Arquidiocese do Rio de Janeiro

27º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

Senhor, Misericórdia!

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06/03/2014 19:11 - Atualizado em 07/03/2014 17:09

Senhor, Misericórdia! 0

06/03/2014 19:11 - Atualizado em 07/03/2014 17:09

1º Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Gn 2,7-9;3,1-7
Sl 50
2ª Leitura: Rm 5,12-19
Evangelho: Mt 4,1-11

Se bem que a vida do monge deva ser, em todo tempo, uma observância de Quaresma, como, porém, esta força é de poucos, por isso aconselhamos os monges a guardarem, com toda a pureza, a sua vida nesses dias de Quaresma e também a apagarem, nesses santos dias, todas as negligências dos outros tempos. E isso será feito dignamente, se nos preservamos de todos os vícios e nos entregamos à oração com lágrimas, à leitura, à compunção do coração e à abstinência. Acrescentemos, portanto, nesses dias, alguma coisa ao encargo habitual da nossa servidão: orações especiais, abstinência de comida e bebida; e assim ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para si; isto é: subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida, do sono, da conversa, da escurrilidade, e, na alegria do desejo espiritual, espere a Santa Páscoa.

Este trecho da Regra de São Bento é atualíssimo para nós que entramos neste tempo da Quaresma. São Bento afirma que toda a vida cristã deveria ser uma observância de Quaresma. Essa afirmação é muito interessante, porque nos faz perceber que aquilo o que observamos na Quaresma deve produzir fruto em todas as outras épocas do ano. Não se trata apenas de uma penitência momentânea, mas de uma penitência que nos cure para sermos livres e, assim, celebrarmos a Páscoa do Senhor. Mas, São Bento sabe que esta capacidade de observar sempre os próprios atos é de poucos e, por isso, nos convida a nestes dias de Quaresma guardarmos com toda pureza a nossa vida. São Bento nos convida a oferecermos “de espontânea vontade” com a “alegria do Espírito Santo” alguma coisa a mais a Deus nestes dias de Quaresma. O processo de conversão que iniciamos na Quaresma não pode ser forçado, nem triste. Devemos oferecer a Deus espontaneamente e com a alegria do Espírito Santo algo mais nestes dias, a fim de que a penitência que vamos realizar seja, para nós, um caminho de cura.

Existe um hino do Ofício Divino para a Quaresma que diz assim: “Agora é tempo favorável, divino dom da Providência, para curar o mundo enfermo com um remédio: a penitência.” Deus hoje nos dirige a sua Palavra e nos diz que este é o tempo favorável. A Quaresma é o tempo que Deus reserva para nos curar de maneira ainda mais intensa com um remédio: a penitência. A penitência não é castigo e, sim, cura. Cura das paixões da nossa alma, que turvam a nossa mente e a nossa visão e nos impedem de seguir livres o Deus verdadeiro.

Nestes dias de Quaresma nós queremos entrar no deserto com Cristo. A Palavra de Deus noz diz que o Espírito conduziu Jesus ao deserto para ser tentado pelo diabo. A Quaresma é uma imitação desse deserto de Cristo. É no deserto, “lugar sem palavra” , onde a vida parece impossível, que nós vamos aprender a viver da Palavra de Deus. Jesus vence as seduções do demônio pelo poder da Palavra de Deus e inaugura para nós um método espiritual para vencermos o maligno e suas seduções. São Bento, no prólogo da sua regra, diz que habitará na tenda do Senhor “aquele que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, reduzi-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo.” Aqui São Bento está se apropriando da imagem do Sl 136 (137), 7-9 que diz: “Recordai-vos, ó Senhor, contra os filhos de Edom, quando caiu Jerusalém, quando gritavam: ‘Arrasai-a até os próprios alicerces!’ Ó Babel devastadora, é feliz quem te pagar pelo mal que nos fizeste! É feliz quem, contra as pedras, esmagar os teus filhinhos!”. Aqui temos uma imagem sálmica bem forte. Trata-se de um salmo que possui versículos imprecatórios, que conjuram uma desgraça contra o inimigo pagão e infiel. Nós cristãos lemos esse salmo como São Bento à luz do Novo Testamento e da Páscoa de Cristo. Para São Bento, os “filhinhos da Babilônia” são os maus pensamentos, as sugestões diabólicas que devem ser quebradas, assim que nascem, de encontro a Cristo, que é a “rocha” evocada pelo salmo. A Quaresma é o tempo de seguirmos este evangelho do primeiro domingo. É o momento de entrarmos no deserto. O deserto é o lugar da provação, é a morada dos demônios, é o nosso campo de batalha, é onde vamos enfrentar as sugestões e seduções do mal alicerçados na Palavra de Deus. Mas o deserto também é o lugar onde Deus se manifesta, onde os anjos nos servem e é o caminho para a Jerusalém verdadeira. É no deserto que o Cristo vence a sedução da vanglória, de abrir-se a uma glória desse mundo e de abandonar a glória de Deus. É no deserto que nós vamos sair vitoriosos, como Cristo, sobre o pensamento diabólico da vanglória, que é o mais sutil de todos os pensamentos diabólicos. Nós poderíamos condensar as três tentações de Cristo numa única tentação: a tentação da vanglória. A vanglória consiste em buscar a glória deste mundo; o elogio dos homens. O diabo busca fazer com que Cristo ceda diante desta tentação: ou transformando as pedras em pães só para mostrar o seu poder, ou se atirando do precipício para mostrar que é Filho de Deus, ou cedendo à idolatria para conseguir uma grande riqueza. No deserto nós nos confrontamos com os pensamentos diabólicos e os vamos desmascarando. No deserto aprendemos a lutar, sobretudo, com o pensamento da vanglória; aprendemos no deserto a buscar a verdadeira glória, a glória que Deus tem reservada para nós, mas isso nos será revelado no próximo domingo.

Entramos no deserto com Cristo armados com a sua Palavra para vencermos as sugestões e as tentações do maligno. O pecado sempre se insinua aos homens em primeiro lugar no pensamento, como uma sugestão muito sutil. Vimos isso na primeira leitura. Foi assim que nossos primeiros pais pecaram. A serpente não os obriga ao pecado, mas os sugestiona, os faz pensar que contrariar a vontade de Deus seria melhor. Pela desobediência o homem atrai sobre si e sobre toda a humanidade o sofrimento e a morte. A segunda leitura nos fala justamente sobre isso: “pela desobediência de um só homem toda a humanidade foi estabelecida numa situação de pecado”. Às vezes as pessoas nos perguntam sobre a origem do mal e da morte. Nos perguntam o porquê de tantos sofrimentos. Aqui está hoje a resposta para nós. Estava nas mãos dos nossos primeiros pais no paraíso escolher a morte ou a vida; a obediência ou a desobediência. Deus no seu infinito amor criou o homem com livre arbítrio, podendo decidir entre o caminho da liberdade, escolhendo a Deus como seu Senhor, ou o caminho da escravidão, fazendo opção pelo pecado. O homem semeou na carne, como diz Paulo na Carta aos Gálatas, o homem escolheu o pecado, e por isso colheu a corrupção, colheu como fruto da sua escolha o sofrimento e a morte. A desobediência nos conduziu para a morte. Mas, existe uma boa nova para nós. Se a desobediência de um só homem trouxe a todos a morte, a obediência de um só trouxe para todos a vida verdadeira, uma vida a qual nós não tínhamos direito, a vida que Deus tem reservada para nós.

Como entrar no caminho da vida? Entramos no caminho da vida obedecendo. Assim como Cristo nos abriu o caminho para a vida pela sua obediência, também nós recebemos a vida que Cristo conquistou para nós obedecendo. E obedecer significa ouvir. Obedecer vem do latim obaudire. Precisamos ouvir a Deus. Como rezamos no Salmo 94: “Hoje se ouvirdes a voz de Deus, não endureçais os vossos corações.” Hoje a voz de Deus nos fala pela Palavra que ouvimos, não endureçamos os nossos corações. Ouçamos a voz de Deus que nos chama e sigamos o Cristo no seu deserto. Sejamos obedientes como Ele o foi e entremos confiantes de que venceremos as seduções do mal se estivermos firmados na Palavra de Deus. Sigamos a Cristo no seu deserto para entrarmos com Ele na Jerusalém Celeste. Mas, saibamos desde já que este é o caminho da Cruz. A obediência de Cristo o conduziu até a Cruz. Também lá nós chegaremos, nela subiremos, entraremos no mistério da morte, mas sairemos da morte para a vida vitoriosos com Cristo.

Sigamos hoje o que nos ensina o Evangelho. Peguemos as sugestões do mal, os maus pensamentos que nos advêm ao coração e os quebremos de encontro a Cristo. Confrontemos com a Palavra de Deus toda sugestão, todo pensamento que vem ao nosso coração.

A Quaresma é uma limpeza anual que fazemos no corpo e na alma. Abramos o nosso coração à Palavra de Deus, a fim de que ela nos ilumine. Uma boa maneira de começar uma limpeza é identificando o que está sujo, o que precisa ser limpo. Precisamos tomar contato com a nossa sujeira. O deserto da Quaresma nos proporciona esta experiência. Deixemos que a luz da Palavra de Deus penetre no mais íntimo do nosso coração. Olhemos, juntamente com Cristo, a nossa sujeira. Vamos juntos com Cristo descer às trevas do nosso coração. No nosso deserto interior existem também feras e demônios. Sozinhos, temos medo de enfrentá-los, mas a boa nova de hoje é que Cristo está conosco. Não estamos sozinhos no deserto. Está conosco o Cristo, é o Espírito quem nos conduz e do alto o Pai nos olha e nos acompanha com ternura como fez com o povo escolhido e com o Filho Unigênito. Deixemos que a Palavra de Deus nos purifique. Entreguemos a Deus durante estes dias a nossa sujeira interior. Deixemos que Ele nos limpe. Permitamos que o Cristo desça conosco às nossas trevas, para que Ele que é a luz ilumine todo o nosso interior. Quando aparecerem as seduções do mal, ou até mesmo quando aparecerem pensamentos que parecem ser bons, confrontemos tudo com a Palavra de Deus. Deixemos que a Palavra de Deus seja a medida de tudo e a luz que revela a realidade de todas as coisas, para que não sejamos iludidos e enredados pelo diabo.

Nesses dias tenhamos como certo que Deus nos olha. Mas, o olhar de Deus é sempre um olhar de ternura e de misericórdia. O Salmo 50 nos diz hoje: “Foi contra vós, só contra vós que eu pequei, e pratiquei o que é mau aos vossos olhos!” Fazemos o mal sob o olhar de Deus. Orígenes, nas suas homilias sobre o Êxodo, ao comentar este versículo do salmo, diz que os santos, mesmo se pecam, o fazem sob o olhar de Deus, e esta é justamente a condição que os permite imediatamente reconhecer o erro e dizer: “Pequei, Senhor, misericórdia!”. Tenhamos presente que Deus nos olha. Se cairmos em nossa caminhada quaresmal não façamos como Adão nem como Caim, não fujamos do olhar de Deus. Mas nos levantemos diante d’Ele e reconheçamos: “Pequei, Senhor, misericórdia!”. Não desistamos do caminho, apesar das nossas fraquezas. Mas tenhamos sempre a coragem de nos levantar e de caminhar ainda mais, para chegarmos juntos, com Cristo, à alegria da Santa Páscoa.

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06/03/2014 19:11 - Atualizado em 07/03/2014 17:09

1º Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Gn 2,7-9;3,1-7
Sl 50
2ª Leitura: Rm 5,12-19
Evangelho: Mt 4,1-11

Se bem que a vida do monge deva ser, em todo tempo, uma observância de Quaresma, como, porém, esta força é de poucos, por isso aconselhamos os monges a guardarem, com toda a pureza, a sua vida nesses dias de Quaresma e também a apagarem, nesses santos dias, todas as negligências dos outros tempos. E isso será feito dignamente, se nos preservamos de todos os vícios e nos entregamos à oração com lágrimas, à leitura, à compunção do coração e à abstinência. Acrescentemos, portanto, nesses dias, alguma coisa ao encargo habitual da nossa servidão: orações especiais, abstinência de comida e bebida; e assim ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para si; isto é: subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida, do sono, da conversa, da escurrilidade, e, na alegria do desejo espiritual, espere a Santa Páscoa.

Este trecho da Regra de São Bento é atualíssimo para nós que entramos neste tempo da Quaresma. São Bento afirma que toda a vida cristã deveria ser uma observância de Quaresma. Essa afirmação é muito interessante, porque nos faz perceber que aquilo o que observamos na Quaresma deve produzir fruto em todas as outras épocas do ano. Não se trata apenas de uma penitência momentânea, mas de uma penitência que nos cure para sermos livres e, assim, celebrarmos a Páscoa do Senhor. Mas, São Bento sabe que esta capacidade de observar sempre os próprios atos é de poucos e, por isso, nos convida a nestes dias de Quaresma guardarmos com toda pureza a nossa vida. São Bento nos convida a oferecermos “de espontânea vontade” com a “alegria do Espírito Santo” alguma coisa a mais a Deus nestes dias de Quaresma. O processo de conversão que iniciamos na Quaresma não pode ser forçado, nem triste. Devemos oferecer a Deus espontaneamente e com a alegria do Espírito Santo algo mais nestes dias, a fim de que a penitência que vamos realizar seja, para nós, um caminho de cura.

Existe um hino do Ofício Divino para a Quaresma que diz assim: “Agora é tempo favorável, divino dom da Providência, para curar o mundo enfermo com um remédio: a penitência.” Deus hoje nos dirige a sua Palavra e nos diz que este é o tempo favorável. A Quaresma é o tempo que Deus reserva para nos curar de maneira ainda mais intensa com um remédio: a penitência. A penitência não é castigo e, sim, cura. Cura das paixões da nossa alma, que turvam a nossa mente e a nossa visão e nos impedem de seguir livres o Deus verdadeiro.

Nestes dias de Quaresma nós queremos entrar no deserto com Cristo. A Palavra de Deus noz diz que o Espírito conduziu Jesus ao deserto para ser tentado pelo diabo. A Quaresma é uma imitação desse deserto de Cristo. É no deserto, “lugar sem palavra” , onde a vida parece impossível, que nós vamos aprender a viver da Palavra de Deus. Jesus vence as seduções do demônio pelo poder da Palavra de Deus e inaugura para nós um método espiritual para vencermos o maligno e suas seduções. São Bento, no prólogo da sua regra, diz que habitará na tenda do Senhor “aquele que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, reduzi-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo.” Aqui São Bento está se apropriando da imagem do Sl 136 (137), 7-9 que diz: “Recordai-vos, ó Senhor, contra os filhos de Edom, quando caiu Jerusalém, quando gritavam: ‘Arrasai-a até os próprios alicerces!’ Ó Babel devastadora, é feliz quem te pagar pelo mal que nos fizeste! É feliz quem, contra as pedras, esmagar os teus filhinhos!”. Aqui temos uma imagem sálmica bem forte. Trata-se de um salmo que possui versículos imprecatórios, que conjuram uma desgraça contra o inimigo pagão e infiel. Nós cristãos lemos esse salmo como São Bento à luz do Novo Testamento e da Páscoa de Cristo. Para São Bento, os “filhinhos da Babilônia” são os maus pensamentos, as sugestões diabólicas que devem ser quebradas, assim que nascem, de encontro a Cristo, que é a “rocha” evocada pelo salmo. A Quaresma é o tempo de seguirmos este evangelho do primeiro domingo. É o momento de entrarmos no deserto. O deserto é o lugar da provação, é a morada dos demônios, é o nosso campo de batalha, é onde vamos enfrentar as sugestões e seduções do mal alicerçados na Palavra de Deus. Mas o deserto também é o lugar onde Deus se manifesta, onde os anjos nos servem e é o caminho para a Jerusalém verdadeira. É no deserto que o Cristo vence a sedução da vanglória, de abrir-se a uma glória desse mundo e de abandonar a glória de Deus. É no deserto que nós vamos sair vitoriosos, como Cristo, sobre o pensamento diabólico da vanglória, que é o mais sutil de todos os pensamentos diabólicos. Nós poderíamos condensar as três tentações de Cristo numa única tentação: a tentação da vanglória. A vanglória consiste em buscar a glória deste mundo; o elogio dos homens. O diabo busca fazer com que Cristo ceda diante desta tentação: ou transformando as pedras em pães só para mostrar o seu poder, ou se atirando do precipício para mostrar que é Filho de Deus, ou cedendo à idolatria para conseguir uma grande riqueza. No deserto nós nos confrontamos com os pensamentos diabólicos e os vamos desmascarando. No deserto aprendemos a lutar, sobretudo, com o pensamento da vanglória; aprendemos no deserto a buscar a verdadeira glória, a glória que Deus tem reservada para nós, mas isso nos será revelado no próximo domingo.

Entramos no deserto com Cristo armados com a sua Palavra para vencermos as sugestões e as tentações do maligno. O pecado sempre se insinua aos homens em primeiro lugar no pensamento, como uma sugestão muito sutil. Vimos isso na primeira leitura. Foi assim que nossos primeiros pais pecaram. A serpente não os obriga ao pecado, mas os sugestiona, os faz pensar que contrariar a vontade de Deus seria melhor. Pela desobediência o homem atrai sobre si e sobre toda a humanidade o sofrimento e a morte. A segunda leitura nos fala justamente sobre isso: “pela desobediência de um só homem toda a humanidade foi estabelecida numa situação de pecado”. Às vezes as pessoas nos perguntam sobre a origem do mal e da morte. Nos perguntam o porquê de tantos sofrimentos. Aqui está hoje a resposta para nós. Estava nas mãos dos nossos primeiros pais no paraíso escolher a morte ou a vida; a obediência ou a desobediência. Deus no seu infinito amor criou o homem com livre arbítrio, podendo decidir entre o caminho da liberdade, escolhendo a Deus como seu Senhor, ou o caminho da escravidão, fazendo opção pelo pecado. O homem semeou na carne, como diz Paulo na Carta aos Gálatas, o homem escolheu o pecado, e por isso colheu a corrupção, colheu como fruto da sua escolha o sofrimento e a morte. A desobediência nos conduziu para a morte. Mas, existe uma boa nova para nós. Se a desobediência de um só homem trouxe a todos a morte, a obediência de um só trouxe para todos a vida verdadeira, uma vida a qual nós não tínhamos direito, a vida que Deus tem reservada para nós.

Como entrar no caminho da vida? Entramos no caminho da vida obedecendo. Assim como Cristo nos abriu o caminho para a vida pela sua obediência, também nós recebemos a vida que Cristo conquistou para nós obedecendo. E obedecer significa ouvir. Obedecer vem do latim obaudire. Precisamos ouvir a Deus. Como rezamos no Salmo 94: “Hoje se ouvirdes a voz de Deus, não endureçais os vossos corações.” Hoje a voz de Deus nos fala pela Palavra que ouvimos, não endureçamos os nossos corações. Ouçamos a voz de Deus que nos chama e sigamos o Cristo no seu deserto. Sejamos obedientes como Ele o foi e entremos confiantes de que venceremos as seduções do mal se estivermos firmados na Palavra de Deus. Sigamos a Cristo no seu deserto para entrarmos com Ele na Jerusalém Celeste. Mas, saibamos desde já que este é o caminho da Cruz. A obediência de Cristo o conduziu até a Cruz. Também lá nós chegaremos, nela subiremos, entraremos no mistério da morte, mas sairemos da morte para a vida vitoriosos com Cristo.

Sigamos hoje o que nos ensina o Evangelho. Peguemos as sugestões do mal, os maus pensamentos que nos advêm ao coração e os quebremos de encontro a Cristo. Confrontemos com a Palavra de Deus toda sugestão, todo pensamento que vem ao nosso coração.

A Quaresma é uma limpeza anual que fazemos no corpo e na alma. Abramos o nosso coração à Palavra de Deus, a fim de que ela nos ilumine. Uma boa maneira de começar uma limpeza é identificando o que está sujo, o que precisa ser limpo. Precisamos tomar contato com a nossa sujeira. O deserto da Quaresma nos proporciona esta experiência. Deixemos que a luz da Palavra de Deus penetre no mais íntimo do nosso coração. Olhemos, juntamente com Cristo, a nossa sujeira. Vamos juntos com Cristo descer às trevas do nosso coração. No nosso deserto interior existem também feras e demônios. Sozinhos, temos medo de enfrentá-los, mas a boa nova de hoje é que Cristo está conosco. Não estamos sozinhos no deserto. Está conosco o Cristo, é o Espírito quem nos conduz e do alto o Pai nos olha e nos acompanha com ternura como fez com o povo escolhido e com o Filho Unigênito. Deixemos que a Palavra de Deus nos purifique. Entreguemos a Deus durante estes dias a nossa sujeira interior. Deixemos que Ele nos limpe. Permitamos que o Cristo desça conosco às nossas trevas, para que Ele que é a luz ilumine todo o nosso interior. Quando aparecerem as seduções do mal, ou até mesmo quando aparecerem pensamentos que parecem ser bons, confrontemos tudo com a Palavra de Deus. Deixemos que a Palavra de Deus seja a medida de tudo e a luz que revela a realidade de todas as coisas, para que não sejamos iludidos e enredados pelo diabo.

Nesses dias tenhamos como certo que Deus nos olha. Mas, o olhar de Deus é sempre um olhar de ternura e de misericórdia. O Salmo 50 nos diz hoje: “Foi contra vós, só contra vós que eu pequei, e pratiquei o que é mau aos vossos olhos!” Fazemos o mal sob o olhar de Deus. Orígenes, nas suas homilias sobre o Êxodo, ao comentar este versículo do salmo, diz que os santos, mesmo se pecam, o fazem sob o olhar de Deus, e esta é justamente a condição que os permite imediatamente reconhecer o erro e dizer: “Pequei, Senhor, misericórdia!”. Tenhamos presente que Deus nos olha. Se cairmos em nossa caminhada quaresmal não façamos como Adão nem como Caim, não fujamos do olhar de Deus. Mas nos levantemos diante d’Ele e reconheçamos: “Pequei, Senhor, misericórdia!”. Não desistamos do caminho, apesar das nossas fraquezas. Mas tenhamos sempre a coragem de nos levantar e de caminhar ainda mais, para chegarmos juntos, com Cristo, à alegria da Santa Páscoa.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida