santo Inácio de Antioquia, “Onde quer que se apresente o bispo, aí esteja também a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus nos assegura a presença da Igreja”. (Aos Esmirnenses 8, 2). Em suma, ser bispo é lembrar do antigo provérbio, sempre visto como critério para a escolha de quem deve dirigir uma diocese: “Seja santo para rezar, sábio para ensinar e prudente para governar”.

Nestes dias que compartilhamos a reflexão e amizade no 24º Curso Anual dos Bispos do Brasil, peço a Deus para que a reflexão sobre a comunicação, diálogo com as religiões e a liberdade das religiões nos ajudem ainda mais nessa comunhão e serviço à Igreja em todo o nosso país.

E que tenhamos sempre a oração de intercessão do nosso povo para que “sejamos santos para rezar, sábios para ensinar e prudentes para governar”.

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro