Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 25/06/2017

25 de Junho de 2017

Narrativa fascinante

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04/05/2014 00:00

Narrativa fascinante 0

04/05/2014 00:00

A liturgia do terceiro domingo da Páscoa nos apresenta a aparição do Senhor Ressuscitado aos discípulos de Emaús. O episódio é exclusivo de Lucas (24,13-15). A narrativa nos fascina pela beleza da cena e pela convergência de significados. Os biblistas afirmam a intenção catequético-litúrgica do autor. Portanto, é didática. Mais do que isto, é mistagógica. Introduz aos mistérios do encontro pessoal e da comunidade eclesial com o Ressuscitado mediante a palavra e a fração do pão.

Lucas aprecia considerar os discípulos como seguidores do caminho (At 9, 2; 18, 25.26, etc.). Este termo aparece algumas vezes nos Atos. Sua conotação é dinâmica. Com frequência é traduzido por doutrina, de conotação estática a reduzir o sentido. Na realidade, empobrece-o, pois a doutrina está acabada ou concluída, enquanto o caminho está sempre aberto ao prosseguir e ao acontecer. Além do mais, aponta para o próprio Jesus que conduz ao Pai (Jo 14,6). Indica encontros interpessoais e surpreendentes. A riqueza da dinâmica relacional permeia o caminhar dos discípulos de Emaús.

Inicialmente, o itinerário tem lugar visado e tempo cronometrado: “para um povoado distante de Jerusalém, mais ou menos duas horas de caminho”. Conversam entre si sobre os últimos fatos que os decepcionaram. Fazem a crônica. Avaliam o comprometimento com a pessoa e a causa de Jesus. Que desilusão! O rosto sombrio põe para fora sentimentos íntimos. Pararam. É a primeira estação. Acontece diante do forasteiro, após o itinerário passiológico, interior.

Jesus se aproxima, física e existencialmente, deles. “Pôs-se a caminhar com eles”. Fato notável devidamente sublinhado pelo narrador. Contudo, seus olhos ainda permaneciam impedidos de reconhecê-Lo. Então, Jesus invade a conversa que expressa à interioridade, indagando: “Que palavras são estas que trocais entre vós enquanto ides caminhando?”.

Eles atendem ao interesse invasivo do forasteiro. Explanam aquilo que Ele mesmo havia sofrido. Porém, a decepção não fora seu sofrimento. Trata-se da ilusão do equívoco: “Nós esperávamos que fosse Ele quem iria libertar Israel, mas já três dias passaram desde que essas coisas aconteceram”. Desfizera-se em nuvem passageira a intensa expectativa de ser Ele um messias político nacionalista.

A trajetória prossegue, transformada em memorial do plano salvífico de Deus, pois Jesus perpassa com eles os textos das Escrituras que Lhe dizem respeito, desde Moisés aos profetas. Foi longo o percurso de ida e volta de profecia a cumprimento até a conclusão do sofrimento necessário para entrar na Sua glória. Jesus abre um caminho de interpretação na retomada da história da salvação.

A outra parada, mais breve, é de significância também. É a estação na qual os aspectos se revestem de muita delicadeza, desde a sutil simulação de Jesus querer seguir adiante, quando se aproximaram da aldeia, até a insistência dos discípulos: “Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já declina”. Aceitando o convite, “Ele entrou para ficar com eles”. A seguir e de imediato, estando “à mesa, tomou o pão, disse a bênção, partiu-o e distribui-o a eles. Então seus olhos se abriram e eles o reconheceram, mas ele desapareceu de sua vista”. Jesus é reconhecido apenas nos gestos do pão abençoado, partido e distribuído. Gestos reveladores!

O ponto de chegada poderia ter sido o breve reconhecimento. Porém, não existe chegada. Tem início a nova trajetória no memorial da experiência: “Não ardia o nosso coração no peito quando ele nos falava pelo caminho e nos abria o sentido das Escrituras?” A palavra aquecera a frieza interior. Segue-se o retorno imediato e apressado para Jerusalém. O itinerário é o mesmo ao inverso com o novo desejo do reencontro. Vão aos onze e seus companheiros para narrar e partilhar.

A experiência originária dos discípulos e a mediação com a Igreja apostólica se atualizam, sobretudo, em chave eucarística e litúrgica, na relação simbólica e real de gestos e palavras a exprimirem a presença e o convívio, a comensalidade e a comunhão com Jesus. Enfim, a partilha e a participação.

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04/05/2014 00:00

A liturgia do terceiro domingo da Páscoa nos apresenta a aparição do Senhor Ressuscitado aos discípulos de Emaús. O episódio é exclusivo de Lucas (24,13-15). A narrativa nos fascina pela beleza da cena e pela convergência de significados. Os biblistas afirmam a intenção catequético-litúrgica do autor. Portanto, é didática. Mais do que isto, é mistagógica. Introduz aos mistérios do encontro pessoal e da comunidade eclesial com o Ressuscitado mediante a palavra e a fração do pão.

Lucas aprecia considerar os discípulos como seguidores do caminho (At 9, 2; 18, 25.26, etc.). Este termo aparece algumas vezes nos Atos. Sua conotação é dinâmica. Com frequência é traduzido por doutrina, de conotação estática a reduzir o sentido. Na realidade, empobrece-o, pois a doutrina está acabada ou concluída, enquanto o caminho está sempre aberto ao prosseguir e ao acontecer. Além do mais, aponta para o próprio Jesus que conduz ao Pai (Jo 14,6). Indica encontros interpessoais e surpreendentes. A riqueza da dinâmica relacional permeia o caminhar dos discípulos de Emaús.

Inicialmente, o itinerário tem lugar visado e tempo cronometrado: “para um povoado distante de Jerusalém, mais ou menos duas horas de caminho”. Conversam entre si sobre os últimos fatos que os decepcionaram. Fazem a crônica. Avaliam o comprometimento com a pessoa e a causa de Jesus. Que desilusão! O rosto sombrio põe para fora sentimentos íntimos. Pararam. É a primeira estação. Acontece diante do forasteiro, após o itinerário passiológico, interior.

Jesus se aproxima, física e existencialmente, deles. “Pôs-se a caminhar com eles”. Fato notável devidamente sublinhado pelo narrador. Contudo, seus olhos ainda permaneciam impedidos de reconhecê-Lo. Então, Jesus invade a conversa que expressa à interioridade, indagando: “Que palavras são estas que trocais entre vós enquanto ides caminhando?”.

Eles atendem ao interesse invasivo do forasteiro. Explanam aquilo que Ele mesmo havia sofrido. Porém, a decepção não fora seu sofrimento. Trata-se da ilusão do equívoco: “Nós esperávamos que fosse Ele quem iria libertar Israel, mas já três dias passaram desde que essas coisas aconteceram”. Desfizera-se em nuvem passageira a intensa expectativa de ser Ele um messias político nacionalista.

A trajetória prossegue, transformada em memorial do plano salvífico de Deus, pois Jesus perpassa com eles os textos das Escrituras que Lhe dizem respeito, desde Moisés aos profetas. Foi longo o percurso de ida e volta de profecia a cumprimento até a conclusão do sofrimento necessário para entrar na Sua glória. Jesus abre um caminho de interpretação na retomada da história da salvação.

A outra parada, mais breve, é de significância também. É a estação na qual os aspectos se revestem de muita delicadeza, desde a sutil simulação de Jesus querer seguir adiante, quando se aproximaram da aldeia, até a insistência dos discípulos: “Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já declina”. Aceitando o convite, “Ele entrou para ficar com eles”. A seguir e de imediato, estando “à mesa, tomou o pão, disse a bênção, partiu-o e distribui-o a eles. Então seus olhos se abriram e eles o reconheceram, mas ele desapareceu de sua vista”. Jesus é reconhecido apenas nos gestos do pão abençoado, partido e distribuído. Gestos reveladores!

O ponto de chegada poderia ter sido o breve reconhecimento. Porém, não existe chegada. Tem início a nova trajetória no memorial da experiência: “Não ardia o nosso coração no peito quando ele nos falava pelo caminho e nos abria o sentido das Escrituras?” A palavra aquecera a frieza interior. Segue-se o retorno imediato e apressado para Jerusalém. O itinerário é o mesmo ao inverso com o novo desejo do reencontro. Vão aos onze e seus companheiros para narrar e partilhar.

A experiência originária dos discípulos e a mediação com a Igreja apostólica se atualizam, sobretudo, em chave eucarística e litúrgica, na relação simbólica e real de gestos e palavras a exprimirem a presença e o convívio, a comensalidade e a comunhão com Jesus. Enfim, a partilha e a participação.

Dom Edson de Castro Homem
Autor

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro