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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/04/2017

23 de Abril de 2017

Confronto: trevas e luz

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Confronto: trevas e luz

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27/03/2014 17:20 - Atualizado em 28/03/2014 11:22

Confronto: trevas e luz 1

27/03/2014 17:20 - Atualizado em 28/03/2014 11:22

Confronto: trevas e luz / Arqrio

O quarto domingo da Quaresma de nossa preparação para a Páscoa propõe-nos o simbolismo das trevas em confronto com a luz. Elas estão presentes em textos bíblicos, com significados diversos, desde a temática da criação do nada: “as trevas cobriam o abismo” (Gn 1, 2). Logo, porém, a luz é a primeira criatura saída do poder da palavra de Deus: “Haja luz e houve luz” (1,3) e, imediata e diretamente, movida por sua especial intervenção: “separou a luz e as trevas” (1,4). Dentro do simbolismo conflitante, a luz é criação divina, enquanto as trevas não o são.

 Tal incursão longínqua até a linguagem simbólica da criação nos ajuda a reler a Carta aos Efésios, na perspectiva do conflito entre a moral pagã, no significado das trevas, e a moral cristã, no significado da luz. O paganismo é a escuridão da qual saíram os convertidos a Cristo, luz. Por isso, diz o apóstolo: “Outrora éreis trevas, mas agora vós sois luz no Senhor: andai como filhos da luz” (Ef 5, 8). Com a afirmação que os cristãos são iluminados, exorta à coerência da vida, entre o ser e o existir.

 As obras das trevas são condensadas em duas: fornicação e avareza, atitudes pessoais, que transpostas à vida pública, poderiam se referir: a primeira à licenciosidade dos costumes, à promiscuidade sexual e ao tráfico humano para tais fins; a segunda, à paixão pecuniária, que induz à especulação e corrupção financeiras, à lavagem de dinheiro e negociatas, às práticas desonestas de levar vantagem.

 Ao contrário, as obras da luz são motivadas pela imitação de Deus no itinerário do amor, “como Cristo nos amou e entregou-se a si mesmo por nós a Deus” (Ef 5,1). Seus frutos são condensados em três atitudes éticas fundamentais: bondade, justiça e verdade (5,9).

 Escrevendo para o cristão que poderia ter retornado às “obras infrutuosas das trevas” (Ef 5, 11), devido ao ambiente sedutor, cosmopolita e comercial da cidade de Éfeso, Paulo faz acordar: “Ó tu que dormes, desperta e levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará” (5,14).

Primeiro Livro de Samuel narra a experiência da visão obscurecida ou iludida pela aparência. É Deus quem escolhe o rei Davi. Cabe ao profeta ungi-lo. No entanto, custa reconhecê-lo entre os filhos de Jessé, pois apenas enxerga suas aparências, através de critérios superficiais enganosos, enquanto “o Senhor olha o coração” (1 Sam 16, 7). Portanto, necessita da luz do discernimento dado por Deus.

No Evangelho, Jesus vê o cego de nascença (Jo 9, 1) que vive na escuridão. Nunca viu a realidade do mundo e das pessoas, embora pudesse senti-los e ouvi-los. Quão densas são suas trevas! 

Jesus ao cuspir no chão para fazer lama com a saliva fabrica um unguento. Para os antigos, a saliva possuía virtudes curativas. Pondo a lama sob os olhos do cego, unge-os. Indica a gratuidade da cura e da salvação, mas com a participação pessoal: “Vai lavar-te na piscina de Siloé” (9,7).

O texto é composto na ótica do confronto entre trevas e luz, especialmente pelas controvérsias a respeito de Jesus e do miraculado até sua excomunhão da sinagoga, desconsiderado como “nascido todo em pecado” (6,34). Das trevas são aqueles que permanecem incrédulos, não compreendem e rejeitam Jesus (1,5. 9-10). A iluminação da fé, no entanto, é progressiva, de claridade em claridade. Primeiramente, o miraculado reconhece que Jesus é profeta (6,17). A seguir, é o Senhor. O gesto de prostrar-se reforça o que diz: “Eu creio, Senhor!” (6, 38). Todavia, é Jesus quem toma a iniciativa de se deixar ver, atendendo ao desejo formulado (6,37). Iniciativa já evidenciada no fato que foi Ele o primeiro a ver o cego de nascença. Jesus nos faz vê-lo como protótipo dos que chegam à luz da fé.

 A mensagem ilustra o reconhecimento de Cristo, enquanto “luz verdadeira que ilumina todo homem” ( 1,9) e que “brilha nas trevas” (1,5). A vivência cristã contém a esperança: “Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (8,12). Luz que avança e vence as trevas da morte.

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Comentários (1)

Diác. Odelcio Apr 17th 2014, 12:46

Sem badalação, mas escreves muito bem!

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Confronto: trevas e luz

27/03/2014 17:20 - Atualizado em 28/03/2014 11:22

O quarto domingo da Quaresma de nossa preparação para a Páscoa propõe-nos o simbolismo das trevas em confronto com a luz. Elas estão presentes em textos bíblicos, com significados diversos, desde a temática da criação do nada: “as trevas cobriam o abismo” (Gn 1, 2). Logo, porém, a luz é a primeira criatura saída do poder da palavra de Deus: “Haja luz e houve luz” (1,3) e, imediata e diretamente, movida por sua especial intervenção: “separou a luz e as trevas” (1,4). Dentro do simbolismo conflitante, a luz é criação divina, enquanto as trevas não o são.

 Tal incursão longínqua até a linguagem simbólica da criação nos ajuda a reler a Carta aos Efésios, na perspectiva do conflito entre a moral pagã, no significado das trevas, e a moral cristã, no significado da luz. O paganismo é a escuridão da qual saíram os convertidos a Cristo, luz. Por isso, diz o apóstolo: “Outrora éreis trevas, mas agora vós sois luz no Senhor: andai como filhos da luz” (Ef 5, 8). Com a afirmação que os cristãos são iluminados, exorta à coerência da vida, entre o ser e o existir.

 As obras das trevas são condensadas em duas: fornicação e avareza, atitudes pessoais, que transpostas à vida pública, poderiam se referir: a primeira à licenciosidade dos costumes, à promiscuidade sexual e ao tráfico humano para tais fins; a segunda, à paixão pecuniária, que induz à especulação e corrupção financeiras, à lavagem de dinheiro e negociatas, às práticas desonestas de levar vantagem.

 Ao contrário, as obras da luz são motivadas pela imitação de Deus no itinerário do amor, “como Cristo nos amou e entregou-se a si mesmo por nós a Deus” (Ef 5,1). Seus frutos são condensados em três atitudes éticas fundamentais: bondade, justiça e verdade (5,9).

 Escrevendo para o cristão que poderia ter retornado às “obras infrutuosas das trevas” (Ef 5, 11), devido ao ambiente sedutor, cosmopolita e comercial da cidade de Éfeso, Paulo faz acordar: “Ó tu que dormes, desperta e levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará” (5,14).

Primeiro Livro de Samuel narra a experiência da visão obscurecida ou iludida pela aparência. É Deus quem escolhe o rei Davi. Cabe ao profeta ungi-lo. No entanto, custa reconhecê-lo entre os filhos de Jessé, pois apenas enxerga suas aparências, através de critérios superficiais enganosos, enquanto “o Senhor olha o coração” (1 Sam 16, 7). Portanto, necessita da luz do discernimento dado por Deus.

No Evangelho, Jesus vê o cego de nascença (Jo 9, 1) que vive na escuridão. Nunca viu a realidade do mundo e das pessoas, embora pudesse senti-los e ouvi-los. Quão densas são suas trevas! 

Jesus ao cuspir no chão para fazer lama com a saliva fabrica um unguento. Para os antigos, a saliva possuía virtudes curativas. Pondo a lama sob os olhos do cego, unge-os. Indica a gratuidade da cura e da salvação, mas com a participação pessoal: “Vai lavar-te na piscina de Siloé” (9,7).

O texto é composto na ótica do confronto entre trevas e luz, especialmente pelas controvérsias a respeito de Jesus e do miraculado até sua excomunhão da sinagoga, desconsiderado como “nascido todo em pecado” (6,34). Das trevas são aqueles que permanecem incrédulos, não compreendem e rejeitam Jesus (1,5. 9-10). A iluminação da fé, no entanto, é progressiva, de claridade em claridade. Primeiramente, o miraculado reconhece que Jesus é profeta (6,17). A seguir, é o Senhor. O gesto de prostrar-se reforça o que diz: “Eu creio, Senhor!” (6, 38). Todavia, é Jesus quem toma a iniciativa de se deixar ver, atendendo ao desejo formulado (6,37). Iniciativa já evidenciada no fato que foi Ele o primeiro a ver o cego de nascença. Jesus nos faz vê-lo como protótipo dos que chegam à luz da fé.

 A mensagem ilustra o reconhecimento de Cristo, enquanto “luz verdadeira que ilumina todo homem” ( 1,9) e que “brilha nas trevas” (1,5). A vivência cristã contém a esperança: “Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (8,12). Luz que avança e vence as trevas da morte.

Dom Edson de Castro Homem
Autor

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro