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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/08/2018

21 de Agosto de 2018

Vocação Cristã

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18/01/2015 00:00

Vocação Cristã 0

18/01/2015 00:00

A primeira leitura e o Evangelho nos dão sempre a moldura temática pela qual devemos nos orientar na interpretação da Palavra que o Espírito “diz” a Igreja em cada domingo. Neste início do tempo comum temos a imagem marcante do chamado de Samuel. Filho de Ana - aquela que chorando no santuário implorava de Deus um fruto das suas entranhas e que, tendo obtido do Senhor a realização da promessa, consagrara seu Filho a Deus – desde cedo aprendera a conhecer a “voz do Senhor”.

O menino ainda de tenra idade aparece no santuário dormindo junto da Arca de Deus e, ao ser despertado pela voz do próprio Deus, não consegue compreender num primeiro momento do que se trata. Pensa estar sendo chamado por Eli que também só entende depois da terceira vez que se tratava justamente da voz do Senhor. Eli, embora não tenha sabido educar seus filhos, soube no entanto orientar o jovem Samuel a estar de prontidão para ouvir o Senhor. É o velho sacerdote que ensina Samuel a dizer a Deus: “Fala, que o teu servo escuta!”

A leitura termina dizendo que “Samuel não deixou cair por terra nenhuma das palavras do Senhor”. Poderíamos nos deter nesse versículo e diante dele elaborar, quem sabe, um projeto de vida. Na verdade, a vida cristã consiste em abraçar totalmente a Palavra, em não deixá-la cair por terra. É célebre o sermão de Orígenes no qual ele lamente que os fiéis de sua comunidade não tenham para com a Palavra, presença de real de Cristo como lembra a SC 7, o mesmo zelo que tinham para com o Corpo Eucarístico de Cristo. Orígenes afirmava que os fiéis cuidavam para que nada se percebesse do Corpo Eucarístico do Senhor, no que faziam muito bem. Todavia, a Palavra, por sua vez, era completamente derrubada por terra, sem que dela nenhuma migalha os fiéis procurassem reter para si. O mesmo perigo nós corremos.

No ciclo do ano litúrgico nos é oferecida abundantemente a Palavra de Deus. Todavia, se não cuidamos de ouvi-la e colocá-la em prática, de dizermos como Samuel “Fala que teu servo escuta!” ela pode se perder por completo, ou melhor, podemos nós perder por completo a chance de ouvi-la e assimilá-la. E não adianta a desculpa de que poderemos reler a Palavra na nossa casa, porque a força com a qual ela atinge na liturgia é qualitativamente diferente, como podemos verificar em vários números da SC (24, 33 etc.). Também não podemos usar como justificativa o fato de que no próximo ciclo litúrgico ouviremos de novo os mesmos textos. Daqui a três anos as nossas disposições interiores e a vida ao nosso redor estará diferente, portanto a graça será para aquele momento específico. De tudo isso decorre que devemos abraçar sem demora o santo exemplo de Samuel, acolhendo em nosso coração a Palavra e esforçando-nos para que nada dela seja desperdiçado. 

Como nos afirma o Sl 39,7: “Não quiseste sacrifício nem oferta, abriste o meu ouvido; não pediste holocausto nem expiação, e então eu disse: Eis que eu venho.” (Passagem citada segundo a versão da LXX em Hb 10,5-7 “(...) mas formaste-me um corpo...”). Deus quer abrir o nosso ouvido, a fim de que ouçamos e guardemos no coração e coloquemos em prática a sua Palavra.

O Evangelho de hoje também gira em torno do tema da escuta. Por duas vezes aparece o verbo “escutar”. Os primeiros discípulos, se tornam tais a partir de uma atitude de escuta. Aqui nesta perícope encontramos o caso de André, do próprio João evangelista, que não é nomeado, e de Pedro. João e André, antes discípulos de João Batista, ouvem-no dizer que Jesus é “o cordeiro” que tira o pecado do mundo e põe-se a segui-lo e, mais tarde, é Andre quem vai “dizer” a Pedro que acabara de encontrar o Messias. João faz questão de ressaltar neste versículo que André era um dos dois que haviam “escutado” as palavras de João e havia, então, seguido Jesus. O seguimento que acontece em virtude da escuta.

Alguém que chama – um outro que escuta – escutando segue. A escuta de um chamado deve estar na base da vocação cristã. Quem segue Jesus simplesmente por seguir ou quem já se esqueceu do que ouviu no início do seu chamado corre o risco de se tornar um mero fã, ou pior ainda, alguém que quer se servir de Cristo, sob os mais variados aspectos: sejam os fiéis que querem dele milagres, curas e soluções rápidas para seus problemas, sejam os ministros ordenados, que querem se utilizar das necessidades dos fiéis para tornar Jesus um produto de consumo bastante rentável. Esta é a triste realidade de quem segue sem nunca ter ouvido ou de quem já se esqueceu daquilo o que ouviu. Se estamos nesta fase da nossa caminhada é hora de “retornar ao mar de Galiléia” seja lá o que isso pode significar para cada um de nós. Com certeza lá o mesmo ainda passa e chama. Pode ser a nossa hora de ouvir a Palavra que nunca ouvimos ou de escutarmos novamente a que esquecemos, a fim de nos tornamos discípulos verdadeiros, animados por aquilo que ouviram e que desejam comunicar essa boa nova aos outros, como fez André com o príncipe dos Apóstolos.

 

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Vocação Cristã

18/01/2015 00:00

A primeira leitura e o Evangelho nos dão sempre a moldura temática pela qual devemos nos orientar na interpretação da Palavra que o Espírito “diz” a Igreja em cada domingo. Neste início do tempo comum temos a imagem marcante do chamado de Samuel. Filho de Ana - aquela que chorando no santuário implorava de Deus um fruto das suas entranhas e que, tendo obtido do Senhor a realização da promessa, consagrara seu Filho a Deus – desde cedo aprendera a conhecer a “voz do Senhor”.

O menino ainda de tenra idade aparece no santuário dormindo junto da Arca de Deus e, ao ser despertado pela voz do próprio Deus, não consegue compreender num primeiro momento do que se trata. Pensa estar sendo chamado por Eli que também só entende depois da terceira vez que se tratava justamente da voz do Senhor. Eli, embora não tenha sabido educar seus filhos, soube no entanto orientar o jovem Samuel a estar de prontidão para ouvir o Senhor. É o velho sacerdote que ensina Samuel a dizer a Deus: “Fala, que o teu servo escuta!”

A leitura termina dizendo que “Samuel não deixou cair por terra nenhuma das palavras do Senhor”. Poderíamos nos deter nesse versículo e diante dele elaborar, quem sabe, um projeto de vida. Na verdade, a vida cristã consiste em abraçar totalmente a Palavra, em não deixá-la cair por terra. É célebre o sermão de Orígenes no qual ele lamente que os fiéis de sua comunidade não tenham para com a Palavra, presença de real de Cristo como lembra a SC 7, o mesmo zelo que tinham para com o Corpo Eucarístico de Cristo. Orígenes afirmava que os fiéis cuidavam para que nada se percebesse do Corpo Eucarístico do Senhor, no que faziam muito bem. Todavia, a Palavra, por sua vez, era completamente derrubada por terra, sem que dela nenhuma migalha os fiéis procurassem reter para si. O mesmo perigo nós corremos.

No ciclo do ano litúrgico nos é oferecida abundantemente a Palavra de Deus. Todavia, se não cuidamos de ouvi-la e colocá-la em prática, de dizermos como Samuel “Fala que teu servo escuta!” ela pode se perder por completo, ou melhor, podemos nós perder por completo a chance de ouvi-la e assimilá-la. E não adianta a desculpa de que poderemos reler a Palavra na nossa casa, porque a força com a qual ela atinge na liturgia é qualitativamente diferente, como podemos verificar em vários números da SC (24, 33 etc.). Também não podemos usar como justificativa o fato de que no próximo ciclo litúrgico ouviremos de novo os mesmos textos. Daqui a três anos as nossas disposições interiores e a vida ao nosso redor estará diferente, portanto a graça será para aquele momento específico. De tudo isso decorre que devemos abraçar sem demora o santo exemplo de Samuel, acolhendo em nosso coração a Palavra e esforçando-nos para que nada dela seja desperdiçado. 

Como nos afirma o Sl 39,7: “Não quiseste sacrifício nem oferta, abriste o meu ouvido; não pediste holocausto nem expiação, e então eu disse: Eis que eu venho.” (Passagem citada segundo a versão da LXX em Hb 10,5-7 “(...) mas formaste-me um corpo...”). Deus quer abrir o nosso ouvido, a fim de que ouçamos e guardemos no coração e coloquemos em prática a sua Palavra.

O Evangelho de hoje também gira em torno do tema da escuta. Por duas vezes aparece o verbo “escutar”. Os primeiros discípulos, se tornam tais a partir de uma atitude de escuta. Aqui nesta perícope encontramos o caso de André, do próprio João evangelista, que não é nomeado, e de Pedro. João e André, antes discípulos de João Batista, ouvem-no dizer que Jesus é “o cordeiro” que tira o pecado do mundo e põe-se a segui-lo e, mais tarde, é Andre quem vai “dizer” a Pedro que acabara de encontrar o Messias. João faz questão de ressaltar neste versículo que André era um dos dois que haviam “escutado” as palavras de João e havia, então, seguido Jesus. O seguimento que acontece em virtude da escuta.

Alguém que chama – um outro que escuta – escutando segue. A escuta de um chamado deve estar na base da vocação cristã. Quem segue Jesus simplesmente por seguir ou quem já se esqueceu do que ouviu no início do seu chamado corre o risco de se tornar um mero fã, ou pior ainda, alguém que quer se servir de Cristo, sob os mais variados aspectos: sejam os fiéis que querem dele milagres, curas e soluções rápidas para seus problemas, sejam os ministros ordenados, que querem se utilizar das necessidades dos fiéis para tornar Jesus um produto de consumo bastante rentável. Esta é a triste realidade de quem segue sem nunca ter ouvido ou de quem já se esqueceu daquilo o que ouviu. Se estamos nesta fase da nossa caminhada é hora de “retornar ao mar de Galiléia” seja lá o que isso pode significar para cada um de nós. Com certeza lá o mesmo ainda passa e chama. Pode ser a nossa hora de ouvir a Palavra que nunca ouvimos ou de escutarmos novamente a que esquecemos, a fim de nos tornamos discípulos verdadeiros, animados por aquilo que ouviram e que desejam comunicar essa boa nova aos outros, como fez André com o príncipe dos Apóstolos.

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida