Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

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23/03/2014 00:00

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23/03/2014 00:00

temp_titleJesus_e_mulher_Samaritana_21032014164817

“Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.” (cf. Rm 5,8)

Como afirma este versículo da segunda leitura que hoje ouvimos, “Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. A morte de Cristo constitui para nós a prova de que o Pai nos ama. O Pai nos ama a ponto de dar-nos o seu Filho. É esse mistério da morte de Cristo como expressão do amor do Pai por nós que celebramos na Eucaristia. A cada domingo nós nos encontramos aqui neste lugar santo com a única finalidade de dar a Deus o louvor que lhe é devido, como manifestação do nosso amor Àquele que nos amou primeiro, quando ainda andávamos nas trevas, e nos enviou o seu Filho para nos resgatar como prova do seu amor infinito. Nem o pecado pôde nos separar do amor de Deus, e isso nos foi manifestado em Cristo Jesus. Ele nos justificou como afirma o apóstolo, e por isso estamos em paz com Deus. A fé na justificação que Cristo realizou em nosso favor produz em nós a esperança da glória. Essa “esperança da glória” é o que nos mantém firmes. Na Quaresma somos convidados a ter o olhar centrado no sacrifício de Cristo. O sacrifício de Cristo esconde e, ao mesmo tempo, revela a sua glória. Nós também desejamos e esperamos uma glória, mas não a glória desse mundo. Aguardamos a glória de Cristo, com a qual seremos revestidos se verdadeiramente também com Ele abraçarmos a Cruz.

Hoje Deus nos convida a abrirmos bem os nossos ouvidos, a fim de estarmos atentos à sua Palavra: “Hoje, se ouvirdes a voz de Deus, não endureçais o vosso coração!” Não endureçamos o nosso coração, porque hoje, aqui e agora, nós estamos ouvindo a voz de Deus. A Palavra de Deus é a sua voz que nos chama, que nos desperta e que nos guia pelas veredas da justiça. Não fechemos o nosso coração. O nosso coração tem sede de Deus e da sua Palavra. A sua Palavra é hoje a água viva que vem nos saciar. Não fechemos o nosso coração. O Salmo 41 nos diz: “Como a corça suspira por águas correntes, assim minha alma está suspirando por ti, ó meu Deus!”. Sim, nossa alma suspira por Deus; nossa alma tem uma sede infinita, uma sede de Deus. Hoje a Palavra de Deus vem até nós como uma água viva capaz de saciar nossa sede.

A primeira leitura fala-nos também de uma sede. Moisés conduz o povo até Rafidim, onde não havia água para o povo beber. Os três primeiros versículos noz dizem assim: “Toda a comunidade dos filhos de Israel partiu do deserto de Sin para as etapas seguintes, segundo a ordem de Iahweh, e acamparam em Rafidim, onde não havia água para o povo beber. O povo discutiu, pois, com Moisés, e disse: ‘Dá-nos água para beber’ ”.  Respondeu-lhes Moisés: ‘Por que discutis comigo? Por que colocais Iahweh à prova?’ ” O povo, continua a leitura, “sedento de água”, “murmurava contra Moisés”. Ao experimentar a sede do deserto o povo quer voltar às fontes antigas, ao Egito, incapaz de saciar a sua sede. Deus, todavia, revela ao povo uma fonte nova, um rochedo ferido pelo cajado de Moisés, de onde brota uma água capaz de saciar a sede do povo. Paulo nos fala na Carta aos Coríntios que este rochedo de onde o povo bebeu era símbolo de Cristo: “Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo.” Orígenes comenta ainda de forma fabulosa esta passagem do Êxodo: “Murmuraram contra Moisés, e por isso Deus manda que lhes seja mostrada a pedra da qual beberão. Se existe alguém que lendo Moisés murmura contra ele, e não lhe agrada a lei escrita segundo a letra, porque em muitas passagens não parece ter coerência lógica, lhe mostra Moisés a pedra, que é Cristo (cf. 1Cor 10,4), e o conduz à mesma para que possa dela beber e saciar a sua sede. Esta pedra não jorrará água se não for golpeada; sem dúvida, golpeada produz fontes. Com efeito, golpeado Cristo e posto na cruz, produz as fontes do Novo Testamento; e por isso se diz d’Ele: Golpearei o pastor e se dispersarão as ovelhas (cf. Zc 13,7). Era, portanto, necessário que Ele fosse golpeado; com efeito, se Ele não houvesse sido golpeado, e se não houvesse brotado de seu lado água e sangue (cf. Jo 19,34), todos nós padeceríamos sede da Palavra de Deus.”1

Que Cristo é a fonte de água viva nos testemunha também o evangelho que acabamos de ouvir, coração dessa liturgia da Palavra. Hoje nós ouvimos o evangelho que nos relata o encontro de Jesus com a samaritana. É o tema batismal da água viva. Neste domingo e nos próximos dois domingos a Igreja nos apresentará na liturgia da Palavra evangelhos com temas profundamente batismais, uma vez que o objetivo primário da Quaresma era preparar os catecúmenos para que recebessem na Vigília Pascal a Iniciação Cristã.

Testemunhamos hoje neste Evangelho o encontro de duas sedes: a sede de Jesus, que pede à samaritana “dá-me de beber”, e a sede da samaritana que vem ao poço cotidianamente tirar água. Neste diálogo nós vemos que Aquele mesmo que pede de beber à samaritana vai prometer-lhe uma água viva. Jesus, de fato, tinha “sede da fé daquela mulher”, como nos diz Santo Agostinho no seu Tratado sobre o Evangelho de São João. A mulher, por sua vez, tinha uma sede que não podia ser definitivamente saciada pela água do poço de Jacó. Finalmente a mulher está diante de alguém que pode saciar a sua sede. O que em figuras acontecia no Êxodo, agora acontece em forma definitiva. A samaritana, que tantas vezes buscou uma água que não a saciava, agora se encontra diante do doador da água viva. Tantas vezes também nós, como a samaritana, buscamos uma água que não nos sacia. Vamos ao poço e buscamos uma água que nos permitirá ter sede novamente. Cristo, todavia, nos dá uma água que, quem dela beber “nunca mais terá sede” e, mais ainda, a água viva dada por Jesus Àquele que vem n’Ele beber, porque Ele é a fonte dessa água viva, experimentará dentro de si “uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. Essa água viva prometida por Jesus é o “Espírito que deviam receber aqueles que tinham crido nele” (cf. Jo 7,39), conforme nos explica mais adiante João. Jesus é a fonte de água viva, que vai ser rompida para nós na Cruz. O mesmo João nos diz no seu relato da paixão que um soldado rasgou o lado de Jesus com a lança e que de seu lado aberto brotou “sangue e água” (cf. Jo 19,34). É a água viva do Espírito que brota do lado aberto de Jesus na Cruz. Esse é o Espírito que recebemos ao mergulharmos nas águas do nosso batismo. O Espírito recebido no nosso batismo está agora dentro de nós, como uma fonte que jorra para a vida eterna. Santo Inácio de Antioquia entendeu bem isso e disse numa de suas cartas que percebia dentro de si “uma água viva e murmurante que lhe dizia: Vem para o Pai!” Essa é a voz do Espírito que Jesus nos deu e que mora em nós como num templo.

Jesus continua o seu diálogo com a samaritana, e esta fica surpresa quando Jesus revela a sua vida íntima: ela havia tido cinco maridos e o que agora tinha não era dela. Essa mulher é símbolo dos samaritanos que segundo 2Rs 17,24-41 haviam se formado na época do exílio da Assíria pela junção de cinco povos pagãos que passaram a cultuar também os seus deuses, além do Deus único e verdadeiro. Ela se vê surpreendida pela vidência desse “profeta” e lhe propõe uma questão: onde se deve adorar? Os judeus haviam dito que era em Jerusalém; os samaritanos insistiam que também se podia adorar no Garizim. Jesus lhe afirma que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade. Aqueles que receberam o Espírito devem adorar a Deus em Espírito. Jesus não está dizendo que não deve existir o culto público e oficial e nem o lugar de culto. Jesus está apenas afirmando que o lugar de culto não precisa ser um só, porque em todo lugar se pode erigir um templo para Deus e ali se realizar o seu culto. Mais ainda, Jesus quer afirmar que a liturgia e o templo são sacramentos, sinais vivos, daquilo o que deve ser a nossa vida. O culto a Deus que é expresso de maneira sublime no templo e na liturgia que aqui se realiza deve continuar na nossa vida, de modo que nós tomemos a consciência de que somos o templo e de que a nossa vida deve toda ela se tornar uma liturgia para Deus.

Enquanto a samaritana sai para dar seu testemunho aos seus conterrâneos, Jesus se volta para os discípulos que querem que Ele coma. Jesus nos revelou que possui uma sede espiritual, a sede da nossa fé. Agora Jesus revela aos discípulos e a nós que Ele possui uma fome espiritual, a fome de fazer a vontade do Pai. Devemos também nós pedir ao Espírito que faça arder em nós uma sede e uma fome espirituais. A nossa sede deve ser sede da água viva que Jesus abundantemente deseja nos dar. A nossa fome deve ser semelhante a de Jesus. Nosso “alimento” deve ser “fazer a vontade” daquele que nos enviou Jesus. Devemos amar a vontade do Pai até as suas últimas consequências, como Jesus amou. Jesus disse que o seu alimento era fazer a vontade do Pai e consumar a sua obra. Nós sabemos o que significou para Jesus “consumar a obra” do Pai. Devemos amar a vontade do Pai como Jesus amou, com um amor capaz de se tornar dom de si mesmo ao Pai.

Embora Jesus diga à samaritana que “a salvação vem dos judeus”, ela agora está aberta a todos. Os samaritanos são os primeiros frutos colhidos. Eles dão a Jesus a resposta da fé: “Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo.” O testemunho da mulher que fez uma experiência com Cristo arrasta os seus conterrâneos que fazem eles mesmos uma experiência com Cristo e prestam-lhe agora a obediência da fé.

O Pai havia escolhido um povo e com este povo feito uma aliança. Mas agora, na plenitude dos tempos, Cristo vem nos revelar o que Israel muitas vezes se esqueceu, ou seja, que a aliança de Deus sempre visou atingir todos os homens, que seriam conduzidos à verdadeira fé pelo testemunho de Israel. Cristo nos revela que a salvação está aberta a todos os que querem acorrer a Ele, fonte de água viva, que sobre todos derrama o Espírito.

No v. 25 desse evangelho que acabamos de ouvir a mulher disse a Jesus: “Sei que vem um Messias. Quando ele vier, nos anunciará tudo”. A mulher revela diante de Jesus a sua esperança numa intervenção divina que trará resposta às suas indagações mais profundas. Jesus responde à mulher: “Sou eu que falo contigo”. Jesus é a resposta que aquela mulher procurava. Jesus era a água viva procurada pela mulher sedenta. Jesus era o Salvador esperado pelo homem ferido. Jesus é a cura que o homem doente de pecado aguardava ansiosamente. O Evangelho termina com o reconhecimento por parte dos samaritanos de que Jesus é o Salvador do mundo: “Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo”. Jesus é o Salvador do mundo, Aquele que nos anuncia tudo. Jesus é a salvação que esperávamos e necessitávamos. Jesus é para nós a esperança da glória da qual Paulo nos fala na segunda leitura. A vida do nosso Salvador é para nós a Palavra mais eloquente. Assim como Cristo morreu e ressuscitou, nós também ressuscitaremos. A vida de Jesus e, sobretudo, a sua Páscoa é a resposta, a única resposta, a melhor resposta, a resposta verdadeira para as nossas indagações. Peçamos ao doador da água viva que nessa liturgia abra sobre nós a sua fonte divina. Deixemo-nos banhar nas águas vivas do Espírito para que os nossos olhos se abram para ver a glória do Senhor e a nossa inteligência também se abra para compreender os seus mistérios.

 

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“Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.” (cf. Rm 5,8)

Como afirma este versículo da segunda leitura que hoje ouvimos, “Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. A morte de Cristo constitui para nós a prova de que o Pai nos ama. O Pai nos ama a ponto de dar-nos o seu Filho. É esse mistério da morte de Cristo como expressão do amor do Pai por nós que celebramos na Eucaristia. A cada domingo nós nos encontramos aqui neste lugar santo com a única finalidade de dar a Deus o louvor que lhe é devido, como manifestação do nosso amor Àquele que nos amou primeiro, quando ainda andávamos nas trevas, e nos enviou o seu Filho para nos resgatar como prova do seu amor infinito. Nem o pecado pôde nos separar do amor de Deus, e isso nos foi manifestado em Cristo Jesus. Ele nos justificou como afirma o apóstolo, e por isso estamos em paz com Deus. A fé na justificação que Cristo realizou em nosso favor produz em nós a esperança da glória. Essa “esperança da glória” é o que nos mantém firmes. Na Quaresma somos convidados a ter o olhar centrado no sacrifício de Cristo. O sacrifício de Cristo esconde e, ao mesmo tempo, revela a sua glória. Nós também desejamos e esperamos uma glória, mas não a glória desse mundo. Aguardamos a glória de Cristo, com a qual seremos revestidos se verdadeiramente também com Ele abraçarmos a Cruz.

Hoje Deus nos convida a abrirmos bem os nossos ouvidos, a fim de estarmos atentos à sua Palavra: “Hoje, se ouvirdes a voz de Deus, não endureçais o vosso coração!” Não endureçamos o nosso coração, porque hoje, aqui e agora, nós estamos ouvindo a voz de Deus. A Palavra de Deus é a sua voz que nos chama, que nos desperta e que nos guia pelas veredas da justiça. Não fechemos o nosso coração. O nosso coração tem sede de Deus e da sua Palavra. A sua Palavra é hoje a água viva que vem nos saciar. Não fechemos o nosso coração. O Salmo 41 nos diz: “Como a corça suspira por águas correntes, assim minha alma está suspirando por ti, ó meu Deus!”. Sim, nossa alma suspira por Deus; nossa alma tem uma sede infinita, uma sede de Deus. Hoje a Palavra de Deus vem até nós como uma água viva capaz de saciar nossa sede.

A primeira leitura fala-nos também de uma sede. Moisés conduz o povo até Rafidim, onde não havia água para o povo beber. Os três primeiros versículos noz dizem assim: “Toda a comunidade dos filhos de Israel partiu do deserto de Sin para as etapas seguintes, segundo a ordem de Iahweh, e acamparam em Rafidim, onde não havia água para o povo beber. O povo discutiu, pois, com Moisés, e disse: ‘Dá-nos água para beber’ ”.  Respondeu-lhes Moisés: ‘Por que discutis comigo? Por que colocais Iahweh à prova?’ ” O povo, continua a leitura, “sedento de água”, “murmurava contra Moisés”. Ao experimentar a sede do deserto o povo quer voltar às fontes antigas, ao Egito, incapaz de saciar a sua sede. Deus, todavia, revela ao povo uma fonte nova, um rochedo ferido pelo cajado de Moisés, de onde brota uma água capaz de saciar a sede do povo. Paulo nos fala na Carta aos Coríntios que este rochedo de onde o povo bebeu era símbolo de Cristo: “Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo.” Orígenes comenta ainda de forma fabulosa esta passagem do Êxodo: “Murmuraram contra Moisés, e por isso Deus manda que lhes seja mostrada a pedra da qual beberão. Se existe alguém que lendo Moisés murmura contra ele, e não lhe agrada a lei escrita segundo a letra, porque em muitas passagens não parece ter coerência lógica, lhe mostra Moisés a pedra, que é Cristo (cf. 1Cor 10,4), e o conduz à mesma para que possa dela beber e saciar a sua sede. Esta pedra não jorrará água se não for golpeada; sem dúvida, golpeada produz fontes. Com efeito, golpeado Cristo e posto na cruz, produz as fontes do Novo Testamento; e por isso se diz d’Ele: Golpearei o pastor e se dispersarão as ovelhas (cf. Zc 13,7). Era, portanto, necessário que Ele fosse golpeado; com efeito, se Ele não houvesse sido golpeado, e se não houvesse brotado de seu lado água e sangue (cf. Jo 19,34), todos nós padeceríamos sede da Palavra de Deus.”1

Que Cristo é a fonte de água viva nos testemunha também o evangelho que acabamos de ouvir, coração dessa liturgia da Palavra. Hoje nós ouvimos o evangelho que nos relata o encontro de Jesus com a samaritana. É o tema batismal da água viva. Neste domingo e nos próximos dois domingos a Igreja nos apresentará na liturgia da Palavra evangelhos com temas profundamente batismais, uma vez que o objetivo primário da Quaresma era preparar os catecúmenos para que recebessem na Vigília Pascal a Iniciação Cristã.

Testemunhamos hoje neste Evangelho o encontro de duas sedes: a sede de Jesus, que pede à samaritana “dá-me de beber”, e a sede da samaritana que vem ao poço cotidianamente tirar água. Neste diálogo nós vemos que Aquele mesmo que pede de beber à samaritana vai prometer-lhe uma água viva. Jesus, de fato, tinha “sede da fé daquela mulher”, como nos diz Santo Agostinho no seu Tratado sobre o Evangelho de São João. A mulher, por sua vez, tinha uma sede que não podia ser definitivamente saciada pela água do poço de Jacó. Finalmente a mulher está diante de alguém que pode saciar a sua sede. O que em figuras acontecia no Êxodo, agora acontece em forma definitiva. A samaritana, que tantas vezes buscou uma água que não a saciava, agora se encontra diante do doador da água viva. Tantas vezes também nós, como a samaritana, buscamos uma água que não nos sacia. Vamos ao poço e buscamos uma água que nos permitirá ter sede novamente. Cristo, todavia, nos dá uma água que, quem dela beber “nunca mais terá sede” e, mais ainda, a água viva dada por Jesus Àquele que vem n’Ele beber, porque Ele é a fonte dessa água viva, experimentará dentro de si “uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. Essa água viva prometida por Jesus é o “Espírito que deviam receber aqueles que tinham crido nele” (cf. Jo 7,39), conforme nos explica mais adiante João. Jesus é a fonte de água viva, que vai ser rompida para nós na Cruz. O mesmo João nos diz no seu relato da paixão que um soldado rasgou o lado de Jesus com a lança e que de seu lado aberto brotou “sangue e água” (cf. Jo 19,34). É a água viva do Espírito que brota do lado aberto de Jesus na Cruz. Esse é o Espírito que recebemos ao mergulharmos nas águas do nosso batismo. O Espírito recebido no nosso batismo está agora dentro de nós, como uma fonte que jorra para a vida eterna. Santo Inácio de Antioquia entendeu bem isso e disse numa de suas cartas que percebia dentro de si “uma água viva e murmurante que lhe dizia: Vem para o Pai!” Essa é a voz do Espírito que Jesus nos deu e que mora em nós como num templo.

Jesus continua o seu diálogo com a samaritana, e esta fica surpresa quando Jesus revela a sua vida íntima: ela havia tido cinco maridos e o que agora tinha não era dela. Essa mulher é símbolo dos samaritanos que segundo 2Rs 17,24-41 haviam se formado na época do exílio da Assíria pela junção de cinco povos pagãos que passaram a cultuar também os seus deuses, além do Deus único e verdadeiro. Ela se vê surpreendida pela vidência desse “profeta” e lhe propõe uma questão: onde se deve adorar? Os judeus haviam dito que era em Jerusalém; os samaritanos insistiam que também se podia adorar no Garizim. Jesus lhe afirma que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade. Aqueles que receberam o Espírito devem adorar a Deus em Espírito. Jesus não está dizendo que não deve existir o culto público e oficial e nem o lugar de culto. Jesus está apenas afirmando que o lugar de culto não precisa ser um só, porque em todo lugar se pode erigir um templo para Deus e ali se realizar o seu culto. Mais ainda, Jesus quer afirmar que a liturgia e o templo são sacramentos, sinais vivos, daquilo o que deve ser a nossa vida. O culto a Deus que é expresso de maneira sublime no templo e na liturgia que aqui se realiza deve continuar na nossa vida, de modo que nós tomemos a consciência de que somos o templo e de que a nossa vida deve toda ela se tornar uma liturgia para Deus.

Enquanto a samaritana sai para dar seu testemunho aos seus conterrâneos, Jesus se volta para os discípulos que querem que Ele coma. Jesus nos revelou que possui uma sede espiritual, a sede da nossa fé. Agora Jesus revela aos discípulos e a nós que Ele possui uma fome espiritual, a fome de fazer a vontade do Pai. Devemos também nós pedir ao Espírito que faça arder em nós uma sede e uma fome espirituais. A nossa sede deve ser sede da água viva que Jesus abundantemente deseja nos dar. A nossa fome deve ser semelhante a de Jesus. Nosso “alimento” deve ser “fazer a vontade” daquele que nos enviou Jesus. Devemos amar a vontade do Pai até as suas últimas consequências, como Jesus amou. Jesus disse que o seu alimento era fazer a vontade do Pai e consumar a sua obra. Nós sabemos o que significou para Jesus “consumar a obra” do Pai. Devemos amar a vontade do Pai como Jesus amou, com um amor capaz de se tornar dom de si mesmo ao Pai.

Embora Jesus diga à samaritana que “a salvação vem dos judeus”, ela agora está aberta a todos. Os samaritanos são os primeiros frutos colhidos. Eles dão a Jesus a resposta da fé: “Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo.” O testemunho da mulher que fez uma experiência com Cristo arrasta os seus conterrâneos que fazem eles mesmos uma experiência com Cristo e prestam-lhe agora a obediência da fé.

O Pai havia escolhido um povo e com este povo feito uma aliança. Mas agora, na plenitude dos tempos, Cristo vem nos revelar o que Israel muitas vezes se esqueceu, ou seja, que a aliança de Deus sempre visou atingir todos os homens, que seriam conduzidos à verdadeira fé pelo testemunho de Israel. Cristo nos revela que a salvação está aberta a todos os que querem acorrer a Ele, fonte de água viva, que sobre todos derrama o Espírito.

No v. 25 desse evangelho que acabamos de ouvir a mulher disse a Jesus: “Sei que vem um Messias. Quando ele vier, nos anunciará tudo”. A mulher revela diante de Jesus a sua esperança numa intervenção divina que trará resposta às suas indagações mais profundas. Jesus responde à mulher: “Sou eu que falo contigo”. Jesus é a resposta que aquela mulher procurava. Jesus era a água viva procurada pela mulher sedenta. Jesus era o Salvador esperado pelo homem ferido. Jesus é a cura que o homem doente de pecado aguardava ansiosamente. O Evangelho termina com o reconhecimento por parte dos samaritanos de que Jesus é o Salvador do mundo: “Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo”. Jesus é o Salvador do mundo, Aquele que nos anuncia tudo. Jesus é a salvação que esperávamos e necessitávamos. Jesus é para nós a esperança da glória da qual Paulo nos fala na segunda leitura. A vida do nosso Salvador é para nós a Palavra mais eloquente. Assim como Cristo morreu e ressuscitou, nós também ressuscitaremos. A vida de Jesus e, sobretudo, a sua Páscoa é a resposta, a única resposta, a melhor resposta, a resposta verdadeira para as nossas indagações. Peçamos ao doador da água viva que nessa liturgia abra sobre nós a sua fonte divina. Deixemo-nos banhar nas águas vivas do Espírito para que os nossos olhos se abram para ver a glória do Senhor e a nossa inteligência também se abra para compreender os seus mistérios.

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida