Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 10/12/2018

10 de Dezembro de 2018

Homilia Dominical: Cristo Rei

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23/11/2014 00:00

Homilia Dominical: Cristo Rei 0

23/11/2014 00:00

Foi o Papa Pio XI, na sua Encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, quem promulgou a Solenidade que hoje celebramos. São significativas as suas palavras logo no início da mesma Encíclica: “Desde muito tempo se costuma chamar Cristo com o apelativo de Rei, pelo sumo grau de excelência, que tem em modo supereminente entre todas as coisas criadas. De tal modo, de fato, se diz que Ele reina nas mentes dos homens não somente pela eminência do seu pensamento e pela vastidão da sua ciência, mas também porque Ele é a Verdade e é necessário que os homens atinjam e recebam com obediência dele mesmo a Verdade; do mesmo modo, ele reina na vontade dos homens, seja porque nele à santidade da vontade divina corresponde a perfeita integridade e submissão da vontade humana, seja porque com as suas inspirações influi sobre a nossa livre vontade de modo a inflamar-nos em direção às mais nobres coisas. Enfim, Cristo é reconhecido Rei dos Corações em virtude da sua caridade que ultrapassa toda compreensão humana e pela atração da sua mansidão e benignidade: ninguém, de fato, entre os homens foi jamais tão amado e jamais o será no futuro quanto Jesus Cristo.”

Esta Solenidade era, então, celebrada no último domingo do mês de outubro. Com a reforma do calendário litúrgico promovida pelo Vaticano II, a mesma Solenidade passou a ser celebrada no último domingo do Tempo Comum, tornando-se, assim, a coroa de todo o ano litúrgico. Nesse sentido o início e o fim do ano litúrgico se tocam de modo profundamente teológico: começamos o ano preparando os nossos corações para acolher o “Menino” que, na verdade, é “Rei”; terminamos o ano celebrando a realeza do Ressuscitado e esperando a sua segunda vinda como “Rei dos séculos”. Do início ao fim do ano litúrgico é, na verdade, a realeza do Senhor Jesus que nos é recordada.

São significativas as leituras propostas para esta Solenidade neste Ciclo A que ora encerramos. A primeira leitura é um trecho do capítulo 34 do livro de Ezequiel. Este trecho e o Salmo 22, salmo responsorial dessa liturgia, nos colocam em contato com a imagem de Deus que é Rei, mas Rei-Pastor. Deus não é um Rei que simplesmente se assenta sobre o seu trono e aguarda a submissão dos seus súditos. Ele é o Rei-Pastor que vai ao encontro da ovelha, sobretudo da “perdida e da extraviada”, sem deixar, contudo, de cuidar e de vigiar da “gorda e forte” (cf. Ez 34,16).

O pastoreio de Deus, todavia, não está somente nesse plano presente. O Salmo 22 pode ser lido, por nós cristãos, em dois tempos: este presente e aquele escatológico. No sentido presente Deus é o pastor que nos pascenta, que caminho à nossa frente, que nos guia e conduz. No sentido escatológico, Ele é Aquele que há de nos preparar, nas moradas eternas, um grande banquete. O banquete escatológico, como é referido algumas vezes nos profetas (cf. Is 25,6), significa a plenitude de comunhão que haverá entre nós e Deus no mundo futuro.

Como não entrever nesse salmo o que já experimentamos na Eucaristia? Deus já não prepara, por acaso, a casa domingo, uma mesa para nós diante do inimigo? Não se trata aqui, com certeza, de inimigos humanos, mas sim do inimigo das nossas almas, daquele que deseja nos afastar desse banquete escatológico antecipado em cada Eucaristia dominical a fim de que estejamos ainda mais submetidos ao pecado.

O final da primeira leitura, todavia, já nos deixa entrever o que nos será apresentado no Evangelho. Deus, nosso Rei-Pastor é, também, um juiz. Ez 34,17 afirma que Deus vai fazer “justiça” entre uma ovelha e outra, entre carneiros e bodes.

Essa mesma distinção, ou seja, “carneiros e bodes”, aparece na perícope evangélica deste domingo. Jesus está falando da sua vinda gloriosa e apresenta esta vinda como uma vinda de juízo. Ele virá como “Rei”, porque se assentará num “trono glorioso” (cf. Mt 25,31), mas também como pastor, porque fará justiça separando as “ovelhas dos cabritos” (cf. Mt 25,32).

Como será o juízo de Cristo? Ele mesmo diz, afirmando que Ele mesmo, como Rei, interrogará a cada um a respeito de algumas das assim chamadas “obras de misericórdia”. Cada um será perguntado a respeito do seu cuidado com os famintos, com os nus, com os estrangeiros, com os doentes e com os prisioneiros. Nessas cinco categorias de aflitos Jesus como que resume todos aqueles que são necessitados e em cujo socorro devemos ir. O bem feito a estes será como o bem feito ao próprio Cristo. O bem recusado a estes será como o bem recusado ao próprio Cristo. Não só Cristo se identifica com os mais miseráveis, mas também nos mostra que é através do serviço aos irmãos, sobretudo daqueles mais necessitados, que conseguimos que nos seja aberta a porta da eternidade.

Poderíamos nos perguntar: mas, por que este juízo será assim? Por que o Senhor Jesus se baseará no bem feito ao próximo? E por que justamente aos famintos, aos nus, aos estrangeiros, aos doentes e aos prisioneiros? Acredito que é porque essas cinco categorias resumem o que nós somos e o que Cristo fez por nós. Casa um de nós é um faminto, um nu, um estrangeiro, um doente e um prisioneiro. Somos famintos de justiça, nus em virtude do pecado, estrangeiros nesse mundo, doentes e prisioneiros das nossas paixões. Mas Cristo nos visita e cuida de todas essas necessidades. Nós, se queremos entrar na vida eterna, devemos nos tornar semelhantes ao Cristo, e isto se dá de forma sublime quando servimos ao próximo como Ele mesmo nos serve. Cristo se apresenta, assim, como o Rei-Pastor e como o Rei-Servo, que veio “dar a sua vida” (cf. Mc 10,45), que veio “servir e não ser servido” (Mt 20,28).

Por fim, é interessante chamar a atenção para a segunda leitura, principalmente para o texto de 1Cor 15,28, quando Paulo afirma: “E, quanto todas as coisas estiverem submetidas a ele (Cristo), então o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos”. Esse versículo foi causa de muita dissensão na Igreja primitiva. O que Paulo quer dizer quando fala que Cristo se submeterá ao Pai? Os exegetas entendem essa passagem primeiro sob a ótica da relação Pai-Filho. Não é comum em Paulo usar o epíteto “Filho” para se referir ao Cristo Ressuscitado. Por isso, o uso desse epíteto aqui posto ao lado da expressão “aquele que lhe submeteu todas as coisas”, onde nós podemos subentender “o Pai”, chama a atenção. Paulo não quer afirmar, é claro, que o Filho é menos que o Pai, mas sim enfatizar que a missão do Filho desemboca na missão do Pai. A atuação terrena do Filho é parte do grande projeto salvífico do Pai ao qual o Filho, desde toda a eternidade, sempre se submeteu na sua atitude de plena obediência ao desígnio paterno. Do mesmo modo, a expressão “Deus será tudo em todos”, não pode jamais ser entendida em sentido panteísta. Alguns exegetas falam aqui de “panenteísmo paulino”, para afastar justamente o sentido dessa expressão de qualquer compreensão panteísta. Deus será tudo em todos significa que tudo estará submetido ao desígnio amoroso do Pai, mas os homens não se “diluirão” nele, perdendo sua consciência e individualidade.

Solenidade de Cristo Rei – 23.11.2014

Ez 34, 11-12.15-17
Sl 22 (23)
1Cor 15,20-26.28
Mt 25, 31-46

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Foi o Papa Pio XI, na sua Encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, quem promulgou a Solenidade que hoje celebramos. São significativas as suas palavras logo no início da mesma Encíclica: “Desde muito tempo se costuma chamar Cristo com o apelativo de Rei, pelo sumo grau de excelência, que tem em modo supereminente entre todas as coisas criadas. De tal modo, de fato, se diz que Ele reina nas mentes dos homens não somente pela eminência do seu pensamento e pela vastidão da sua ciência, mas também porque Ele é a Verdade e é necessário que os homens atinjam e recebam com obediência dele mesmo a Verdade; do mesmo modo, ele reina na vontade dos homens, seja porque nele à santidade da vontade divina corresponde a perfeita integridade e submissão da vontade humana, seja porque com as suas inspirações influi sobre a nossa livre vontade de modo a inflamar-nos em direção às mais nobres coisas. Enfim, Cristo é reconhecido Rei dos Corações em virtude da sua caridade que ultrapassa toda compreensão humana e pela atração da sua mansidão e benignidade: ninguém, de fato, entre os homens foi jamais tão amado e jamais o será no futuro quanto Jesus Cristo.”

Esta Solenidade era, então, celebrada no último domingo do mês de outubro. Com a reforma do calendário litúrgico promovida pelo Vaticano II, a mesma Solenidade passou a ser celebrada no último domingo do Tempo Comum, tornando-se, assim, a coroa de todo o ano litúrgico. Nesse sentido o início e o fim do ano litúrgico se tocam de modo profundamente teológico: começamos o ano preparando os nossos corações para acolher o “Menino” que, na verdade, é “Rei”; terminamos o ano celebrando a realeza do Ressuscitado e esperando a sua segunda vinda como “Rei dos séculos”. Do início ao fim do ano litúrgico é, na verdade, a realeza do Senhor Jesus que nos é recordada.

São significativas as leituras propostas para esta Solenidade neste Ciclo A que ora encerramos. A primeira leitura é um trecho do capítulo 34 do livro de Ezequiel. Este trecho e o Salmo 22, salmo responsorial dessa liturgia, nos colocam em contato com a imagem de Deus que é Rei, mas Rei-Pastor. Deus não é um Rei que simplesmente se assenta sobre o seu trono e aguarda a submissão dos seus súditos. Ele é o Rei-Pastor que vai ao encontro da ovelha, sobretudo da “perdida e da extraviada”, sem deixar, contudo, de cuidar e de vigiar da “gorda e forte” (cf. Ez 34,16).

O pastoreio de Deus, todavia, não está somente nesse plano presente. O Salmo 22 pode ser lido, por nós cristãos, em dois tempos: este presente e aquele escatológico. No sentido presente Deus é o pastor que nos pascenta, que caminho à nossa frente, que nos guia e conduz. No sentido escatológico, Ele é Aquele que há de nos preparar, nas moradas eternas, um grande banquete. O banquete escatológico, como é referido algumas vezes nos profetas (cf. Is 25,6), significa a plenitude de comunhão que haverá entre nós e Deus no mundo futuro.

Como não entrever nesse salmo o que já experimentamos na Eucaristia? Deus já não prepara, por acaso, a casa domingo, uma mesa para nós diante do inimigo? Não se trata aqui, com certeza, de inimigos humanos, mas sim do inimigo das nossas almas, daquele que deseja nos afastar desse banquete escatológico antecipado em cada Eucaristia dominical a fim de que estejamos ainda mais submetidos ao pecado.

O final da primeira leitura, todavia, já nos deixa entrever o que nos será apresentado no Evangelho. Deus, nosso Rei-Pastor é, também, um juiz. Ez 34,17 afirma que Deus vai fazer “justiça” entre uma ovelha e outra, entre carneiros e bodes.

Essa mesma distinção, ou seja, “carneiros e bodes”, aparece na perícope evangélica deste domingo. Jesus está falando da sua vinda gloriosa e apresenta esta vinda como uma vinda de juízo. Ele virá como “Rei”, porque se assentará num “trono glorioso” (cf. Mt 25,31), mas também como pastor, porque fará justiça separando as “ovelhas dos cabritos” (cf. Mt 25,32).

Como será o juízo de Cristo? Ele mesmo diz, afirmando que Ele mesmo, como Rei, interrogará a cada um a respeito de algumas das assim chamadas “obras de misericórdia”. Cada um será perguntado a respeito do seu cuidado com os famintos, com os nus, com os estrangeiros, com os doentes e com os prisioneiros. Nessas cinco categorias de aflitos Jesus como que resume todos aqueles que são necessitados e em cujo socorro devemos ir. O bem feito a estes será como o bem feito ao próprio Cristo. O bem recusado a estes será como o bem recusado ao próprio Cristo. Não só Cristo se identifica com os mais miseráveis, mas também nos mostra que é através do serviço aos irmãos, sobretudo daqueles mais necessitados, que conseguimos que nos seja aberta a porta da eternidade.

Poderíamos nos perguntar: mas, por que este juízo será assim? Por que o Senhor Jesus se baseará no bem feito ao próximo? E por que justamente aos famintos, aos nus, aos estrangeiros, aos doentes e aos prisioneiros? Acredito que é porque essas cinco categorias resumem o que nós somos e o que Cristo fez por nós. Casa um de nós é um faminto, um nu, um estrangeiro, um doente e um prisioneiro. Somos famintos de justiça, nus em virtude do pecado, estrangeiros nesse mundo, doentes e prisioneiros das nossas paixões. Mas Cristo nos visita e cuida de todas essas necessidades. Nós, se queremos entrar na vida eterna, devemos nos tornar semelhantes ao Cristo, e isto se dá de forma sublime quando servimos ao próximo como Ele mesmo nos serve. Cristo se apresenta, assim, como o Rei-Pastor e como o Rei-Servo, que veio “dar a sua vida” (cf. Mc 10,45), que veio “servir e não ser servido” (Mt 20,28).

Por fim, é interessante chamar a atenção para a segunda leitura, principalmente para o texto de 1Cor 15,28, quando Paulo afirma: “E, quanto todas as coisas estiverem submetidas a ele (Cristo), então o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos”. Esse versículo foi causa de muita dissensão na Igreja primitiva. O que Paulo quer dizer quando fala que Cristo se submeterá ao Pai? Os exegetas entendem essa passagem primeiro sob a ótica da relação Pai-Filho. Não é comum em Paulo usar o epíteto “Filho” para se referir ao Cristo Ressuscitado. Por isso, o uso desse epíteto aqui posto ao lado da expressão “aquele que lhe submeteu todas as coisas”, onde nós podemos subentender “o Pai”, chama a atenção. Paulo não quer afirmar, é claro, que o Filho é menos que o Pai, mas sim enfatizar que a missão do Filho desemboca na missão do Pai. A atuação terrena do Filho é parte do grande projeto salvífico do Pai ao qual o Filho, desde toda a eternidade, sempre se submeteu na sua atitude de plena obediência ao desígnio paterno. Do mesmo modo, a expressão “Deus será tudo em todos”, não pode jamais ser entendida em sentido panteísta. Alguns exegetas falam aqui de “panenteísmo paulino”, para afastar justamente o sentido dessa expressão de qualquer compreensão panteísta. Deus será tudo em todos significa que tudo estará submetido ao desígnio amoroso do Pai, mas os homens não se “diluirão” nele, perdendo sua consciência e individualidade.

Solenidade de Cristo Rei – 23.11.2014

Ez 34, 11-12.15-17
Sl 22 (23)
1Cor 15,20-26.28
Mt 25, 31-46

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida