Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/09/2020

23 de Setembro de 2020

Mês da Bíblia 2020

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07/09/2020 17:06

Mês da Bíblia 2020 0

07/09/2020 17:06

“Abre a tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11)

Introdução

Em 1971 aconteceu uma feliz e inédita experiência, realizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte, fundamentada na Constituição Dogmática "Dei Verbum", sobre a Revelação Divina (18/11/1965): promover um maior espaço à leitura, ao estudo e à reflexão da Sagrada Escritura.

Assim, nascia o Mês da Bíblia, que logo foi assumido pela CNBB como proposta para toda a Igreja do Brasil. O mês de setembro foi escolhido por causa da memória de São Jerônimo (30/09). Neste ano, se comemoram os 1600 da sua morte.

Neste ano, o Mês da Bíblia convoca os fiéis a se deixarem animar e orientar pelo estudo do Livro de Deuteronômio, cujo lema é tirado de Dt 15,11: “Abre a tua mão para o teu irmão”. Esta frase pertence ao contexto sobre o ano sabático, momento em que aconteceria a remissão das dívidas, a fim de promover a equidade social (Dt 15,1-11).

Acredito que, como ponto de partida, seria oportuno lembrar o projeto social que subjaz ao livro de Deuteronômio: a justiça pautada no amor incondicional de Deus pelo seu povo, em particular pelo mais necessitado. A libertação da opressão do Egito e a aliança pactuada no Sinai/Horeb são, sem dúvida, os principais elementos motivadores de tudo o que se desenvolve no livro.

1)      Dados gerais sobre o livro de Deuteronômio
Este livro, em hebraico, é denominado ’elleh hadebarîm: “estas são as palavras”; advém das duas primeiras palavras. Já Deuteronômio advém do grego (τὸ δευτερονόμιον), em conformidade com a citação de Dt 17,18, e significa: “a cópia da lei”; “a segunda lei”; “a repetição da lei”.
O núcleo do livro encontra-se em Dt 12–26 que contém um conjunto de leis (“Código Deuteronômico”), a fim de orientar e salvaguardar a prática da justiça e do direito no meio do povo eleito que, pela narrativa, está prestes a entrar e a conquistar a terra de Canaã. Esse bloco pode ter tido origem nos santuários do Reino do Norte, durante o século IX-VIII aC, e, provavelmente, se inspirou e procurou atualizar o “Código da Aliança” (Ex 20,19–23,33).

Além disso, Dt 12–26 é aceito como o “livro descoberto” durante a restauração do templo de Jerusalém, em meio às reformas empreendidas pelo piedoso rei Josias (vale a pena ler 2Rs 22,3–23,27). Essa legislação também é considerada o ponto de partida do processo de elaboração do livro, por sábios cortesãos, até chegar à sua forma final no século V aC, em Judá, durante a dominação persa (538–333 aC). Nesse sentido, o livro de Dt tem um histórico de quase cinco séculos.

Entremeando seções históricas com seções exortativas, no início e no fim do livro, Dt 1–11 e 27–34, em seus diferentes estágios redacionais, atestaa aceitação do corpus legislativo de Dt 12–26, e a atuação profético-literária da corrente “deuteronômico-deuteronomista” (dtn-dtr), formada por cortesãos, sábios, profetas e escribas-teólogos de Judá-Jerusalém, pregadores itinerantes que estavam ligados à corte do rei Ezequias (716-687 aC), mas, principalmente, à corte do rei Josias (640-609 aC).

Com base nos critérios de forma e conteúdo, o livro pode ser estruturado em cinco partes: a) Primeiro discurso de Moisés, que recapitula elementos importantes do período do deserto (Dt 1,1–4,43); b) Segundo discurso de Moisés que reflete sobre a aliança estabelecida no Horeb (Dt 4,44–28,68); c) Terceiro discurso de Moisés sobre a aliança renovada em Moab (Dt 28,69–30,20); d) Últimas disposições e ações de Moisés antes de sua morte (Dt 31,1–33,29); e) Relato da morte de Moisés (Dt 34,1-12). Fórmulas de abertura marcam o início de cada parte (Dt 1,1; 4,44; 28,69; 33,1).

2)      O tema da unicidade
Do ponto de vista teológico, alguns temas se destacam: a aliança de Deus com o povo; a eleição gratuita; o dom da terra de Canaã; o dom da Lei; e a centralidade do lugar legítimo de culto, que o ouvinte-leitor entenderá, mais tarde, que se trata de uma referência ao Templo de Jerusalém. Estes temas aparecem entrelaçados em todo o escrito e são importantes para a compreensão dos textos.

O Senhor é o Deus único de Israel, povo eleito. A aliança exige que o Senhor, seu Deus, seja amado de todo coração (Dt 6,4-5). Amar a Deus significa ser fiel à aliança (Dt 7,9; 11,1). Esta fidelidade se expressa no amor, na obediência, e no serviço (pense na vida e na pregação de Jesus Cristo). O amor que o Senhor pede ao povo requer uma piedade filial e uma obediência reverencial.

A consciência disso é a eleição de Israel como povo único e se fundamenta na experiência histórica de sua libertação do Egito. A eleição não se deve a uma conquista humana, mas se deu por pura graça e favor divino. Ela é fruto da fidelidade do Senhor às promessas feitas aos pais (patriarcas e a geração que saiu do Egito). Assim, a eleição é um dom único e totalmente gratuito.

Ao lado da eleição, o dom da terra vem consolidar as promessas e é o dom mais precioso para o “novo Israel” que está prestes a entrar e a conquistar Canaã. Esta é a “terra boa”, terra em que correm leite e mel (Dt 8-7-10), que representa o término do processo libertador iniciado no Egito.
A entrada na terra acarreta, porém, o cumprimento da Lei. Para ser fiel ao Senhor é preciso respeitar e cumprir as suas leis, seus estatutos e normas. É a condição necessária para o povo receber as bênçãos (Dt 28,1-2). Quem não obedece e não põe em prática as leis se torna alvo de maldições (Dt 28,15). Um particular dessa legislação é a centralização do culto, pois o Senhor é que indicará o lugar em que colocará o seu Nome e onde aceitará ser cultuado (Dt 12,13.21).

Assim, a unidade do livro aparece na dependência da unicidade das relações que se estabelecem entre o Deus Uno com um único povo que deve amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração, com toda a sua vida e com toda a sua força (Dt 6,4-5), e que é chamado a viver segundo uma única Lei justa em uma terra boa e fértil, com um único santuário dedicado ao Senhor.

3)      Sugestões para dinamizar o Mês da Bíblia
Para este ano, totalmente atípico devido à pandemia, sugiro o seguinte percurso:
a) Proponho a leitura pessoal e integral do livro de Deuteronômio, percebendo como a figura do grande líder Moisés é apresentada, bem como a sua dedicação em instruir o “novo Israel”, nascido no deserto e que está prestes a entrar e a tomar posse da terra de Canaã.

b) Seria oportuno adquiriruma introdução geral ao Livro de Deuteronômio ou um subsídio preparado para esse mês. As edições CNBB, Paulinas e Paulus sempre oferecem bons materiais.

c) Estude, com mais profundidade, alguns textos, fazendo atenção às suas temáticas (deixo como sugestão: Dt 4,9-20; 5,1-22; 6,1-14; 7,7-16; 15,1-11; 16,18-20; 26,1-11; 30,11-14; 31,9-13; 34,1-12), seguindo um critério simples, baseado em quatro perguntas: Que diz o texto? Que propostas o texto me faz? Que o texto me faz dizer a Deus em oração? Que decisões o texto me leva a tomar?

Considerações finais
O Livro de Deuteronômio contém as palavras que Moisés dirigiu ao povo (Dt 1,1), no final dos quarenta anos após a saída do Egito (Dt 1,3), no mesmo dia em que se deu a sua morte (Dt 32,48; 34,5). Assim, a morte de Moisés concluiu a sua missão como: libertador do Egito; guia na marcha pelo deserto rumo à terra de Canaã; legislador; juiz; responsável pelo nascimento do povo e pela religião Jahwista; e mediador da aliança e da sua renovação nas estepes de Moab (Dt 28,69–30,20).

Portanto, esse livro, ao mesmo tempo em que resgata o passado, mostra, no presente da narrativa, o término do tempo do deserto e profetiza o início do novo tempo na terra de Canaã. É o tempo da transformação do povo, pautada na eleição e na experiência do amor de Deus que cria, liberta, conduz e recria, dando novas condições de vida pela promoção da justiça social.

Que as lições sociais do Livro de Deuteronômio nos ajudem a buscar e a promover o bem comum, testemunhando o sentido e o valor de sermos um povo consagrado ao Senhor (Dt 14,2).

Padre Leonardo Agostini Fernandes
Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Professor de sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá/RJ



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Mês da Bíblia 2020

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“Abre a tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11)

Introdução

Em 1971 aconteceu uma feliz e inédita experiência, realizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte, fundamentada na Constituição Dogmática "Dei Verbum", sobre a Revelação Divina (18/11/1965): promover um maior espaço à leitura, ao estudo e à reflexão da Sagrada Escritura.

Assim, nascia o Mês da Bíblia, que logo foi assumido pela CNBB como proposta para toda a Igreja do Brasil. O mês de setembro foi escolhido por causa da memória de São Jerônimo (30/09). Neste ano, se comemoram os 1600 da sua morte.

Neste ano, o Mês da Bíblia convoca os fiéis a se deixarem animar e orientar pelo estudo do Livro de Deuteronômio, cujo lema é tirado de Dt 15,11: “Abre a tua mão para o teu irmão”. Esta frase pertence ao contexto sobre o ano sabático, momento em que aconteceria a remissão das dívidas, a fim de promover a equidade social (Dt 15,1-11).

Acredito que, como ponto de partida, seria oportuno lembrar o projeto social que subjaz ao livro de Deuteronômio: a justiça pautada no amor incondicional de Deus pelo seu povo, em particular pelo mais necessitado. A libertação da opressão do Egito e a aliança pactuada no Sinai/Horeb são, sem dúvida, os principais elementos motivadores de tudo o que se desenvolve no livro.

1)      Dados gerais sobre o livro de Deuteronômio
Este livro, em hebraico, é denominado ’elleh hadebarîm: “estas são as palavras”; advém das duas primeiras palavras. Já Deuteronômio advém do grego (τὸ δευτερονόμιον), em conformidade com a citação de Dt 17,18, e significa: “a cópia da lei”; “a segunda lei”; “a repetição da lei”.
O núcleo do livro encontra-se em Dt 12–26 que contém um conjunto de leis (“Código Deuteronômico”), a fim de orientar e salvaguardar a prática da justiça e do direito no meio do povo eleito que, pela narrativa, está prestes a entrar e a conquistar a terra de Canaã. Esse bloco pode ter tido origem nos santuários do Reino do Norte, durante o século IX-VIII aC, e, provavelmente, se inspirou e procurou atualizar o “Código da Aliança” (Ex 20,19–23,33).

Além disso, Dt 12–26 é aceito como o “livro descoberto” durante a restauração do templo de Jerusalém, em meio às reformas empreendidas pelo piedoso rei Josias (vale a pena ler 2Rs 22,3–23,27). Essa legislação também é considerada o ponto de partida do processo de elaboração do livro, por sábios cortesãos, até chegar à sua forma final no século V aC, em Judá, durante a dominação persa (538–333 aC). Nesse sentido, o livro de Dt tem um histórico de quase cinco séculos.

Entremeando seções históricas com seções exortativas, no início e no fim do livro, Dt 1–11 e 27–34, em seus diferentes estágios redacionais, atestaa aceitação do corpus legislativo de Dt 12–26, e a atuação profético-literária da corrente “deuteronômico-deuteronomista” (dtn-dtr), formada por cortesãos, sábios, profetas e escribas-teólogos de Judá-Jerusalém, pregadores itinerantes que estavam ligados à corte do rei Ezequias (716-687 aC), mas, principalmente, à corte do rei Josias (640-609 aC).

Com base nos critérios de forma e conteúdo, o livro pode ser estruturado em cinco partes: a) Primeiro discurso de Moisés, que recapitula elementos importantes do período do deserto (Dt 1,1–4,43); b) Segundo discurso de Moisés que reflete sobre a aliança estabelecida no Horeb (Dt 4,44–28,68); c) Terceiro discurso de Moisés sobre a aliança renovada em Moab (Dt 28,69–30,20); d) Últimas disposições e ações de Moisés antes de sua morte (Dt 31,1–33,29); e) Relato da morte de Moisés (Dt 34,1-12). Fórmulas de abertura marcam o início de cada parte (Dt 1,1; 4,44; 28,69; 33,1).

2)      O tema da unicidade
Do ponto de vista teológico, alguns temas se destacam: a aliança de Deus com o povo; a eleição gratuita; o dom da terra de Canaã; o dom da Lei; e a centralidade do lugar legítimo de culto, que o ouvinte-leitor entenderá, mais tarde, que se trata de uma referência ao Templo de Jerusalém. Estes temas aparecem entrelaçados em todo o escrito e são importantes para a compreensão dos textos.

O Senhor é o Deus único de Israel, povo eleito. A aliança exige que o Senhor, seu Deus, seja amado de todo coração (Dt 6,4-5). Amar a Deus significa ser fiel à aliança (Dt 7,9; 11,1). Esta fidelidade se expressa no amor, na obediência, e no serviço (pense na vida e na pregação de Jesus Cristo). O amor que o Senhor pede ao povo requer uma piedade filial e uma obediência reverencial.

A consciência disso é a eleição de Israel como povo único e se fundamenta na experiência histórica de sua libertação do Egito. A eleição não se deve a uma conquista humana, mas se deu por pura graça e favor divino. Ela é fruto da fidelidade do Senhor às promessas feitas aos pais (patriarcas e a geração que saiu do Egito). Assim, a eleição é um dom único e totalmente gratuito.

Ao lado da eleição, o dom da terra vem consolidar as promessas e é o dom mais precioso para o “novo Israel” que está prestes a entrar e a conquistar Canaã. Esta é a “terra boa”, terra em que correm leite e mel (Dt 8-7-10), que representa o término do processo libertador iniciado no Egito.
A entrada na terra acarreta, porém, o cumprimento da Lei. Para ser fiel ao Senhor é preciso respeitar e cumprir as suas leis, seus estatutos e normas. É a condição necessária para o povo receber as bênçãos (Dt 28,1-2). Quem não obedece e não põe em prática as leis se torna alvo de maldições (Dt 28,15). Um particular dessa legislação é a centralização do culto, pois o Senhor é que indicará o lugar em que colocará o seu Nome e onde aceitará ser cultuado (Dt 12,13.21).

Assim, a unidade do livro aparece na dependência da unicidade das relações que se estabelecem entre o Deus Uno com um único povo que deve amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração, com toda a sua vida e com toda a sua força (Dt 6,4-5), e que é chamado a viver segundo uma única Lei justa em uma terra boa e fértil, com um único santuário dedicado ao Senhor.

3)      Sugestões para dinamizar o Mês da Bíblia
Para este ano, totalmente atípico devido à pandemia, sugiro o seguinte percurso:
a) Proponho a leitura pessoal e integral do livro de Deuteronômio, percebendo como a figura do grande líder Moisés é apresentada, bem como a sua dedicação em instruir o “novo Israel”, nascido no deserto e que está prestes a entrar e a tomar posse da terra de Canaã.

b) Seria oportuno adquiriruma introdução geral ao Livro de Deuteronômio ou um subsídio preparado para esse mês. As edições CNBB, Paulinas e Paulus sempre oferecem bons materiais.

c) Estude, com mais profundidade, alguns textos, fazendo atenção às suas temáticas (deixo como sugestão: Dt 4,9-20; 5,1-22; 6,1-14; 7,7-16; 15,1-11; 16,18-20; 26,1-11; 30,11-14; 31,9-13; 34,1-12), seguindo um critério simples, baseado em quatro perguntas: Que diz o texto? Que propostas o texto me faz? Que o texto me faz dizer a Deus em oração? Que decisões o texto me leva a tomar?

Considerações finais
O Livro de Deuteronômio contém as palavras que Moisés dirigiu ao povo (Dt 1,1), no final dos quarenta anos após a saída do Egito (Dt 1,3), no mesmo dia em que se deu a sua morte (Dt 32,48; 34,5). Assim, a morte de Moisés concluiu a sua missão como: libertador do Egito; guia na marcha pelo deserto rumo à terra de Canaã; legislador; juiz; responsável pelo nascimento do povo e pela religião Jahwista; e mediador da aliança e da sua renovação nas estepes de Moab (Dt 28,69–30,20).

Portanto, esse livro, ao mesmo tempo em que resgata o passado, mostra, no presente da narrativa, o término do tempo do deserto e profetiza o início do novo tempo na terra de Canaã. É o tempo da transformação do povo, pautada na eleição e na experiência do amor de Deus que cria, liberta, conduz e recria, dando novas condições de vida pela promoção da justiça social.

Que as lições sociais do Livro de Deuteronômio nos ajudem a buscar e a promover o bem comum, testemunhando o sentido e o valor de sermos um povo consagrado ao Senhor (Dt 14,2).

Padre Leonardo Agostini Fernandes
Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Professor de sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá/RJ