Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/10/2018

15 de Outubro de 2018

Cristo: luz da vida

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15 de Outubro de 2018

Cristo: luz da vida

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30/03/2014 00:00 - Atualizado em 23/04/2014 15:37

Cristo: luz da vida 0

30/03/2014 00:00 - Atualizado em 23/04/2014 15:37

Cristo: luz da vida / Arqrio

4º DOMINGO DA QUARESMA

 

1ª Leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Sl 22 (23)

2ª Leitura: Ef 5,8-14

Evangelho: Jo 9,1-41

 “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” (cf. Jo 9,5)

Hoje nos reunimos para celebrar Aquele que se apresentou a nós como sendo “a luz do mundo”. O versículo central deste evangelho que hoje ouvimos é este v. 5, onde Jesus afirma ser Ele a luz do mundo. No terceiro domingo deste fecundo tempo da quaresma que estamos vivendo, Cristo se apresentou à samaritana como sendo a fonte da “água viva”; hoje Cristo se apresenta a nós como sendo a luz. A água e a luz são duas realidades que nos remetem ao tema do batismo. No batismo fomos “lavados” na fonte que jorra do lado aberto de Cristo, fomos “iluminados” por Aquele que é a própria luz.

 A primeira leitura e o evangelho que hoje ouvimos nos mostram que a iniciativa salvífica é sempre de Deus. Na primeira leitura ouvimos que “o Senhor disse a Samuel: Enche o chifre de óleo e vem para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para mim entre os seus filhos”. O evangelho, por sua vez, nos narra que “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” e tomou, então, a iniciativa de se aproximar desse cego para oferecer-lhe a cura. A primeira leitura e o evangelho querem nos mostrar, então, que a iniciativa salvífica é sempre de Deus. Tanto na unção de Davi, prenúncio da vinda do Messias, quanto na iluminação do cego, prenúncio do batismo cristão, é sempre Deus quem toma a iniciativa.

 Nos chama atenção ainda, no relato da unção de Davi, a palavra que Deus dirige a Samuel quando este pensa que Deus havia escolhido Eliab, por causa da sua aparência. Deus diz a Samuel: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”. Deus tem uma visão diferente da visão do homem. Deus vê o núcleo profundo e a realidade última das coisas e das pessoas. O homem, ao contrário, vê apenas a aparência e, por isso, seus critérios não são válidos para Deus. Só Deus, que vê com clareza, pode emitir critérios válidos, capazes de guiar a vida dos homens. Nós nascemos nas trevas. Nos diz o grande Santo Agostinho, bispo de Hipona: “Cegos também nós nascemos de Adão, e precisamos ser iluminados pelo Senhor.”[1] Nascemos cegos de Adão. O pecado de Adão o deixou cego, incapaz de ver as coisas com clareza. Adão depois do pecado ficou escravo da aparência das coisas. Vendo somente a aparência das coisas, o homem não é mais capaz de, sozinho, discernir seus caminhos. Quando ele o tenta fazer, sempre escolhe caminhos de morte. Por isso, Cristo vem para iluminar o homem. “Deus é Luz e nele não há treva alguma” (cf. 1Jo 1,5b) já nos afirmava o mesmo João na sua primeira carta. O Pai, que é luz, nos enviou o seu Filho, “Luz da Luz” como rezamos no Credo Niceno-Constantinopolitano, para nos iluminar, a nós que habitávamos nas trevas. Assim se cumpre o que o Senhor havia prometido pela boca do profeta Isaías: “Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se desobstruirão” (cf. Is 35,5); e ainda: “Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu espírito, ele trará o julgamento às nações. Eu, o Senhor, te chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão e te modelei, eu te pus como aliança do povo, como luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos” (cf. Is 42,1.6-7a).

 O pecado original fez com que em Adão os sentidos espirituais perdessem a sua sensibilidade. Nascemos com os sentidos físicos, mas aqueles espirituais, dos quais os físicos são apenas sinais sensíveis, se tornaram inertes em nós. Assim, embora tenhamos olhos, somos incapazes de enxergar, estamos privados da luz. Cristo vem, então, para cumprir o que o Senhor havia prometido pela boca do profeta, Ele vem para fazer os cegos enxergarem. Cristo toma a iniciativa de ir ao encontro do cego de nascença. Cristo realiza um gesto simbólico: faz um pouco de lama com sua saliva e a aplica nos olhos do cego, mandando depois que Ele fosse lavar-se na piscina de Siloé. Ao lavar-se, o cego recupera a vista, e sua cura milagrosa chama a atenção de todos os presentes, inclusive dos fariseus que querem a qualquer custo abafar o milagre de Jesus. O cego não aceita a atitude dos fariseus que querem negar o milagre. Ao contrário, afirma com convicção que foi curado e que acredita que Aquele que o curou vem da parte de Deus, porque “Deus não ouve os pecadores”, mas a este Deus ouviu e realizou o que Ele havia pedido. Depois de ser, enfim, expulso da sinagoga, o cego encontra de novo Jesus, que completa o milagre, dando ao cego de nascença a luz verdadeira, a luz da fé. “Acreditas no Filho do Homem?” É a interpelação do Messias. “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” É a resposta daquele que era cego e mendigo e que agora já pode ver a luz. “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”, responde o Messias. “Eu creio, Senhor!”, afirma finalmente aquele que era duplamente cego, no corpo e no espírito, e que agora não somente enxerga a luz desse mundo, mas também vê com os olhos da fé o Cristo, “luz da vida”.

 Nós também somos cegos e mendigos. Nascemos mergulhados nas trevas do pecado e incapazes de ver as coisas na sua realidade última. Vemos só a aparência, como disse Deus a Samuel na primeira leitura. Somos mendigos. Esperamos aqui e ali receber algo dos outros, porque não conseguimos ver Aquele que é o doador de todos os bens, e que só pode ser visto e reconhecido pela luz da fé. Cristo veio para nos iluminar. Os primeiros cristãos chamavam o batismo de “iluminação”. No batismo fomos iluminados por Cristo. Cristo é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo. Ele nos faz ver o coração das coisas. Cristo nos faz olhar além das aparências. Ele é a luz que ilumina as nossas trevas. Devemos aprender a olhar o mundo e as pessoas através de Cristo, que é a luz capaz de dar clareza à nossa visão.


Iluminados por Cristo, devemos seguir o que nos diz o Apóstolo na segunda leitura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz”. Antes de sermos iluminados por Cristo éramos trevas. Agora que Ele nos iluminou somos “luz no Senhor”. Somos chamados a “viver como filhos da luz”. O Apóstolo ainda nos diz “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará”. O Apóstolo nos lembra a realidade de quem nós somos. Nós somos “luz no Senhor”. Devemos viver de acordo com aquilo o que nos tornamos no dia do nosso batismo. Se nós nos tornamos “luz no Senhor”, devemos viver como “filhos da luz”.  Antes, dormíamos no pecado; estávamos mortos. Cristo nos despertou com a sua Palavra; Cristo nos ressuscitou, fazendo-nos, no batismo, passar da morte para a vida. Cristo nos iluminou e agora devemos viver como filhos da luz.

Não podemos nos guiar pelos critérios do mundo. O mundo vive de critérios de morte; o pensamento do mundo é tenebroso; o mundo vive envolto no sono do pecado. Nós queremos a vida; nosso pensamento precisa ser iluminado por Cristo, porque queremos viver despertos, atentos, acordados e não dormindo, esperando ansiosamente a vinda do Senhor. Não devemos nos associar às trevas, mas devemos ter a coragem de denunciá-las. Denunciar as trevas não significa acusar os pecados dos outros. Devemos denunciar as trevas também na nossa vida. Devemos ter a coragem de reconhecer e admitir que em nós existem muitas coisas que não nos pertencem mais, porque são trevas e nós agora somos luz no Senhor. Viver como filhos da luz, significa ter a coragem de reconhecer o que em nós existe ainda de tenebroso e apresentá-lo ao Senhor para que Ele nos ilumine ainda mais plenamente, para que a sua luz resplandeça cada vez melhor em nós. Sabemos que ainda existem focos de trevas em nós; existem áreas em nós que querem resistir à luz. Existem algumas áreas de trevas tão densas que não temos nem mesmo a coragem de olhá-las, menos ainda de falar sobre elas com alguém. Precisamos nos libertar das trevas. Isso significa primeiro ter a coragem de olhar para as nossas trevas interiores, denunciá-las. Depois precisamos também ter a coragem de revelar a alguém, sobretudo a um diretor espiritual capaz de nos conduzir, as trevas que encontrarmos em nós, para que assim possamos estar vivendo na luz, denunciando as próprias trevas, não compactuando com elas, mas andando num caminho de libertação e vida nova com Cristo.

 Precisamos também denunciar as obras das trevas que estão no mundo. Devemos ter a coragem de ver quanto existe ainda de trevas na nossa sociedade, nos meios de comunicação, na mentalidade das pessoas e precisamos denunciar isso. Nós recebemos a luz de Cristo, devemos com a luz que de Cristo recebemos iluminar o mundo. No batismo das crianças, enquanto o pai ou o padrinho segura a vela acesa, o sacerdote diz: “Queridas crianças, vocês foram iluminadas por Cristo, para se tornarem luz do mundo. Com a ajuda de seus pais e padrinhos, caminhem como filhos e filhas da luz.” Na iniciação cristã dos adultos, enquanto os próprios batizados seguram a sua vela acesa no círio pascal o sacerdote diz: “Deus tornou vocês luz em Cristo. Caminhem sempre como filhos da luz, para que, perseverando na fé, possam ir ao encontro do Senhor com todos os Santos no reino celeste.” A luz de Cristo que recebemos é um dom que configura uma missão: a missão de sermos no mundo sacramentos d’Aquele que é a própria luz. Diante de tão grande missão tememos fraquejar. Nesta hora ampara-nos a palavra do salmo: “Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei. Estais comigo com bastão e com cajado, eles me dão a segurança”. Não tememos os vales tenebrosos pelos quais caminhamos no mundo. Não tememos também descer às sendas escuras do nosso próprio coração. Afinal, está conosco Aquele que é a “Luz da Luz”, Aquele que se apresenta hoje a nós na Palavra da Escritura dizendo: “Eu sou a luz do mundo”. Sigamos o Cristo-Luz. Deixemo-nos iluminar por Ele. Quem o segue não caminha nas trevas, mas tem a luz da vida (cf. Jo 8,12).



[1] Cf. Tratado sobre o Evangelho de São João. In: Liturgia das Horas, vol. II, p. 245.

 
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30/03/2014 00:00 - Atualizado em 23/04/2014 15:37

4º DOMINGO DA QUARESMA

 

1ª Leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Sl 22 (23)

2ª Leitura: Ef 5,8-14

Evangelho: Jo 9,1-41

 “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” (cf. Jo 9,5)

Hoje nos reunimos para celebrar Aquele que se apresentou a nós como sendo “a luz do mundo”. O versículo central deste evangelho que hoje ouvimos é este v. 5, onde Jesus afirma ser Ele a luz do mundo. No terceiro domingo deste fecundo tempo da quaresma que estamos vivendo, Cristo se apresentou à samaritana como sendo a fonte da “água viva”; hoje Cristo se apresenta a nós como sendo a luz. A água e a luz são duas realidades que nos remetem ao tema do batismo. No batismo fomos “lavados” na fonte que jorra do lado aberto de Cristo, fomos “iluminados” por Aquele que é a própria luz.

 A primeira leitura e o evangelho que hoje ouvimos nos mostram que a iniciativa salvífica é sempre de Deus. Na primeira leitura ouvimos que “o Senhor disse a Samuel: Enche o chifre de óleo e vem para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para mim entre os seus filhos”. O evangelho, por sua vez, nos narra que “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” e tomou, então, a iniciativa de se aproximar desse cego para oferecer-lhe a cura. A primeira leitura e o evangelho querem nos mostrar, então, que a iniciativa salvífica é sempre de Deus. Tanto na unção de Davi, prenúncio da vinda do Messias, quanto na iluminação do cego, prenúncio do batismo cristão, é sempre Deus quem toma a iniciativa.

 Nos chama atenção ainda, no relato da unção de Davi, a palavra que Deus dirige a Samuel quando este pensa que Deus havia escolhido Eliab, por causa da sua aparência. Deus diz a Samuel: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”. Deus tem uma visão diferente da visão do homem. Deus vê o núcleo profundo e a realidade última das coisas e das pessoas. O homem, ao contrário, vê apenas a aparência e, por isso, seus critérios não são válidos para Deus. Só Deus, que vê com clareza, pode emitir critérios válidos, capazes de guiar a vida dos homens. Nós nascemos nas trevas. Nos diz o grande Santo Agostinho, bispo de Hipona: “Cegos também nós nascemos de Adão, e precisamos ser iluminados pelo Senhor.”[1] Nascemos cegos de Adão. O pecado de Adão o deixou cego, incapaz de ver as coisas com clareza. Adão depois do pecado ficou escravo da aparência das coisas. Vendo somente a aparência das coisas, o homem não é mais capaz de, sozinho, discernir seus caminhos. Quando ele o tenta fazer, sempre escolhe caminhos de morte. Por isso, Cristo vem para iluminar o homem. “Deus é Luz e nele não há treva alguma” (cf. 1Jo 1,5b) já nos afirmava o mesmo João na sua primeira carta. O Pai, que é luz, nos enviou o seu Filho, “Luz da Luz” como rezamos no Credo Niceno-Constantinopolitano, para nos iluminar, a nós que habitávamos nas trevas. Assim se cumpre o que o Senhor havia prometido pela boca do profeta Isaías: “Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se desobstruirão” (cf. Is 35,5); e ainda: “Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu espírito, ele trará o julgamento às nações. Eu, o Senhor, te chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão e te modelei, eu te pus como aliança do povo, como luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos” (cf. Is 42,1.6-7a).

 O pecado original fez com que em Adão os sentidos espirituais perdessem a sua sensibilidade. Nascemos com os sentidos físicos, mas aqueles espirituais, dos quais os físicos são apenas sinais sensíveis, se tornaram inertes em nós. Assim, embora tenhamos olhos, somos incapazes de enxergar, estamos privados da luz. Cristo vem, então, para cumprir o que o Senhor havia prometido pela boca do profeta, Ele vem para fazer os cegos enxergarem. Cristo toma a iniciativa de ir ao encontro do cego de nascença. Cristo realiza um gesto simbólico: faz um pouco de lama com sua saliva e a aplica nos olhos do cego, mandando depois que Ele fosse lavar-se na piscina de Siloé. Ao lavar-se, o cego recupera a vista, e sua cura milagrosa chama a atenção de todos os presentes, inclusive dos fariseus que querem a qualquer custo abafar o milagre de Jesus. O cego não aceita a atitude dos fariseus que querem negar o milagre. Ao contrário, afirma com convicção que foi curado e que acredita que Aquele que o curou vem da parte de Deus, porque “Deus não ouve os pecadores”, mas a este Deus ouviu e realizou o que Ele havia pedido. Depois de ser, enfim, expulso da sinagoga, o cego encontra de novo Jesus, que completa o milagre, dando ao cego de nascença a luz verdadeira, a luz da fé. “Acreditas no Filho do Homem?” É a interpelação do Messias. “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” É a resposta daquele que era cego e mendigo e que agora já pode ver a luz. “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”, responde o Messias. “Eu creio, Senhor!”, afirma finalmente aquele que era duplamente cego, no corpo e no espírito, e que agora não somente enxerga a luz desse mundo, mas também vê com os olhos da fé o Cristo, “luz da vida”.

 Nós também somos cegos e mendigos. Nascemos mergulhados nas trevas do pecado e incapazes de ver as coisas na sua realidade última. Vemos só a aparência, como disse Deus a Samuel na primeira leitura. Somos mendigos. Esperamos aqui e ali receber algo dos outros, porque não conseguimos ver Aquele que é o doador de todos os bens, e que só pode ser visto e reconhecido pela luz da fé. Cristo veio para nos iluminar. Os primeiros cristãos chamavam o batismo de “iluminação”. No batismo fomos iluminados por Cristo. Cristo é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo. Ele nos faz ver o coração das coisas. Cristo nos faz olhar além das aparências. Ele é a luz que ilumina as nossas trevas. Devemos aprender a olhar o mundo e as pessoas através de Cristo, que é a luz capaz de dar clareza à nossa visão.


Iluminados por Cristo, devemos seguir o que nos diz o Apóstolo na segunda leitura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz”. Antes de sermos iluminados por Cristo éramos trevas. Agora que Ele nos iluminou somos “luz no Senhor”. Somos chamados a “viver como filhos da luz”. O Apóstolo ainda nos diz “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará”. O Apóstolo nos lembra a realidade de quem nós somos. Nós somos “luz no Senhor”. Devemos viver de acordo com aquilo o que nos tornamos no dia do nosso batismo. Se nós nos tornamos “luz no Senhor”, devemos viver como “filhos da luz”.  Antes, dormíamos no pecado; estávamos mortos. Cristo nos despertou com a sua Palavra; Cristo nos ressuscitou, fazendo-nos, no batismo, passar da morte para a vida. Cristo nos iluminou e agora devemos viver como filhos da luz.

Não podemos nos guiar pelos critérios do mundo. O mundo vive de critérios de morte; o pensamento do mundo é tenebroso; o mundo vive envolto no sono do pecado. Nós queremos a vida; nosso pensamento precisa ser iluminado por Cristo, porque queremos viver despertos, atentos, acordados e não dormindo, esperando ansiosamente a vinda do Senhor. Não devemos nos associar às trevas, mas devemos ter a coragem de denunciá-las. Denunciar as trevas não significa acusar os pecados dos outros. Devemos denunciar as trevas também na nossa vida. Devemos ter a coragem de reconhecer e admitir que em nós existem muitas coisas que não nos pertencem mais, porque são trevas e nós agora somos luz no Senhor. Viver como filhos da luz, significa ter a coragem de reconhecer o que em nós existe ainda de tenebroso e apresentá-lo ao Senhor para que Ele nos ilumine ainda mais plenamente, para que a sua luz resplandeça cada vez melhor em nós. Sabemos que ainda existem focos de trevas em nós; existem áreas em nós que querem resistir à luz. Existem algumas áreas de trevas tão densas que não temos nem mesmo a coragem de olhá-las, menos ainda de falar sobre elas com alguém. Precisamos nos libertar das trevas. Isso significa primeiro ter a coragem de olhar para as nossas trevas interiores, denunciá-las. Depois precisamos também ter a coragem de revelar a alguém, sobretudo a um diretor espiritual capaz de nos conduzir, as trevas que encontrarmos em nós, para que assim possamos estar vivendo na luz, denunciando as próprias trevas, não compactuando com elas, mas andando num caminho de libertação e vida nova com Cristo.

 Precisamos também denunciar as obras das trevas que estão no mundo. Devemos ter a coragem de ver quanto existe ainda de trevas na nossa sociedade, nos meios de comunicação, na mentalidade das pessoas e precisamos denunciar isso. Nós recebemos a luz de Cristo, devemos com a luz que de Cristo recebemos iluminar o mundo. No batismo das crianças, enquanto o pai ou o padrinho segura a vela acesa, o sacerdote diz: “Queridas crianças, vocês foram iluminadas por Cristo, para se tornarem luz do mundo. Com a ajuda de seus pais e padrinhos, caminhem como filhos e filhas da luz.” Na iniciação cristã dos adultos, enquanto os próprios batizados seguram a sua vela acesa no círio pascal o sacerdote diz: “Deus tornou vocês luz em Cristo. Caminhem sempre como filhos da luz, para que, perseverando na fé, possam ir ao encontro do Senhor com todos os Santos no reino celeste.” A luz de Cristo que recebemos é um dom que configura uma missão: a missão de sermos no mundo sacramentos d’Aquele que é a própria luz. Diante de tão grande missão tememos fraquejar. Nesta hora ampara-nos a palavra do salmo: “Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei. Estais comigo com bastão e com cajado, eles me dão a segurança”. Não tememos os vales tenebrosos pelos quais caminhamos no mundo. Não tememos também descer às sendas escuras do nosso próprio coração. Afinal, está conosco Aquele que é a “Luz da Luz”, Aquele que se apresenta hoje a nós na Palavra da Escritura dizendo: “Eu sou a luz do mundo”. Sigamos o Cristo-Luz. Deixemo-nos iluminar por Ele. Quem o segue não caminha nas trevas, mas tem a luz da vida (cf. Jo 8,12).



[1] Cf. Tratado sobre o Evangelho de São João. In: Liturgia das Horas, vol. II, p. 245.

 
Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida