Arquidiocese do Rio de Janeiro

27º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

Homilia: 5º Domingo da Quaresma - Dia 6 de abril

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16 de Outubro de 2018

Homilia: 5º Domingo da Quaresma - Dia 6 de abril

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03/04/2014 16:50

Homilia: 5º Domingo da Quaresma - Dia 6 de abril 0

03/04/2014 16:50

Homilia: 5º Domingo da Quaresma - Dia 6 de abril / Arqrio

1ª Leitura - Ez 37,12-14
Salmo - 129          
2ª Leitura - Rm 8,8-11            
Evangelho - Jo 11,1-45

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.” (cf. Jo 11,25)

Aproximando-se as festas pascais, o nosso coração se enche de alegria. No aguardo de tão grande alegria, nós celebramos esse quinto domingo da Quaresma. O domingo é o nosso dia, o dia dos cristãos. O domingo é o dia no qual nós celebramos a ressurreição de Cristo. Esse dia, chamado pelos antigos cristãos de “dia oitavo” é símbolo daquele dia sem fim, no qual nós, ressuscitados com Cristo, reinaremos com Ele.

A palavra de Deus que nos é dada neste domingo nos fala de uma vida nova. A profecia de Ezequiel é uma promessa de vida para além da morte: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor.” Os nossos túmulos se abrirão e nós seremos conduzidos para a terra de Israel. É neste ato sublime, de um amor que supera a morte – a grande inimiga do amor –, que nós reconheceremos o Senhor.

Esse amor que abre os túmulos e destrói a morte é o amor que nos foi revelado em Cristo. Hoje contemplamos esta belíssima cena do evangelho de São João. Estamos diante do capítulo 11 do Evangelho. Jesus recebe um aviso: “Senhor, aquele que amas está doente.” O amigo de Cristo está doente. Sim, os amigos de Cristo também adoecem. Aqueles a quem Jesus ama também adoecem e, até mesmo, morrem. Jesus afirma que a doença de Lázaro não é mortal, mas que ela tem como finalidade que “seja glorificado o Filho de Deus”. Aqui encontramos uma estreita semelhança com o evangelho do cego de nascença que ouvimos no domingo passado. Os apóstolos queriam saber quem havia pecado para que aquele homem nascesse cego. Jesus afirma que nem o homem nem seus pais haviam pecado, mas que ele havia nascido cego “para que nele” fossem “manifestadas as obras de Deus”. As obras de Deus se manifestam quando Jesus cura o cego de nascença. A glória de Deus se faz diante da doença e da morte de Lázaro.

Jesus ainda permanece dois dias no local onde está antes de se dirigir à casa de Lázaro. Jesus resolve voltar à Judeia para despertar Lázaro do seu sono. Os apóstolos ainda não entendem a forma de falar de Cristo e afirmam: “Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar!” Cristo faz questão de mostrar que Lázaro está, de fato, morto. Cristo se alegra pelo fato de não ter podido evitar a morte de Lázaro. Cristo não se alegra com a morte de Lázaro, mas por causa dos discípulos Cristo se alegra de não ter evitado tal situação. A morte de Lázaro e sua consequente ressurreição serão para os discípulos e, para todos aqueles que haveriam de crer, mais valiosa do que a sua cura. De fato, Cristo sabe que a ressurreição de Lázaro será um sinal eminente.

É a última ida de Cristo à região da Judeia. Cristo vai à Judeia ressuscitar aquele que Ele ama. Seu primeiro encontro é com Marta. Marta acredita firmemente que se Cristo estivesse lá Lázaro não teria morrido. De alguma forma essa mulher intui que Cristo possui a capacidade de dar a vida. Todavia, no encontro com Cristo Marta dará um passo definitivo na sua fé, uma espécie de ressurreição: “Disse ela: ‘Sim Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo’ ”. Depois de professar a sua fé, ela vai chamar Maria. O Senhor chama Maria. Esta, sabendo que o Senhor estava presente, “ergueu-se logo” e “foi ao seu encontro”. É interessante notar que aqui João utiliza um verbo que também aparece para indicar a ressurreição, o verbo egheiro. Maria, à semelhança de Marta, experimenta uma espécie de ressurreição. Quando chamada pelo Senhor, ela como que ressuscita e vai ao encontro d’Aquele que é a fonte da vida.

A reação de Jesus diante das lágrimas de Maria e dos demais judeus nos revela a sua humanidade. De fato, como nos afirma o prefácio da missa de hoje: “Verdadeiro homem, Jesus chorou o amigo Lázaro. Deus vivo e eterno, ele o ressuscitou, tirando-o do túmulo.” O versículo 35 deste evangelho nos diz que “Jesus chorou”. As lágrimas de Cristo foram reveladoras. Diante delas, os outros que estavam presentes puderam expressar: “Vede como ele o amava!” É o amor que move o coração de Cristo a mandar que se retire a pedra. Cristo não pode permitir que a morte prenda seus amados. Ele é a vida dos mortos! Mesmo diante da resistência dos presentes, Cristo ordena que a pedra seja removida e, olhando para o alto pronuncia uma berakah, uma oração tipicamente judaica. Jesus expressa aqui toda a sua confiança de Filho ao dizer: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves, mas digo isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que me enviaste.” Cristo dá graças ao Pai e grita em alta voz: “Lázaro, vem para fora!” É uma ordem de Cristo àquele que jazia na região dos mortos: “Lázaro, vem para fora!” É um chamado de amor para aquele que se achava deitado e sem vida: “Lázaro, vem para fora!”. Cristo manda que as mãos e os pés de Lázaro, agora ressuscitado, sejam desatados, para que ele possa ir livremente onde quiser. Diante desse gesto, muitos creram em Jesus.

O que aconteceu com Lázaro acontece conosco. Nós também somos os “amados de Cristo”. Foi o seu amor por nós que o moveu a assumir a nossa humanidade. Cristo é a expressão máxima do amor do Pai por nós. Cristo é o amor que assumiu a nossa vida e a nossa morte. Assumiu a nossa vida para nos fazer participar da sua vida. Assumiu a nossa morte para destruí-la e nos dar a vida verdadeira e eterna que está escondida com Ele nos céus.

Cristo também chora a morte do homem caído no pecado. Cristo reconhece que o Pai não fez o homem para permanecer na morte. A morte, como a conhecemos, é fruto do pecado. O pecado em si já é morte. O pecado é a morte lenta e dolorosa do espírito. A morte física é o sinal mais contundente e mais doloroso do pecado. Alguns de nós até se conformam com o pecado, mas é fato que nós não nos conformamos com a morte, porque nós fomos feitos para a vida. Cristo chora diante dos nossos túmulos. Quando pecamos, Cristo chora a nossa morte. Quando nos vê no sono da morte física, Cristo chora por nós. E porque não deseja que os homens permaneçam na morte, Cristo também diante dos nossos túmulos lança um olhar ao Pai e grita em direção aos nossos túmulos: “Vem para fora!”. Cristo hoje grita em direção ao túmulo em que estamos por causa do pecado: “Vem para fora!”. Cristo deseja que as nossas mãos e os nossos pés sejam livres, para que possamos correr-lhe ao encontro. Cristo deseja que saiamos dos nossos túmulos, e ele grita com voz forte: “Vem para fora!” Se fecharmos nossos olhos, poderemos ouvir a sua voz. Os ouvidos do nosso espírito podem ouvir a voz que grita; é o rugido do Leão de Judá que nos dá uma ordem de amor: Vem para fora! Cristo quer nos dar a vida nova do seu Espírito. Ainda que já estejamos a muitos dias no túmulo. Ainda que alguns digam: Já cheira mal. Não tem mais jeito. Cristo não se conforma. Cristo não aceita que já cheire mal. Cristo não aceita que não tenha mais jeito. Cristo não fica inerte diante da morte, porque Ele é a vida dos mortos. Vem para fora! Este é o chamado amoroso de Cristo para nós.

Sair dos nossos pecados é fazer uma experiência da ressurreição no tempo. O prefácio da missa de hoje nos diz: “Compadecendo-se da humanidade, que jaz na morte do pecado, por seus sagrados mistérios ele nos eleva ao Reino da vida nova”. O Batismo é esse sair do túmulo. Nós, já batizados, cada vez que nos reconciliamos com o Senhor e participamos do seu banquete, somos também espiritualmente ressuscitados. Ao nos levantarmos dos nossos bancos para ouvir o Evangelho é como se estivéssemos de dentro dos nossos túmulos ouvindo a voz de Cristo que docemente nos convida à vida. Ao sairmos de nossos lugares para tomarmos o Sagrado Alimento é a vida de Cristo que nos refaz.

Todavia, Cristo nos ressuscitará definitivamente para uma vida melhor. Nós tememos a morte. O nosso temor da morte consiste no fato de que nós não fomos feitos para a morte e, sim, para a vida. Temos medo de permanecer na morte. Às vezes quando perdemos alguém dizemos como Marta: “Senhor, se tivésseis estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Gostaríamos de ter uma ressurreição como a de Lázaro. Mas, Cristo prepara para nós uma ressurreição melhor. Lázaro ressuscitou para esta vida. Cristo nos ressuscitará para a vida eterna. Nós não teremos uma ressurreição como a de Lázaro, mas teremos uma ressurreição como a de Cristo. Nós entraremos no sono da morte, como Cristo e como Lázaro. Mas, de dentro dos nossos túmulos, quando na solidão a vida tiver saído de nossos corpos, Cristo, Aquele que é a vida, nos enviará um chamado, uma Palavra de vida que nos fará levantar do sono da morte. Ele dirá uma vez por todas, com voz forte: “Vem para fora!” E nós sairemos, e caminharemos em direção Aquele que nos ama, ao nosso amigo. Caminharemos em direção Aquele que chorou por nós e que não suportou nos ver no sono da morte. Caminharemos em direção Aquele que, para nos tirar do túmulo e da morte, entrou Ele mesmo na solidão do túmulo e na escuridão da morte.

Nós veremos se realizar em nós o que nos diz Paulo, na epístola aos romanos: “Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em vós”. O Pai nos ressuscitará, como fez com Cristo, por meio do seu Espírito que habita em nós. E se habita em nós, meus irmãos, o Espírito pelo qual o Pai nos ressuscitará no último dia, nós devemos viver segundo o Espírito. Viver segundo o Espírito significa viver segundo o pensamento de Deus. Carne e Espírito são um binômio paulino que não significam uma oposição entre o mundo espiritual e o mundo material. Em Paulo não existe um dualismo. Paulo não é contra o corpo e a matéria porque Ele reconhece que o corpo é criação de Deus. Todavia, em Paulo, carne e espírito, viver segundo a carne e viver segundo o Espírito, significam respectivamente viver segundo a mentalidade do mundo ou viver segundo o pensamento de Deus. Nós devemos viver segundo o Espírito, porque o Espírito de Cristo habita em nós. Embora o nosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, o nosso espírito está cheio de vida, porque habita em nós o Espírito de Deus. Nós somos um templo vivo do Espírito, por isso devemos viver segundo o Espírito. A quaresma é o tempo de aprender a viver a vida segundo o Espírito.

O Pai, aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, dará vida a nossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em nós. O Espírito habita em nós e essa é a certeza que nos move. O Espírito de Cristo mora em nós, por isso cremos que não permaneceremos no sono da morte, mas levantaremos, chamados pela voz amorosa de Cristo. O Pai, no Espírito por meio da voz amorosa de seu Filho, nos ressuscitará e estaremos unidos a Ele para sempre. Com o coração jubiloso por esta doce esperança, vivamos já hoje segundo o Espírito. Abramos o nosso coração neste tempo favorável e neste lugar propício, para que a força do Senhor nos preencha a fim de nós, templos vivos do Espírito, possamos viver segundo o Espírito, por meio do qual seremos vivificados em nossos corpos mortais quando chegar o definitivo Dia de Cristo.

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Homilia: 5º Domingo da Quaresma - Dia 6 de abril / Arqrio

Homilia: 5º Domingo da Quaresma - Dia 6 de abril

03/04/2014 16:50

1ª Leitura - Ez 37,12-14
Salmo - 129          
2ª Leitura - Rm 8,8-11            
Evangelho - Jo 11,1-45

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.” (cf. Jo 11,25)

Aproximando-se as festas pascais, o nosso coração se enche de alegria. No aguardo de tão grande alegria, nós celebramos esse quinto domingo da Quaresma. O domingo é o nosso dia, o dia dos cristãos. O domingo é o dia no qual nós celebramos a ressurreição de Cristo. Esse dia, chamado pelos antigos cristãos de “dia oitavo” é símbolo daquele dia sem fim, no qual nós, ressuscitados com Cristo, reinaremos com Ele.

A palavra de Deus que nos é dada neste domingo nos fala de uma vida nova. A profecia de Ezequiel é uma promessa de vida para além da morte: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor.” Os nossos túmulos se abrirão e nós seremos conduzidos para a terra de Israel. É neste ato sublime, de um amor que supera a morte – a grande inimiga do amor –, que nós reconheceremos o Senhor.

Esse amor que abre os túmulos e destrói a morte é o amor que nos foi revelado em Cristo. Hoje contemplamos esta belíssima cena do evangelho de São João. Estamos diante do capítulo 11 do Evangelho. Jesus recebe um aviso: “Senhor, aquele que amas está doente.” O amigo de Cristo está doente. Sim, os amigos de Cristo também adoecem. Aqueles a quem Jesus ama também adoecem e, até mesmo, morrem. Jesus afirma que a doença de Lázaro não é mortal, mas que ela tem como finalidade que “seja glorificado o Filho de Deus”. Aqui encontramos uma estreita semelhança com o evangelho do cego de nascença que ouvimos no domingo passado. Os apóstolos queriam saber quem havia pecado para que aquele homem nascesse cego. Jesus afirma que nem o homem nem seus pais haviam pecado, mas que ele havia nascido cego “para que nele” fossem “manifestadas as obras de Deus”. As obras de Deus se manifestam quando Jesus cura o cego de nascença. A glória de Deus se faz diante da doença e da morte de Lázaro.

Jesus ainda permanece dois dias no local onde está antes de se dirigir à casa de Lázaro. Jesus resolve voltar à Judeia para despertar Lázaro do seu sono. Os apóstolos ainda não entendem a forma de falar de Cristo e afirmam: “Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar!” Cristo faz questão de mostrar que Lázaro está, de fato, morto. Cristo se alegra pelo fato de não ter podido evitar a morte de Lázaro. Cristo não se alegra com a morte de Lázaro, mas por causa dos discípulos Cristo se alegra de não ter evitado tal situação. A morte de Lázaro e sua consequente ressurreição serão para os discípulos e, para todos aqueles que haveriam de crer, mais valiosa do que a sua cura. De fato, Cristo sabe que a ressurreição de Lázaro será um sinal eminente.

É a última ida de Cristo à região da Judeia. Cristo vai à Judeia ressuscitar aquele que Ele ama. Seu primeiro encontro é com Marta. Marta acredita firmemente que se Cristo estivesse lá Lázaro não teria morrido. De alguma forma essa mulher intui que Cristo possui a capacidade de dar a vida. Todavia, no encontro com Cristo Marta dará um passo definitivo na sua fé, uma espécie de ressurreição: “Disse ela: ‘Sim Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo’ ”. Depois de professar a sua fé, ela vai chamar Maria. O Senhor chama Maria. Esta, sabendo que o Senhor estava presente, “ergueu-se logo” e “foi ao seu encontro”. É interessante notar que aqui João utiliza um verbo que também aparece para indicar a ressurreição, o verbo egheiro. Maria, à semelhança de Marta, experimenta uma espécie de ressurreição. Quando chamada pelo Senhor, ela como que ressuscita e vai ao encontro d’Aquele que é a fonte da vida.

A reação de Jesus diante das lágrimas de Maria e dos demais judeus nos revela a sua humanidade. De fato, como nos afirma o prefácio da missa de hoje: “Verdadeiro homem, Jesus chorou o amigo Lázaro. Deus vivo e eterno, ele o ressuscitou, tirando-o do túmulo.” O versículo 35 deste evangelho nos diz que “Jesus chorou”. As lágrimas de Cristo foram reveladoras. Diante delas, os outros que estavam presentes puderam expressar: “Vede como ele o amava!” É o amor que move o coração de Cristo a mandar que se retire a pedra. Cristo não pode permitir que a morte prenda seus amados. Ele é a vida dos mortos! Mesmo diante da resistência dos presentes, Cristo ordena que a pedra seja removida e, olhando para o alto pronuncia uma berakah, uma oração tipicamente judaica. Jesus expressa aqui toda a sua confiança de Filho ao dizer: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves, mas digo isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que me enviaste.” Cristo dá graças ao Pai e grita em alta voz: “Lázaro, vem para fora!” É uma ordem de Cristo àquele que jazia na região dos mortos: “Lázaro, vem para fora!” É um chamado de amor para aquele que se achava deitado e sem vida: “Lázaro, vem para fora!”. Cristo manda que as mãos e os pés de Lázaro, agora ressuscitado, sejam desatados, para que ele possa ir livremente onde quiser. Diante desse gesto, muitos creram em Jesus.

O que aconteceu com Lázaro acontece conosco. Nós também somos os “amados de Cristo”. Foi o seu amor por nós que o moveu a assumir a nossa humanidade. Cristo é a expressão máxima do amor do Pai por nós. Cristo é o amor que assumiu a nossa vida e a nossa morte. Assumiu a nossa vida para nos fazer participar da sua vida. Assumiu a nossa morte para destruí-la e nos dar a vida verdadeira e eterna que está escondida com Ele nos céus.

Cristo também chora a morte do homem caído no pecado. Cristo reconhece que o Pai não fez o homem para permanecer na morte. A morte, como a conhecemos, é fruto do pecado. O pecado em si já é morte. O pecado é a morte lenta e dolorosa do espírito. A morte física é o sinal mais contundente e mais doloroso do pecado. Alguns de nós até se conformam com o pecado, mas é fato que nós não nos conformamos com a morte, porque nós fomos feitos para a vida. Cristo chora diante dos nossos túmulos. Quando pecamos, Cristo chora a nossa morte. Quando nos vê no sono da morte física, Cristo chora por nós. E porque não deseja que os homens permaneçam na morte, Cristo também diante dos nossos túmulos lança um olhar ao Pai e grita em direção aos nossos túmulos: “Vem para fora!”. Cristo hoje grita em direção ao túmulo em que estamos por causa do pecado: “Vem para fora!”. Cristo deseja que as nossas mãos e os nossos pés sejam livres, para que possamos correr-lhe ao encontro. Cristo deseja que saiamos dos nossos túmulos, e ele grita com voz forte: “Vem para fora!” Se fecharmos nossos olhos, poderemos ouvir a sua voz. Os ouvidos do nosso espírito podem ouvir a voz que grita; é o rugido do Leão de Judá que nos dá uma ordem de amor: Vem para fora! Cristo quer nos dar a vida nova do seu Espírito. Ainda que já estejamos a muitos dias no túmulo. Ainda que alguns digam: Já cheira mal. Não tem mais jeito. Cristo não se conforma. Cristo não aceita que já cheire mal. Cristo não aceita que não tenha mais jeito. Cristo não fica inerte diante da morte, porque Ele é a vida dos mortos. Vem para fora! Este é o chamado amoroso de Cristo para nós.

Sair dos nossos pecados é fazer uma experiência da ressurreição no tempo. O prefácio da missa de hoje nos diz: “Compadecendo-se da humanidade, que jaz na morte do pecado, por seus sagrados mistérios ele nos eleva ao Reino da vida nova”. O Batismo é esse sair do túmulo. Nós, já batizados, cada vez que nos reconciliamos com o Senhor e participamos do seu banquete, somos também espiritualmente ressuscitados. Ao nos levantarmos dos nossos bancos para ouvir o Evangelho é como se estivéssemos de dentro dos nossos túmulos ouvindo a voz de Cristo que docemente nos convida à vida. Ao sairmos de nossos lugares para tomarmos o Sagrado Alimento é a vida de Cristo que nos refaz.

Todavia, Cristo nos ressuscitará definitivamente para uma vida melhor. Nós tememos a morte. O nosso temor da morte consiste no fato de que nós não fomos feitos para a morte e, sim, para a vida. Temos medo de permanecer na morte. Às vezes quando perdemos alguém dizemos como Marta: “Senhor, se tivésseis estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Gostaríamos de ter uma ressurreição como a de Lázaro. Mas, Cristo prepara para nós uma ressurreição melhor. Lázaro ressuscitou para esta vida. Cristo nos ressuscitará para a vida eterna. Nós não teremos uma ressurreição como a de Lázaro, mas teremos uma ressurreição como a de Cristo. Nós entraremos no sono da morte, como Cristo e como Lázaro. Mas, de dentro dos nossos túmulos, quando na solidão a vida tiver saído de nossos corpos, Cristo, Aquele que é a vida, nos enviará um chamado, uma Palavra de vida que nos fará levantar do sono da morte. Ele dirá uma vez por todas, com voz forte: “Vem para fora!” E nós sairemos, e caminharemos em direção Aquele que nos ama, ao nosso amigo. Caminharemos em direção Aquele que chorou por nós e que não suportou nos ver no sono da morte. Caminharemos em direção Aquele que, para nos tirar do túmulo e da morte, entrou Ele mesmo na solidão do túmulo e na escuridão da morte.

Nós veremos se realizar em nós o que nos diz Paulo, na epístola aos romanos: “Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em vós”. O Pai nos ressuscitará, como fez com Cristo, por meio do seu Espírito que habita em nós. E se habita em nós, meus irmãos, o Espírito pelo qual o Pai nos ressuscitará no último dia, nós devemos viver segundo o Espírito. Viver segundo o Espírito significa viver segundo o pensamento de Deus. Carne e Espírito são um binômio paulino que não significam uma oposição entre o mundo espiritual e o mundo material. Em Paulo não existe um dualismo. Paulo não é contra o corpo e a matéria porque Ele reconhece que o corpo é criação de Deus. Todavia, em Paulo, carne e espírito, viver segundo a carne e viver segundo o Espírito, significam respectivamente viver segundo a mentalidade do mundo ou viver segundo o pensamento de Deus. Nós devemos viver segundo o Espírito, porque o Espírito de Cristo habita em nós. Embora o nosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, o nosso espírito está cheio de vida, porque habita em nós o Espírito de Deus. Nós somos um templo vivo do Espírito, por isso devemos viver segundo o Espírito. A quaresma é o tempo de aprender a viver a vida segundo o Espírito.

O Pai, aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, dará vida a nossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em nós. O Espírito habita em nós e essa é a certeza que nos move. O Espírito de Cristo mora em nós, por isso cremos que não permaneceremos no sono da morte, mas levantaremos, chamados pela voz amorosa de Cristo. O Pai, no Espírito por meio da voz amorosa de seu Filho, nos ressuscitará e estaremos unidos a Ele para sempre. Com o coração jubiloso por esta doce esperança, vivamos já hoje segundo o Espírito. Abramos o nosso coração neste tempo favorável e neste lugar propício, para que a força do Senhor nos preencha a fim de nós, templos vivos do Espírito, possamos viver segundo o Espírito, por meio do qual seremos vivificados em nossos corpos mortais quando chegar o definitivo Dia de Cristo.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida