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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 26/05/2017

26 de Maio de 2017

A polêmica, o diálogo, a balela

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A polêmica, o diálogo, a balela

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27/07/2014 00:00 - Atualizado em 30/07/2014 18:44

A polêmica, o diálogo, a balela 1

27/07/2014 00:00 - Atualizado em 30/07/2014 18:44

Não só o diálogo é frutuoso para o conhecimento e a existência. Também a polêmica. Inclusive para o debate cultural, filosófico e até religioso. Há quem viva dele e para ele.

Parece fácil definir a polêmica. Ao grosso modo, é o debate oral e escrito. Portanto, discursivo. Supõe e até exige controvérsia e questionamento. O mínimo de inteligência.  Muitas vezes, réplica e tréplica, e por aí vai. Há quem polemize a vida toda até morrer. Com a morte, o silêncio.

É possível definir o diálogo, mesmo sem o recurso ao dicionário, enquanto fala ou escrita entre dois.  É também  discursivo. Sempre em conversação ou forma teatral. Difícil é o diálogo que corresponda à verdade em si, ou dos fatos, ou das intenções. Na filosofia parece que, desde o posicionamento dialogal platônico, se quer alcançar à presunção da verdade, seja ela qual for, através da polêmica. Dialogar não passaria de método dialético de expressão. Na conversação, até os sofistas são postos.  

O século 20 foi marcado por duas grandes guerras e outras menores, inclusive a guerra fria. A primeira a cem anos atrás. Convivemos com duas ideologias que se opuseram e até influenciaram a Igreja Católica pós-conciliar, gerando sofrimentos.  A do conflito a qualquer preço, baseada nas diversas formas de pensamento hegeliano e marxista, e a do diálogo a todo custo, movida pelo ideal cooperativista. A Igreja no Concílio Vaticano II optou pelo diálogo, motivada pelo Evangelho e o chamado “sinal dos tempos”.  O problema é que o próprio amor é gerador de conflitos. Que o diga Jesus, profeta da paz, considerado “sinal de contradição” (Lc 2, 34), cuja mensagem é cheia de paradoxos linguísticos, nem sempre dialogantes. Ele disse: “Pensais que vim para estabelecer a paz sobre a Terra? Não, eu vos digo, mas a divisão” (Lc 12, 49). Também suas atitudes foram polêmicas ou provocadoras. Geraram conflitos de interpretações. Em parte, conduziram-no à morte de cruz.

Tais reflexões ocorrem diante da polêmica, mais uma vez envolvendo a arquidiocese, o Cristo Redentor do Corcovado e a liberdade de expressão artística e cultural. Não precisamos entrar em detalhes conhecidos. Necessitamos, sim, ilustrar o que para muitos é ainda desconhecido. A Igreja, de fato, decidiu escolher o diálogo como atitude pastoral. Entretanto, só possui cerca de 50 anos de prática dialogante. Engatinha. O próprio diálogo, dentro e fora da Igreja, enquanto conteúdo teórico e prático ainda está se construindo. É pouco para uma instituição de dois mil anos. Isto explica, mas não justifica erros e acertos, idas e vindas, no ato de dialogar e até no de polemizar, quando precisa.

Verdade seja dita: antes do Concílio, a Igreja oficial polemizava contra os erros do mundo moderno. Sua posição era de ataque e de defesa. Apologética. Por sua vez, o mundo moderno inaugurara a polêmica contra ela, em todas as frentes de combate, desde o Século das Luzes. Houve quem estivesse determinado em destruí-la. A rejeição se tornara sistemática e implacável. Portanto, o estranhamento se fizera recíproco. Entende-se por que, quando hoje se discorda de ensinamentos da Igreja ou de atitudes de alguns de seus líderes, logo há quem se volte aos fatos de intolerância reprováveis de sua história, sem considerar o quanto a ela se deve de civilizatório e de humanitário.  

Em muitos setores, no mundo contemporâneo retornam as suspeitas contra a Igreja, que se comprovam quando há discordâncias. Abrem-se as feridas.  O diálogo que ela propõe parece, então, ser mais estratégico do que verdadeiro. No entanto, a pastoral eclesial não vive de estratégias, mas da verdade de intenções e de ações, ainda que dependam do preparo, despreparo e limitação das pessoas. Quanto à polêmica, é claro que para o artista e o homem contemporâneo, a arte não pode ser censurada. É fina a sensibilidade do criador diante da obra. O belo toca e é tocado pelo sublime. Exige reverência, mais que aplauso.  Também o religioso toca e é tocado pela sublimidade do belo, sem o qual a mediação do Sagrado, que é inefável, ofusca-se. Pior, emudece. A beleza de Cristo resplandece também na arte sacra e litúrgica e devocional. Em Maria, nos anjos e santos. Na sagrada liturgia. Pela sutil diferença entre o artista e o religioso, é possível o reencontro no diálogo do mútuo reconhecimento desejável.  Além da polêmica e a tempo. O resto é pura discussão e balela.

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Comentários (1)

Mauro Carvalho Aug 1st 2014, 10:17

Dom Edson, a sua benção. Fomos informados através do Globo sobre a ameaça de retomada do Cristo Redentor pelo governo Dilma feita contra a Arquediocese do RJ. Estaremos informando as grandes comunidades católicas espalhadas pelo país o autoritarismo federal sobre o Santuário. Do PT não poderíamos esperar outra atitude. Graça e Paz Mauro Carvalho ENS Graça e Paz

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A polêmica, o diálogo, a balela

27/07/2014 00:00 - Atualizado em 30/07/2014 18:44

Não só o diálogo é frutuoso para o conhecimento e a existência. Também a polêmica. Inclusive para o debate cultural, filosófico e até religioso. Há quem viva dele e para ele.

Parece fácil definir a polêmica. Ao grosso modo, é o debate oral e escrito. Portanto, discursivo. Supõe e até exige controvérsia e questionamento. O mínimo de inteligência.  Muitas vezes, réplica e tréplica, e por aí vai. Há quem polemize a vida toda até morrer. Com a morte, o silêncio.

É possível definir o diálogo, mesmo sem o recurso ao dicionário, enquanto fala ou escrita entre dois.  É também  discursivo. Sempre em conversação ou forma teatral. Difícil é o diálogo que corresponda à verdade em si, ou dos fatos, ou das intenções. Na filosofia parece que, desde o posicionamento dialogal platônico, se quer alcançar à presunção da verdade, seja ela qual for, através da polêmica. Dialogar não passaria de método dialético de expressão. Na conversação, até os sofistas são postos.  

O século 20 foi marcado por duas grandes guerras e outras menores, inclusive a guerra fria. A primeira a cem anos atrás. Convivemos com duas ideologias que se opuseram e até influenciaram a Igreja Católica pós-conciliar, gerando sofrimentos.  A do conflito a qualquer preço, baseada nas diversas formas de pensamento hegeliano e marxista, e a do diálogo a todo custo, movida pelo ideal cooperativista. A Igreja no Concílio Vaticano II optou pelo diálogo, motivada pelo Evangelho e o chamado “sinal dos tempos”.  O problema é que o próprio amor é gerador de conflitos. Que o diga Jesus, profeta da paz, considerado “sinal de contradição” (Lc 2, 34), cuja mensagem é cheia de paradoxos linguísticos, nem sempre dialogantes. Ele disse: “Pensais que vim para estabelecer a paz sobre a Terra? Não, eu vos digo, mas a divisão” (Lc 12, 49). Também suas atitudes foram polêmicas ou provocadoras. Geraram conflitos de interpretações. Em parte, conduziram-no à morte de cruz.

Tais reflexões ocorrem diante da polêmica, mais uma vez envolvendo a arquidiocese, o Cristo Redentor do Corcovado e a liberdade de expressão artística e cultural. Não precisamos entrar em detalhes conhecidos. Necessitamos, sim, ilustrar o que para muitos é ainda desconhecido. A Igreja, de fato, decidiu escolher o diálogo como atitude pastoral. Entretanto, só possui cerca de 50 anos de prática dialogante. Engatinha. O próprio diálogo, dentro e fora da Igreja, enquanto conteúdo teórico e prático ainda está se construindo. É pouco para uma instituição de dois mil anos. Isto explica, mas não justifica erros e acertos, idas e vindas, no ato de dialogar e até no de polemizar, quando precisa.

Verdade seja dita: antes do Concílio, a Igreja oficial polemizava contra os erros do mundo moderno. Sua posição era de ataque e de defesa. Apologética. Por sua vez, o mundo moderno inaugurara a polêmica contra ela, em todas as frentes de combate, desde o Século das Luzes. Houve quem estivesse determinado em destruí-la. A rejeição se tornara sistemática e implacável. Portanto, o estranhamento se fizera recíproco. Entende-se por que, quando hoje se discorda de ensinamentos da Igreja ou de atitudes de alguns de seus líderes, logo há quem se volte aos fatos de intolerância reprováveis de sua história, sem considerar o quanto a ela se deve de civilizatório e de humanitário.  

Em muitos setores, no mundo contemporâneo retornam as suspeitas contra a Igreja, que se comprovam quando há discordâncias. Abrem-se as feridas.  O diálogo que ela propõe parece, então, ser mais estratégico do que verdadeiro. No entanto, a pastoral eclesial não vive de estratégias, mas da verdade de intenções e de ações, ainda que dependam do preparo, despreparo e limitação das pessoas. Quanto à polêmica, é claro que para o artista e o homem contemporâneo, a arte não pode ser censurada. É fina a sensibilidade do criador diante da obra. O belo toca e é tocado pelo sublime. Exige reverência, mais que aplauso.  Também o religioso toca e é tocado pela sublimidade do belo, sem o qual a mediação do Sagrado, que é inefável, ofusca-se. Pior, emudece. A beleza de Cristo resplandece também na arte sacra e litúrgica e devocional. Em Maria, nos anjos e santos. Na sagrada liturgia. Pela sutil diferença entre o artista e o religioso, é possível o reencontro no diálogo do mútuo reconhecimento desejável.  Além da polêmica e a tempo. O resto é pura discussão e balela.

Dom Edson de Castro Homem
Autor

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro