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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/04/2021

13 de Abril de 2021

O Haiti é aqui!

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05/08/2014 18:25 - Atualizado em 05/08/2014 18:38

O Haiti é aqui! 0

05/08/2014 18:25 - Atualizado em 05/08/2014 18:38

O Haiti é aqui! / Arqrio

O projeto “Alimente a Esperança. Ajude o Haiti” quer ser um momento forte dentro do Ano Arquidiocesano da Caridade, no Rio de Janeiro. Fazendo a ligação entre as celebrações do primeiro aniversário da Jornada Mundial da Juventude e a festa da Exaltação da Santa Cruz, é um forte convite à partilha e à gratuidade. O período é pequeno para uma proposta tão grande. São apenas 51 dias para se olhar em direção a uma realidade bem específica e, a partir dela, confirmar o compromisso cristão por todos os que sofrem, estejam onde estiverem.

A escolha do Haiti aconteceu tão rapidamente que é possível vê-la como indicação do Espírito à Igreja do Rio de Janeiro. Alguém comentou sobre um trabalho pastoral e caritativo feito naquele país, o assunto foi levado a uma reunião do governo arquidiocesano e, após breve descrição, ninguém mais tinha perguntas, não havia questionamentos. Todos desejavam apenas agir para chegarmos ao mínimo de dez toneladas de alimentos não perecíveis, com destaque para leite em pó, feijão, açúcar e fubá. Este será o gesto concreto dos cariocas no Ano da Caridade e em agradecimento ao grande dom da Jornada Mundial da Juventude.

Foram colocadas diante de nós inúmeras pontes para a prática do amor ao próximo. Temos a ação da Igreja, sempre presente junto àqueles irmãos sofridos do Haiti. Temos as condições necessárias para o transporte e a entrega garantida de tão grande quantidade de alimentos. Temos quem distribuirá aos efetivamente necessitados, fazendo, nessa distribuição, o milagre do multiplicar. Faltam apenas os alimentos. Assim como, na Jornada Mundial da Juventude, pudemos sentir a presença de Deus a nos conduzir, proteger e orientar. É inegável dizer que o Senhor nos convida a testemunhar a força do Evangelho, que não enxerga distâncias nem destaca dificuldades como motivo para não agir.

Igualmente rápida têm sido a aceitação e a vontade de participar, seja no nível individual, em que cada pessoa vai dizendo a conhecida frase “pode contar comigo”, seja no nível institucional, em que diversas entidades, em poucos dias, têm manifestado interesse em participar. Já foram marcadas reuniões e identificadas possíveis ramificações desse alimentar a esperança. Algumas instituições de ensino já se mostraram interessadas em participar, contribuindo, por exemplo, para uma conversa atualizada sobre as causas daquela situação.

Algumas pessoas perguntam o motivo de se ter escolhido o Haiti, um país distante. Ele é mais conhecido por causa do terremoto ocorrido em 2010, quando morreu tanta gente, inclusive a Dra. Zilda Arns, a brasileira que ali se encontrava exatamente para fortalecer o trabalho em prol da erradicação de uma tragédia tão grande quanto a fome. Também costumamos ouvir falar do Haiti por causa da atuação dos militares brasileiros, carinhosamente chamados pelos haitianos de bombagai, que, traduzindo, quer dizer gente boa ou bondosa, gente que pratica o bem. Fora isso, muito pouco ouvimos falar do Haiti. Por isso, as perguntas: por que o Haiti, se existe fome bem perto de nós? As dez toneladas vão acabar com a fome naquele país? Quem garante que os alimentos vão realmente chegar aos necessitados?

Estas e outras perguntas mostram que estamos interessados na proposta. Se não fosse assim, nem mesmo estas questões seriam apresentadas. O silêncio que brota dos corações congelados pela indiferença é pior que as dúvidas sobre a viabilidade ou o sucesso de uma proposta. É claro que temos fome ao nosso lado. O perigo consiste em nos acostumarmos a essa triste realidade e nem mais olhar para ela. O distante Haiti foi escolhido para que, através de um grito de socorro, vindo de tão longe e com tanta força, nos coloquemos em contínuo estado de missão e solidariedade junto aos que estão sofrendo, estejam onde estiverem.

temp_titleIMG_20140729_WA0003_29072014191227Os cristãos não têm fronteiras porque o Evangelho não tem fronteiras. A família do cristão é o mundo inteiro. Todos são nossos irmãos e irmãs, independentemente de qualquer outra condição. Fome não tem nacionalidade. Fome não entende de geografia. Fome é tragédia crônica. Diante dela, não há brasileiro nem haitiano, intelectual ou de poucas letras, jovem ou idoso. Quando a fome chega, interrompem-se as digressões, amenizam-se os questionamentos e se unem as forças. A fome interpela nossa gratuidade.

É verdade que o Haiti é aqui, mas não apenas o aqui de nossa cidade, de nossas ruas ou, quem sabe, de nossas casas. O Haiti é inicialmente o aqui dos nossos corações, convidados, neste gesto concreto do Ano da Caridade e em agradecimento pela Jornada Mundial da Juventude, a ouvir o grito faminto que vem de longe. Se queremos olhar para aqui – e assim devemos também fazer –, precisamos começar olhando para o aqui bem dentro de nós, onde o amor de Deus quer e pode fazer tanto, mas também onde, se o pecado ingressa e faz morada, a indiferença de quem se acostumou a conviver com o sofrimento alheio simplesmente apaga a luz e vai dormir tranquila.

A meta de no mínimo dez toneladas nos desafia não apenas pela quantidade de alimentos a serem recolhidos. Estes alimentos querem ser a ponta de um conjunto de ações que saltam do imediato socorro ao olhar consciente a respeito das causas e das possibilidades de solução. Quer pensar, por exemplo, nos motivos de ainda existir fome diante de tanto avanço científico e tecnológico. Quer pensar sobre o sentido profundo dessa tal de globalização, que, no dizer do Papa Francisco, não pode ser a globalização da indiferença, porém da solidariedade. Quer perguntar ao mundo porque se investe tanto em armas, quando a Palavra de Deus convida a transformar as espadas em arados (cf Is. 2,4).

Quanta coisa podemos fazer para alimentar a esperança! São apenas 51 dias, mas somos ao redor de 6 milhões de cariocas. É só fazer a conta: um quilo de cada carioca. Temos nossas dificuldades e o orçamento costuma ser apertado. É só seguir o conselho que, no Ano da Caridade, a Igreja do Rio de Janeiro buscou no Evangelho: o jejum, prática sempre atual, de quem, por um dia, escolhe experimentar em si o que muitos experimentam todos os dias sem terem outra escolha a não ser, no caso do Haiti, o pó da terra para colocar no estômago.

 

 

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05/08/2014 18:25 - Atualizado em 05/08/2014 18:38

O projeto “Alimente a Esperança. Ajude o Haiti” quer ser um momento forte dentro do Ano Arquidiocesano da Caridade, no Rio de Janeiro. Fazendo a ligação entre as celebrações do primeiro aniversário da Jornada Mundial da Juventude e a festa da Exaltação da Santa Cruz, é um forte convite à partilha e à gratuidade. O período é pequeno para uma proposta tão grande. São apenas 51 dias para se olhar em direção a uma realidade bem específica e, a partir dela, confirmar o compromisso cristão por todos os que sofrem, estejam onde estiverem.

A escolha do Haiti aconteceu tão rapidamente que é possível vê-la como indicação do Espírito à Igreja do Rio de Janeiro. Alguém comentou sobre um trabalho pastoral e caritativo feito naquele país, o assunto foi levado a uma reunião do governo arquidiocesano e, após breve descrição, ninguém mais tinha perguntas, não havia questionamentos. Todos desejavam apenas agir para chegarmos ao mínimo de dez toneladas de alimentos não perecíveis, com destaque para leite em pó, feijão, açúcar e fubá. Este será o gesto concreto dos cariocas no Ano da Caridade e em agradecimento ao grande dom da Jornada Mundial da Juventude.

Foram colocadas diante de nós inúmeras pontes para a prática do amor ao próximo. Temos a ação da Igreja, sempre presente junto àqueles irmãos sofridos do Haiti. Temos as condições necessárias para o transporte e a entrega garantida de tão grande quantidade de alimentos. Temos quem distribuirá aos efetivamente necessitados, fazendo, nessa distribuição, o milagre do multiplicar. Faltam apenas os alimentos. Assim como, na Jornada Mundial da Juventude, pudemos sentir a presença de Deus a nos conduzir, proteger e orientar. É inegável dizer que o Senhor nos convida a testemunhar a força do Evangelho, que não enxerga distâncias nem destaca dificuldades como motivo para não agir.

Igualmente rápida têm sido a aceitação e a vontade de participar, seja no nível individual, em que cada pessoa vai dizendo a conhecida frase “pode contar comigo”, seja no nível institucional, em que diversas entidades, em poucos dias, têm manifestado interesse em participar. Já foram marcadas reuniões e identificadas possíveis ramificações desse alimentar a esperança. Algumas instituições de ensino já se mostraram interessadas em participar, contribuindo, por exemplo, para uma conversa atualizada sobre as causas daquela situação.

Algumas pessoas perguntam o motivo de se ter escolhido o Haiti, um país distante. Ele é mais conhecido por causa do terremoto ocorrido em 2010, quando morreu tanta gente, inclusive a Dra. Zilda Arns, a brasileira que ali se encontrava exatamente para fortalecer o trabalho em prol da erradicação de uma tragédia tão grande quanto a fome. Também costumamos ouvir falar do Haiti por causa da atuação dos militares brasileiros, carinhosamente chamados pelos haitianos de bombagai, que, traduzindo, quer dizer gente boa ou bondosa, gente que pratica o bem. Fora isso, muito pouco ouvimos falar do Haiti. Por isso, as perguntas: por que o Haiti, se existe fome bem perto de nós? As dez toneladas vão acabar com a fome naquele país? Quem garante que os alimentos vão realmente chegar aos necessitados?

Estas e outras perguntas mostram que estamos interessados na proposta. Se não fosse assim, nem mesmo estas questões seriam apresentadas. O silêncio que brota dos corações congelados pela indiferença é pior que as dúvidas sobre a viabilidade ou o sucesso de uma proposta. É claro que temos fome ao nosso lado. O perigo consiste em nos acostumarmos a essa triste realidade e nem mais olhar para ela. O distante Haiti foi escolhido para que, através de um grito de socorro, vindo de tão longe e com tanta força, nos coloquemos em contínuo estado de missão e solidariedade junto aos que estão sofrendo, estejam onde estiverem.

temp_titleIMG_20140729_WA0003_29072014191227Os cristãos não têm fronteiras porque o Evangelho não tem fronteiras. A família do cristão é o mundo inteiro. Todos são nossos irmãos e irmãs, independentemente de qualquer outra condição. Fome não tem nacionalidade. Fome não entende de geografia. Fome é tragédia crônica. Diante dela, não há brasileiro nem haitiano, intelectual ou de poucas letras, jovem ou idoso. Quando a fome chega, interrompem-se as digressões, amenizam-se os questionamentos e se unem as forças. A fome interpela nossa gratuidade.

É verdade que o Haiti é aqui, mas não apenas o aqui de nossa cidade, de nossas ruas ou, quem sabe, de nossas casas. O Haiti é inicialmente o aqui dos nossos corações, convidados, neste gesto concreto do Ano da Caridade e em agradecimento pela Jornada Mundial da Juventude, a ouvir o grito faminto que vem de longe. Se queremos olhar para aqui – e assim devemos também fazer –, precisamos começar olhando para o aqui bem dentro de nós, onde o amor de Deus quer e pode fazer tanto, mas também onde, se o pecado ingressa e faz morada, a indiferença de quem se acostumou a conviver com o sofrimento alheio simplesmente apaga a luz e vai dormir tranquila.

A meta de no mínimo dez toneladas nos desafia não apenas pela quantidade de alimentos a serem recolhidos. Estes alimentos querem ser a ponta de um conjunto de ações que saltam do imediato socorro ao olhar consciente a respeito das causas e das possibilidades de solução. Quer pensar, por exemplo, nos motivos de ainda existir fome diante de tanto avanço científico e tecnológico. Quer pensar sobre o sentido profundo dessa tal de globalização, que, no dizer do Papa Francisco, não pode ser a globalização da indiferença, porém da solidariedade. Quer perguntar ao mundo porque se investe tanto em armas, quando a Palavra de Deus convida a transformar as espadas em arados (cf Is. 2,4).

Quanta coisa podemos fazer para alimentar a esperança! São apenas 51 dias, mas somos ao redor de 6 milhões de cariocas. É só fazer a conta: um quilo de cada carioca. Temos nossas dificuldades e o orçamento costuma ser apertado. É só seguir o conselho que, no Ano da Caridade, a Igreja do Rio de Janeiro buscou no Evangelho: o jejum, prática sempre atual, de quem, por um dia, escolhe experimentar em si o que muitos experimentam todos os dias sem terem outra escolha a não ser, no caso do Haiti, o pó da terra para colocar no estômago.

 

 

Dom Joel Portella Amado
Autor

Dom Joel Portella Amado

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro